segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Se eu quiser falar com Deus

te escrevo já depois de meio-dia, quando o sol bate tão forte que não sei se o que vejo é realmente o que há para ser visto ou alucinação 
te escrevo do meio da rua, num bloco de anotações que recebi via correio, de um laboratório farmacêutico 
o bloco não é pautado e as folhas foram muito mal cortadas e porcamente presas juntas em espiral
a palavra "espiral" me lembra o tempo que passei na catequese, já que o livro que usávamos se chamava "a espiral da vida" e eu ficava sem entender toda vez que acompanhava minha mãe na copiadora da faculdade, na época eu deveria ter uns oito anos, e eu não entendia porque toda vez que eu acompanhava ela na copiadora da faculdade o cara perguntava
- quer que coloque espiral?
e eu ficava sem entender porque aquele cara queria colocar a espiral da vida nos livros e me perguntava se os livros eram registros de fato da vida e que só retomavam o viver depois da espiral
como umas vidas na sala de espera só esperando um cara perguntar pra alguém se
- quer que coloque espiral?
para voltar a viver do jeito que eu e minha mãe vivíamos por exemplo
eu também não entendia porque o cara perguntava pra minha mãe quase sempre e só às vezes para as outras pessoas e eu ficava sem saber porque aquele cara podia perguntar isso e porque cabia a ele cuidar daquilo tudo
eu não sabia se aquele cara era Deus ou se Deus era minha mãe ou as pessoas que de vez em quando também podiam escolher colocar a espiral
e um dia eu perguntei pra minha mãe porque o céu ficava num canto tão sujo daquele bloco da faculdade e bem na frente de uma lanchonete que vendia o melhor enroladinho frito de salsicha e que cheirava mal
e minha mãe fez que riu só para não demonstrar para mim que não estava rindo, como ela sempre fazia, do jeito que escutei um dia meu pai dizer a ela
- não passe suas emoções para o garoto
e naquele dia, eu fiquei sem resposta e nunca mais perguntei
continuei achando aquele céu muito estranho e o fato de meu pai pedir a mamãe para não passar as emoções para mim deu ainda mais sentido a tudo
Deus era ela, claro, por isso ia na copiadora todo dia e por isso não podia me passar as emoções, porque Deus, eu descobri bem cedo, que cuidava e guardava a vida de todo mundo, e mamãe, que era Deus, não podia contar segredo dos outros
porque era feio, isso meu avô quem disse, quando, ainda mais novo, contei para a vovó que o vi passando a mão na bunda da Dona Maria
Dona Maria foi uma moça que trabalhou lá em casa e que a gente dizia que cuidava de mim, da casa e do almoço e que, por anos, fiquei sem entender porque deveria cuidar de mim, mas vivia rezando ajoelhada com o vovô sentado dando benção segurando nos ombros dela
depois da espiral as coisas ficaram mais claras na minha cabeça de menino, eu dizia nas aulas de catequese que o céu de verdade era lá em casa e por isso tanta gente vinha, de tempos em tempos, para eu dizer que cuidava de mim, da casa e fazia almoço
na verdade, para estarem logo sempre ajoelhadas com as mãos de vovô nos ombros quando a vovó saía para ir a loja de departamentos ou ao mercado
depois de mais idade e algumas Marias e Madalenas eu desisti de acreditar no céu
e agora não sei o que me leva a te escrever depois de meio-dia, no meio da rua, quando o sol bate tão forte que meus olhos ardem e a pele queima e a saudade bate e eu não me satisfaço e peço para bater de novo e não parar e eu te sinto próxima, mesmo sabendo que depois de terminar essa frase eu vou jogar essa folha no lixo
aliás, dane-se

o bloco de anotações inteiro

Um comentário:

Moacir Willmondes disse...

Belíssima expressão...