terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Mentira Para Dar Pé.
Foi falando de amor que fez com que eles chorassem. Tinha aquela presença de homem derrubado pela vida, um cavanhaque mal-feito e cílios dourados. Em momento algum tornou o amor que partilhava físico. Não citou as pernas torneadas que a ela cabiam, nem a forma como seu corpo saltava por seu vestido florido. Limitou-se ao modo como ela negava um abraço antes de dormirem cansados, e ao modo como ele acariciava o corpo dela apenas flutuando sua mão sobre o ar e satisfazia-se. De pé, em frente a todas aquelas pessoas que, desinteressadas, olhavam para ele quando lembravam-se, contou a estrada que havia tomado para estar ali. Falou de todas as drogas, especialmente daquela que escorria dela. Esqueceu-se de apresentar, mas ali era alguém apenas, sem nome algum. Estava com sua ferida parcialmente aberta, e dela escapava um pouco de sangue. E foi falando desse amor ensanguentado que fez com que eles chorassem. Demorou até que conseguisse falar o suficiente para olhassem-no nos olhos, e quando conseguiu, emprestou suas lágrimas para eles. Aqueles eram seus velhos amigos, aos quais havia abandonado. Ela não gostava deles, nunca gostaria, nunca gostou de ninguém. Foi olhando nos olhos de quem havia abandonado que, envergonhado, disse: "Poderia perder a todos vocês, duas vezes por dia, setecentos e cinco por mês, podia matá-los com minhas próprias mãos. Mas nada faria sangrar-me tanto, e agora eu só preciso que escorra...".
Fora.
"Que morram todos os amores, mas nunca a poesia", disse embriagado de tristeza. Abandonado pela musa, enfraquecido pelos anos, esquecido pelos amigos, estava ali, sentado no balcão do mesmo bar no qual jurou nunca deixar-se levar dessa forma. Não eram as perdas que, latentes, doíam-lhe. Era a falta de tinta na caneta recém adquirida, e o branco cansativo e insistente das folhas de seu caderno. Fora sempre poeta, nunca apaixonado. Precisava sugá-las, não amá-las eternamente e dividir-se em almoços dominicais e decoração de berços. Fora poeta e nunca soube ser nada além. Fora artista plástico, fotógrafo, amante e gourmet, mas respirava a poesia do oxigênio alheio. Mas agora encontrava-se ali, asmático. Sua taça de vinho tinto, marcada pelo batom de uma moça que encarava-o do outro lado do bar, havia tornado-se apenas um contentamento. Tinha perdido as palavras e a si. E agora, o homem poeta que fora, era apenas um simples homem, embriagado, perdido, descascado.
Vulnerant Omnes, Ultima Necat.
A cor de sua barba remetia ao degradê cinzento de uma tarde de chuva. Havia envelhecido precocemente. E morrido há tempos atrás. No pulso esquerdo, exibia um relógio de ouro branco. O brasão da pulseira denunciava sua origem, vinha da Europa, feito à mão por algum prisioneiro de guerra. Abaixo do brasão, via-se um pequeno escrito em latim, "Vulnerant Omnes, Ultima Necat". Pouco entendia de sua língua natal, o castelhano, mas sabia do peso e do significado de cada uma daquelas palavras em relevo. "Todas ferem, a última mata", e foi assim que morreu. Já tão ferido por diversos passados que escondia sob o terno feito à medida, morreu ao último deles. Uma bela moça, uma bela rapariga, portuguesa. Conheceu-a primeiro em sonhos infantis, para depois esbarrar seu caminho no dela em um saguão de aeroporto. Trocaram algumas palavras, até mesmo suas próprias, em uma tentativa pouco eficiente de comunicarem-se. Acharam algo em comum, a capacidade de entenderem-se em silêncio e gemidos. Atraíram-se pela dificuldade de verbalizarem-se. Não podiam definir-se, tampouco analisarem-se, ficavam apenas a trocar olhares e carícias. Na ausência de palavras, ele acreditou que não pudesse iludir-se. "Se não falas, não sinto", pensou, esparramado na cama, enquanto puxava o corpo dela até o dele. O que não percebeu, é que a inexistência de troca de palavras, não impedia a existência das palavras que ele tanto quis e pensou em falar. Entendiam-se tanto sem precisar de conjugações que, quando ela soube arriscar as primeiras palavras em castelhano, riscou-o de seu vocabulário. Estava farta de conversarem na linguagem corporal e portanto, resolveu partir. Deixando-o partido. O único traço dela que restou foi o tal relógio, com o qual presenteou-lhe na primeira vinda para sua vida. Aquele relógio contava as horas desde então. E naqueles escritos, em uma língua sobre a qual nenhum dos dois tinha amplo conhecimento, estava explicado exatamente o que havia acontecido, "Cada hora fere a nossa vida até que a derradeira a roube".
A Segunda.
Poderia chamá-la de primeira, e também de efêmera. Era um som contínuo, de timbres que oscilavam. Ia e voltava, escondendo-se na sombra. Havia algo que atraía-nos e repelia-nos na mesma proporção. Essa eu não deixei entrar, quis que ficasse na porta, controlando a entrada e a saída. Vez em quando, sentia-me só e aparecia na janela, e sem que víssemos, alguém passava sorrateiro pela porta, e puxava-me pela cintura. Indignada, sentava-se no gramado, trocava sentimentos com alguém que por ali passasse, mas logo voltava. Ela sempre fora o porto, que de tão seguro, seguramos tanto que soltou-se.
A Primeira.
Tinha, no lugar dos olhos, um par de buracos negros. E a tênue linha de seus lábios era metáfora do que separa o amor do ódio. Primeiro amor, ou primeira lição de reciprocidade. Quando a conheci, parecia mais miúda do que é hoje. Grandeza nunca aplicou-se a ela, mas ainda assim meu amor foi maior que seu corpo. Havia uma pureza quase estúpida nas palavras que trocávamos. Substituída depois por um rancor primitivo. Lembro-me do toque de nossas mãos, aveludadas ainda. Lembro-me de acreditar, de forma deveras juvenil, na eternidade do pouco espaço entre nossos rostos. Vi esse espaço aumentar, e o sentimento tornar-se desprezível. Vimos várias chances de regressos e retornos, mas deixamos que ficasse, da forma como tinha ido embora. Havíamos acenado, vergonhosamente, um primeiro cumprimento. Mas dispensamos um último.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Calle.
Quando desembarquei em Buenos Aires pela primeira vez - nesta vida -, deparei-me com um céu cinzento. Achei, primeiro, que minha visão estivesse corrompida pela fumaça de meus pulmões. Achei, segundo, que deveria parar de fumar. E entre achismos e nuvens tristonhas, acendi meu primeiro cigarro em território estranho. O céu dizia-me que já havia passado das seis da tarde, mas o relógio entregava o erro, duas horas e alguns quebrados. Carregava uma mochila nas costas, e nela, uma muda de roupas para entregar-me a vida. Resolvi sair a desvendar o cinzento preso ao chão. Centenas de edifícios, jovialmente envelhecidos, que sussurravam passados em meus ouvidos. Ao entardecer, sentei-me na pequena escada do Cementerio de La Recoleta para familiarizar-me com as palavras que escapavam das línguas que desconhecia. Uma língua despertou-me a atenção, e sequer palavras deixou escapar. Mas familiarizei-me com ela ainda assim. Assisti-a suavizar a secura dos lábios que guardavam-na, e esticar-se um pouco para alcançar o canudo disperso em seu copo plástico. Quando desembarquei em Buenos Aires pela primeira vez - nesta vida -, fui com a coragem de abandonar a poesia que cabia a mim enxergar nos outros. Mas chegando lá, percebi que talvez, a poesia tivesse sim aqui ficado. Mas na muda de roupas que levei comigo, ainda restava uma mancha insistente de solidão.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Falso Poeta.
Encondi-me dentro de tuas olheiras, e evitei-me no teu cansaço. Olhava-me torto, quase que desconfiado. Tossia escassas palavras, e evitava-me no silêncio de um beijo mal dado. Sorria com a mesma frequência em que chegavam os invernos. E pausava-me as batidas a cada gota de chuva que caía. Despreza-me? Pois bem. Desmereça o que nunca pôde ser, e que foi a ti liberto. Então vá, vá e pise em teus próprios calos. Porque se tu não fostes capaz de fazer-me feliz, nunca terás como fazer-me triste.
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