segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os Senti(n)dos Muito.

Quantos.
Tantos.
Tatos.
Os fatos.
Olfatos.
Ouviram.
Ouvimos?
Vimos.
Enxergamos.
Negamos.
Agora,
anestesiados,
congestionados,
vendados,
admitimos.
Quantos
tantos
(de nós)
fomos,
tarde demais.

Fui?

Ela foi protagonista da sua vida. Tapete vermelho e tudo mais. Ela foi as quatro estações do ano, que só ele pôde notar. Ela foi abraço e descaso. Foi um caso de polícia. Ele foi louco. Ela foi sã. Ele foi poeta. Ela foi cega. Ele foi músico. Ela foi surda. Ela foi embora. Ele ficou. E eu, quem fui?

domingo, 8 de novembro de 2009

Sistema Digestório.

Na boca, um gosto amargo. Gosto de boca com boca. Gosto de acidente inevitável. Somado ao café frio. Ao cigarro encontrado numa caixa com coisas do passado. Nas costas, uma tatuagem. Com suas cores desbotadas. Com sua forma deformada. De peito apertado, de cabeça vazia. Com mais cara que coragem. Tão minuciosamente despedaçado. Cheio das marcas, dos mais variados remetentes. De nome grande, de corpo pequeno. Maxilar forte, descontando seus poucos músculos. Conhecedor de línguas e culturas. Degustando o gosto amargo da vida, e das vidas que tinha provado. Acendendo um cigarro, para apagar umas lembranças. Queimando as cinzas, para queimar as cartas. Farto do passado. Esfomeado de futuro. Deglutindo quem foi, para depois, excretar quem pretende ser. Na boca, um gosto amargo, da mastigação de si que havia faltado.

Sentidos.

Das tantas vezes que terminaram. Das tantas outras que voltaram. Encontravam-se sempre debaixo do mesmo céu de suas bocas. E abraçavam-se. E aninhavam-se. E embolavam-se. E amavam-se. E odiavam-se. E despediam-se. E reecontravam-se. E seguravam as mãos. E seguravam os pés. E seguravam o choro. E um seguia para um lado. E um seguia para o outro. E um olhava para trás. E um olhava pouco depois. E davam a volta na rua. E davam voltas em seus mundos. E a calçada terminava no mesmo lugar. E entreolhavam-se. E entre olhares viam-se. E entre vias amavam-se. E o trânsito parava. E a chuva caía. E a música tocava. E tocavam os sinos. E tocavam os corpos. E tocavam as almas. Das tantas vezes que voltaram. Das tantas outras que terminaram. Encontravam-se sempre debaixo do mesmo céu de Brasília. E estranhavam-se. E reconheciam-se. E conheciam-se. E apresentavam-se. E despediam-se. E um seguia para um lado. E um seguia para o outro. E um olhava para trás. E um já estava olhando. E então voltavam. E encostavam-se. E decoravam-se. E de cor sabiam,
a cor
o gosto
o cheiro,
e de tato, o tanto que é triste estar só.

Mundo.

Começa quando um olho vê um corpo.
Quando um corpo vê o outro.
O mundo fica pequeno.
Fácil de conhecer.
Mundo do eu e você.
Começa quando um olho encosta no outro.
Ambos fechados.
Quando um corpo encosta no outro.
Ambos se abrem.
O mundo fica grande.
Mundo do eu, você e o resto.
Começa quando um olho enxerga o outro.
Ambos abertos.
Começa quando um olho enxerga um corpo.
Ambos se fecham.
O mundo fica pequeno.
Mundo em que não cabe
mais eu e você.
Termina quando o corpo fica maior que o olho.
E um olho fica menor que o outro.
O mundo fica minúsculo.
Mundo em que nunca coube
nem eu, nem muito menos você.

Foda.

Você sempre roubou-me sorrisos, mas eu nunca consegui fazer-te feliz, nem por um instante, nem por um segundo. Quando eu via-te apontar na esquina meu corpo dava festa, quando você via-me fazendo festa para você, vestia-se para seu próprio enterro. Segurava sua mão por jurar não precisar de mais nada, e embriagado, você confessava-me estar segurando a minha só para que não caísse. Se fosses cair, deixava que levasse-me junto. Fui afogando-me com você. Em você. Você era tão triste. Auto-destrutivo. Levava-me sempre para passear, eu, você e seus demônios internos. Vivia em guerra consigo mesmo. Achava que era artista, achava que isso dava-te o direito de agir assim. Tão distante, tão impenetrável, um dos intocáveis. Queria minha infelicidade para fazer dela literatura. Queria meu corpo eriçado para fazer dele esculturas. Precisava de mim para exibir-se para o mundo. Seu talento em forma de mulher. Sua mulher retratada, ao lado dos grandes, exposta, admirada, criticada. Sua mulher realizada, ao lado da merda, omitida, desprezada, criticada. Sempre quis falar-te a merda que és. Mas o fôlego que impediu-me de ter, impediu-me até então. Fez-me fumar, fez-me beber, fez-me injetar doses lascisvas de você. Quis tanto que amasse-me, quis desde a primeira vez em que o vi, sem poder identificá-lo. Desde quando era, para mim, apenas um ser corpulento chamando atenção na madrugada escura. Quis que amasse-me na cama, enquanto estuprava-me a alma. Molestou-me o caráter. Gozou nos meus escrúpulos. Engravidou-me de ódio. Quando aprontei-me para parí-lo em sua cara, deu-me as costas, pois outra estava dando para você. Foda-a. Coma-a. Sugue-a. Como fez comigo. Lembra-se das três palavras? As que gritei enquanto você puxava-me gemidos. Vá se foder.

Dias de Chuva.

Talvez se fossem fluentes em francês, aquele momento tornasse-se mais poético do que triste. O céu derramava gotas frias de chuva. Os olhos dela derramavam gotas quentes de choro. Ele não sabia colocar em palavras, não sabia explicar porque seus dedos não entrelaçavam mais com os dela. Não sabia como dizer-lhe que já não preenchia mais seus sonhos, que suas noites haviam tornado-se perturbadoras e agitadas, que antes acordava cheio de amor, e agora acordava suado e exausto. Ela dispôs-se a escutar seu silêncio, uma explicação covarde. Não mais escutava, ao fundo, as notas de uma valsa, agora só escutava os trovões. O para sempre estava sendo prorrogado para mais tarde. Consolou-se lembrando dos vários sorrisos que já havia dado a ele. Agora dava fúria no formato de raios.
- Amamos menos na chuva.

- Eu faço o céu abrir.

- Deixa chover.

- Já não está chovendo aqui.

- Está chovendo em mim.