sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Café da Manhã.
Passaria para visitar-te de manhã cedo. Sentaríamos no balcão da padaria, eu pediria um pingado, e você um suco de laranja natural. Você olharia-me nos olhos, puxaria-me para perto, riria quando minha cadeira cambaleasse, lamberia os lábios, respiraria fundo e diria que amava-me. Eu diria que amava-te mais. Tu olharia-me com aquela cara de quem não entendia como, e então eu diria-te os porquês. Tu acrescentaria os portantos, e por pouco não deixaria escapar os entretantos. Eu queimaria minha língua com o pingado, tu dirias que o acontecido só se dera por eu ser tão boba. Jogaria em ti a culpa de minha bobeira. Tu olharia-me com aquela cara de quem não entendia como, e então eu diria-te quando. Tu pediria pela data, mas minha memória mostraria-se fraca. Teu suco viria com gelo, e então eu exaltaria-me como se deixassem-te morrer na maca do hospital. Tu dirias não ter visto problema, e passaria a mão por minha perna. Eu então acalmaria-me, beijaria teus lábios, que já molhados narrariam teu amor por mim. Eu olharia-te com aquela cara de quem não entendia como, faltariam-te os porquês. Diria-te os portantos, os para quê, e o para sempre.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Estações.
Poderíamos ter seguido, mas preferimos sentar-nos para o tempo. Fizemos sala para a vida. Fizemos quarto para o amor. Montamos uma casa, um jardim, um quebra-cabeça. Montamos um ao outro. Esperamos a Primavera, ela veio. Passeamos com o verão. Permanecemos calados junto ao Outono. Escondemo-nos do Inverno que nos encontrou. Foi quando te levantastes e fiquei perplexa. Despediu-se da vida. Deu às costas para o amor. Demolimos a casa, fizemos do jardim um cemitério, perdemos as peças. Demolimos um ao outro. Esperamos as estações, não vieram. Ficamos na mesma estação indefinida. O trem chegou. Você partiu. E partiu-nos em cada pedaço que reescrevo aqui.
http://apaixonar-seasos.blogspot.com/
Despedi-me sim. Apertei-lhe a mão e o peito. Incomodou-se sim. Acomodou o incômodo até tornar-se imperceptível. Parti pela janela, pulei. Fui notada, louvada, levada para nunca mais e nunca menos. Não sentes pois nunca sentiu. Por meio desta, tento lembrar-te, tendo fazer-te acordar. No entanto, não consigo. Fui apenas uma miragem, cujo frescor e o vento, esqueceram-te de avisar, nunca existiu, nem nunca existirá.
Do blog: http://apaixonar-seasos.blogspot.com/
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Defunto.
Assustei-me. Assustei-me quando enxerguei-te de pé. Parecia uma linha perpendincular ao horizonte. Quando foi que tornou-se tão magro? Assustei-me ainda mais quando enxerguei-te de perto. Nem uma máscara esconderia os buracos abaixo de teus olhos. Quando foi que tornou-se tão mórbido? Desde que lembro-me - e minha memória, sabes bem, nunca foi pouca -, seu corpo escandalizava em carne e vida. Diga-me, o que aconteceu? Caístes de um prédio ou caístes em si? O que mostras agora por fora, parece-me exatamente o que vi quando entrei um pouco em ti. Esquelético, ossos, só ossos, nada que batesse, nada que pulsasse, nada que valesse, ou que vivesse, ou que tentasse. Morto, é isso que sempre fora, é isso que sempre será. Levou bastante tempo para que percebesse. Tirou algum tempo para tentar levar-me contigo. O que levou foi um pouco de vida, de minha vida, em forma de tempo, em forma de coração.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Quereres.
Queria, sem confessar, que a vida fosse feito um conto de fadas. Porém até os vagalumes perdiam suas asas. Queria, no meio da tarde, passar para fazer-lhe uma visita, roubar-lhe um beijo, dar-lhe, em troca, mais um pedaço de seu coração. Queria que saíssem para caminhar na areia, mas o mais próximo que tinham eram calçadas e cascalho. Queria segurar sua mão com força, mas a força que tinha era para manter-se de pé.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Veja Bem.
Com os olhos nos olhos e as lágrimas em seus cantos, relembrávamos de quando fizemos um passeio pela praia no fim da tarde, como se a memória deste pudesse salvar-nos. Relembrávamos dos cafés na cama, dos Domingos esparramados nela. Citávamos velhos amigos e histórias que faziam-nos rir. Eu comentava sobre seus cabelos longos no fim da década de 80, enquanto você criticava minha velha mania de criticar-te. Falávamos sobre quando ficamos sem dinheiro e foi preciso abrir mão das saídas de fins de semana, e de como isso tornou-nos mais próximos. Riu relembrando de minhas juras de amor, tão desconcertadas e ingênuas. Ri do seu sorriso, e de como um dia acreditei que ele fora tudo que eu sempre busquei. Falamos de quando nossa paixão tornou-se fora de moda. Falamos de quando nosso amor tornou-se fim de tarde assistindo televisão. De quando o vício tornou-se apenas um vício, e fomos buscar outros - em outros.
Carta ao Passado.
Começamos com um cumprimento.
Como estás? Por onde andas? Sumistes dos meus sonhos, quero dizer, pesadelos. Um dia desses veio-me à memória a tua lembrança. Veio feito um filme antigo, repleto de cortes, sem sequência temporal. Rebobinei-o, assisti-o ao avesso, mas permaneceu sem imagens nítidas. Vi-me sentada ao seu lado, sem contraste. Assisti, nos meus lábios, o surgimento de um sorriso forçado. E nos teus, a permanência de um sorriso gélido. No enfoque que deram em nossas mãos, vi-as separadas pelo espaço - de tempo. Enganávamos a quem? Pois nem nós mesmos acreditávamos em nós, nem muito menos fitas, nem muito menos laços. Éramos um par de cordas desatadas que, sozinhas, romperam-se. Lembro-me do choro. Chorávamos como se nossas cordas tivessem sido separadas. Sabendo, no fundo, que chorávamos por elas nunca terem unido-se. Não era minha corda com a sua, ou sua corda com a minha. Era corda com corda e a esperança de uma concordância nominal. "Nós amamos, nos amamos". Mas não amávamos não. Eu amei de um lado, e você amou de um outro. As cordas, não nós.
Como estás? Por onde andas? Sumistes dos meus sonhos, quero dizer, pesadelos. Um dia desses veio-me à memória a tua lembrança. Veio feito um filme antigo, repleto de cortes, sem sequência temporal. Rebobinei-o, assisti-o ao avesso, mas permaneceu sem imagens nítidas. Vi-me sentada ao seu lado, sem contraste. Assisti, nos meus lábios, o surgimento de um sorriso forçado. E nos teus, a permanência de um sorriso gélido. No enfoque que deram em nossas mãos, vi-as separadas pelo espaço - de tempo. Enganávamos a quem? Pois nem nós mesmos acreditávamos em nós, nem muito menos fitas, nem muito menos laços. Éramos um par de cordas desatadas que, sozinhas, romperam-se. Lembro-me do choro. Chorávamos como se nossas cordas tivessem sido separadas. Sabendo, no fundo, que chorávamos por elas nunca terem unido-se. Não era minha corda com a sua, ou sua corda com a minha. Era corda com corda e a esperança de uma concordância nominal. "Nós amamos, nos amamos". Mas não amávamos não. Eu amei de um lado, e você amou de um outro. As cordas, não nós.
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