quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Idade.

Agora, aos meus lúcidos oitenta e três anos, sei que cada destes foi uma vida, e que, em cada uma delas, conheci muitas outras. Que passaram pela fresta da porta, que segui calmamente pelas avenidas, que me acompanharam excitadas até o apartamento - no qual ainda habito. Não consigo me lembrar de cada uma das lições que aprendi - talvez esteja sofrendo de algum desses males idosos -, mas lembro de cada um dos corpos que explorei. Pela maioria estive apenas de passagem: pés, pernas, cada fio de cabelo. Poucos, muito poucos, conheci à fundo: cicatrizes, órgãos pulsantes, lirismo. Indubtavelmente, cada um deles me deixou uma marca, sejam elas feridas, lingerie francesa, versos frescos, novas posições do kama sutra, ou saudade. E cada um deles, é claro, levou algo de mim consigo: um pouco de amargura, um arranhão, lenços de papel, doses de whisky diluídas no sangue, ou saudade. Cada uma das partidas teve como início um parto, vezes anestesiado e sonolento, vezes doloroso e demorado. É possível que eu ainda conte nos dedos caleijados as vezes em que verdadeiramente sofri. É possível que eu ainda me lembre dos nomes e, com algum esforço, até dos sobrenomes. Mas não que haja relevância em qualquer parte de minha memória. Enquanto citei, por alto, os tais males, lembrei-me de algo mais: nem tudo do que me lembro é mesmo lembrança. Certas coisas me vêem à cabeça, como o pôr-de-sol em Paris, em uma tarde de Outubro, lindo e solitário - como eram os pequenos beija-flores da minha infância -, nunca aconteceram. Tenho certeza de que já estive na Europa, quase certeza de que já passei pela França, mas nunca alcancei um pôr-do-sol em Paris, muito menos em Outubro. Enfim, o que importa é o que há de concreto: houveram corpos nos meus, e algumas das almas deles na minha. E voltando às lições, sei que me lembro apenas de uma, que a mais doce voz me disse durante o parto: Quando o fim chega ao fim - e aí é o fim mesmo -, só ficam as marcas de sol. Especialmente nos dedos. Mal soube ela que, além da bicoloridade do dedo anelar, ficou também uma sombra no peito: silenciosa e incolor. E essa eu acho que não tem salvação - nem sol que cure.

4 comentários:

Nayla disse...

Nossa, ficou muito bom, brotherr!

Anônimo disse...

adoro quem escreve com a alma.

Outono disse...

"o que importa é o que há de concreto" - discordo

Julianna Motter disse...

Bem provável que eu também discorde.