quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Carta.

Dizer-te-ia que, quando chega-se a uma certa idade, cabeça vazia torna-se realmente oficina do diabo. Confessar-te-ia que, na minha cabeça, o diabo já domiciliou-se. Há tantas horas vagas em tantos momentos dos dias e das noites - principalmente das noites. Que pego-me pensando em toda a minha vida e, até mesmo, em vidas passadas. Admitir-te-ia que parece loucura - o que é pouco vindo de um louco -, mas acho que já estou vivendo pela décima terceira vez nesse mundo. Nasci no dia treze, em um ano que terminava com um, e em Março. Aos treze anos de idade mudei-me para outra casa há treze quilômetros de onde eu morava. Ao decorrer de toda a minha vida, morei em treze cidades, e apaixonei-me por treze mulheres. Treze é o número de porta-retratos que tenho na sala, e de talheres na gaveta da cozinha, e de cigarros que fumo a cada três horas. Embora, como eu já tenha dito, pareça loucura, isso faz de tudo que me circula, um tanto mais claro. E tenho pensando também que, estou à beira da morte. Porque há lucidos treze dias, comecei a ter uma tosse, que prolongou-se até parar agora, aos treze minutos para meia-noite de uma Sexta-feira treze. Hoje, faz treze anos desde a última vez que veio visitar-me. Lembro-me como se houvessem passado apenas treze minutos, você chegou com aquele seu rapaz, cujo nome há treze segundos perdi na cabeça, e disse-me apressada: estamos mudando para a Flórida, pai. E beijou-me a testa, e deixou-me algumas cédulas, e foi-se, deixando-me sozinho nessa cidade. Seu filho mais velho tem, hoje, treze anos, tenho certeza. E não espanto-me. Minha querida, abraçar-te-ia se estivesses por perto. As jóias de sua mãe estão em uma das gavetas do quarto: treze, entre colares e brincos, use-os, ou venda, ou nada. Guardei-as com cautela, perdidas na imundice do quarto. Daqui exatos treze minutos despeço-me, escuto a voz aqui dentro sussurrar. Treze é o número de pílulas que tomo toda noite antes de dormir. Hoje, acrescentarei mais uma, para demarcar o novo número. Guarde-me com carinho na lembrança.
Abraços.

Um comentário:

Luara Q. disse...

Cheia de intensidade!