sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ca(n)sados.

Beiram os cinquenta, quase sessenta, anos. Ele parece mais velho que ela, talvez pela tintura loira-queimada dos cabelos dela. Pelos quais ele passa a mão, tentando ajeitar os fios. Os dois bebem o mesmo, chopp claro em um copo tão gelado quanto o lago logo em nossa frente. Não dialogam, não de uma forma que eu possa ouvir. Apenas trocam olhares, e ele resmunga enquanto ela faz uma ligação. A relação dos dois não está exposta nos dedos, nem visível na distância. Apenas trocam olhares, acendendo e apagando cigarros. Cada um com seu maço, não dividem nem os tragos. Ele a encara até parecer cansado, e fixa os olhos em algum ponto perdido do lago. Ela se volta para ele, e pergunta alguma coisa. Ele que, distraído, não responde. E então recebe um chute na canela. Ela levanta a voz, ele abaixa os olhos. Por mais uma vez, ela fala, e ele não responde. Ela suspira alto, e cata as últimas migalhas da cesta de pão. Suja a boca e as mãos, e ele entrega um guardanapo. Vi que, um tanto antes, aquele mesmo guardanapo serviu para que ele rasurasse alguma coisa. Ela se limpa, e depois resolve ler. Não sei o que estava lá, mas sei que teve importância pois, dois segundos depois, ela se mudou para a cadeira ao lado dele. Passou as mãos pelos escassos fios de cabelo dele, apertou seu queixo, e selou o movimento com um beijo. Por mais que eu admire seu silêncio, ainda acredito nas palavras, cegamente nas palavras.

Um comentário:

beto,,, disse...

porra... muito bonito.