domingo, 4 de dezembro de 2011

Nenhum tapa olho cobre coração.

A princípio, eram só olhares. Desejosos, mas "só olhares". Só olhando foi como nossos olhos acabaram se encontrando. "Só encontrando". As pupilas dilataram. Foi quando "só desejo" se tornou pouco. Não foi previsto, tampouco evitado. Talvez tenha sido uma destas coisa já rabiscadas em um caderno milenar que chamamos "destino". Destino ou não, eu era seu. Contrariando-o ou não, você era, a princípio, distante. A princípio, nunca minha. As coisas se desconectam, às vezes, mas no tempo certo vão se ajeitando. A vontade era ver o estrago que sua pele faria na minha. As marcas do atrito. Acho que seria como limpar asfalto com seda. Você tinha lábios famintos, ariscos. Os cabelos caíam nos ombros diariamente despidos. Eu era magro, raquítico, morto de fome. Diziam que eu tinha um coração grande demais para aquele corpo, que talvez eu estivesse todo encolhido, acuado, lá dentro. Esperando algum tipo de conforto para poder, finalmente, sair, me mostrar além dos fios ralos de barba. Eu precisava comer e você também. Possivelmente foi isto que nos interligou à primeira vista. Identificamos um semelhante. Através de raríssimos amigos em comum, passamos a nos assustar um com o outro mais vezes. Confesso, quando o buraco no estômago era muito, eu te seguia por aí. Impossível te perder, mesmo naqueles mares de gente na Avenida Paulista, aqueles pares de pernas apressados. Suas panturrilhas eram bem mais firmes, bem mais fortes, e decididas. Sabiam, sempre, muito bem para onde queriam ir. A hora que deveriam chegar - mesmo assim, se atrasava, parando na calçada para acender um cigarro, fumá-lo até o filtro, assistindo o movimento da cidade. Engraçado, mas o tabaco nunca, em meu olfato, conseguiu superar seu perfume - o de grife misturado com o já natural. Ele tinha alguma responsabilidade em tamanho charme. Sua voz rouca intimidava muito mais quando saía junto da fumaça. Seu batom vermelho, num rosto já satisfeito de cor. As sobrancelhas impecáveis. Bem, parecia ter saído direto de um editorial de moda, mas não escondia a simplicidade de um tipo de raro entre os seres: aquele que carece de toques. Dos toques certos. Não tapas ou cutucadas. Afagos, a pele na pele certa, calor...enfim. Depois de certo tempo, não adiantava disfarçar, você já tinha percebido o número de noites em claro que foram gastas para que existissem tantas coincidências, tantos caminhos e destinos semelhantes. Mesmo assim, não recuei. Eu nos imaginava sendo um a comida do outro. Nos lambuzando. Eu devorando a sua presença. E vice-versa. Talvez isso fosse uma forma de contornar as coisas ruins da vida, as angústias, qualquer coisa que já houvesse nos machucado, ou perturbado. Nós dois comendo a presença um do outro. Depois roendo as unhas, até chegar aos ossos, na ausência. Depois de uma série de tentativas sem sucesso, eu tinha conseguido me livrar da dependência à nicotina. Mas a ansiedade em saber que você era totalmente minha e que não conseguia, ainda, enxergar isso, levou-me de volta para aquela espécie de roleta-russa. Por sorte, não sobrevivi, com minha sensatez quase intacta. Adorava quando você caía de sono em minha cama, quando eu ia até a cozinha para buscar a garrafa de vinho. Nada me trazia mais inspiração do que suas bochechas se tornando ainda mais avermelhadas quando saímos de madrugada para caminhar, assistir a cidade. Em um momento desta minha jornada até você, parecia impossível que, um dia, eu faria parte do seu ritual. Caminhar obstinada para, de repente, pausar tudo, acender um cigarro, e sentir a cidade. As luzes, os ruídos, os olhares. A princípio, você era tão distante. Mas com alguma teimosia, eu consegui permissão para tocar seu corpo, para ter certeza de que era mesmo de verdade. De que era completamente feita de seda. Seda, mais um oceano de sentimentos e sensibilidade. Bem mais viva e pulsante do que aquilo que mostrava ser à primeira vista. Devagar, eu fui sim matando sua fome. Fui tentando me tornar mais homem, mais humano, para que te bastasse e não te faltasse mais nada. Quis ser totalmente amor, mas não pude me livrar de alguns espinhos. Nos devorávamos de manhã, de tarde, de noite. Nos machucávamos, mas nos minutos seguintes, éramos a única forma de cura, de apaziguar a dor. Só olhando foi como se deu nosso encontro. Só olhando por aí, sem querer nada. Sem esperar, sem amarras. Descansa, o coração disse, e por isso não esperávamos por nada. Nada que fosse tão definitivo. Não esperando foi a forma como me desesperei na possibilidade de estarmos caminhando numa mesma rua que, sem aviso, bifurcasse. Se eu não estivesse tão acostumado a permanecer calado e não deixar de observar um gesto sequer, talvez algum desses planos que estavam escritos para nós tivesse que ser substituído. Eu me arrependeria amargamente se, por acaso, tivesse te perdido. Se algo eu tivesse feito de errado. Voltei sim a fumar mas, agora, com você ao lado, o ar nunca foi tão puro, sereno, com vontade de viver mais, viver tudo - desde que seja contigo.

3 comentários:

Luara Q. disse...

Gosto muito de tudo que leio aqui!

Bárbara Gontijo disse...

"A vontade era ver o estrago que sua pele faria na minha. As marcas do atrito. Acho que seria como limpar asfalto com seda."

Gostei.

Julianna Motter disse...

Obrigada, gente!