terça-feira, 19 de novembro de 2013

Um conto sobre o amor

Se ficar bêbado fosse uma profissão, eu já estaria perto da aposentadoria. Não passo uma noite longe do bar. Isso é estranho? Mas não acho que eu seja alcoólatra. Eu só gosto desse ritual. De me assistir no processo, entre estar atado ao chão e começar a levitar. A verdade, é que me sinto meio à parte do que acontece no mundo. E quando bebo, qualquer lugar é mundo.

Ontem eu me senti mal, porque entre os copos de vodka e o frio, começaram a falar de saúde doença câncer terminal avc hepatite pílula do dia seguinte anti-concepcionais hipotireodismo, e eu nunca nem fiz exame para saber se tenho alguma disfunção hormonal ou um sinal cancerígena na pele, ou sei lá...pressão alta! Eu não sei nem dizer em que andar vive a minha pressão. Não gosto de médicos. Semana passada eu saí correndo da sala de medicação por não aguentar mais tomar soro, e ver aquele branco todo.

O que aconteceu foi que bebi tanto que passei cinco horas vomitando, depois dei um intervalo de duas horas para me deitar no chão do banheiro e encarar o teto. Nunca tinha percebido o quão feio e embolorado ele está. Dá uma sensação de sujeira, mas aqui em casa é tudo bem limpinho. Minha mãe lava as embalagens de tudo o que compramos, antes de guardar. Sim. Minha barba já está crescida há tanto tempo que logo já deve começar a cair, mas ainda moro com minha mãe. Não sei como deixa-la. Como deixar alguém que lava todas as embalagens antes guardá-las? E as seca. Ela as seca também. É uma coisa meio psicótica paranóica doentia, eu sei lá. Mas acho bom. Acho que é bom sim, de alguma maneira.

Enfim, durante o meu intervalo, enquanto estava deitado no chão do banheiro pedindo a Deus para que por favor me levasse e deixasse essa minha dor esse meu vômito essa minha tontura para trás eu recebi uma mensagem de uma mulher que me ama lá de longe. Ela me ama lá do outro lado do oceano. Rodeada de uma língua que conheço, mas pouco compreendo. Ela me ama inclusive em mais de duas línguas. E eu não sei porque, mas ela simplesmente me ama. Como se nada lhe restasse fazer além disso. Me amar, me amar, mar mar, a distância que seja. Uma vez despencou de lá só para me dar uns beijos. Uns milhares. Na minha língua e nas dela. Foi legal foi lindo porque parecia coisa de cinema e tinha cheiro de pipoca, mas ela andava na ponta dos pés, e eu não consegui parar de odiar isso depois que comecei. Em alguns momentos, até cheguei a achar bonitinho, parecia que ela estava escalando as nuvens, mas aí eu me lembrava que ninguém faz isso, e eu tinha vontade de tirar fora os pés dela. Mas mesmo sem eles, não era, nem nunca seria ela. Entende? Ela pesava demais para pisar nas nuvens. E meu sonho sempre foi amar no céu.

Mas é isso, enquanto eu estava naquilo de encarar o teto, tinha uma outra mulher dormindo quase desmaiada no meu quarto esparramada na minha cama. Ela vive aparecendo por lá, isso já faz uns dez anos. Talvez menos. Com certeza mais. Já mudei a cama de posição, já mudei de cama, mas ela continua indo parar lá. E isso quase toda noite. Ela me chama de amor, e ainda diz que sou dela. Me chama de meu amor mesmo sabendo que já fui amor de outras, enquanto era amor dela. E quando ela me pergunta quantas eu digo que não sei. E ela diz que mais de dez em cada ano. Talvez menos. Com certeza mais. Então deve ser amor mesmo, né? E eu devo mesmo ser dela.

Quando consegui, finalmente, levantar do chão e voltar para o quarto, ela viu que a outra, a que fala mais de uma língua e me espeta com os lábios, apareceu nos meus olhos. Não sei como. Ela simplesmente vê através de mim. E me atravessa não importa a hora não importa o tempo não importa nada. E mesmo assim, vendo a outra em mim, viu primeiro minha palidez e meus joelhos trêmulos e meu cabelo com cheiro amargo e me levou até o hospital, onde ficamos por umas duas horas, sentados. Esperando, e ela sem falar nada. E eu gemendo mais alto que um cavalo – cavalos gemem? Se não, deveriam – para ver se ganhava um olhar dela. Um olhar dela no meu e meu coração pararia de disputar a dor no tapa com o estômago.

Sabe que não sei em que ponto quero chegar. Hoje fomos ao cinema, eu e ela, como fazemos todos os domingos - é quando a gente se despede e se vê quando der -, e eu falei que acho esse troço de amar meio psicótico - pior, ainda, que lavar todas as latinhas. É claro que discutimos, a gente sempre discute. Porque ela sonha em constituir família, e eu só espero ter dinheiro para nunca faltar bebida na geladeira – que ainda é a da minha mãe. Ela é meu amor pão com ovo. A gente até finge que não, mas nada no mundo é mais gostoso.

“Basta querer” é isso que ela me diz quando eu tento dizer que é ridículo tentar garantir que vai me querer para sempre. No começo, me dava vontade de vomitar, mas eu já me acostumei. Eu odeio a hora que ela vai embora, porque só ela sabe me deixar. E só ela volta depois que me deixa. Eu tenho muito medo de que um dia ela vá embora, e não volte no domingo seguinte. Vem muita pipoca no saco pequeno. Às vezes você não fica assustado pensando na possibilidade de nunca ser amado?

2 comentários:

aaluah disse...

Moça, sigo seu ig e acho lindo o que você escreve pequenininhoinhoinho e significados tão grANDES!

Luísa Zanni disse...

Fico assustada todo dia.