sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ganância.

Cheiro de carne morta. Cheiro de carne nova. Acima de tudo, o cheiro. Ela já não tem mais o mesmo. Mudou de perfume, e com isso, foi revelando que sua pele, na ausência dele, liberava odores inesperados, muito mais tímidos, quase imperceptíveis. Parou de frequentar os lugares dos quais já era quase um ponto fixo. Voltou a caminhar olhando para os pés. Entreolhando, às vezes, para os lados. Só para garantir. Só para ter a garantia de que não estava sozinha. Mesmo querendo, silenciosamente, estar. Entendida de que o mundo era muito mais complexo do que simplesmente "perigoso". O cheiro dela, o cheiro-tão-dela que nunca seria de mais ninguém, fazia falta quando descia a noite. O cheiro dela entornando garrafas, esvaziando corredores, impregnando golas e travesseiros, participando ferozmente do curso das coisas. Ela, quase sempre, era lembrada por aquela essência, encantadora e desafiante. Parecia que as vidas se moldavam em torno do que era ela. Cheiro de pele, de carne, de suor, de sangue, de saudade, de falta. Cheiro de nada. Não sendo nada, não era pouca coisa. O mundo mudava de cor, e amor nenhum era perfeito ou eterno. Amor nenhum poderia chamar-se apenas por isso. Nunca é só amor. É sempre uma coisa a mais que conecta os sentidos e nos torna ora reféns, ora testemunhas, ora responsáveis por aquilo tudo. As relações de causa e efeito. As calças abaixadas e os seios insinuantes dela. Nunca é só amor. Quase sempre é amor e medo. Amor e covardia. Amor e carência, necessidade, egoísmo. Amor por amor não é sequer capaz de levantar da cama, amarrar os cadarços, desafiar o mundo. Frequentemente é amor e o medo de que ele nos faça acabar sozinhos. Para onde vão os sentimentos quando morrem? Quando morrem antes mesmo da gente - mesmo que tenhamos garantido uma vida inteira juntos? Eles vão para o céu? Condensam? Evaporam? Depois se derramam em forma de chuva? Caem dos céus aos olhos? É tanto esforço para tentar ser importante na vida de alguém. Mas tudo muda, e o lugar das pessoas na vida das outras também. Não seria isto a permanecer o mesmo. Não seríamos nós a permanecer insanos. O "estar bem" é dinâmico e, por isso, nos dividimos entre tantas pessoas, em tempos diferentes - ou até ao mesmo tempo. Querer permanecer o único e o mesmo é correr atrás do impossível. Nada está imune às mudanças. Pois o mundo está girando e estamos todos indo com ele. A gente sabe que vai acabar, mas nem por isso deixa de insistir. Seguro forte a sua mão, segurei forte a mão dela. A gente sabe o que já acabou, as lembranças remanescentes. O cheiro do que já morreu, capaz de prever, pelo olfato, o que está por vir. Padecer de amor é a forma mais inconsequente de entregar-se a vida. E mesmo conscientes disso, repetiremos quantas vezes for preciso.

2 comentários:

Beatriz disse...

Adorei!

Laly Gomes disse...

Padecerei por amor, quantas vezes em vida eu puder.