segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pior ainda se eu dissesse que era poeta

Me grudei nela. Assim que pus os olhos nos olhos dela. Fingi que ela acabava de nascer - e nascia, de certa forma, pra mim -, fingi que eu nascia grudado nela. Pelo coração. Eu e ela pra sempre. Escrevia nossos nomes nos quadros negros da escola em que eu trabalhava - arrumei até emprego pra sustentar os cochilos dela depois do almoço. Parei de escrever. Digo, de dizer por aí que era escritor. Ela não gostava. Pior ainda se eu dissesse que era poeta. Os amigos dela me perguntavam: onde compro teu livro? E meu livro era apenas um catálogo restrito que eu cultivava na memória. E as pequenas folhas grampeadas que eu conseguia vender entre os bares pela noite. Arrumei um emprego. Até cortei o cabelo. Continuei escrevendo, de madrugada enquanto ela dormia, como se estivesse cometendo um crime. E de manhã, às vezes, a acordava com uns pequenos poemas de amor e umas cartas com juras do eterno. Ela não gostava da minha poética. Mas disso ela gostava. Achava graça. Ria. Deitava com as pernas voltadas pro teto e as balançava enquanto lia em voz alta os meus versos. Ria sempre muito, quando ria. Nunca ria pouco. Mas era quase sempre séria. Quase sempre certa. Dizia que diziam por aí que escritores eram bons de cama. Que eram muito criativos, que fantasiavam. E que era por isso que achava graça dessa minha mania. Ela chamava de mania tudo quanto fosse meu. O café sem leite. Era mania minha. Fritar a cebola antes do alho. Era mania minha. Deixar os óculos pendurados no nariz. Era mania minha. Amá-la como se fosse a única coisa a fazer na vida. Era mania minha. Foi o que ela disse assim. Um dia, numa tarde. Eu tinha que parar com isso. Ela disse. De repente, eu e ela pra sempre virou um quadro escuro. As cores escorreram dele e e eu ela era mania e eu deveria desaprender a amá-la. Ela me disse assim. Como quem cospe o catarro escondido enquanto ninguém está olhando: apressada e de uma vez só. Me grudei nela. Assim que pus os meus olhos nos olhos dela e pedi que carregasse minha vida pra onde a vida dela fosse. Me grudei nela em silêncio. Ela dizia que diziam por aí que quem escreve é sempre muito silencioso. De repente perdi mesmo a voz. Me grudei nela e desconheci a capacidade que meus joelhos tinham em sustentar o restante do corpo. Desequilíbrio. Me grudei nela. E quando ela se foi, e eu a vi. Quando ela se foi. E eu a vi indo. Quando ela se foi, assim, se fondo. E foi assim, um foi indo bem fundo. Doeu. Doeu em mim e no restante do mundo. Tombei. Quando ela se foi, ficaram só os quadros negros, e agora, sem nossos nomes, tão mais escuros.


2 comentários:

Melissa Avenia disse...

"E meu livro era apenas um catálogo restrito que eu cultivava na memória"

Bah, isso ficou ótimo!Não que dê para classificar uma poesia ou texto em bom, ruim, ótimo etc. Eu mesma odeio classificações porque cada palavra tem o seu peso e significado nos dedos de quem as escreve. Mas eu adorei!

Anônimo disse...

Ser poeta é ter valvulas de fluxos, estomatos, milhares de pausas e alguma caixa postal secreta.
Ser poeta é amar, amar tanto que a poesia suja fica num canto, ao pó relegada.
Ainda bem que o gmail substitui os beijos.
E os frangos agora podem ir pra mesa em menos de 90 dias - com belas asas e coxas.