segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Não-conto

Eu associei a felicidade a ela de tal maneira que era impossível ser feliz depois que ela se foi. No meu imaginário, eu só podia - e poderia - ser feliz ao lado dela. Sem ela, a felicidade era um ser arredio, traiçoeiro. Que preciso fosse, se punha de pé sobre um par carnudo de pernas, por detrás de um batom cor de sangue, ou dentro de um exagero de copos. Sem ela, eu fugia disso. Se a felicidade me vinha, eu catava todas as minhas coisas e mudava de calçada.

Não aconteceu de ser da maneira como precisamos acreditar que acontecerão os amores. Olhei e na hora que os olhos dela me alcançaram, virou o rosto. Quando entrelaçamos os dedos, soltou minha mão. Não aconteceu de ser assim, uma história que valha recordar. Nos conhecemos do nada, e de repente, eu a reconhecia em tudo.

Se a lua estava cheia a ocupar o sol. Se o dia amanhecia azul. Se fazia frio. Se aparecia um filme novo nos cinemas. Se fazia calor. Se a temperatura pouco se fazia perceber. Se faltava lua no céu. Se amanhecia dia cinzento. Se abria um pote de palmitos. Se derramava sabão em pó no chão. Se olhava para os dois lados antes de atravessar a rua. Se atravessava sem olhar. Se olhava e não a via. Se ela me atravessava. Ela sempre me atravessava.

Eu associei o universo a ela de tal maneira que era impossível até que os astros orbitassem em sua ausência.

Órbita é a trajetória que um corpo percorre ao redor de um outro, influenciado por alguma força. Órbita também é o nome da cavidade, do buraco, do vazio na face do esqueleto humano, onde se assentam os olhos e toda a sua parafernália. Orbitar é estar ligado a algo, de maneira a ter seu movimento submetido apenas àquela existência, por uma força que pode vir do além. Órbita, eu concluo, é o lugar a partir do qual os olhos veem. É onde precisam estar para enxergar. E assim eu a vi, com meus olhos bem assentados, e veio daí uma força sabe Deus lá de onde, e órbita passou a ser, para mim, também a trajetória ininterrupta que passei a fazer em torno dela.

Orbitando, assim me ocorreu o amor. De maneira a, depois, se tornar um vazio. Longe dos olhos, mas apertado no peito. Afetado pela gravidade de tal maneira que era impossível seguir um novo trajeto sem a leveza dela. Impossível segurar os ombros por demais atraídos pelo chão. Os olhos também, desorbitados, a partir do momento em que não mais a viram.



3 comentários:

GabriellaMasson disse...

<3 o mesmo comentário de sempre.

Anônimo disse...

Ju, cara, tu é foda! Estou esperando o livro. Vou ser a primeira na fila de autógrafos!

Luísa Zanni disse...

Lindo.

Me fez lembrar de um amor antigo, que já passou. Que, ao fim, gerou uma tristeza antiga, que já passou.

Já passou mas resiste em mim, de alguma forma, visto que fui capaz de me sentir quase como me sentia por causa dela cerca de dois anos atrás.

Você escreve lindamente.
Não pare.