terça-feira, 22 de novembro de 2011

Permaneça Então.

O cheiro de canela saindo do forno. Suas pernas atravessando rapidamente pelos cômodos. Ziguezagueando, cheia de pressa. Vivia cada segundo como se fosse o penúltimo. Reservando um sorriso enorme para o ato final. Surgiu de repente, tão de repente que não consigo firmar uma data. Foi se espremendo, até conseguir passagem pelo canto. Estava sentado, subitamente, ela apareceu na tela. E seu corpo foi tomando forma. Sua pele, nem morena, nem pálida, pele viva, destacava-se encoberta por uma bata de dimensões sete vezes maiores do que seu próprio corpo. Mas cabia perfeitamente. O par de olhos arregalados, meticulosamente encaixados na face rosada. Com traços tranquilos. Os lábios untados em manteiga de cacau e paz. Tão bela que chegava a ser quase - ou totalmente - pecado. Ridiculamente simples para um ser tão especial. A escoliose pesava seu corpo para o lado direito, algo que ninguém notaria. Mas meu encanto não deixaria passar. Para mim, aquilo parecia interferir um pouco na rotação da terra. Na velocidade em que passavam os dias. Como se tudo, na vida, tivesse algum dedo seu. Se bebesse, roncava durante o sono. Nos outros dias apenas resmungava, em lapsos de sonambulismo. Tinha a íris escura mas, ainda assim, transparente. Andava desengonçada, sem importa-se em ser assim. Esticava bem o corpo, num ritual de toda manhã. Olhava para o relógio incontáveis vezes durante todo o dia. Sofria de ansiedade. Sem saber muito o motivo. Esperava que algo grande acontecesse. Algo muito, mas muito, grande. Algo que mudasse sua vida de uma hora para a outra - mesmo aquela vida que vivia já sendo, relativamente, boa. Eu a observava por horas, todos os dias. Um ritual que criei para eternizá-la em mim. Por horas, destes dias dias, até tornarem-se anos. Amava suas bochechas constrangidas em público. O avermelhado no tempo frio. A delicadeza que tornava única cada uma de suas partes. Acho que é natural ao homem querer isolar do mundo aquilo que tanto lhe apetece. Mesmo querendo: nada tem dono. Nada, nem ninguém. Resta exotizar o objeto e mantê-lo o mais próximo possível. Mas sem marginalizá-lo ou corrompê-lo. Algo como não alimentar animais silvestres. Ou deixar que a lua permaneça inalcançável. Lindo amar assim. Alimenta a escuridão que resiste do lado de dentro. Amar sem querer manchar seus vestidos. Amá-la querendo-a sempre assim. Da forma que despertou-me. Sem sujá-la de mim. Sem alimentá-la com minha insegurança, com minha incerteza. Não pedir para que fique. Deixá-la seguir os caminhos que quiser. Sem fazê-la escrava de um amor que nunca pediu. Entende? Que corra...que voe...que ame...seja aonde for, quem for e, caso se for, que permaneça assim.

3 comentários:

Andresa Alvez disse...

Eu fiquei Apaixonada por esse texto! Pude ver cada cena, desde as pernas que eu nunca vi na vida ziguezagueando...
Me encantou, de verdade!

Parabéns! <3

felipekeosvetores disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Carlos disse...

OI afilhada, da hora seu blog. Curti demais. Depois confere la o meu. BEeeeeeeijo!