segunda-feira, 1 de agosto de 2011

123.

Atravessou a sala de estar, empurrou a porta com o dedão do pé direito e depois foi passando a mão pela mesa que ocupa quase o próximo cômodo inteiro, mesmo que ninguém saiba o que ainda faz lá. É uma mesa gigante, sem motivos para sê-la. Não é sala de jantar, nem de jogos. É mais ignorada do qualquer outra qualidade. Nem feia, nem bonita. Empoeirada, talvez. Talvez meio que com certeza. E ao passar de um cômodo para o outro, e ao passar os finos dedos pelo verniz envelhecido, um desenho fica ali formado. E permanecerá sendo aquele mesmo desenho por dias à fio. Uns riscos tão impressionantes de deixar qualquer Van Gogh espirrando por horas. Enfim, ainda que lentamente, em um minuto já estava entrando no quarto. Bem, eu estava sentado na ponta da cama, amarrando meus cadarços, quando ela veio por trás, puxando-me pela gola da camisa até inclinar-se sobre mim - vindo de trás para frente, como uma onda a afogar-me de surpresa. Minha respiração realmente retardou quando meu nariz foi apertado entre seus seios. Ainda acredito quando dizem que o destino é responsável por tudo, embora, às vezes, ele pareça ridiculamente previsível - e por isso imponente, contornável. Se antes eu não soubesse de nada, ali eu já saberia de tudo. Seus ombros sempre foram mais largos do que qualquer outra parte de seu corpo. Funcionavam meio como uma característica a ser, instintivamente, encarada como um alerta. Melhor, um aviso. De que haviam forças mesmo abaixo de camadas tão finas de carne. Fosse frio ou fosse calor, seus pêlos sempre se eriçavam, como antenas que captassem todo e qualquer movimento no mundo. O que eu sei é que os ombros foram herdados geneticamente. Mas nada disso importa por hora. Após ter me engolido como um onda, ficou a olhar-me de cabeça para baixo, com seus cabelos negros fazendo cócegas em minhas coxas. Por um tempo, eu não pude fazer nada além de observá-la naquela intenção de, talvez, alimentar-se de mim. Eu estava sendo englobado por sua pele quente. Disfarçadamente, ri da estranha sensação de estar sendo fagocitado. É assim que o amor se apresenta quando despido de etiquetas e bons costumes? Uma cadeia alimentar na qual, como as outras, apenas os fortes sobrevivem? De qualquer forma, é bom saber que a vida é, imutavelmente, desenhada em círculos. Eu a havia conhecido há dois ou três meses. Desde o primeiro instante nada fora além de uma boa foda. Não boa. Digo, boa sim. Mas mais que isso, havia um encaixe. Não desses que se compra em alguma esquina. Enfim, o que mais importa, é que o importante nunca parece suficiente posto em palavras. Foi a primeira vez em que ela me olhou e eu pude dizer que não era do meu desejo aqueles olhos olhando para outros que não os meus. Eu pude, mas não disse. Do quê adiantam as palavras quando não existem cotonetes longos o suficiente para limpar os sentimentos emaranhados bem no fundo? Eu não disse, mesmo assim, ela esperou. Ela soube, adivinhou. É como se não houvesse mais tempo. E o vento atravessa os pequenos furos da cortina. Os mesmos olhos nunca terão a mesma cor do primeiro instante. Os lábios não terão o mesmo gosto do primeiro toque. É mais fácil esquecer do que se render. Há dois ou três meses ela sentava-se sobre meu colo e eu só conseguia pensar em como ela ficava melhor de short do que de calças. Pela primeira vez eu consegui reparar em como seus lábios ficavam mais vermelhos e vivos ao serem pressionados por meus dedos. Continuou a me olhar. Foi se ajeitando como se nós dois juntos fôssemos formar um caracol. Eu sendo a casca dela. A concha na qual encontraria abrigo. Bastam as comparações quando, enfim, percebe-se que não há nada a ser comparado com um destes momentos. Agora, com a cabeça repousando em meu colo, suas mãos esquentando as minhas. Agora, sentindo-me submerso. Mais do que sete palmos abaixo da terra. Ao mesmo tempo, voando por dimensões até então desconhecidas. Existem todas as oposições do amor, que sentam-no ao balanço e o levam pra lá, e o trazem pra cá. Na dura repetição de achar que é único, depois achar que é igual a todos, de achar que é eterno, e depois descobrir que eternidade é a primeira coisa que vai embora, e que depois volta para recolher as ervas-daninhas e principalmente os frutos. O que importa é que há um momento - com sorte, vários deles - em que tudo parece valer à pena. Jogar tudo pela janela, dar descarga, colocar tudo numa mochila e ir vender picolé na praia. Há um momento que valerá mais do que todos os outros. Um no qual respira-se só, mas inspira-se em tudo. Ela sorriu puxando minha nuca com suas mãos úmidas de nervoso - sempre suava quando percebia que o buraco era mais fundo do que nossos olhos podiam ver. E foi assim que seguiu invadindo cada fibra, foi penetrando cada poro. Houve, para mim, esta forma de me render achando estar fugindo de tudo - principalmente disso. Saiu do quarto. Mais uma vez, passou a ponta dos dedos pela mesa, aumentando a dimensão do desenho. Entrou para a sala de estar, onde sua sombra se perdeu pela pouca luz do cômodo. Escutei-a puxando uma cadeira. Logo depois, acendendo um cigarro. Da cozinha veio o barulho da chaleira. Alguma coisa abraçou-me de longe. Desamarrei os cadarços. Mesmo que o para sempre acabe, deixe que ele, ao menos, comece.

4 comentários:

Danubya Medeiros. disse...

Nossa, texto escandalosamente maravilhoso, posso dizer sem dúvidas, que foi um dos melhores que já li aqui.A riqueza de detalhes que você descreve, tornam seus textos ainda melhores.Bravíssimo!

Luara Q. disse...

Para mim você escreve encatadoramente bem *-*

Anah Luizahh' disse...

'' Mesmo que o para sempre acabe, deixe que ele, ao menos, comece.''

Isso aí, exatamente isso.
Sempre percebi nos seus textos uma onda de descrença com relação ao amor... Corrija-me se eu estiver errada, por favor. Vejo agora uma luz no fim do túnel!
Ótimo texto...
Estive passeando em outro blog e sorvendo-me de outros textos, mas agora voltei...

Julianna Motter disse...

Danubya e Luara, muito obrigada, é muito bom saber que há quem leia e goste! Voltem sempre!
Ana, que bom que voltou. E bem, acho que é meio dúbia qualquer visão sobre o amor, não?
Obrigada, gente.