Da ameaça:
E se eu for embora?
E se for de vez?
E se for agora?
E se a ausência,
for o necessário
para que a presença,
se (des)faça.
Sombra
contraste
sermos luz
seres de luz
que depois apagam.
E se para nunca,
o mais?
Somos pele
osso
e alguma coisa
que nos apunhale.
Por dentro
ou por fora.
Somos
o espaço em branco
entre o para sempre
e o para sempre
ir embora.
Da paixão:
Acordava com os cabelos desalinhados.
Olhos sujos de sono.
Bafo de preguiça.
Movimentos de lagarta.
Desejos de borboletas.
Sempre distante do chão.
Corria até o banheiro.
Saltitava de volta para a cama.
Abraçava por trás.
Mordiscava a nuca
beijava as costas
alisava o peito.
E ia descendo
ao mesmo tempo
que provocava
uma subida
aos céus.
Não importava
a cama
o corpo.
Pela manhã,
se não era eu,
sempre haveria um outro.
Se não minha,
sempre de alguém.
Se não aqui,
sempre em outro lugar.
Eu girava
em torno dela,
mas ela só vinha
quando lhe convinha.
Eu me despedia
esperando
que ela resolvesse,
um dia,
voltar.
É como nos filmes,
onde a gente se dilacera
fingindo
saber
amar.
Do amor:
Amor:
é preciso morrer de
para viver com.
Não me esqueço
de sua imagem
de sua passagem.
Somos pele
osso
e alguma coisa
que pulse.
Amor:
é uma das coisas
que te mata
pra te ensinar a viver.
Distantes
ou não
do poço.
Somos amor
e osso.
Eu quero morrer de amor
e matar.
Da origem:
A inspiração tem a ver com o fim.
Com a ruptura.
O vinco.
O não mais vínculo.
O rompimento.
A inspiração vem da quebra
da dobra
da queda.
De um buraco
ou de um precipício.
De onde se salta
mas não se morre.
O fim de onde se renasce
se reencontra
se recupera
se redescobre.
O amor não dói.
A gente é que dói.
Nós fazemos
a dor
que somos.
Somos
a dor
- ou o estanque –
que queremos ser.
Minha inspiração
vem da falta
do fim.
Ela veio
de onde eu vim.
Da constatação:
No final,
quando já havíamos
nos tornado
gritos
farrapos
cacos
e só
e nada mais
e não mais
e para nunca mais.
Você bateu forte
na porta
o punho
no coração
os verbos.
Você disse:
o amor dói.
Não!
A gente dói
- retruquei.
O problema é
o sujeito.
Termos nos
sujeitado
a isso
tudo
por
quase
nada.
Do esquecimento que não esqueci:
Eu te esqueci.
Eu te deixei para trás.
Eu te vi bem de longe,
fazendo sombra
com o horizonte.
Mas você sempre me vem.
Nas noites de lua cheia.
Nas canecas cheias de café.
Na presença de um homem.
Na barriga de uma outra mulher.
Você sempre me vem
porque permiti
que morasse em mim.
E em todas as coisas.
Que me rodeiam.
Que me incendeiam.
E se apagam.
Até hoje,
nunca soube onde morava meu amor.
Porque tinha o medo infantil
de te (re)
descobrir.
E assim me perder.
Me perdi
de uma forma
ou de outra.
Já bem antes,
num tempo em que não quis enxergar.
Aconteceu desde o momento
em que te conheci
e os arrepios na parte baixa da coluna
- que se estendem até agora.
domingo, 11 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
A lição vida que a morte ajuda a trazer
Marília me lembra Irene. Alguém a quem se espera ver sorrir. Alguém cujo sorriso é esperado, ansiosamente, leve o tempo que for. Marília também me lembra que há quem nasça para morrer e quem nasça para matar. Ela é a voz que nega a existência de um dia da caça e um outro do caçador.
Ela levanta em um horário diferente todo dia. Em geral, depois das dez. É assim desde criança. Acostumada a dormir já quando a madrugada se arrasta, e a acordar somente quando seu corpo lhe pede. Por isso, estudou no período da tarde durante toda a sua formação escolar.
Quando acorda, fica grunhindo que nem um animalzinho indefeso. Rola de um lado para o outro da cama de casal vazia. Estica as pernas, os braços e sorri. Marília é o sorriso único que nunca se encerra sendo só um, desencadeia em outros, nos outros. A cama box de casal vazia, com colchão de molas e seis travesseiros - as almofadas são decorativas, ela tira e guarda no armário toda noite, para dormir -, é retrato de sua condição atual, "viúva". Ela odeia esse termo, porque nunca gostou da cor preta. Marília sempre gostou de tons terra e dos tons mais claros das cores. Não deixa que a chamem de viúva pois, imediatamente, já se imagina num vestido preto, de scarpin também preto, juntamente com um chapéu ainda mais escuro, de bordas rendadas.
"Ele nem imagina", ela exclama de vez em quando. Pois ainda lhe perguntam, mesmo com todas as negativas, se entrou, alguma vez, em contato com ele. Parece que associam a morte de seu último marido com um renascimento de João em sua vida. Ela, em sua intimidade, tem a certeza de que João gasta horas, mesmo depois de tantos anos, imaginando que rumo ela tomou. Ela percebeu isso em todos os livros que ele publicou - não deixou de comprar, ler e rabiscar nenhum. Até mesmo nos últimos, já mais emancipados da figura dela.
Marília não se preocupa em pensar em João. Mas por não se preocupar, se assusta toda manhã, depois de grunhir e se esticar, quando lembra dos barulhos emitidos pelos primeiros movimentos matinais do corpo dele. "Desculpa, meu amor, mas foi assim a vida toda", ela lembrava dele se desculpando quando os estalos a acordavam. "João parecia ter nascido já todo quebrado. Parecia ter vindo ao mundo em partes e, por isso, precisava se reencaixar todo dia. Eu nunca sabia com que tipo de João encontraria ao me levantar e caminhar até a sala". Foi tudo o que falou dele para Antônio, seu falecido. Antônio se deu por satisfeito e nunca mais perguntou nada. "João" se tornou um termo de cor preta para Marília, portanto nunca mais fora, por ela, mencionado.
Ela não toma café desde aquela manhã de Natal em que deixou a casa de João - digo assim, pois nunca sentiu a casa como sua. Mas todo dia, faça sol, faça chuva, ou faça coisa alguma, Marília ainda lembra do cheiro que vinha da cozinha americana e dominava os três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e a sombra das mangueiras daquela casa. Toda manhã acorda com o cheiro do café de Onôzinha impregnado nos seus poucos pêlos do nariz. Quase viaja no tempo, mas antes de sentir saudades, senta na beirada da cama e coloca os dois pés no chão, como João disse que seu avô lhe dizia.
Caminha até o banheiro, onde gasta metade da manhã passando todos os cremes anti-idade que pôde encontrar em suas viagens pelo mundo. Ela relembra que com João as viagens nunca passaram do litoral nordestino ou do interior paulista. Relembra também que o conheceu recém-chegado de um mochilão pela América do Sul. Os ombros largos e a barba avermelhada secundários por detrás de seus olhos azulados e cheios de sonhos e sono. A voz rouca de tanto fumar, contando como precisou enrolar no portunhol para conseguir começar a trocar poemas por comida.
Marília se apaixonou por aquele João. Que depois do dia em que se conheceram, não aquietava até, no meio da noite, pular a janela de seu quarto na residência de estudantes. Que não aquietava até se enfiar em sua cama, molhando os lençóis de um suor febril. Que toda noite rasgava sua calcinha enquanto lhe mordiscava dos pés a cabeça. João que lhe lambia do corpo a alma.
Namoraram e se enrolaram e se enroscaram assim por quase cinco anos. Depois que se formaram, em 1975, foram morar juntos numa quitinete no Centro. As coisas a serem feitas dentro e fora de casa foram substituindo as horas de amor pelas horas de sono. Foi pela procura de um equilíbrio que, em 1978, levaram Onô para trabalhar com eles. De início, Marília foi mais onça que mulher. Logo constatou, mais uma vez, que João era completamente dela. João foi sendo assim até o o fim dos dois - depois continuou sendo sem que ela soubesse com certeza -, mas era o João completamente de Marília sendo um outro João do mundo. Menos preocupado com os sonhos e mais angustiado com o acúmulo de contas ao fim de cada mês. Um João que chegava cada vez mais com menos flores e poemas. João que sempre trazia, consigo, seu próprio peso e algum outro e, vez ou outra, alguns kilogramas de alegria.
Quando entrou na casa, no dia primeiro de janeiro de 1981, Marília constatou, imediatamente, que não pertencia ao João a quem dava as mãos naquele momento. Suas mãos permaneciam na busca por aquele João que pulava janelas para fazê-la gozar - fosse de amor ou alegria, ou da fusão que ela, naquele momento, já quase se esquecia.
Marília queria morrer de amor e matar. Queria viver de amor do nascer ao pôr - do sol ou dos amores. Esgotar o amor e se esgotar nele.
Em Antônio não encontrou o que buscava. E nem matou a sede que lhe matava. Mas soube amar aquele homem que não mudaria tanto mais com os anos. Que nunca se tornaria monótono ou tedioso, isso porque nunca iria se mostrar para ela como sendo o contrário. Não deixaria de pular as janelas atrás dela. Não a carregaria no colo, nem nas costas. Não lhe tiraria a concentração da ordem dos cremes anti-idade anos e anos depois.
Ela levanta em um horário diferente todo dia. Em geral, depois das dez. É assim desde criança. Acostumada a dormir já quando a madrugada se arrasta, e a acordar somente quando seu corpo lhe pede. Por isso, estudou no período da tarde durante toda a sua formação escolar.
Quando acorda, fica grunhindo que nem um animalzinho indefeso. Rola de um lado para o outro da cama de casal vazia. Estica as pernas, os braços e sorri. Marília é o sorriso único que nunca se encerra sendo só um, desencadeia em outros, nos outros. A cama box de casal vazia, com colchão de molas e seis travesseiros - as almofadas são decorativas, ela tira e guarda no armário toda noite, para dormir -, é retrato de sua condição atual, "viúva". Ela odeia esse termo, porque nunca gostou da cor preta. Marília sempre gostou de tons terra e dos tons mais claros das cores. Não deixa que a chamem de viúva pois, imediatamente, já se imagina num vestido preto, de scarpin também preto, juntamente com um chapéu ainda mais escuro, de bordas rendadas.
"Ele nem imagina", ela exclama de vez em quando. Pois ainda lhe perguntam, mesmo com todas as negativas, se entrou, alguma vez, em contato com ele. Parece que associam a morte de seu último marido com um renascimento de João em sua vida. Ela, em sua intimidade, tem a certeza de que João gasta horas, mesmo depois de tantos anos, imaginando que rumo ela tomou. Ela percebeu isso em todos os livros que ele publicou - não deixou de comprar, ler e rabiscar nenhum. Até mesmo nos últimos, já mais emancipados da figura dela.
Marília não se preocupa em pensar em João. Mas por não se preocupar, se assusta toda manhã, depois de grunhir e se esticar, quando lembra dos barulhos emitidos pelos primeiros movimentos matinais do corpo dele. "Desculpa, meu amor, mas foi assim a vida toda", ela lembrava dele se desculpando quando os estalos a acordavam. "João parecia ter nascido já todo quebrado. Parecia ter vindo ao mundo em partes e, por isso, precisava se reencaixar todo dia. Eu nunca sabia com que tipo de João encontraria ao me levantar e caminhar até a sala". Foi tudo o que falou dele para Antônio, seu falecido. Antônio se deu por satisfeito e nunca mais perguntou nada. "João" se tornou um termo de cor preta para Marília, portanto nunca mais fora, por ela, mencionado.
Ela não toma café desde aquela manhã de Natal em que deixou a casa de João - digo assim, pois nunca sentiu a casa como sua. Mas todo dia, faça sol, faça chuva, ou faça coisa alguma, Marília ainda lembra do cheiro que vinha da cozinha americana e dominava os três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e a sombra das mangueiras daquela casa. Toda manhã acorda com o cheiro do café de Onôzinha impregnado nos seus poucos pêlos do nariz. Quase viaja no tempo, mas antes de sentir saudades, senta na beirada da cama e coloca os dois pés no chão, como João disse que seu avô lhe dizia.
Caminha até o banheiro, onde gasta metade da manhã passando todos os cremes anti-idade que pôde encontrar em suas viagens pelo mundo. Ela relembra que com João as viagens nunca passaram do litoral nordestino ou do interior paulista. Relembra também que o conheceu recém-chegado de um mochilão pela América do Sul. Os ombros largos e a barba avermelhada secundários por detrás de seus olhos azulados e cheios de sonhos e sono. A voz rouca de tanto fumar, contando como precisou enrolar no portunhol para conseguir começar a trocar poemas por comida.
Marília se apaixonou por aquele João. Que depois do dia em que se conheceram, não aquietava até, no meio da noite, pular a janela de seu quarto na residência de estudantes. Que não aquietava até se enfiar em sua cama, molhando os lençóis de um suor febril. Que toda noite rasgava sua calcinha enquanto lhe mordiscava dos pés a cabeça. João que lhe lambia do corpo a alma.
Namoraram e se enrolaram e se enroscaram assim por quase cinco anos. Depois que se formaram, em 1975, foram morar juntos numa quitinete no Centro. As coisas a serem feitas dentro e fora de casa foram substituindo as horas de amor pelas horas de sono. Foi pela procura de um equilíbrio que, em 1978, levaram Onô para trabalhar com eles. De início, Marília foi mais onça que mulher. Logo constatou, mais uma vez, que João era completamente dela. João foi sendo assim até o o fim dos dois - depois continuou sendo sem que ela soubesse com certeza -, mas era o João completamente de Marília sendo um outro João do mundo. Menos preocupado com os sonhos e mais angustiado com o acúmulo de contas ao fim de cada mês. Um João que chegava cada vez mais com menos flores e poemas. João que sempre trazia, consigo, seu próprio peso e algum outro e, vez ou outra, alguns kilogramas de alegria.
Quando entrou na casa, no dia primeiro de janeiro de 1981, Marília constatou, imediatamente, que não pertencia ao João a quem dava as mãos naquele momento. Suas mãos permaneciam na busca por aquele João que pulava janelas para fazê-la gozar - fosse de amor ou alegria, ou da fusão que ela, naquele momento, já quase se esquecia.
Marília queria morrer de amor e matar. Queria viver de amor do nascer ao pôr - do sol ou dos amores. Esgotar o amor e se esgotar nele.
Em Antônio não encontrou o que buscava. E nem matou a sede que lhe matava. Mas soube amar aquele homem que não mudaria tanto mais com os anos. Que nunca se tornaria monótono ou tedioso, isso porque nunca iria se mostrar para ela como sendo o contrário. Não deixaria de pular as janelas atrás dela. Não a carregaria no colo, nem nas costas. Não lhe tiraria a concentração da ordem dos cremes anti-idade anos e anos depois.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
A lição morte que a vida ajuda a trazer
Acorda no mesmo horário todos os dias. Faça sol, faça chuva. Ou ainda que não tenha que fazer coisa alguma, ainda que tenha programadas somente as horas ociosas de recesso ou feriado, nunca levanta depois das cinco e meia. Senta-se na beira da cama, virado para o espelho, e bebe o copo d'água que, toda noite, coloca para dormir ao seu lado, sobre um exemplar do Almanaque Abril de 1981.
Em 1980, trabalhou na revisão de texto do Almanaque de 1981, dedicou uma porção desumana de horas do seu ano nisso. Em ler, reler, ler, reler, revisar para, por fim, ter seu nome composto e seu único sobrenome impressos em Arial Black número oito. A importância de ler-se ali é, para ele, inefável, indizível. Através dos olhos alheios, passa invisível, imperceptível, quase como uma brisa fria em quarenta graus de Rio de Janeiro, no mês de fevereiro, em plena orla de Ipanema. Digamos, cruamente, que sua existência só passou a fazer sentido para si mesmo, quando se viu impresso ali. Uma dessas realizações pessoais que não podem ser transmitidas verbalmente.
Depois que esvazia o copo, calça as duas chinelas de uma mesma vez. Seu avô, quando era pequeno, lhe disse que nada nunca superaria o levantar com os dois pés nos chão. Terminou acrescentando que "isso de sorte não existe, é coisa de quem tem dinheiro pra pagar para ver e inventar quando o que é visto pelos olhos já não basta mais".
Levanta os braços e se espreguiça, por puro prazer. Logo se alonga com mais disciplina. Nesses minutos, seus ossos e suas cartilagens e seus pinos nos joelhos: todos se manifestam presentes e ressoam pela casa de acústica muito boa.
"A acústica daqui é muito boa", foi a resposta que Marília deu quando ele comprou a casa para os dois em segredo e a levou para conhecer. "Quero construir uma vida aqui contigo", disse ele roxo de tanta timidez, de tanto amor, de tanto desejo - de corpo e futuro. E ela disse assim:
"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".
João repete, até hoje, essa frase dessa forma que retratei aqui. Como se as palavras derretessem. Como se cada uma das palavras necessitasse de uma pausa própria. Como se falassem. Como se batessem na velocidade de um coração na véspera de morrer.
"Até hoje" porque a casa foi adquirida em 1981, Marília entrou nela, pela primeira vez, no dia primeiro de janeiro. A casa foi adquirida juntando o salário mensal que João recebia na redação, mais as horas extras da revisão do Almanaque, mais um financiamento na Caixa, mais as economias que a mãe dele havia deixado ao falecer. A casa, com três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, cozinha americana, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e mangueiras fazendo sombra, custou a bagatela da vida e todos os prazeres da carne de João. Marília pisou pela última vez naquele piso de madeira laminada no dia vinte e cinco de dezembro daquele mesmo ano. Aproximadamente às dez horas, na manhã de Natal em que completariam dez anos juntos. João, por toda sua inocência e romantismo, levou um ano para deixar de esperá-la na poltrona em frente a porta.
Quando se conheceram, Pedro, irmão de João, disse bem assim:
"Cuidadoquefogodemaisqueima!!!"
E João nunca se esqueceu dessa frase, mesmo depois de quarenta anos. A frase corre, acelera, pula e escorrega lhe dando uma azia que nem reza forte cura. Fica presente por dois ou três dias. E ele ainda a atiça com garrafas de café. Reclama das restrições com que vivem os "solitários". Ou se faz muita comida, bebida, e se joga fora. Ou se faz muito pouco, sem poder repetir ou desejar um pouco mais. Domínio da preguiça sobre o homem. João sempre pensa demais sobre tudo. Se diz assim "solitário", mas não se incomoda ao atribuir a si mesmo essa característica. Acha até bom e, nos encontros de família, ri quando menciona isso em voz alta. Diz que dá sorte com as mulheres. Mas nunca mais amou ninguém. Nenhuma outra depois de Marília. Aquela ali partiu seu coração. Desfez o homem robusto, charmoso, sarcástico, risonho que João era. Ficou um resquício dele, um João mais barbudo, magricelo, grisalho, introspectivo, descrente e, até, sombrio.
Mas ele, ao menos, tirou dos farrapos de seu coração, palavras para bons livros. Publicou mais de vinte. Os de auto-ajuda venderam menos, foram seus primeiros. Publicações alternativas, que nas noites de lançamento, faziam com que ele trocasse autógrafos e exemplares por uns bons tecos de cocaína e umas ou outras trepadas. Nem todas boas, mas sempre viscerais. João só sabia ser se fosse por inteiro. Doava-se em tudo. Família, amigos, trabalho, Marília e aquelas que o faziam lembrar dela.
Depois que repete, quase como oração:
"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".
Ele percebe já ter se alongado o suficiente e caminha até o banheiro do corredor, onde se sente mais confortável, e urina em jatos pequenos, levando cerca de dez minutos para esvaziar completamente. João, como todos que envelhecem sãos, consegue diferenciar os prazeres dos desgostos que a idade traz consigo. Urinar por tanto tempo, para ele, é um prazer. Pois morre de medo de, logo, não ter mais controle sobre seu direito de ir e vir urinário. Desde criança, falava a quem fosse assim:
"No dia que não tiver mais controle sobre meu próprio mijo, podem me matar!".
João aprecia as coisas simples da vida. Aprecia até demais. Lava as mãos com sabonete líquido de lavanda, recomendação de Pedro, seu irmão como já mencionado e que, provavelmente, cheira esse cheiro de lavanda molhada desde que nasceu.
Nada mais de muito relevante sobre a ida diária de João ao banheiro. Ele repete os mesmos passos de uma dança lenta e febril. Dia sim, dia não, lava os poucos cinzentos fios de cabelo. Depois escolhe uma roupa que, a cada dia, parece a mesma, e senta-se para o café. Pão francês que Dona Onô deixa todo dia na porta da casa, manteiga com redução de sal e canecas de café puro com canela que dão taquicardia só de contar.
Dona Onô limpou a casa de "Seu João" por muitos anos. Até que ele decidiu que a entediava demais e a mandou embora. Chegou para trabalhar com ele ainda quando menina, beirando seus treze anos. Ficou de 1978, quando João e Marília ainda moravam em uma quitinete no Centro, até 1998. Assistiu João sendo santo, sendo crucificado e João sendo menino sem beira de saia para se esconder. Como arrumou um outro trabalho na mesma rua da casa, continua deixando três pães frescos todos os dias. E acredito, mesmo se trabalhasse do outro lado da cidade, daria o jeito que fosse para que os pães estivessem sempre ali abraçados ao jornal quando João abrisse a porta para ver o nascer do sol. Dona Onô aprendeu com João como acontecia a transição de menina para mulher. Não, não sexualmente, pois Dona Onô, antes de ser Dona, quando era só Onô, já era para ele como uma filha. João a ensinou a falar melhor, pagou seus anos no supletivo e lhe dava roupas sempre que era aniversário e Natal. Hoje Dona Onô nem trabalha mais limpando casa, passando e cozinhando, é gerente da Lanchonete do Bairro, casada e mãe de três filhos. A família vem visitar João uma vez por mês. Nesses dias, ele se sente como se seu nome estivesse impresso em um número tal de Almanaques que desse a soma dos anos de cada um dos membros daquela família.
Depois do café-da-manhã, ele tira um cochilo na mesma poltrona em que esperava Marília, mas agora não sabe o que espera. Não sabe se há mais o que esperar. Tem muito medo da morte, que é sua única certeza. Depois de quase uma hora, acorda e folheia o jornal. Até cochilar outra vez, mais ou menos no caderno de Esportes, que nunca foi seu forte. Recebe uma ligação de Pedro e depois sai para almoçar. Quando não tem nenhuma consulta, volta para casa e se senta a escrivaninha. Está trabalhando em mais um livro, de ficção, campo onde conseguiu seu reconhecimento. Narra histórias de Marílias, essas mulheres que em suas obras, vez em quando, são também homens. Que são esses amores que dilaceram desde o momento em que se concretizam. E essa "concretização", ele argumenta, não acontece perceptível aos olhos, é uma combinação entre os astros e alguns sádicos das dimensões espirituais, ele diz "sei lá, amor é coisa que nos apunhala pelas costas". Quando conta para alguém que é escritor, nunca escapa da:
"Escreve sobre o que?"
João com sua voz serena repete sempre a mesma resposta:
"Sobre o amor, ou qualquer uma dessas coisas que te mata para te ensinar a viver".
Em 1980, trabalhou na revisão de texto do Almanaque de 1981, dedicou uma porção desumana de horas do seu ano nisso. Em ler, reler, ler, reler, revisar para, por fim, ter seu nome composto e seu único sobrenome impressos em Arial Black número oito. A importância de ler-se ali é, para ele, inefável, indizível. Através dos olhos alheios, passa invisível, imperceptível, quase como uma brisa fria em quarenta graus de Rio de Janeiro, no mês de fevereiro, em plena orla de Ipanema. Digamos, cruamente, que sua existência só passou a fazer sentido para si mesmo, quando se viu impresso ali. Uma dessas realizações pessoais que não podem ser transmitidas verbalmente.
Depois que esvazia o copo, calça as duas chinelas de uma mesma vez. Seu avô, quando era pequeno, lhe disse que nada nunca superaria o levantar com os dois pés nos chão. Terminou acrescentando que "isso de sorte não existe, é coisa de quem tem dinheiro pra pagar para ver e inventar quando o que é visto pelos olhos já não basta mais".
Levanta os braços e se espreguiça, por puro prazer. Logo se alonga com mais disciplina. Nesses minutos, seus ossos e suas cartilagens e seus pinos nos joelhos: todos se manifestam presentes e ressoam pela casa de acústica muito boa.
"A acústica daqui é muito boa", foi a resposta que Marília deu quando ele comprou a casa para os dois em segredo e a levou para conhecer. "Quero construir uma vida aqui contigo", disse ele roxo de tanta timidez, de tanto amor, de tanto desejo - de corpo e futuro. E ela disse assim:
"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".
João repete, até hoje, essa frase dessa forma que retratei aqui. Como se as palavras derretessem. Como se cada uma das palavras necessitasse de uma pausa própria. Como se falassem. Como se batessem na velocidade de um coração na véspera de morrer.
"Até hoje" porque a casa foi adquirida em 1981, Marília entrou nela, pela primeira vez, no dia primeiro de janeiro. A casa foi adquirida juntando o salário mensal que João recebia na redação, mais as horas extras da revisão do Almanaque, mais um financiamento na Caixa, mais as economias que a mãe dele havia deixado ao falecer. A casa, com três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, cozinha americana, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e mangueiras fazendo sombra, custou a bagatela da vida e todos os prazeres da carne de João. Marília pisou pela última vez naquele piso de madeira laminada no dia vinte e cinco de dezembro daquele mesmo ano. Aproximadamente às dez horas, na manhã de Natal em que completariam dez anos juntos. João, por toda sua inocência e romantismo, levou um ano para deixar de esperá-la na poltrona em frente a porta.
Quando se conheceram, Pedro, irmão de João, disse bem assim:
"Cuidadoquefogodemaisqueima!!!"
E João nunca se esqueceu dessa frase, mesmo depois de quarenta anos. A frase corre, acelera, pula e escorrega lhe dando uma azia que nem reza forte cura. Fica presente por dois ou três dias. E ele ainda a atiça com garrafas de café. Reclama das restrições com que vivem os "solitários". Ou se faz muita comida, bebida, e se joga fora. Ou se faz muito pouco, sem poder repetir ou desejar um pouco mais. Domínio da preguiça sobre o homem. João sempre pensa demais sobre tudo. Se diz assim "solitário", mas não se incomoda ao atribuir a si mesmo essa característica. Acha até bom e, nos encontros de família, ri quando menciona isso em voz alta. Diz que dá sorte com as mulheres. Mas nunca mais amou ninguém. Nenhuma outra depois de Marília. Aquela ali partiu seu coração. Desfez o homem robusto, charmoso, sarcástico, risonho que João era. Ficou um resquício dele, um João mais barbudo, magricelo, grisalho, introspectivo, descrente e, até, sombrio.
Mas ele, ao menos, tirou dos farrapos de seu coração, palavras para bons livros. Publicou mais de vinte. Os de auto-ajuda venderam menos, foram seus primeiros. Publicações alternativas, que nas noites de lançamento, faziam com que ele trocasse autógrafos e exemplares por uns bons tecos de cocaína e umas ou outras trepadas. Nem todas boas, mas sempre viscerais. João só sabia ser se fosse por inteiro. Doava-se em tudo. Família, amigos, trabalho, Marília e aquelas que o faziam lembrar dela.
Depois que repete, quase como oração:
"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".
Ele percebe já ter se alongado o suficiente e caminha até o banheiro do corredor, onde se sente mais confortável, e urina em jatos pequenos, levando cerca de dez minutos para esvaziar completamente. João, como todos que envelhecem sãos, consegue diferenciar os prazeres dos desgostos que a idade traz consigo. Urinar por tanto tempo, para ele, é um prazer. Pois morre de medo de, logo, não ter mais controle sobre seu direito de ir e vir urinário. Desde criança, falava a quem fosse assim:
"No dia que não tiver mais controle sobre meu próprio mijo, podem me matar!".
João aprecia as coisas simples da vida. Aprecia até demais. Lava as mãos com sabonete líquido de lavanda, recomendação de Pedro, seu irmão como já mencionado e que, provavelmente, cheira esse cheiro de lavanda molhada desde que nasceu.
Nada mais de muito relevante sobre a ida diária de João ao banheiro. Ele repete os mesmos passos de uma dança lenta e febril. Dia sim, dia não, lava os poucos cinzentos fios de cabelo. Depois escolhe uma roupa que, a cada dia, parece a mesma, e senta-se para o café. Pão francês que Dona Onô deixa todo dia na porta da casa, manteiga com redução de sal e canecas de café puro com canela que dão taquicardia só de contar.
Dona Onô limpou a casa de "Seu João" por muitos anos. Até que ele decidiu que a entediava demais e a mandou embora. Chegou para trabalhar com ele ainda quando menina, beirando seus treze anos. Ficou de 1978, quando João e Marília ainda moravam em uma quitinete no Centro, até 1998. Assistiu João sendo santo, sendo crucificado e João sendo menino sem beira de saia para se esconder. Como arrumou um outro trabalho na mesma rua da casa, continua deixando três pães frescos todos os dias. E acredito, mesmo se trabalhasse do outro lado da cidade, daria o jeito que fosse para que os pães estivessem sempre ali abraçados ao jornal quando João abrisse a porta para ver o nascer do sol. Dona Onô aprendeu com João como acontecia a transição de menina para mulher. Não, não sexualmente, pois Dona Onô, antes de ser Dona, quando era só Onô, já era para ele como uma filha. João a ensinou a falar melhor, pagou seus anos no supletivo e lhe dava roupas sempre que era aniversário e Natal. Hoje Dona Onô nem trabalha mais limpando casa, passando e cozinhando, é gerente da Lanchonete do Bairro, casada e mãe de três filhos. A família vem visitar João uma vez por mês. Nesses dias, ele se sente como se seu nome estivesse impresso em um número tal de Almanaques que desse a soma dos anos de cada um dos membros daquela família.
Depois do café-da-manhã, ele tira um cochilo na mesma poltrona em que esperava Marília, mas agora não sabe o que espera. Não sabe se há mais o que esperar. Tem muito medo da morte, que é sua única certeza. Depois de quase uma hora, acorda e folheia o jornal. Até cochilar outra vez, mais ou menos no caderno de Esportes, que nunca foi seu forte. Recebe uma ligação de Pedro e depois sai para almoçar. Quando não tem nenhuma consulta, volta para casa e se senta a escrivaninha. Está trabalhando em mais um livro, de ficção, campo onde conseguiu seu reconhecimento. Narra histórias de Marílias, essas mulheres que em suas obras, vez em quando, são também homens. Que são esses amores que dilaceram desde o momento em que se concretizam. E essa "concretização", ele argumenta, não acontece perceptível aos olhos, é uma combinação entre os astros e alguns sádicos das dimensões espirituais, ele diz "sei lá, amor é coisa que nos apunhala pelas costas". Quando conta para alguém que é escritor, nunca escapa da:
"Escreve sobre o que?"
João com sua voz serena repete sempre a mesma resposta:
"Sobre o amor, ou qualquer uma dessas coisas que te mata para te ensinar a viver".
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Que os anos passam...
Todo dia, mais ou menos às quatro da tarde, quando perto, mas não tanto, do pôr-do-sol, eu pego o ônibus em direção ao Centro. Nunca chega a estar cheio, mas alguma coisa no horário faz com que o automóvel balance o bastante para tornar o calor, já infernal, insuportável.
É o sétimo prédio no terceiro quarteirão, descendo pela Rua Quinze, paralela a Avenida Principal. É um prédio cujas cores variam do mais verde ao mais azul. Parece pintado por uma criança de quatro anos que, no meio do processo, escorregou os joelhos e caiu de cara espalhando a tinta sem se preocupar. Algo entre uma pintura abstrata e inocência que nos diz para seguir em frente sem medo de ser feliz.
Ou talvez nada disso, talvez só um reflexo dessa minha obsessão por procurar uma conexão entre cada uma das coisas do mundo e o mundo em si. Não, sinceramente, a obsessão não é essa.
Há vinte e cinco anos tomando, diariamente, remédios para ansiedade, minha obsessão está em observar milimetricamente toda e qualquer coisa, em tentar entender, na expectativa de, um dia, poder prever - e assim, me precaver do que virá.
Envelhecer é difícil: dói. Desde as juntas, aos ossos, até as mais profundas convicções. Envelhecer apunhala os sonhos. Mas como tudo: nunca é tudo. Portanto, também tem seus lados bons. Se não fosse essa minha cara de cão abandonado - na juventude, cara de cão raivoso -, eu não poderia me deslocar até essa exato prédio com a certeza de que sempre me deixarão entrar, sempre me deixarão subir de elevador até o décimo terceiro andar para, então, subir três lances de escada e chegar até cobertura.
O sol se põe entre os dois edifícios na diagonal esquerda desse aqui. Ficou um vão entre eles, uma casinha colonial, que foi tombada ainda nos anos setenta, e que desejo sempre estar por ali. Por detrás de todo esse concreto, as copas altas das araucárias engolindo, pouco a pouco, o sol.
É ali a linha do horizonte. É ali onde a selva, não se sabe, é feita de terra ou de cimento. Se a selva é feita de cidade. Ou se a cidade é a própria selva. O sol se despede de mim, todo dia, ali. Ele abaixa meio receoso, temo que pense que cada um dos nossos encontros pode ser o último. Ou talvez ele nem pense - nem isso, nem nada - e por isso exista tão suave, tão majestoso.
Aqui, a trouxe pela primeira vez. Era magrela, sol que se punha no meio da neve. Metade dourada e metade, quase, translúcida. Parecia desenho. Na época, jovens, podíamos vir quando quiséssemos - quando tínhamos a sorte do zelador esquecer o portão aberto e se distrair. Logo mais os compromissos e horários foram se firmando, e passamos a vir cada vez menos. Até não virmos mais.
Há vinte um anos atrás, quando ela se foi - sem nunca, jamais, me deixar -, comecei a vir todo dia. Já era velho, barbudo, com cara de quem não tinha lugar, mas algum dinheiro no banco. Às vezes me barravam na portaria, mas nada me impedia, logo abria a carteira. Não marcava nenhuma reunião no horário, nada nunca que me impedisse. Venho, desde então, todo dia.
Com o céu alaranjado, avermelhado, indizível, consigo ver o rosto dela bem nítido dito dentro de mim.
Amor:
essa é uma das coisas
que de te mata
para te ensinar
a viver.
Feito foste poesia:
te encontrei
quando me
faltou
alegria.
É o sétimo prédio no terceiro quarteirão, descendo pela Rua Quinze, paralela a Avenida Principal. É um prédio cujas cores variam do mais verde ao mais azul. Parece pintado por uma criança de quatro anos que, no meio do processo, escorregou os joelhos e caiu de cara espalhando a tinta sem se preocupar. Algo entre uma pintura abstrata e inocência que nos diz para seguir em frente sem medo de ser feliz.
Ou talvez nada disso, talvez só um reflexo dessa minha obsessão por procurar uma conexão entre cada uma das coisas do mundo e o mundo em si. Não, sinceramente, a obsessão não é essa.
Há vinte e cinco anos tomando, diariamente, remédios para ansiedade, minha obsessão está em observar milimetricamente toda e qualquer coisa, em tentar entender, na expectativa de, um dia, poder prever - e assim, me precaver do que virá.
Envelhecer é difícil: dói. Desde as juntas, aos ossos, até as mais profundas convicções. Envelhecer apunhala os sonhos. Mas como tudo: nunca é tudo. Portanto, também tem seus lados bons. Se não fosse essa minha cara de cão abandonado - na juventude, cara de cão raivoso -, eu não poderia me deslocar até essa exato prédio com a certeza de que sempre me deixarão entrar, sempre me deixarão subir de elevador até o décimo terceiro andar para, então, subir três lances de escada e chegar até cobertura.
O sol se põe entre os dois edifícios na diagonal esquerda desse aqui. Ficou um vão entre eles, uma casinha colonial, que foi tombada ainda nos anos setenta, e que desejo sempre estar por ali. Por detrás de todo esse concreto, as copas altas das araucárias engolindo, pouco a pouco, o sol.
É ali a linha do horizonte. É ali onde a selva, não se sabe, é feita de terra ou de cimento. Se a selva é feita de cidade. Ou se a cidade é a própria selva. O sol se despede de mim, todo dia, ali. Ele abaixa meio receoso, temo que pense que cada um dos nossos encontros pode ser o último. Ou talvez ele nem pense - nem isso, nem nada - e por isso exista tão suave, tão majestoso.
Aqui, a trouxe pela primeira vez. Era magrela, sol que se punha no meio da neve. Metade dourada e metade, quase, translúcida. Parecia desenho. Na época, jovens, podíamos vir quando quiséssemos - quando tínhamos a sorte do zelador esquecer o portão aberto e se distrair. Logo mais os compromissos e horários foram se firmando, e passamos a vir cada vez menos. Até não virmos mais.
Há vinte um anos atrás, quando ela se foi - sem nunca, jamais, me deixar -, comecei a vir todo dia. Já era velho, barbudo, com cara de quem não tinha lugar, mas algum dinheiro no banco. Às vezes me barravam na portaria, mas nada me impedia, logo abria a carteira. Não marcava nenhuma reunião no horário, nada nunca que me impedisse. Venho, desde então, todo dia.
Com o céu alaranjado, avermelhado, indizível, consigo ver o rosto dela bem nítido dito dentro de mim.
Amor:
essa é uma das coisas
que de te mata
para te ensinar
a viver.
Feito foste poesia:
te encontrei
quando me
faltou
alegria.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Poeira, besteira e coisa - e tal
Estou tomando chá de boldo há uma semana.
Quero me convencer de que o amargo
está na língua de quem o sente.
O amargor está na
língua de cada um.
Ao te beijar
- sim, ainda me lembro -,
eu sentia um gosto bom.
Não era doce.
Mas também não era amargo.
Gosto de nuvens.
Dessas coisas que não sabemos, verdadeiramente, como são.
Ao te beijar
- eu lembro -,
bem no começo,
eu ficava rindo como quem
hora ou outra
sofreria uma
síncope.
Capotaria por trás.
Porque me fazia cócegas,
dentro e por fora.
Nos lábios
e no coração.
Parecia que beijávamos
nós dois
línguas
saliva
e uns grãos de areia.
Poeira das estrelas.
Qualquer coisa brega assim.
Mas isso talvez seja mais
uma dessas coisas
que estão
somente
na boca de quem sente.
Eu beijei
por mim
e por você.
Quero me convencer de que o amargo
está na língua de quem o sente.
O amargor está na
língua de cada um.
Ao te beijar
- sim, ainda me lembro -,
eu sentia um gosto bom.
Não era doce.
Mas também não era amargo.
Gosto de nuvens.
Dessas coisas que não sabemos, verdadeiramente, como são.
Ao te beijar
- eu lembro -,
bem no começo,
eu ficava rindo como quem
hora ou outra
sofreria uma
síncope.
Capotaria por trás.
Porque me fazia cócegas,
dentro e por fora.
Nos lábios
e no coração.
Parecia que beijávamos
nós dois
línguas
saliva
e uns grãos de areia.
Poeira das estrelas.
Qualquer coisa brega assim.
Mas isso talvez seja mais
uma dessas coisas
que estão
somente
na boca de quem sente.
Eu beijei
por mim
e por você.
Curto ensaio sobre a saudade
A saudade:
que é de cada um
que é lugar comum...
Quando a senti:
Pouco me resta de ti.
Um par de meias velho.
Uma escova de dentes
sem dentes
para escovar.
Uns vídeos
e fotografias.
Correspondências
e contas a pagar.
Pouco me resta de ti.
Porque se foi.
Se foi de mim.
Depois que foi em mim.
Depois que fomos um no outro.
Um ser sendo,
em partilhas
e parcelas.
Até não ser mais.
Até quando não foi.
Até quando não deu.
Quando olho,
não sei se fora
amor
ou deslumbramento.
Quando olho,
você agora,
já do lado de fora,
não sei quem foi.
Nem sei se fui.
Quando a descobri:
E no final,
nada dito
ou feito
fez ou fará
sentido.
E nem o dirá.
A saudade é um ser
onde não se
parece
estar.
A saudade são
os olhos
que oscilam
entre o aqui
e o acolá.
Como doem as coisas
que a gente finge
não sentir mais.
No dia que eu não tiver mais
medo
de olhar,
nesse mesmo dia,
que eu não tiver mais medo,
saberei
se estamos
onde devemos
estar.
Como doem as coisas
que se perdem
de lugar.
A saudade é a linha
entre
o vamos um pouco mais
para frente
e o já não dá.
Quando a admiti:
Ontem eu te abracei
para dormir
e você nem
imagina.
Acordei
e sua ausência
estava lá.
No calor
deixado pela cama.
No calor
de um corpo
acabado
de se ausentar.
No calor
que eu quis
imaginar.
Depois, fiquei querendo te ver.
Ver se me via em você.
Querendo saber se
ainda estava lá
- eu e você.
Se ainda tinha um lugar.
A saudade é o verbo
que não se pode
conjugar.
A saudade é ponto.
E nunca final.
que é de cada um
que é lugar comum...
Quando a senti:
Pouco me resta de ti.
Um par de meias velho.
Uma escova de dentes
sem dentes
para escovar.
Uns vídeos
e fotografias.
Correspondências
e contas a pagar.
Pouco me resta de ti.
Porque se foi.
Se foi de mim.
Depois que foi em mim.
Depois que fomos um no outro.
Um ser sendo,
em partilhas
e parcelas.
Até não ser mais.
Até quando não foi.
Até quando não deu.
Quando olho,
não sei se fora
amor
ou deslumbramento.
Quando olho,
você agora,
já do lado de fora,
não sei quem foi.
Nem sei se fui.
Quando a descobri:
E no final,
nada dito
ou feito
fez ou fará
sentido.
E nem o dirá.
A saudade é um ser
onde não se
parece
estar.
A saudade são
os olhos
que oscilam
entre o aqui
e o acolá.
Como doem as coisas
que a gente finge
não sentir mais.
No dia que eu não tiver mais
medo
de olhar,
nesse mesmo dia,
que eu não tiver mais medo,
saberei
se estamos
onde devemos
estar.
Como doem as coisas
que se perdem
de lugar.
A saudade é a linha
entre
o vamos um pouco mais
para frente
e o já não dá.
Quando a admiti:
Ontem eu te abracei
para dormir
e você nem
imagina.
Acordei
e sua ausência
estava lá.
No calor
deixado pela cama.
No calor
de um corpo
acabado
de se ausentar.
No calor
que eu quis
imaginar.
Depois, fiquei querendo te ver.
Ver se me via em você.
Querendo saber se
ainda estava lá
- eu e você.
Se ainda tinha um lugar.
A saudade é o verbo
que não se pode
conjugar.
A saudade é ponto.
E nunca final.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Três atos inatos
Quando se é e se acontece:
Me apaixono de maneira muito fácil.
Por qualquer coisa - que fique ou passe.
Pulsante ou inanimada.
Existente
palpável
ou não.
É algo necessário.
É como uma condição para sobrevivência:
é respirar
se alimentar
hidratar
assear.
É isso:
apaixonar-se é um tipo de limpeza.
Se solitariamente,
espiritual.
Mas ainda melhor se física.
É deixar de lado o feio
- em nós e que nos achamos no direito de ver em outros.
Para estar mais limpo
puro
livre.
Apaixonar-se é como
aceitar
e constatar
que nada é só isso
e que tudo pode ser - e é - muito mais
que uma coisa só.
Quando se é e se entrega:
Deixe que te beijem o silêncio.
Que te atropelem a calma.
Pois há saudade
tristeza
monotonia.
Uma parte do ser
que é o todo de um
passado.
Deixe-se ser
enquanto
sejam
ao seu lado
ao seu dentro
de uma mesma
maneira,
nada censurável
nem vergonhosa.
Que sejamos todos
quando em nós mesmos
quando em outros
sempre
tão
indizivelmente
humanos.
Quando não mais se é e se acaba:
Estou sentada
num café
em algum lugar
no meio do caminho
de casa.
Você está sentado
em algum lugar
num café
no meio do caminho
de casa.
A gente não sabe disso.
Hoje,
a gente mal se fala.
A gente mal se olha.
Mas ainda se abraça
quando chega
em casa.
Quando chega
a madrugada
e debaixo dos lençóis,
ainda sentimos frio.
A gente ainda se abraça quando
algum de nós se sente perdido.
A gente sempre
se encontrou
no escuro
e no vazio.
Hoje,
a gente senta
no meio do caminho
a gente toma um café
para não ter que chegar,
para não ter que abraçar
e descobrir
que não se aquece
não se encontra
não se está
mais ali.
Me apaixono de maneira muito fácil.
Por qualquer coisa - que fique ou passe.
Pulsante ou inanimada.
Existente
palpável
ou não.
É algo necessário.
É como uma condição para sobrevivência:
é respirar
se alimentar
hidratar
assear.
É isso:
apaixonar-se é um tipo de limpeza.
Se solitariamente,
espiritual.
Mas ainda melhor se física.
É deixar de lado o feio
- em nós e que nos achamos no direito de ver em outros.
Para estar mais limpo
puro
livre.
Apaixonar-se é como
aceitar
e constatar
que nada é só isso
e que tudo pode ser - e é - muito mais
que uma coisa só.
Quando se é e se entrega:
Deixe que te beijem o silêncio.
Que te atropelem a calma.
Pois há saudade
tristeza
monotonia.
Uma parte do ser
que é o todo de um
passado.
Deixe-se ser
enquanto
sejam
ao seu lado
ao seu dentro
de uma mesma
maneira,
nada censurável
nem vergonhosa.
Que sejamos todos
quando em nós mesmos
quando em outros
sempre
tão
indizivelmente
humanos.
Quando não mais se é e se acaba:
Estou sentada
num café
em algum lugar
no meio do caminho
de casa.
Você está sentado
em algum lugar
num café
no meio do caminho
de casa.
A gente não sabe disso.
Hoje,
a gente mal se fala.
A gente mal se olha.
Mas ainda se abraça
quando chega
em casa.
Quando chega
a madrugada
e debaixo dos lençóis,
ainda sentimos frio.
A gente ainda se abraça quando
algum de nós se sente perdido.
A gente sempre
se encontrou
no escuro
e no vazio.
Hoje,
a gente senta
no meio do caminho
a gente toma um café
para não ter que chegar,
para não ter que abraçar
e descobrir
que não se aquece
não se encontra
não se está
mais ali.
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