quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Mesclado.

Teus olhos atravessam oceanos. Transatlânticos. Transam comigo. Num transe tão secreto que sequer deixamos que perceba. Trançam comigo. Uns tais traços que contornam o teu rosto. Bem melhor do que fariam as pontas de meus dedos.

Meus dedos circulam tua falta de círculos. Das figuras, a menor. Das belas e esferas, um triângulo.

Estrangulando vou. Estragando. Estranhando. Tuas entranhas pressionadas contra meus ossos. E vice-versa. Meu corpo todo arisco. Desta vez, eu arrisco.

Eu te vejo como são vistos os anjos. Nuances. Embriagada lucidez. Se eu te ligar na madrugada, finja não saber que é amor.

O que é amor? Diga que enlouqueci. Deixe que toque, hora ou outra, desisto. Embora eu nunca tenha, verdadeiramente, te tocado - fisico-intelectual-acidental-mente. Embora meu desejo se satisfaça em saber, ao menos, que me saiba. Saiba que estou ali, do outro lado da linha, do outro lado da rua, espiando pela janela. Sendo tanto míope quanto corajoso.

Se teus olhos falassem, eles voariam - ainda não satisfeitos. Ainda não te satisfazendo, te encontro em todas as dimensões. Uma canção, um sonho, um sorriso. Tanto desconcerto que parece até certo.

Parece até que seremos sempre assim.
Oras, parece até que seremos para sempre.
Às vezes.


Segunda-feira, eu te avistei. Eu te avistei apontando na vista mais bela que há - toda aquela que possa ser alcançada pelos olhos. Eu te avisei. Eu te avisei que não seria brincadeira e Deus quis que não escutasse. Atravessou o viaduto, parou no sinaleiro, atravessou a avenida principal, o poste, o muro. Atravessou para um outro lado.


Nunca mais te vi. Entrando, já no fim da tarde, pela porta de vidro espelhado. Olhando para os próprios pés. O mundo sem saber se era narcisismo ou medo. O mundo, mas qual deles? Eu te esperava ali todos os dias. Eu te esperaria, ainda, ali todos os dias.


E se um dia eu não estiver mais aqui? Serão as rosas ainda flores? Serão os céus ainda azuis? E irá amanhecer, ainda, por todos os dias? Se um dia eu não estiver aqui, alguma coisa muda? Ou tudo continuará a falar? Eu continuarei escutando? Ou, para mim, diminuirão o volume?

Mas teu corpo ficava tão mais nítido coberto por lençóis brancos. Tão mais saliente quando deitados no escuro. Tão mais. Tão mais meu. Mais seu. Mais nosso. Mas não mais.


Teu corpo não ficava bem encaixotado. Empacotado. Embalado.
Para viagem?
Parem a viagem. Não pode ser assim.


Assobia, que é para ver se a dor vai embora...
Assobia, que é para ver se a dor vale à pena...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Tango.

O clube faria cinquenta anos, desde sua inauguração, no próximo dia vinte e dois do mês que estava por vir. Há cinquenta anos encontrava-se naquela mesma esquina, sendo uma construção de madeira,de portas e janelas, desde aquele primeiro dia, amarelas, contrastando com a pintura externa vermelha. Durante os cinquenta anos, seu tamanho havia multiplicado aproximadamente três vezes e meio. Dando espaço para outros dois palcos, de capacidade menor do que o primeiro – e principal. E para uma sala reservada – nesta, havia também um palco que mal poderia ser chamado de palco por consistir, basicamente, em uma mesa de pernas serradas. O primeiro proprietário havia falecido quando seriam acesas trinta velas de aniversário do clube. Deixando o local para ser dividido entre milhares de brigas e seus dois filhos. Dois filhos de duas mulheres diferentes, o que trazia complicações ainda maiores na partilha de bens. Entre tapas e, apenas, tapas, o clube se manteve. “El Beso Tango”, uma placa feita à mão, numa esquina pouco movimentada do colorido Caminito. Com os anos alongou-se por quase todo o perímetro da rua. Tornando-se, claramente, o único motivo para que alguém acabasse parando por lá. Cinquenta anos antes de estarmos falando do vigésimo primeiro dia do mês que estaria por vir, o clube inaugurava com setenta cadeiras no primeiro salão, que estavam divididas em treze mesas. No palco principal, um promissor casal tremia em seus primeiros passos frente a um público maior do que o próprio espelho. Promissores, como casal, e como artistas. Dançarinos. Bailarinos. Flutuavam com nuvens sob os pés. Sem ser necessário o uso do ritmo para haver uma explicação, os dois se encontrariam ainda que não contornassem seus corpos. Os dois se encontraram e permaneceriam encontrando-se assim nos dias e anos seguintes. Além do gosto pela dança, os dois sentiam-se tentados por adoçar o café com doce de leite, por adoçar os dias com música, por adoçar as músicas com beijos. Se for preciso descrever o amor, melhor ficar calado para que ele não me escape. Percorrendo quarenta e cinco anos, dançaram todos os dias de mãos dadas, sem serem desgrudadas nem com a brutalidade das revoltas e recessões. Nos últimos cinco, destes quarenta, ela foi definhando até ficar apenas como a melodia da primeira música que dançaram juntos. O câncer e a dureza de mater o brilho num mundo em que tudo morre, se esvai. Embora tivessem prometido regressarem os dois para o mesmo berço, ele ficou a dançar com o vento. Já de cabelos muito mais do que grisalhos, foi perdendo um pouco do gosto pelas luzes do palco, e com a rigidez dos joelhos, foi deslocado para a cozinha. Lá ainda dava para escutar o piano, mesmo quando o barulho dos pratos causava humilhação e resmungos. O argumento era o de que havia um limite de idade para ser útil, e um dos irmãos defendia que o velhinho estivera ali desde o começo, então merecia algum resquício de misericórdia. E o outro dos irmãos atacava dizendo que velhos não servem para nada, não viu que ele quebrou mais dois pratos? Como se pratos valessem mais do que qualquer esperança. Era a lembrança dela saindo apressada do camarim que o mantinha ali. A lembrança dela sentada na bancada da cozinha fofocando e sendo enxotada por acender um cigarro. A lembrança dela rindo de um lado para o outro três minutos antes das portas abrirem. O clube faria cinquenta anos, desde sua inauguração, no próximo dia vinte e dois do mês que estava por vir. E a tradição, aparentemente, pedia por novidades. E o velhinho precisa ir embora, dizia com um talão de cheques na mão. E ele precisou ir. Olhando para trás, as janelas amarelas muito maiores em tamanho e quantidade. A rua muito melhor iluminada. A placa feita à mão intimidada pelo letreiro em neon. A figura dela apoiada ao poste, fumando um cigarro, com uma rosa no cabelo ainda preto. Ele precisou voltar para a casa de dois quartos que tinha o mesmo cheiro desde que, os dois, compraram juntos há quarenta anos atrás. Sentada à mesa, a lembrança dela. Junto à chaleira, a lembrança dela. Debruçada sobre a cama, apoiada na pia. Em todas as paredes, a lembrança dela. Duas vassouras de madeira e palha. A saudade dela. O compasso binário do tango. A lembrança dela. Binário remetendo a dois. A saudade dela. Duas vassouras bem podem acompanhar dois pés. Foi dançando com a ausência dela. Foi sobrevivendo na ausência dela.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Santa Coragem.

Já era tarde quanto vi girar a maçaneta, e abrir, silenciosamente, a porta. Teu cheiro veio antes da própria presença. Já era tarde quando abriu a porta e quebrou-me as pernas. Penso que seja possível a existência de um pacto. Um cruzamento de dados que seleciona algumas pessoas e as predispõem a isso, a estarem ligadas. Ainda que, por alguns momentos, pareça não haver nada para mantê-las assim. Nenhuma música, nenhum poeta, nada em comum. Nenhum hábito ou vício. É possível que exista este pacto e ele se torne perceptível à partir do segundo em que estas pessoas predestinadas – uma a outra – se encontram. Um estalo inaudível, no lado escuro da mente. Inaudível, mas também inegável. Que mexe e remexe tudo que acontece do lado de dentro – e, assim, as consequências. Já era tarde, porque nenhum de nós dois esperava. Dentro, tão dentro, de maneira a tornar-se inevitável – pela distância torná-lo inalcançável. Aconteceu. A cor dos olhares mudou. Dos nossos, quando direcionados apenas para nós. Para outros, o mundo permaneceu o mesmo. Girando, e girando. Sem pausas, sem fim. Todas as pessoas que quis, acabei amando. Assim meio amor atropelado pela pressa. Mas nem por isso menos amor. Nem por isso menos verdadeiro. Mas eis que existiu você. Naquele momento, em minha vida, em meu coração. E foi existindo, como se nascesse de novo a cada dia, como se aumentasse a cada vez que o ponteiro se deslocava. Fui amando amores sendo completamente seu. Sem poder, nem querer, fugir. Sem precisar escapar. Sem amarrras, era mesmo todo seu. E por partes – de tempo ou de corpo – de alguns outros. Amores tortos. E eu sentia tua falta sem nem saber tua textura. E, saiba que, eu pensava em ti sem nem saber quem eras. Além dos olhos, por detrás do sorriso - que não separava o teu envelhecimento da infância. Sorriso que percorria meus dias. Como um medalhão, numa corrente, escondido pela camisa. Uma fé que se tem, mas que se esconde. Um algo além, no qual se acredita. É preciso, sempre, acreditar. O gosto que atravessava teu nome. A tua marca favorita de perfume. A gente só se sabia como dois seres pertencentes a um mesmo mundo. Num mesmo centro urbano. Um mesmo caminho pelas manhãs. Duas presenças reservadas a presenciarem-se assim. Num desconcerto mesclado com timidez e encanto. Um estalo que se reconhece, mas não se compreende. Sem que pedíssemos fizeram-nos assim. E de alguma forma negamos. Fui livrando-me das tentações, mas era sempre a cor de nossos olhares que assentava meu corpo na cama. Independendo do corpo que punha-se a deitar comigo. Eu estava sempre a te trair, mas nunca estive contigo. Teu corpo colado ao meu era só saudade. Lembrança de um tempo que nunca existiu. Vontade de deixar claro que nos reconheceríamos até mesmo no escuro. Já era tarde quando eu quis desafiar o mundo para chegar até o seu – bem quando percebi que era nele que eu pertencia. Não fui, por muito tempo, letrado nisto de significado das coisas. De retirar camadas até enxergar o epicentro dos fenômenos – entende-se “sensações”. Com o tempo foi tornando-se cada vez mais difícil deslocar meu pensamento do pensar-em-ti. Viver-em-ti. Remoer-me-em-ti. Desejar-me-em-ti. E percebi que todo o resto, era só o resto. E que, agora, só me faltaria a coragem de te contar tudo isso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Céu Estrelado.

Sexta-feira, beirando o nascer-do-sol, quando enfileirou os livros no comprimento do corredor, deitou-se no piso frio da cozinha, apontou o nariz para o céu e disse: faz tempo que não olho para o teto. Depois reclamou das marcas de bolor, e cantarolou com experiência uma das mais antigas de Bethânia - era uma mesma música que cantarolava sempre ao sentir-se encarceirada ou doída. Faz tempo que não olho para o alto, e tentou puxar-me pelos pêlos da perna, como se esperasse que, com aquele sutil toque, eu me abaixasse para escutá-la mais de perto. Não pude não estar inquieto. Nem pude deixar de passar claramente isto a ela. De um lado para o outro, a sola arrastando no chão. Um barulho repetitivo, sem pausas. Dava a mesma agonia de unhas indo e voltando na lousa. De repente senti-me tal como o moleque de treze anos que fui e precisei deixar para trás. De repente senti-me degradado pelos tempos que atravessam as fibras, dermes, virtudes, e logo mais passam. De repente senti-me acuado, como se aqueles treze anos e a lembrança deles fossem responsáveis por um tremor nos dedos na hora de apertar o gatilho. Sem palavras, ela estava a dizer-me que iria embora. Sem ouví-las, aquelas palavras foram perturbando quaisquer resquícios de sanidade. O jardim era florido, até transformar-se em deserto. Das formosas pétalas de rosa, até o ensanguentado cactus. Pouparia-me do drama, mas nunca de suas analogias e metáforas. Descarrilhou, ponteiros pararam de girar, os passarinhos têm que voar...entende? Os cachos dela espremidos entre sua cabeça e o cheiro de lavanda do produto para o piso. O filtro dos sonhos na porta da cozinha, balançando com a previsão de chuva, e eu lembrando de quando ela voltava da rua carregando uma sacola em cada dedo, trazendo um incenso para cada sentimento, uma cor para cada som, dizendo que essa parada de signos é séria mesma, o rapaz das velas me explicou. Um par de olhos desejosos de enxergar todo o mundo de uma vez só. Ou pedaço por pedaço apenas exigindo muita concentração e calma. Mas ver e absorver tudo. Sentir de tudo. A brisa, as formiguinhas fazendo cócegas nos pés, o cheiro da lama. Sexta-feira, o corredor infestado de títulos e mais títulos, clássicos contemporâneos, marginais, ensaios. Sentado à mesa eu podia ver Schopenhauer, Hagel, um livro-ilustrado sobre flores, outro sobre mapas. Estava tudo desconstruído entre os cômodos. Todas as fases dela. De quando quis ser confeiteira, folheando o caderno de receitas da falecida avó. De quando começou o curso de Filosofia e logo transferiu-se para Arquitetura, estou apaixonada pelo gótico, e me arrastou por inúmeras bibliotecas. Estava ali toda ela. Umas fileiras sobre outras, dando mais de um de mim de altura. Ventou forte e poucos resistiram naquela formação que mal pude compreender a lógica. Assim como era. Inesperadamente formada, vezes frágil e facilmente abatida. Ainda assim nunca perdia o mistério ou o encanto. Nunca deixarei-te sozinho, nunca sinta-se assim, se acaso eu estiver ou parecer longe, fora da cidade, sem celular, e à sua volta as coisas parecerem sufocantes, é só pressionar seus joelhos contra o peito, de alguma forma você saberá que eu estive ali, e ali ficarei para sempre, um ventinho frio, calmo. Abusava das doses de sobriedade, ternura. Não que não sobrasse-lhe tempo para convulsões existenciais. Tinham uma frequência quase que semanal. Remexia-se pelo escritório. Fechando e abrindo as janelas sem nunca saber se seria calor ou frio. Ou nada. A paz pertencia-lhe, e mesmo assim, incomodava-lhe. Naquela Sexta, fui dormir, depois de achar ter escalado e vencido todos os morros em volta dela. Com calma, abri caminho entre os livros, sem saber que, ao amanhecer, não estariam mais lá. E que, em seu lugar, estaria um pequenino envelope:

Que tuas estrelas nunca se desgrudem do céu.

Nunca mais a vi.
Se não nos sonhos.
É lá que eles moram, não é mesmo?
No céu...
Entre as estrelas então.
Foi onde a vi.
Nunca desgrudei-a de mim.
Como foi-me pedido.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ao Gosto.

Na agonia de não fazer nada, de deixar que a ferida seque, que o sangue seque depois de escorrer e escorrer do couro cabeludo até a ponta dos pés. De deixar que o tempo me limpe. Ou te limpe. Ou nos limpe. Para parecermos, se não santos, ao menos, mais puros. Menos amargurados, azedos, cruéis. Para fingirmos que não fomos medíocres o bastante para depositarmos nossa fé e nossa força em algo que não tem pé, nem cabeça, nem muito menos final feliz. Dá raiva. Saber que é tudo assim. Que tudo sempre acaba assim. Que ela segurou minha mão, depois de segurar a sua, antes dele segurar a dela e, ao mesmo tempo, a minha, e que todos ficamos girando, pulando, numa ciranda sem fim. Onde tudo vai e volta. Ou então se disfarça e depois aparece com outro nome. Estava tão seco que as lágrimas secaram antes de saírem dos olhos. E era tudo dourado. Às vezes parecia estar pegando fogo. Depois era branco. Depois era prata. Depois era cinza. E não haviam mais águas nos lagos. Era quando as pálpebras se deitavam independentes do resto. Abri uma garrafa de vinho, sentei-me na sala, as costas bem apoiadas na parede. O piso estava bem frio para dias de Agosto. Gole por gole eu fui reconstruir meu passado - acreditando ser possível não deixar passar nenhum cílio ao rememorar anos e anos. Primeiro o êxtase, depois a decepção. Decepção no sentido de saber que as coisas sempre percorrem a mesma linha. Só mudam as pedras. Que pedras? Foda-se, uma forma de demarcar do caminho. Entrelaçando forte os dedos e dizendo: por lá voltaremos. E não voltamos mais. Só afirmamos a consciência do retorno para dar segurança de que, se algo, qualquer coisa, der errado, saberemos por onde voltar para fazer tudo certo de novo. A gente se esquece dessa possibilidade de segunda terceira quarta quinta infinitas chances. É como sair para um mergulho. Ir conhecer as cachoeiras. Estrada de terra no calor de Domingo. Tão lindo, tão sol, tão belo, e caímos. Desperdiçamos os anos, estouramos os limites, riscamos os dias. No fim - quando há um - não há mais nada. Não há nada de romântico no amor. O romance está na solidão, e nas maneiras que buscamos para livrar-nos dela. A verdade é que só se é livre quando se torna possível diferenciar as coisas. Amor de solidão. Mágoa de aflição. Tontura de ideologia. Quando eu te conheci pensei que tinha os olhos mais tristes que já tinha visto. Mesmo eles sendo grandes e redondos, era como olhar para um cômodo sem quartos, algo que não quisesse ter nada que pudesse relembrar o passado. É como se carregasse um fardo que, de tão grande, acabasse fazendo o esforço ao contrário. Eram uns anões que te suspendiam e faziam com que você levitasse, para que não estivesse com os pés no chão, mas que para também não ficasse tão longe. Haviam dias em que você acordava parecendo que aceitaria viver tudo de novo, mas essa impressão logo passava. Nunca pude afirmar com certeza se seu nome era realmente seu nome. Se suas palavras foram sentimentos ou somente palavras. Não posso negar, me enlouquecia vê-la sempre desnorteada daquele jeito. Mesmo que eu amasse, sem exceção, cada um dos seus poros. Quando as coisas começavam a parecer passado, era quando você ia escapando pelas beiradas. Um jogador que simula um desmaio para sair, sem aparente culpa, do campo. Não escutei fechar a porta. Houve um momento em que sentei-me na varanda, tirei os sapatos, depois as meias, escostei os pés no chão gelado: esvaziei, como uma bexiga depois de muitas horas exposta à luz. Não importam quantas horas, nem o número de dias. Não me importa se demasiado tarde ou quase cedo. Se viram nas cartas ou se foi só um aperto no peito. Há algo que incomoda, mas que ninguém vê: é a incerteza. Com a certeza de tudo ou não. Carregados de mágoa, malas ou de nada. Nós vamos atravessar Agosto.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dentro.

Não há nada nela, nada para dintinguí-la dos protozoários, dos chipanzés, dos outros seres-humanos, dos porcos. Não há nada nela que me alegre - ou até me entristeça - de forma única. Nada de brilhante, que me faça subir pelas paredes ou implorar por mais um toque. Instintivamente, insisto. Como vivem a dizer que há sempre uma luz no fim do túnel, procuro e procuro pelos buracos - até então sem saída - dela. Eu me canso. São nesses momentos em que a vejo como um parasita. Um intruso. Não abri a porta, mas entrou, se alojou e vive a tentar tomar conta de mim. Como se poetas pudessem ser domados. Não que eu me considere um, é claro. Seria por demais presunçoso. Mas eu tenho a certeza de que não sou um cavalo, nem um mico. Quero dizer que me rebelo, e não é um ser medíocre de pouco mais de um metro e meio que fará com que eu me finja de morto e lamba seus pés nos fins de tarde. Primeiro que seus dedos são feios, meio tortos, nada simétricos. Suas unhas também não são das mais bens cuidadas, e a verdade é que há um mal cheiro que fica impregnado bem distante. Segundo que talvez seus pés sejam lindos, ou até perfeitos, mas o que eu quero é achar dispariedades, inconsistências, para que eu possa fugir sem deixar um telefone de contato, ou endereço. É que eu cresci achando que todo sentimento deveria ser o maior do mundo. E agora estou frente e frente com uma toalha de mesa florida e contas de água e luz. Não há paixão ou euforia que resista à realidade. É que todo beijo deveria arrancar suspiros e agora durmo abraçado com um corpo que nunca imaginei, ou desejei - sem antes tê-lo. E ainda dizem que existem pessoas que não são cruéis. Mas é que se não fosse a necessidade humana, eu estaria muito bem sem ela. Todos estaríamos muito bem sozinhos. Talvez uma foda ou outra para descarregar um pouco do peso que, hoje, parece ser impossível suportar com um só par de braços. Se eu pudesse ter previsto que a vida, querendo ou não, seria sempre assim tão medíocre, eu não teria alimentado a espera por amores descontrolados e agressivos. E hoje eu aceitaria dormir só com um bicho de pelúcia ou uma garrafa de rum. A gente envelhece e vai percebendo que passou todo o tempo esperando que a vida começasse. Passou todo e tanto tempo que sequer percebeu quando ela começou. Mas isso se dá, também, porque a vida não se difere muito das outras coisas. É um mingau de aveia, sem gosto, nem cor. Uma poça de lama, que não anima, nem reflete. Uma pedrinha tão pequena no chão que ninguém nem tem a vontade de chutar. Não há nada nela que me dê força. Ou que enfraqueça meus joelhos. Nada nela que me faça ir adiante. Ou querer voltar no tempo. Nada nela que me desperte. Ou que me deixe no estado constante de quem, sábio, sonha acordado. Não há nada meu nela. Mas não consigo, também, tirá-la de mim.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dor É Isso.

Tudo estava na forma como ela me segurava. Não na forma como ela me segurava ao mundo – disso ela sequer sabia. Desinteressada em ter-me sempre por perto, ou em ter-me, simplesmente. Tudo estava na forma como ela sorria. Pela boca, e pelos olhos, sorria de corpo inteiro. A forma como me segurava, bem, refiro-me às suas mãos – com palmas estranhamente vermelhas, apesar do resto do corpo pecaminosamente moreno -, e aos seus dedos. Como eles se espremiam contra mim, e traziam-na para perto, com suas unhas pequeninas e descascadas de esmalte preto. A forma como dirigia, sem nem olhar para frente ou para os lados, com os vidros todos abertos, os limites de velocidade ignorados, o som no volume máximo. Gostava de fado, e enquanto escutava, tentava emitir os mesmos sons das palavras cantadas, e enquanto tentava me escutar, e prestar atenção, ria. Como ria...ria tão fácil. Se eu já não fosse feliz, ela poderia ter me transformado. Para atingir a doçura das coisas pequenas, e simples. Se eu, em um maço de folhas, fosse escrever minhas memórias, com certeza a colocaria entre elas. Um número não muito grande de páginas. Mas seriam todas lilás, com uma macieira vistosa no canto superior, e maçãs caídas entre as palavras, e raízes atravessando as folhas. Se fui invadido? Deus queira nunca mais reabrir meus poros. Pelo medo de que o cheiro dela me escape. Uma vez, eu de pé lavando a louça, ela surgiu para trás e se apertou tanto contra mim que senti sair meu estômago. Murmurrou algo que não quis repetir. Interpretei como um daqueles momento em quê o que se quer dizer é algo tão denso, tão grande, que acabamos perdendo o sentido. Um impulso. Você vê? Você entende? Algo ali me disse que era amor, ou caminhava para isso. Que não levaríamos muito tempo até deitarmos nossos temores um no outro – amor é tratamento para o medo e, ao mesmo tempo, agravante. Tínhamos uma ligação muito particular. Muito nossa. Ela só me procurava quando me queria, precisava. Eu só a procurava o tempo todo, todo dia. Mesmo não acreditando em nada disso, eu fingia que sim, para ver se a convencia do mesmo. Entrega? Isso é bem coisa de idiotas. E ela ria mesmo depois de dizer coisas como essa. Ignorava minha esperança naquilo. Dizia que sim, acreditava no amor, mas como algo pleno, que nunca pode ser encarceirado ou domado, algo independente que só funciona flutuando numa outra esfera qualquer. Depois de um tempo eu comecei a achar que ela usava demais das drogas todas. Aliás, ela gostava de tomar até o último gole, nunca deixar nem um grão, de puxar todos os fios. Era engraçada a forma como eu a cercava de todos os lados e ela, às vezes, ria, às vezes, fugia. Uma vez sumiu por quase um mês. Ela sabia como me segurar só apontando o dedo para o céu. Dentre as coisas mais gostosas, estavam as marcas de batom que ficavam no meu pescoço toda vez que nos encontrávamos. Os recadinhos que ela escondia pela minha casa. Os discos que saíamos para comprar juntos – geralmente nas Quartas, no fim de tarde, quando acontecia uma apresentação de blues no centro da cidade. E a mania de encaixar um café a todos os nossos encontros. Precisava ser quentinho. Café de garrafa. Senão não valia. Teve uma vez de sairmos correndo pela chuva atrás de algum lugar que satisfizesse esse nosso capricho. Chovia tanto que a água subiu até os joelhos. Lembro de pegá-la à força e colocá-la nas costas, não parou de se debater por um minuto, até que eu a soltasse. Reclamava tanto do couro molhado do estúpido sapato novo, que eu decidi pelo extremismo. Era tudo muito estúpido, para ser sincero, inclusive, ainda guardar estas lembranças, também é algo assim. Acho que as coisas se vão para ensinar um pouco mais sobre a saudade. A nostalgia. O passar dos anos. A saudade é a moeda que dita o valor de cada uma das coisas na vida de alguém. A importância. Tem até saudade de algo presente. Às vezes a gente está entre as pernas de uma pessoa e tudo que a gente mais deseja é estar entre os braços de uma outra. A gente sente falta de um amor, mesmo o tendo encontrado de novo. É que as formas mudam e muita coisa encontra dificuldade em se adaptar. Tudo está na forma como nos conformamos com as coisas. Sei lá, tudo estava na forma como ela se desprendia de todas as outras coisas que eu já havia visto no mundo. Uma pinta sobre os lábios, o rosto formando risquinhos toda vez que ela sorria – e cada um daqueles mil risquinhos sendo um único -, o esmalte preto descascado, os sapatos novos nos pés pequenos, uma mão no volante e a outra para fora da janela. Tudo estava na forma como ela dava graça a tudo. Se eu tivesse que reescrever nossa história – apesar de odiar essa expressão, “nossa história” para uma história que, no final, será igual a de todo mundo -, eu a pontuaria da mesma forma. Cheia de exclamações, apressada, sem vírgulas, como se tudo precisasse ser dito em um fôlego só. Quando ela pulava de cabeça na piscina à noite, e meu coração apertava com o medo de que errasse na força ou pegasse muito frio. Quando, pensando nela, meu peito ainda dói e as mãos ainda suam. Quando, relembrando das coisas, eu sei que nada foi ruim, mas que foi tudo necessário. Quando ela beijava meus lábios e tinha gosto de outros. Quando eu beijei outros lábios e não eram mais os dela. Quando eu soube que arriscaria tudo. Hoje eu sei que arriscaria de novo. Tudo está na forma como ela me empurrou para o mundo. Tirou a rodinha e me obrigou a descer a ladeira sozinho. Na forma como não durou, mas pareceu eterno. Tudo está na forma como ela sequer imagina. E, sem imaginar, liga às duas da madrugada pensando que está tudo bem me amar um pouco para me lembrar de como era me sentir assim. Tudo está na forma como ela não liga para nada, mas, mesmo assim, ainda tem gravado o meu número.