segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Liberté.

Eu quero que você siga em frente. Como se não fosse tão difícil. E não precisa olhar para trás. Alguém ainda vai aparecer. Mesmo que eu não queira. Algo não nos quis juntos. Mesmo nós ainda querendo. Algo nos afastou. Então não é de se assustar que, de repente, alguém apareça. Bem na sua frente, e logo depois, ao seu lado. Nas fotos que você pendurará nas paredes da sala. E exibirá para seus filhos, e netos. Alguém que saiba ser o que você precisa. Que eu nunca soube. Então foi tudo um engano, um equívoco. E nós não fomos o que pensamos. Porque não cabíamos. E haviam os outros. Muitos além de nós mesmos. E houveram os encantos, os esbarrões. Então não era de se assustar que, de repente, alguém acontecesse. Eu não mais escrevo, não consigo escrever. É como se não me restassem lágrimas. Como se eu nunca tivesse sabido como chorar. Por aqui, tudo indolor, incolor. Foi assim sua partida. Depois de já ter partido. Eu me olhei, e estava sofrendo. Eu me virei de costas, olhei de novo, e você não estava mais marcada em mim. Eu não pude mais sofrer, nem mais um pouco. Eu não estava preparado, mas aconteceu. Eu não te vi indo embora de mim. Mas sei que, antes, doeu tanto. Doeu sem fim. Pareceu até que eu rumava à morte. Tudo tão trágico, e desesperador. Em nenhum lugar eu cabia sem você encaixada em mim. Não sabiam me consolar. Eu não queria consolo. Eu só queria você de volta. Eu quem fui embora. Quando estive cansado. Desisti de lutar por você, por nós. E passei a lutar comigo mesmo. Foi duro, grosseiro. Estive desorientado, mesmo estando no mesmo lugar. Eu esperava que você voltasse. Eu esperei, por muitas noites, sentado na poltrona próxima a porta, fumando meus cigarros. Eu tinha te prometido que iria parar. Mas eu queria que, mesmo assim, você me aceitasse. Porque assim saberíamos o que havíamos achado saber por tanto tempo: que éramos, éramos um do outro. Você nunca voltou. Muito pelo contrário, foi para ainda mais longe. Não restaram nem sombras, nem uma sombra sequer. Eu te escrevo agora, depois de ter parado por muito tempo. Porque eu queria me lembrar. Queria reconstruir tudo, até encontrar o segundo exato em que você fez as malas e partiu de mim. Se partiu em mim, em micromoléculas de amor e saudade, que foram expelidas pelos meus poros, muito depois de serem expulsas por minhas lágrimas, muito depois de você ter se tornado ausente. Sei do dia em que te conheci, ainda que eu misture com muitos outros rostos. Teria sido um dia como qualquer outro, mas não foi. Você apareceu na minha frente e, logo depois, ao meu lado. Nas fotos que nós penduramos nas paredes da sala. E exibiríamos para nossos filhos, e netos. Um dia, todo o nosso castelo-sonho de futuro se desmoronou. Não quero voltar a falar nisso. Apagaria a lembrança de felicidade que restou. Um dia, você se foi. E ficamos nisso, por enquanto. Enquanto ainda éramos dois seres existindo juntos, era bonito. Funcionava bem, eu sendo inquieto, você sendo brisa. Nós sendo o perfeito incompleto. Sendo juntos, e tudo ficando bem. Você não tinha nada de magnífico, só quando estava em mim. Porque me dava uma calma que não era de minha natureza. Era impossível não gostar de você. Não olhar para você e querer ser seu. Ainda mais quando você olhava com aqueles olhos que não eram de ninguém, mas que precisavam ser. E eu os quis. Foi como aprender a andar de bicicleta. Levou um tempo, foi mudando um pouco a forma, a gente foi tirando as rodinhas, e o negócio foi ficando mais emocionante, mais arriscado, suscetível a quedas. Pareceu, inclusive, a parte em que a gente nunca esquece como pedalar, porque eu tinha a certeza de que nunca me esqueceria de como era ser com você. As certezas se perdem com o tempo. É o que acho, agora. Não sei mais como era. Não sei mais como seria agora. Não consigo pensar. Ao mesmo tempo que quero. Você se foi, é a última coisa da qual me lembro. Sem ter uma visão clara da situação. Você se foi e eu não pude, sequer, insistir mais uma vez para que voltasse. E eu não sofri. Não poderia, porque não percebi. Estava imerso, em algo que eu talvez não saiba o quê. E quando fui sentir sua falta, ela já não estava mais lá. Foi embora junto com você. Em uma tarde quente de verão. Ou não. Em mais uma noite de profunda solidão. Na qual eu percebi que não me sentia mais só, mas sim, liberto. Ainda penso em você, como uma memória turva, uma imagem prestes a ser apagada. Ainda penso em você, como pensarei por vários anos. Como algo que foi embora sem que eu pudesse perceber. Pensarei um pensamento que perdurará por toda a eternidade. Eternidade esta que acabará um dia. Um dia, quando eu me for, você se for, quando nós formos. Ficará uma saudade, que será guardada em segredo. Porque ninguém soube quando você se foi, muito menos eu. Eu ainda te sinto aqui, como um corpo que esquentou a cama, e se pôs a dormir entre outros braços. Eu ainda te sinto aqui como falta. Aquilo que foi, e não voltará mais. Aquilo que foi, e foi apenas. Porque não sobraram formas de definir a perda, nem muito menos a partida. Eu não mais te amo, mas ficou um carinho. Só peço que o deixe comigo. É tudo que me resta de nós.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Que Saudade.

Cabelos cor de fogo. Chama, me chamando, com o risco de queimar, pegar fogo. Se um dia todo dia fosse como um dia qualquer, talvez eu confessasse todos os meus segredos. Os poucos que tenho, que guardam neles muitos outros. Que vão se emendando feito uma teia. Aquela que sustenta a vida. Não vamos falar dela. Um dia eu nasci. Em um outro você também. E estamos no mesmo cenário - que nem de longe é bonito. Mas estamos em um lugar, que por enquanto ainda é o mesmo. Eu depositaria em você toda a minha loucura. Mas está cedo. E ainda faz sol. Mais tarde, talvez veremos chover. E eu seguro, em uma mão, um cigarro. E em outra, uma das suas. A outra, sua também, vai escapolindo, para outros lados. Que eu não enxergo, porque não quero ver, nem saber, nem escutar. Porque tem sido bonito. E seria bom manter assim. Bonito e distante, nada arisco. Ou arriscado. E de nada eu sei. E dizem, melhor assim. No sossego dos beijos desesperados. Mas do coração calmo. Porque não é de ninguém. Já foi, mas aí é passado. E como presente, passou. E eu deveria te contar. Mas é melhor assim, sendo somente silêncio. Eu e você, alguns suspiros. Mas tudo calmo. Porque não há pressa. Então não se apresse, não estou indo embora. Nem você, eu espero. Desesperado, desesperançoso, esperando. É o que temos para hoje. E o resto dos dias. Uma espera constante, desgastante. Mas sabemos, ainda há resquícios. Mas disfarçamos. E vemos os outros. Que não sabem quem somos. E nem nós mesmos sabemos. Ao som de um samba, com uma cerveja, na mesa de um bar. Estamos eu, você e uns outros. E mais, e tanto. Ainda é pouco. Aguentamos. Seguindo em frente. Eu e você. E é cedo, talvez não chova. Os dias têm sido quentes. A gente aguenta. Eu não te conheço. Você não me conhece. A gente se estranha - é isso que faz o novo. A gente se arranha - é preciso deixar marcas. A gente vai indo, com a maré. Aqui não tem mar. Mas a gente vai, daqui para algum lugar. Não sabemos onde, mas um dia encontramos. Estamos sentados, nos olhando, e não sabemos, e evitamos. Mas fingimos que serve, é o que temos. Poderia ser mais. Não sei se ambos queremos. Seu sorriso sorri aqui dentro. Você me lembra dela. Ela não me esquece. A gente vai levando. Eu sinto falta. Mas você faz bem. E bem é só bem. E nada mais. O que poderia ser, a gente vai vendo, sentindo, vivendo. Que saudade de ser amado.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Reminescente.

O que houve antes do término foi uma série de episódios envolvendo medo, crueldade, e incerteza. Eu sabia o que era certo. Você negava. Eu não sabia mais se era tão certo. Você tentava me convencer de que não. Se tratava de uma noite assombrosa, com poucos corpos navegando pelas avenidas, com poucas estrelas nos vigiando do céu. Uns amigos me esperavam na mesa de um bar, confiantes de que eu tomaria a melhor decisão. Tomei. Não tomamos, porque você não concordou. E foi dolorido, sentir suas lágrimas escorrendo pelo ombro que eu te ofereci. E, ainda mais, sentir as minhas escorrendo junto. E as nossas se tornando um choro só. Um canto sofrido, acompanhado do som dos pneus, e da televisão da casa de alguém. O que viria depois era o de se esperar, minha mão enxugando seu rosto. Meus olhos fingindo estarem secos. Meus passos fazendo barulho no gramado carente de chuva. Você ficando para trás. Eu me segurando para não te olhar. Porque, olhando, eu não teria coragem. Mesmo assim, olhei. Olhei e você precisava de mim. Que eu esperasse você ter forças. Eu não pude esperar. Para não salientar meu coração fraco. O que precedeu o término foi amargo. Pois eram recorrentes os pensamentos de que aquilo podia não ser o certo. De que fiz a escolha errada. De que você não soube me impedir. De que, vai ver, você não quisesse. De que fosse realmente seu desejo chegar ao fim. São coisas que eu nunca saberia. E nunca perguntaria. Porque melhor distantes, do que qualquer coisa. A angústia perdurou por muitos dias. Enquanto eu ficava sabendo dos seus sorrisos, e você, da minha fome. Meu coração estava vazio, e eu me alimentei da completude alheia. Uma hora, as coisas haviam de mudar, e foi quando eu percebi que não precisávamos mais um do outro. E enfim, esteve tudo bem. Não, não esteve. Porque eu não podia aceitar a idéia de você sendo outra. Com outros. E, especialmente, a idéia de você sendo feliz. Porque, no momento do término, sua tristeza foi tão profunda que eu poderia jurar que seria eterna. E cruelmente, eu quis que fosse. Que você vivesse de luto, por minha morte em você. Passado esse tempo de te desejar a infelicidade, você não era mais nada. E mesmo que eu quisesse me lembrar de tudo, tudo havia sumido. E eu caminhava por aí, com a certeza de, talvez, te encontrar caminhando também. Mas nossos caminhos se destoaram tanto que eu nunca mais te vi. E não sei mais dizer se você era loira, ou morena. Se era minha, ou se foi só acaso. Se tinha os lábios frutados, ou demasiadamente finos. Não sei nem dizer se te achavas bela. Carrego a certeza de que um dia eu te amei. Talvez em um campo de girassóis, ou no meio de uma guerra civil. Ou eu te amei sem ter cenário, porque nosso amor não foi merecedor de atos heróicos, ou foi inodoro, incolor, insosso. Não sei que amor foi nosso. Mas um dia ele foi. Foi embora. E o processo, embora lento, não foi dolorido. Não tanto quanto esperava. Foi como uma alma saindo de um corpo morto. Seu amor saindo de mim, foi assim. Eu não senti nada. Não estava lá para ver. Mas quem esteve em volta, sentiu. Sentiu as dores e a funebridade da partida. Você deve ter sentido também. Ao ter me procurado e visto que eu já não estava mais lá. Que eu havia me tornado, para você, apenas um corpo hemorrágico. Não sei por onde tem andado. Nunca procurei saber. Se te olhasse agora, talvez perdesse toda a magia do mistério. De não saber quem amei, se foi amor de verdade - posto que dizem que fim de amor é sofrido. Eu não saberia sequer te reconhecer, eu acho. É um jogo da mente para poupar o coração. Ou o coração nunca se ocupou muito contigo. O que importa é saber se está bem. Coisa que eu não sei. Então, talvez, não seja mais tão importante assim. Eu estou bem, caso queira saber. Vi nos olhos de uma mulher, um caminho, uma rua, um mar, um mundo. Estou desvendando o lugar. Depois que me emancipei de você, tive momentos de desacreditar em tudo. O que eu realmente precisava era que acreditassem em mim, e você não foi capaz! Hoje vivo com a certeza de que as escolhas foram certas, e eu não voltaria atrás para corrigir nada. Nada, nem meus piores erros. Se eu voltasse, e fizesse tudo como esperado, talvez eu não fosse capaz de te esquecer de novo. Então está tudo bom como está, e a vida vai indo como tem que ir, e eu não sinto sua falta. Eu nunca senti nada.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

C'est La Vie.

Estamos com tanta raiva, que nunca mais nos olharemos olho no olho. Nunca mais face à face. Nunca mais boca à boca. Nunca mais nos salvaremos. Nos deixaremos morrer. Como morrem as flores, ao decorrer das estações. Seremos cruéis, unha por unha. Olho por olho. Porque tudo que fomos antes, uma hora se transformou. E não faz muito tempo. Então ainda ardemos, ferozes, querendo sangue. Visto que tudo endureceu. E se endureceu tanto, não há mais solução. Solução nenhuma se não nos trocarmos por lapsos de violência e agressividade. Já fomos muito felizes. Em um tempo no qual nossos defeitos ainda eram charmosos, e nossos problemas ainda eram contornáveis. Quando sabíamos perdoar. Quando fingíamos saber, pelo medo de perder. Tanta coisa ficou guardada, tantas palavra que prefirimos não falar. A explosão não foi conjunta, foi individual. Porque as mágoas minhas eram minhas. E os rancores seus eram seus. E nós não sabíamos o que o outro sentia. E já sentíamos coisa demais para saber. No começo, tudo fluiu ao som das mais belas canções. Com direito a flores, e beijos, muitos beijos. E tudo era completamente amor - ao menos caminhávamos para isso. E foi. Foi só amor. Foi amor e desejo. Foi amor e desejo e paixão. Foi amor e desejo e paixão e ciúme. Foi virando uma coisa negativa. Um amor embalado aos sons do desgosto. Dançávamos no ritmo das músicas. Outras vezes, no nosso próprio ritmo. Deixamos levar. Eu sendo levado por outras. Você sendo levada pelo tempo. Houve uma desritmia na forma como concordamos amar. Sem limites. Nem para o amor, nem para nós. Eu ainda lembro do dia em te vi pela primeira vez. Por acaso, você apareceu perante meus olhos. Que olhavam em busca de outros. Mas acabou por serem os seus. Os seus que me acompanharam crescer por anos, que repousaram sobre os meus, que me acalmaram, que me enlouqueceram. Não dávamos certo, era o que diziam. Desde o começo, desde a primeira troca de saliva. E não escutamos. O que hoje, é reconhecido como um erro. E, na época, como um desafio. Que não conseguimos enfrentar, não até o final. Pois hoje estamos separados, vivendo outras aventuras - para não confessar que estamos estagnados na memória de quando éramos dois, e dois somente. Ninguém teve culpa, só nós mesmos. Que deixamos outros entrarem, nos deixando escapar. No simples espaço que separam os dedos - mesmo juntos -, espaço em que sempre cabe mais um. Não há forma fixa para um par de mãos dadas. E ainda que houvesse, são muito tentadores os riscos. O risco que era ela, o risco que era uma outra, o risco que eram todas. Todas pelas quais eu te troquei, ainda que por uma noite só. Para completar minha solitude. Minha existência tão só, que não dependia só de você. Que, na verdade, não dependia sequer delas. Era uma dependência minha em mim. Mas fazia bem sentir o calor de outro corpo. Mais bem ainda, me sentir em outro corpo. Ainda mais em tempos em que você se esquecia do meu. Quando você não via nada mais de belo, nem de terno, nem de seu. Perdemos a ternura, e por isso, perdemos o amor. Ou nunca sequer o tivemos, e foi tudo um engano. E nós dois caímos. Hoje, eu tenho raiva. E sei que você também. Não pelo que passou. Mas pelo que está passando agora: nós. Nós estamos passando um para o outro. E não há nada que possamos fazer. Já tentamos de tudo para nos manter juntos. E agora estamos passando. Como se nada nunca tivesse acontecido. E você está com alguém. E eu também. Mas não parece certo. Não parece porque essa idéia me inquieta. Não que eu não esteja feliz, não que de vez em quando eu não seja convidada para jantar, não que os braços que me confortam não sejam o suficiente. É só que eu e você, eu e você éramos nós. Apesar de tudo, acima de tudo, éramos, e sabíamos como ser. Sabíamos tão bem. Eu me apaixonei por outra. Despretenciosamente, sem achar ter uma chance. Tudo muito sossegado, no tempo certo. Ainda somos eu e ela, sem nos excluirmos em uma palavra. Estamos quase lá. Mas a idéia me assusta. Eu já estava tão acostumado a nós, e levamos tanto para sermos, que tenho medo do caminho. Eu sei que estamos com raiva, e que, por agora, ela talvez seja nossa melhor companhia. Devemos mesmo nos manter afastados. E somente nos presentear com faíscas. Mas existem muitas coisas que eu deveria te dizer. Não são essas que eu te disse agora. Elas virão depois. Depois, quando tudo já estiver curado. E eu puder te olhar nos olhos sem querer te matar. Às vezes penso que melhor morto, se não seu.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Que Dia?

Os berros de uma criança, o incansável latido de um cachorro, os pneus cortando as poças d'água,
Hoje fará sol a maior parte do dia, com chance de pancadas de chuva no fim de tarde em algumas áreas da cidade.

Acordei, rosto inchado, costas doloridas. Sala, e casa, vazia. Mais um dia.
Mais um dia, e o que haverá de especial?

Andei até o banheiro, dando de cara com o espelho, nele o rosto deformado, resultante de um sono, há tanto, acumulado.
E a casa vazia.

O coração vazio. O gosto do esquecimento, do abandono. O frescor da calma. Da falta de alma. Que deixa passar o vento.
O vento.

Que invade pelas janelas, e levanta os papéis na mesa, e os carrega para longe.
A distância.

Não te enxergo de onde estou. Mas sei que aí você está. Pensando em mim, no que aconteceu comigo, no monstro que você acredita que me tornei.
As figuras disformes.

Sombras no escuro das cortinas. Assustadoras. Sombras da solidão.
Foi.

Foi escolha minha. Ter deitado com outro homem. Ter desistido de você, de mim, de tudo.
A consequência.

Um dia eu acordei e já não éramos mais os mesmos. Não existia mais na gente aquele desejo de fazer companhia, carinho, amor. Deixamos que tudo se esgotasse, e não restou mais nada. Mais ninguém para contar nossa história. Não restou uma história. Foi apagada, transferida para outros corpos. Nós, que um dia amamos tanto, viramos nós, que um dia se soltaram. E fomos embora. Você e seu ciúme doentio. Eu e minha sede de mundo. Uma hora já não nos saciávamos mais. Insistimos. Porque é isso que fazem os verdadeiros amores. Lutam, inclusive a pau e pedra, quando acabam os instrumentos de destruição em massa. Não digo que, hoje, sinto sua falta. Não a mesma falta que senti quando te percebi ir embora. Quando isso aconteceu, ainda dormíamos e acordávamos juntos. Mas não estávamos mais lá. Os pensamentos, os desejos, as tentações, tudo nos levava para longe. Nos transportava para outro lugar. Na qual novos braços esperavam abertos. Foi triste e, também, doloroso. Porque apostamos tanto naquilo. Nos achando maiores e especiais. Porque ninguém entendia nosso amor - nem nós mesmos. Se é que aquilo foi amor. Às vezes penso que foi carência, uma dependência, um vício. Era difícil estar perto, mas tão mais difícil estar longe. Lembro das tantas vezes em que nos dispersamos e juramos que iríamos seguir nossos próprios caminhos, sozinhos. Tentativas inúteis de nos afastar. Sempre voltávamos, sendo os portos mais seguros. Fazíamos amor, para apartar as discussões sem fim. Para disfarçar o cheiro de outros, a falta de sintonia nos beijos. Você voltava acostumado a mim, eu voltava acostumada a outro. E era um recomeço. Outra vez, outra chance. Mas não disfarçávamos as mágoas. Porque um dia você me abandonou, e eu te abandonei em resposta. Eu pisei nos seus calos, em todos eles, porque um dia você se esqueceu do meu. Eu te culpava por tudo. Como ainda devo te culpar, mas tento não pensar nisso. Já não posso te guardar com carinho, então te guardo como um pensamento vago, abstrato, distante. Não posso te guardar com carinho ou estarei resgatando tudo. Aquele amor que não deu certo porque não cabia em nós. Porque não cabia a nós dois amar aquele amor imenso que extrapolava os limites da sanidade e do perdão. Perdemos o controle. O tal amor tomou dimensões monstruosas, e vivia na tênue linha que o separava do ódio e da violência. Era grande demais para dois corpos miúdos. Que se agonizavam em posição fetal. Um amor com falência completa de órgãos. Que nos matava mais do que nos deixava vivos. Que deveria ter perdurado por toda a eternidada, mas nós não soubemos dosar. Uma overdose de amor. Tendo como resultado dois corpos separados e mortos. Épico, heróico, morremos juntos de nosso próprio amor. E você seguiu adiante. E eu também. Com meus mortos, pelos meus caminhos tortos. Ou não. Você ainda espera que eu volte. Sendo outra. Eu não te espero mais. Cansei de te esperar. Resolvi pisar fundo na realidade, e você com os dois pés no freio, para ter a certeza de que não se moveria um milímetro sequer. Porque um dia eu poderia voltar, e você ter mudado de lugar, e então nós dois não estaríamos lá. Então estaria sim tudo perdido. Mas tudo se perdeu tão antes. Bem no começo. E o resto foi só persistência. Porque era tão bonito, então não haviam motivos suficientes para o fim. Um erro. O que veio depois foi sempre muito feio, só disfarçava. Eu disfarçando com minhas palavras, e você com seu sorriso santo e compreensivo. Foi tudo uma mentira. Mas nós dois acreditávamos, porque existia o amor. Só não a estabilidade daquilo que o segura. Não tínhamos forças, o que era, às vezes, até bonito. Ver o nosso esforço para fazer daquilo alguma coisa grande, única. Sabíamos, tínhamos ciência, de nossa capacidade - que era pouca perante aquilo tudo. E mesmo assim tentávamos, tentávamos, tentávamos. Mas acabou. Acabou, assim. Em uma palavra só. Eu diria fim. Mas é melhor começo, porque nos dá esperança. De que um dia, um dia, haverá algo de especial.
Que dia é hoje?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Nome da Saudade.

Se eu pudesse dar outro nome pra saudade, sem que fosse nome de flor - mesmo que esta tenha cheiro de uma -, ou nome de estrela - mesmo que esta brilhe mais que qualquer outra. Se eu pudesse dar outro nome para a saudade, eu daria nome de mulher. Um nome que eu não revelo agora, porque seria como abrir minha vida inteira para as metades que me lêem. E eu não vivo de metades, ninguém vive. Nem de leituras, é preciso cavar mais fundo. Naufrágio. É disso que eu preciso, de alguém que naufrague, de alguém que se afunde, comigo. Porque a realidade é grotesca. E de nada adiantam os enganos. De nada adianta se enganar com uma moça bonitinha que exiba um sorriso de lado. De nada adiantariam as moças, nem mesmo as moças! À noite, quem cobre é o escuro. Não há nenhum calor ou odor corporal. Só uma superfície macia para ser tateada pela cegueira da noite. Não te vejo há muito tempo, e é esse tempo que mata. Que dilacera. Que é cortado e estrangulado pela saudade. Tentei me enganar com uma moça sorridente, e bela. Tentei, como tentei. Mas eu menti. Não havia um traço de sorriso sequer. Era apática, indiferente. Poderia jurar que estava morta. Mas não, não estava. Pois um dia eu a vi sorrir com outro. Isso mesmo antes de termos nos acabado. Nós nos acabamos sem nem mesmo termos durado. Foi breve, nada intenso, nada marcante, nada inesquecível. Passou, supersônica. Se me doeu? Bem mais do que deveria, como uma rasteira. E eu bati com a cabeça no chão. Estava tentando me enganar, tentando te esquecer. Eu tinha me esquecido de como se encantar é bom. A gente sempre se esquece das melhores coisas da vida. Eu quase me esqueci de você. Quando vi esse fim trágico, eu estava sendo a maior piada. Dei de cara comigo mesmo. Um talentoso criador de fantasias. Estive tão ocupado tentando viver. Viver para poder anotar cada traço, gravar cada imagem, e enfim colocá-los aqui. Somente para ter algo para narrar, contar, acusar. Se sofri foi por escolha. Por solidão. É deveras triste depender do sofrimento para viver. Pior ainda, é admitir tal vazio. É esse vazio que carrego. Feito um fardo, que veio desde a infância. Desde aquele momento distante em que meu avô me pôs de frente à máquina de escrever e me pediu para inventar uma história. Ali, eu contei a história de um cachorro que viveu sozinho até não aguentar mais, e se jogar na frente de um carro, na Avenida Paulista, com os faróis já acesos, na hora rush. Eu nunca contei minha história. A do rapaz por detrás dos óculos de hastes pretas, do sorriso alinhado, e com o charme tentador dos perdidos. É muito fácil cair nos meus enganos, nas minhas palavras e nos meus romances. Tão agridoces e misteriosos. Não há mistério. Está tudo escrito. Todos os acentos e acenos. Principalmente os adeus. Tudo que foi embora, principalmente o que ficou. Pois revelo agora que não houve drama, nem lágrimas, nem flores ou amores para anteceder. Se trata de uma bela atuação. Na qual eu sou autor, causa, consequência e personagem, de todas as histórias. Todas medidas com antecipação, para haver o devido preparo, a tamanha cautela com a qual eu calculo qualquer gesto. Não existem impulsos. E as paixões não foram violentas, nem degradantes. Todas eram mulheres, devastadas pelo meu egoísta desejo de torná-las musas. Musas de um pintor sem tela, de um músico sem ritmo. Pediram-me sinceridade e eu a entrego enfeitada. Em letra cursiva, com minha assinatura ao final. E um beijo doce e longíquo. E também, indiferente. Aqui estou eu, fumando um cigarro, completamente despido. Não há luz do luar invadindo as frestas da cortina, nem uma mulher nua na cama. Só tenho comigo uma ressaca desumana e uma reflexão à respeito da vida. Que eu nunca vivi, satisfeito em desenhar cenários de perdas e encontros. Eu sou o homem dos encontros. Extremamente desencontrado e que, nem homem mais é. Pois perdeu toda a virilidade e todo o encanto da pele macia e das palavras ousadas. Eu falava da saudade quando resolvi falar de mim. Pois é dela que eu vivo, me alimento, me aqueço. Saudade daquilo que não foi pelo simples fato: eu não quis. Pois saudade para mim tem nome, de flor, de estrela, de amor - o verdadeiro e não o rabiscado aqui -, tem nome de mulher. Porque ela seria, para mim, tudo isso em uma coisa só. Um ser pequeno, quase minúsculo. De cabelos quase longos. E sorrisos quase duros. De outra cidade. Talvez de outro mundo. Um ser real, de carne, osso e de mim. Às vezes eu me pego pensando que talvez ela não exista. Que ela seja mais uma das projeções da minha imaginação que surgem na cabeça e descem até a ponta da caneta. Talvez ela seja alguma coisa entre tudo isso que eu escrevi aqui. E talvez eu esteja sofrendo de tantos males que me peguei apaixonado por uma das minhas personagens. E ela seria a mais bela e mais humana de todas elas. No fundo, eu sei que ela existe. Quase em outro continente, mas existe. Numa ilha de dimensões mínimas. Cercada por oceanos e outros. Muitos outros. Menos pecaminosos que eu. Que não tentam se enganar por pequenas moças de saias rodadas, com cheiro de frutas e de ervas. Que não se alucinam com qualquer troca de olhares que poderá se tornar fruto de uma obra prima. Minha saudade tem o mesmo nome que ela, e origem, e endereço. Minha saudade é toda ela. E ela é toda minha. Ou quase.

Jasmim.

Acordei e segui como seguem os mortais. E quis te escrever pois, há tempo, não te escrevo. Eu tentei recordar do seu rosto, mas só me restaram as sombras e alguns contornos. E a cor de seus cabelos. Sua cor de fogo. Acordei atrasado, como de costume. Só tomei um café, um resquício de café que havia restado da semana passada. Quando eu ainda tinha alguém para me servir de quitutes e amores. Apalpei a cama, coberta por morros de edredons, em busca de algum corpo que eu pudesse ter esquecido por lá. Não havia corpo algum. Conquistei, com a pressa, uma dor de cabeça de deixar tonto. E por muito tempo eu ainda caminhei exalando o cheiro de ressaca. O sol estava aos berros do lado de fora de meu apartamento. E de repente, eu percebi que havia escolhido o traje errado. Da última vez que nos falamos, eu estava vivendo com uma mulher mais velha, e você queria combinar uma ida ao cinema. Eu não pude, e senti muito. Porque não inventei uma desculpa esfarrapada, muito pelo contrário, eu fui o mais sincero que pude. Você ou ela, simples assim. Foi a escolha que ela me impôs. E você, retrato em preto e branco do passado, ainda que fosse capaz de me puxar sem levantar um dedo sequer, já era uma intrusa conhecida por meus anticorpos. E ela era o novo, com alguns fios de cabelo grisalhos, mas o novo. A aventura com ela durou, mais do que a minha com você. Não foram muitos os anos, mas foram muitos os momentos. Lembro-me dela com mais clareza, não pela pouca distância de tempo. Mas porque foi céu aberto, sem pancadas de chuva - ou pancadas de outra natureza. Você sempre foi o inesperado. O meu inesperado. Minha bonequinha russa que se abria e tomava diferentes formas e tamanhos. Eu peguei o carro e dirigi até o trabalho. Da maneira mais simples que poderia ser. Eu não tenho que te contar dos detalhes, como o pneu furado e as barras da calça sujas de lama. Também não tenho que te contar que cheguei no escritório e a primeira coisa que abri foi o zíper da saia de uma mulher. Na verdade, eu não tenho que te contar nada. Mas te escrevo, porque você é meu único segredo. Eu nunca te contei para ninguém. Você dizia que fazia bem, afastar os olhares invejosos. E eu sei que todos nos invejariam. Porque tudo parecia uma maravilha. E foi maravilhoso. Na hora do almoço eu parti sozinho. Acho que eu queria que sentissem pena de mim. Pois lá estava eu, calado, enquanto todos conversavam e gesticulavam em demasia. Lembrei-me dela, a que não você. De uma tarde que passamos no parque. Não lembro o que fizemos, mas foi algo compatível ao nada. E foi um dos nossos melhores momentos. E eu consigo lembrar exatamente do rosto dela. Que brilhava mais com a luz do sol. Dos olhos dela, que ficavam menores a cada vez que diminuía a sombra. Eu quis que vocês se conhecessem. Mas ela tinha medo. Ela tinha medo porque achava que você exercia sobre mim um poder inagualável. E, até hoje, eu não sei se ela estava realmente certa. Um poder ou um encanto. Qualquer coisa assim, diferente. Ela morria de ciúmes toda vez que eu citava seu nome. Vinha me dizer que meus olhos tomavam um brilho único, e que meu corpo parecia mais resistente. Ela sempre soube que eu te amei de verdade. Coisa que eu só deixei que você soubesse tempos depois de ter partido. Quando eu, mesmo sem fôlego, corri atrás de você. Persegui sua sombra. É de um espanto enorme saber que faz tanto tempo. E que se nos cruzássemos na rua, as chances de reconhecimento seriam mínimas. Eu voltei para o trabalho, e mesmo não movendo um milímetro, eu me sentia tão cansado. Mas o dia estava bonito. Dava para ver da janela uns mil gramados. Todos bem verdes. Tem chovido por aqui. Pelo menos uma vez ao dia. E a água cai com tamanha vontade que não dá para se esconder dela. Eu preciso te contar, conheci uma mulher que me lembra muito de você. Mas uma versão mais esclarecida. Mas juro, a voz é a mesma. E também o sorriso. Eu enlouqueci de amores por ela, no primeiro minuto. E pensei em largar tudo. Era minha segunda chance de te ter. Nunca me senti tão egoísta. Ela não era você. E apesar da semelhança, eu não tinha motivos o suficiente para dar meu amor a ela. Amá-la por ser quem ela não era. Saímos umas vezes depois. E eu descobri, por detrás de um semblante que eu jurava ser seu, um amor só dela. Mas era um amor platônico. Que não tinha futuro, nada além dos minutos que passássemos juntos, e as juras que sussurrássemos através do telefone. Ela vivia com outro homem. No qual eu não vi nada de muito especial. Ela me enlouqueceu, me adoeceu. Vivemos um romance secreto. Que não durou muito, porque, para ela, não era nada tão grande. Era só um adultério, um crime com armas vermelhas - a cor da paixão, não do sangue. Ainda nos encontramos, de vez em quando. Para partilharmos nosso suor. E para que eu possa sofrer mais um pouco. Visto que é a única maneira de manter nós dois vivos no meu coração. Eu penso nela com frequência, como penso na outra, e em você. Eu já tive muitas mulheres nessa vida. Muitas que hoje são só uma vaga lembrança. Eu tenho um apreço doentio pela perda, pelo sofrimento. Você foi apenas a primeira a reparar nisso. A vivenciar minha loucura. Minha sede de conquistas. Minha coleção de abandonos. Eu amadureci muito. Percebi quando fui tomar um café, no meio do expediente e me peguei, pela primeira vez, não invejando os homens que reconquistaram todas vocês. Eu tive meus dias de sorte. Minhas pétalas de ouro. Meus tão enormes amores que puderam correr soltos. Eu sinto saudades. De uma forma inocente. Santificada. Eu as tornei inalcançáveis, distantes, mágicas, para sanar minha procura de motivos para não tê-las mais. Nunca mais. Nenhuma. Voltei para casa, em meio a despedida do sol. Misturei um café com um maço de cigarros. Café que eu mesmo fiz, se tornou imprescindível e urgente aprender a me virar sozinho. Darei conta, eu acho. Logo, logo, irei dormir. Estou meio embriagado. Começo a me preocupar, o café não deu muito certo, faltou água. Troquei por uma garrafa antiga de whisky. Uma que você mesma me deu. Eu nunca havia tido coragem para abrir, até hoje. Eu precisava te escrever porque sinto falta de conversar contigo. Por enquanto, digo ser só isso. Você não precisa de mais de mim. Você sequer precisa de mim. Enquanto eu, eu te encontro nos lugares mais improváveis, como nos botões das flores de jasmim, nos olhos de outra amada.