quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

É Osso.

"não ter mais nada o que dizer, foder para preencher o vazio, perder até a vontade de foder, se afastar, mas ficando mesmo assim junto, brigar, se reconciliar escondendo que no fundo tudo está morto, ir foder com outros, e depois mais nada".

Vá embora. Já está tarde. Não, não está. O dia está amanhecendo e unindo nossas pálpebras. Mas já está tarde demais para mim. E para você. Para nós dois, quando juntos. Está mais do que tarde. Passamos dos limites. Seu corpo aninhado ao meu torna tudo tão mais difícil. Está difícil de respirar. Embora eu não me sinta sufocado. Estou levando umas pancadas nas costas. E estamos chegando cada vez mais perto. Parece ser a primeira vez. Embora tenha tudo para ser a última. Deverá ser. Eu gosto da proximidade, mas está ficando perigoso. Não podemos regredir agora. Nem assumir nosso encontro. Porque somos um segredo. Por isto estou sussurrando, quase falando em códigos. Não podem nos descobrir. Eu não quero. Eu não deixo. Tenho toda uma vida que construí em volta de ti. E agora arranquei uns tijolos para te ter comigo outra vez. Para te olhar me olhando e te assistir dormir. Não estou me sentindo sozinho. Não é isso, é outra coisa. Coisa que eu não sei. E nem vou ficar para descobrir. Está ficando perigoso, repito. Sinto meus órgãos trabalhando para resgatar aquilo que, um dia, eu deixei para trás. Todo aquele amor, e desejo, e carinho. Nada disso pode voltar. Porque tem gente me esperando do lado de fora. Pessoas que eu encontrei, e que me despertaram de novo. Coisas novas e singulares. Hoje vai fazer sol. Daqui a pouco eu preciso sair. Tenho um encontro. Segui em frente. Você também. Mas ainda assim estamos aqui, enrolados nos cobertores. Passando a ponta dos dedos pelas curvas de nossos corpos. Porque nos sentimos sós e lembramos um do outro. Não, não é solidão. Pode ser saudade. Mas andamos nos encontrando tanto por aí. Estamos andando com umas pessoas tão diferentes das de antes. E andando por caminhos tão distintos. Eu estou acelerando. E você não tira mais o pé do freio. Eu conheci tanta coisa nova. Acho que me tornei mais aberto. Abri mais meu peito. Mas ninguém tem entrado nele. Perdi a disposição para reviver esse tipo de coisa. "Nós procuramos o amor e achamos que o encontramos. Depois vem a queda. De muito alto. É melhor cair do que ficar sempre no chão?" Estou ficando no chão. Tudo bem por aqui. Cada noite é uma novidade. Estou aguçando meu paladar. Cada qual com seu próprio gosto. Você, você continua azeda. Acho que é a idade. Estamos envelhecendo. Já tem, em si, algumas rugas, mas tranquilo, ainda posso contar nos dedos. Parece já ter sofrido tanto. Só não me culpe por isso. Nunca falei que seria seu para sempre. E se falasse, também nunca seria. Existem umas por aí tão mais doces. Tenho cuidado para não ficar viciado. Estou fugindo dessas coisas. Por enquanto só a bebedeira e os cigarros. Tentei experimentar umas coisas diferentes. Mas nada tem funcionado. O que funciona mesmo é o calor de dois corpos. Tipo esse calor que estamos sentindo agora. Mas estou queimando mais por dentro do que por fora. Acho que estou apreensivo por te ter de novo tão perto. Parece mesmo a primeira vez. E seu corpo parece novo. A gente muda tanto com o tempo. E olha que foi pouco esse tempo que passou. Daqui um tempo nós nem nos reconheceremos mais. E terão de nos apresentar de novo. Eu preciso mesmo escutar seu nome. Ainda me dá uns calafrios estranhos. Você me assusta um pouco. Saber tanto de ti me assusta. Não tenho mais nada para decifrar. Somos bons e velhos amantes. Acho que estou de ressaca, meio zonzo. E escuto um zumbido incessante. Está tarde, mesmo cedo. E estou ficando atrasado. Tudo tão frágil. Tudo, absolutamente tudo. Esse espaço pequenino que nos afasta, tão frágil. Estou sentindo o peso do mundo nas costas. A madrugada foi perigosa. Parece que cometemos um crime. Uma selvageria. Um genocídio. E parece que esmaguei as estrelas com meu novo par de sapatos. De repente, sou culpado de tudo. Acho que está na hora de você ir embora. Toma aqui suas roupas, e a minha saudade. Estou tenso com isso. Se nos pegarem aqui, estamos mortos. Deixa que eu arrumo a cama e fecho a porta. Não olhe para os lados, finja que nunca mais esteve aqui, e que nem sabe como anda minha vida. Vai, vai logo. Mas, honey, I miss you. Você pode voltar logo? Não sei aonde guardei minhas cuecas, ando perdendo tudo. Já me atrasei oito vezes para o trabalho só nessa semana. E olha que estou há um ano desempregado. Para você ver, as coisas estão ficando sérias. Um dia desses pulei do sétimo andar porque achava que era um pássaro. Sem você, é osso.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Amanhecer.

Meu amor,
apesar da distância, e do sumiço, e do rompimento, e de tudo isso que veio lentamente e foi embora na velocidade do som. Apesar de mim, de você, de nós, e dos outros, eu preciso que você escute a minha história. Não é preciso responder, nunca foi.


Entre dois dedos, um cigarro. Entre outros cinco dedos, uma lata de cerveja. Sobraram mais três, para apoiarem-se naquele espaço que separa o respeito das costas para a indecência do que vem abaixo. Fuma que nem uma puta velha, eu teria julgado, se não acompanhasse seu ritmo quase frenético. Me olha com seus olhos escuros, mal delineados por um lápis preto, protegido por seus cílios endurecidos e destacados. Sorri meio envergonhada, querendo soltar umas palavras há tanto presas. Me olha pedindo por respostas para as perguntas que não sabe fazer. Dá uma agonia sentir pelos olhos o fardo que carrega. E que tenta esconder, sem muito sucesso. Tem um quê de abandono e descrença. Que também, sem sucesso, tenta esconder. E de vez em quando se perde nos próprios pensamentos, e olha para o teto, e olha para a rua, e olha para chuva, e olha para o nada. Dá um trago, e me puxa para perto. Mais perto do que isso, só se eu entrasse na vida dela. E fizesse parte, e partilhasse disso tudo que ela carrega. E então me beija. E eu sinto um mistura de saliva, menta, tabaco, e tristeza. E me dá uma vontade tão grande de cuidar dela. De colocar para dormir e encostar meus lábios em sua testa. Porque não dá para fingir o tempo todo ser tão dura. Não dá para se esconder atrás de um escudo que só ela vê. Ninguém pode proteger alguém de tudo. Mas eu poderia não medir esforços. Porque seu coração pesa tanto, minha menina, eu posso sentir quando você me beija. Seu coração pesa tanto, e você poderia dividir isso comigo. E certas feridas, às vezes, ainda doem tanto, que é preciso de alguém em quem descontar. Me beija de novo, e larga o cigarro, e derruba cerveja. E se atrapalha, e se desconcerta. Ninguém está partido para sempre. Eu prometo. Dá uma aflição ficar tão perto dela, eu me sinto imóvel, incapaz de qualquer movimento bruto. Tão delicada, mesmo com as sobrancelhas arqueadas e o sorriso escondido. Não entende é de nada. E isso é medo de correr perigo acompanhado. Isso é descuido. É tão preocupante se perder por aí. Andar à deriva sozinho. Achando que já viu de tudo. Que vontade de abraçar forte. Mesmo que não goste de abraços. É que parece que vai se desmanchar a qualquer minuto. E sumir com o vento. É tão bela de se olhar. Acho que tudo que tenha tanta carga em si, é belo. Que vontade de prendê-la aqui comigo. Eu tenho tanto isso de cair pelos mais fracos, acho que é a semelhança entre as histórias. Eu lembro quando você fez o mesmo por mim. Trocou meu sorriso e minhas roupas. Tantas, tantas, tantas vezes me pôs para dormir. E me carimbou com um beijo. Eu tinha o mesmo rosto desfeito. A mesma nuvem em cima da cabeça. A mesma vontade de acabar com tudo - porque afinal não havia mais nada. Foi preciso que você me puxasse forte pela mão, e chegasse perto. Tão perto que entrou na minha vida. E fez parte daquilo tudo que me abaixava os ombros. Agridoces lembranças de um passado não tão distante. Eu encontrei, por aí - por aí mesmo, andando sem rumo - esta mulher que te descrevo. E então pensei que pudesse ser forte como você foi. Tão determinada a me fazer melhor e mais leve. Tão desligada daquilo que poderia despencar sobre você. Me escondendo por detrás dos seus braços finos e brancos. Pensei que pudesse. Eu posso, pior que é a verdade. E eu sinto vontade. Eu sinto uma vontade tão grande de cuidar dela como você cuidou de mim. Cuidar mesmo, entregar as pontas e deslocar o centro do mundo para ela. Mas, por um momento, enquanto ela me beijava e eu puxava as pernas dela para mim, me ocorreu que eu não quero. Eu não quero me apaixonar de novo. Eu não quero me apaixonar de novo não sendo por você. Agora vem a parte mais triste: talvez eu mesmo ainda precise de cuidados. Uma toalha quente sobre a testa e uma massagem nos pés caleijados. E um abraço preciso, no qual só dois, somente nós dois, caibam. Ela me olha com uma cara de mulher que não é de ninguém. De mulher que não precisa de ninguém. Mas é só uma menina. Uma menininha assustada com o barulho dos fogos de artifícios, e com medo dos monstros que possam sair do armário. Você se lembra? Eu era exatamente assim, um menininho. Você me fez crescer tanto, e depois eu te abandonei. Porque restaram em mim aqueles sonhos imaturos de mundo imenso e tanta gente. Não é que existe tanta gente por aí? Mas tanta gente desinteressante e desinteressada. Ela foi a primeira mulher - menina - para qual eu olhei - realmente olhei - depois de você. Foi como se eu olhasse para mim numa foto antiga. Até eu perceber que eu ainda era quase o mesmo. Precisei ir embora. Dela, daquilo. Estava cedo demais para mim. Eu ainda não saberia como cuidar de alguém.
Meu amor, um dia eu vou saber?

Pequena.

O som do piano flutuando pelos ouvidos sedentos de voz. Os livros com pinturas de Dalí. A chaleira assobiando. E fumaça, muita fumaça. Branca e branda. Um cenário surrealista. Tão profundamente triste. Um rapaz imerso em seus próprios pensmentos. Uma mulher afogada em lágrimas. A imagem opaca da televisão. Tão profundamente triste. Seremos nós dois daqui um tempo. Quando os anos tiverem passado e o desejo também. Tentando evitar o constrangimento, mas sabendo. Sabendo que aquilo é tudo que nos resta. Os olhares fugazes e os lábios apreensivos. Pernas e braços inquietos. Qualquer música cantada ao fundo. Sem tempo para prestar a devida atenção à letra. Nos sentindo desconexos e incompreendidos. Pensando em uma saída, temendo o caminho até lá. Um, dois, três, maços de cigarro. Acesos, apagados, moídos. Quantas cinzas. Como se tivéssemos sido queimados junto com tudo que estávamos deixando para trás. Quatro, cinco, seis, copos de água. Alguns com açúcar. Que gosto amargo. Os dois complacentes. Convencidos que é isso mesmo de agora para frente. Um em cada canto do cômodo. Na sala. O barulho das janelas batendo nos quartos. Vento forte. Previsão de tempestade e inudamento. Melhor não sairmos daqui por enquanto. Só por enquanto. Nos aguentaremos por mais uns instantes. Até que tudo lá fora se acalme. Levarão horas. A gente aguenta. Os dois se olhando tentando resgatar na lembrança o sentimento. Para ver onde foi que nos entregamos. Para os olhos, talvez o sorriso, talvez o charme. Não nos enxergamos mais como nos enxergamos antes. Havia tanta beleza. Foi perdida, roubada. Talvez pela convivência. Ou pela exigência. De querer ser cada vez mais belo. E ir mostrando as feiúras secretas. Virando dois monstros, que não mais se suportam. Que guardaram tanto os segredos, à ponto de deixarem que saíssem por outro lado. Um enganamento. Estamos sãos, porém não salvos. Cada vez mais encurralados, e difíceis de alcançar. O que há de vir, virá - feito palavras servissem de consolo. É difícil ter lutado tanto para acabar assim. Depois de termos descoberto que não éramos o que procurávamos. Éramos justamente aquilo do qual fugíamos: a mágoa. Por enquanto, tudo isto está longe. Ou estamos tentando nos enganar. Não vejo motivo para fingirmos que somos melhores e chegaremos a algum outro lugar. Podemos traçar planos, alguns vingarão. Outros não. Ainda vemos toda a beleza, com o ar de dois pombinhos apaixonados. Catando qualquer migalha no chão à procura da felicidade. Que felicidade mundana, na qual qualquer coisa já cabe. Você abre os braços para mim, e eu já posso dormir tranquilo. Numa paz profunda, satisfeito com tudo. Me larga de lado e, de repente, de repente, o mundo quase acaba. Para acabarmos nisso. De sermos o oposto do que vinhamos sendo. Vai embora o desejo, a paz, o cortejo. Daqui uns anos não vou mais te procurar para aquietar o coração. Nem vou mais te mandar flores. Ou te chamar com carinho. É esse o caminho. Eu e você na sala. Suportando sem alicerces, balançando com qualquer brisa. Acendendo uns cigarros e encarando a realidade de frente. Como tudo isso parece feio, pequena. Nos imaginar assim: com os pés no chão. Dá um desespero tão grande pensar que daqui, vamos para lá. E que romântico o pensamento de que para gente pode ser diferente. Por mais que amemos, não será. Só quero dividir contigo um pouco deste peso. Porque você é a mais frágil. E eu temo tanto te ver toda quebrada, pequena. Porque vai chegar uma hora que eu não vou mais conseguir te olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem. A não ser que levemos com cinismo. Uma hora vamos procurar outros, por não mais saciarmos nossas vontades. Vai ser tão triste, vai doer tanto. Porque eu falo, falo, falo, mas no fundo ainda vive a esperança. Eu te quero tanto agora, e já sofro com antecedência. Estou me preparando, pequena. Quero estar forte. Vai ser difícil, vou me esconder debaixo da cama e suar frio, e ter alucinações. Vai ser tão sofrido quando não nos amarmos de forma a suportar nós dois, pequena. Não quero te assustar, só se prepara, e se mantenha firme. E não chore na minha frente, por favor, não chore. Eu te amo tanto agora. Tenho tanto medo do que virá depois...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Decreto.

O que devemos falar? Agora que estamos olhando um na cara do outro. Olho à olho, cara à cara, boca à boca. Eu te agradeço por tudo? Muito obrigada? Seja feliz? Pensarei em você com carinho? Eu quero te dar um tapa, e ver se você acorda. Porque seu semblante sonolento está me dando nos nervos. E eu quero que você pare de assoprar o café, e queime logo estes seus lábios pálidos, e sua língua afiada, cruel, insensível. Porque, neste momento, eu apenas te odeio. Simples assim. Só isso. Que vontade de te puxar pelos cabelos e te perguntar se você só se fez de cego ou realmente não me viu durante esse tempo todo. Tudo bem, pode acender seu cigarro. Mas, ao menos, me ofereça um. Sim, eu aceito. Agradeço por dividir seu maço comigo, ainda mais depois de termos dividido uma vida. Já pensou nisso? Foram tantos, e tantos, e tantos anos, que eu perdi as contas. Melhor, parei de contar. Eu prefiri fingir que não existia tempo. Nada de horas, nem meses, joguei no lixo os calendários. Porque o tempo é coisa inventada. E quando a gente ama, e se entrega, ele não existe mesmo. Não existia para mim, mas você precisava me lembrar dos seus compromissos, das horas extras no trabalho, dos diferentes perfumes nas golas de suas camisas. Você acha que só você conheceu o outro lado? É por isso que você respira esse ar superior? Pois o ar é o mesmo, meu querido. Também senti outros perfumes. Tão menos suados e enfumaçados que o seu. Tão desejosos, e tão pretenciosos. Mas eu nunca desejei nada mais do que um afago noturno. Porque depois de um tempo, nem de longe eu te avistava. Eu poderia ter te abandonado, você sabe. Muito antes, muito antes disso tudo. Muito antes de você ter me entregado as chaves, e pendurado a toalha. Mas eu sentia pena, porque você me olhava com aqueles olhinhos de cão perdido toda vez que sentia medo. É, eu sempre disse que olhar para fora assusta. E eu também te amava, não escondo. E me pergunto se um dia você vai encontrar outro amor desses por aí. Porque eu fiz de tudo. Mas você não viu, estava muito ocupado com suas aventuras. E passaram tantos dias, e eu não sei o porquê deste encontro. Mas eu precisava te ver de novo. E sentir o seu cheiro. Agora, tão mais podre. E essa barba mal feita? E esse roxo debaixo dos olhos? Eu precisava de uma oportunidade dessas, para sentir nojo, e fingir que você nunca existiu. Que ódio desses seus olhinhos, lá vem eles de novo. Eu deveria fazer o quê agora? Te pegar no colo? Não seja tão cínico. Por quê você não fala nada? Está mesmo com medo? Acho que você nunca me viu do lado de fora. Dá medo olhar para as sombras, tão desfiguradas. Fala alguma coisa, estou ficando com raiva. Não? Vamos continuar nisso? Porque é, sempre fomos um grande monólogo. Pode falar, eu juro que te escuto. Vai ver o problema for isso, eu nunca ter te escutado, e todo aquele papo de indiferença. Você me dá nojo, é tão pequeno.
- Quero voltar.
Não, vamos deixar assim: silêncio eterno. Porque, enfim, estamos mortos. Um para o outro.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Noite Feliz.

Muita loucura para uma vida só, pensei nisso voltando para casa. Quer dizer, não sei se pensei naquele momento, não me lembro exatamente quando. Mas pensei, e estou pensando de novo agora. A vida vai tomando uns caminhos. Uns caminhos quase próprios, me parece. E a gente a vai perdendo de vista. Vai ficando de mãos atadas, para trás. Esse caminho próprio da vida, talvez seja o que nos leve à morte. Mas qual delas? Quem morre no final? Eu? A vida? O passado? Eu não sei. Eu não sei porque não sei mesmo. Pensar nessas coisas me dá cólica. E eu me contorço. Um corpo minúsculo na cama. Não quero falar de amores, a gente passa tanto tempo falando neles. Nunca estamos livres dos nódulos do amor. Seja paixão ou perda, a gente fala. Vou acender um cigarro. E respirar fundo. E falar profundo. Um cigarro sem filtro. Porque meu pai fumava assim, e a gente guarda essas manias para quando sente saudades. Vou falar da perda. Tenho essa mania de confundir as palavras: perda ou falta ou ausência. Se perder para, enfim, se encontrar. Porque encontro é desencontro e, também, é reencontro. Não sei demarcar limites. Nem os meus próprios. Tenho vivido uma vida tão imunda que, às vezes, sinto ânsia de pensar em mim mesmo. Pois eu tenho me enfiado em cada buraco, e me escondido tanto nas sombras. Sabe quando você só quer jogar para o alto e deixar ser levado? Pois é, joguei e estou sendo levado com a maré. E só vejo água água água. Que visão mais repetitiva. Só de pensar nela, já me vem o jantar à garganta. Mentira, não vem, não jantei. Tenho dispensado as coisas boas da vida. É a pressa. Preciso ver alguma coisa apontar no horizonte, talvez a salvação. Outro cigarro, estou trêmulo. Me sinto enfermo. Não era o objetivo, mas claro que eu acabaria nisso. Você me disse, eles me disseram. E repetiram. Meu Deus, como repetiram que eu iria acabar nisso se seguisse em frente. Mas é preciso lutar contra os próprios demônios. E, meu Deus, são tantos! São tantos, pequenos, grandes, enormes. Todos tem a mesma feição: a minha. Estava me guardando para isso, e machuquei a tantos. Eu pediria desculpas, se fossem válidas, se eu realmente me arrependesse. Mas foi preciso sair atropelando, e ferindo, e falando. Tenho marcas de queimaduras nas mãos. Elas me levam a pensar que eu não estava pensando em nada. Quando deveria. Estou tentando me enganar, dizendo que não posso sair disso. E acendendo um cigarro atrás do outro, fingindo que posso viver com isso. Estive bêbado, e drogado, e apaixonado. Estou tentando experimentar de tudo. E caminhar pelas esquinas. E me esconder nos becos. Tenho tanto medo de toda essa busca ser justamente o meu encontro. E tanto medo de ser justamente esse cara do qual todos falam, que não tem eira, nem beira, nem conserto. Que se esconde por detrás dos cabelos planejadamente bagunçados, e dos lábios avermelhados. E que sai para matar, e volta morto. Sempre morto. Porque não se lembra do que fez, do que sentiu, do que viveu. Porque jogou tudo fora à procura de algo novo. Esse cara que precisa de cuidados, mas recusa quando lhe oferecem. Mais um cigarro. Acho que esse cara sou mesmo eu. Inútil procura que fere tanto. Porque tenho arranhões nos braços e nas costas. Tenho me enfiado em cada buraco, em cada buraco rosado e precioso. Porque você sabe, todo mundo é pedra rara. E eu poderia tanto tirar a brutalidade, e fazer uma jóia. Escolher uma, só uma, lapidar, para ser minha. Mas tenho preferido acender um cigarro atrás do outro, e virar um copo atrás do outro, e me enfiar nos buracos, e depois sair calçando os sapatos, sem fazer barulho. E vagar pela noite. Vestido de escuro. Tudo tão escuro. E eu só me assusto comigo. Eu vim parar nesse beco. E nem becos deveriam existir aqui. Mas eu inventei. Porque sou um destruidor compulsivo. Que fere as feridas. As próprias e as alheias. Porque nada me basta. Absolutamente nada. Não tenho eira, nem beira, nem conserto. Estou afastando a felicidade para abrir caminho. Não sei aonde quero chegar. Não vejo nada à minha frente. Nem luz, nem um raio sequer. Tudo anoiteceu, assim, de repente.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal.

Meu presente de Natal vai ser ir embora. Vai ser te deixar com as lembranças e a ausência. Vou te deixar minha falta. Inteira, vou te deixar sentindo falta de tudo. De tudo que há em mim. E que houve com você. Porque nos perdemos e cansei dessa busca. E não quero mais sofrer. Você mesmo me disse, hora ou outra, a gente cansa, pequena. E fomos parar neste buraco sem fundo. Do qual agora eu saio. Eu saio e te deixo. E não vou olhar para trás. Não apenas porque vai doer, mas porque eu não quero. Chegou minha vez de ser forte, e te olhar nos seus olhos miúdos e dizer que estou indo. E que este é o meu presente, sua libertação. Nossa, minha. E eu te entrego tudo isso em uma caixa, feita à mão. Dentro dela, um envelope. Dentro dele, os restos. O que restou disso tudo, as mágoas e rancores. É chegada aquela hora em que o amor se confunde com o ódio, e nós tendemos à violência. Não quero te machucar. Não quero que você me machuque. Não nos desejo isso neste Natal. Não nos desejo. Apenas. Estou cansada. Extremamente cansada. Desse jogo de vontades e desejos. No qual você me puxa, e eu vou. E eu te empurro, mas você fica. É preciso se afastar, manter a distância. E que tudo fique bem. Tudo ficará. Porque éramos melhores sozinhos, não carregávamos esse peso tremendo de se apoiar na vida do outro. Nossas vidas hão de tomar os rumos certos. E não me procure dizendo que estou me perdendo, me acabando, me fodendo. Há tanto aí fora para aproveitar. E você preso nisso. Essa minha carta é um alerta, um despertar. Eu quero te acordar para o que estamos fazendo, e o tanto que estamos perdendo. Vamos mudar de discurso. E mudar de vida. Vamos mudar. Eu compro outro apartamento. Você compra um cachorro. Vamos fazer dar certo. Porque a gente não deu. Então cuidemos do que resta. Esse mundo infinito aí fora. Tem tanta gente interessante, tem tanta gente, e falta espaço para nós. Estou te dando um fora. Eu te quero fora da minha vida. E achei que nunca fosse te dizer isso. Porque me faltava coragem. Mas estou cheia de certeza. Quando não dá, não deu, já era, é isso, vamos seguir e nos encontrar, quarenta anos depois, enrugados e murchos, saudosos, agradecidos por tudo que aprendemos juntos. Tudo bem, dispenso o reencontro. Vamos nos ignorar, e fingir que nossa miopia aumentou, e passar reto. A vida tem tantas curvas. Tão perigosas. Receio que você acelere e caía. Vamos ter cuidado. Porque eu te quero sã e salvo, para me salvar caso eu precise. Neste Natal, eu dispenso a casa cheia e o verde-vermelho. Quero uma noite em preto e branco. Eu, uns goles, e uns tragos. Porque eu estou te dando de presente minha partida. Então me sinto de luto. Estou te dando minha falta. Em troca, você devia prometer que vai sentí-la. Para eu ainda me sentir amada. Porque serão tempos de muita solidão e dúvida. Eu vou querer voltar. Antes do Ano Novo. Porque não sei mais como as coisas funcionam lá fora. É preciso ser forte ou ser fácil? Estou com um pouco de medo. Mas zele por mim. E não mude de número, ou de olhar, ou de voz e, mais importante, não mude de mim. Espero ter acertado no presente. Acho que vai caber direito. Não há troca. Nem devolução. Minto, vou te ligar e pedir para que me devolva. Porque eu sou muito medrosa. E sem você a vida parece mais dura. Eu sou tão mole com essas coisas. Não se deixe esquecer, imploro. Vou manter minhas palavras. Essas escritas nesta carta. Imploro.
Feliz Natal, mais para você do que para mim.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Odara.

Minha garganta dói. E a vontade de correr me sobe pelos pés. Mas meu corpo todo dói. Então ficarei aqui, parado. Vendo a vida passar, esperando que ela logo passe. Porque tudo isso tem me doído tanto. Este silêncio no qual dividimos sentimentos, e individualizamos palavras. Porque eu sei. E você sabe. E a gente sabe. Sem ser a gente, porque estamos separados. Com nossas dores lacradas por quatro paredes, distintas. Falamos em seguir em frente. Bêbados, falamos em seguir em frente. E seguimos, acho. Não confio em palavras. Em nada daquilo que não posso tocar. Não confio no amor, ele escapa. Os anos vão passar, e tudo irá embora. E restará nada mais do que lembranças. E eu vou me lembrar. E você também. Desse sufoco pelo qual estamos passando. E que pensávamos que seria um alívio. Porque não dá certo. E não deu certo. E não dá mais. Então vamos vestir nossas roupas de gala e nossos sorrisos. Porque hoje a festa começa cedo. E é de despedida. Vou colocar um samba. De agora em diante, só alegria. À quem estamos tentando enganar? Estamos presos nisso. De querer e não poder. De poder, mas não tanto. Hoje me engasguei nas minhas próprias lágrimas. Tem coisa mais solitária que isso? Se eu morresse, a culpa seria toda minha. Mas não morri, e estou vivo. É isso que importa. Ter sobrevivido ao desastre de ser encontrado dez dias depois estatelado no chão da cozinha. Enfim! Odara! Odara! Odara! Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara, pra ficar tudo jóia rara. Qualquer coisa que se sonhara! Os anos vão passar, e vamos encontrar a cura. Uma cura para isso que, na verdade, não quer ser curado. Porque arde, e assim nos sentimos vivos. E nos sentimos juntos. Porque arde em mim, como arde em você. E você pensa em mim, como eu penso em você. E como não demos certo, e como nunca daremos, e o que faremos com esse tempo? Estamos grudados. Sei lá, no caminho a gente encontra. Encontra uma desculpa para sorrir grande, e dormir tranquilo. Como a gente, que não era para ter acontecido, e aconteceu, alguma coisa acontecerá. Acredito nisso. Também acredito em deuses, santidades, e que na vida, uma hora dá certo. Terá de dar. E você vai estar aí do outro lado. E eu aqui, meio estando também ao seu lado, fumando meu cigarro, e passando noites acordado. Aposto que você diria que estou me matando lentamente. Tudo bem, a verdade é que não tenho pressa. Quero aproveitar cada parte desse sentimento que me resta. Estou me remoendo, tentando relembrar para ver se monto de outra forma o quebra-cabeça. Estou quebrando minha cabeça nisso de sentir saudades e de sentir falta e de não poder fazer nada à respeito. Não há nada que possamos fazer à respeito. Estou insandecido, pirado. Como estava antes. É bom me sentir assim, desfigurado. Eu sempre esperei que alguém, um dia, fosse abrir a porta e me tirar de tudo isso. Foi bem isso que você fez, e eu vi a luz lá fora. Quando você vê a luz, é difícil voltar para o escuro. Mas a gente se acostuma. A gente se acostuma a viver ilhado, e pensar besteira, e falar bobagem. Estarei com setenta anos ainda relembrando dos pecados. Faz um bem danado atiçar a memória. Não acredito nisso de que um dia a gente esquece. Eu não quero esquecer de nada. Mas a gente substitui o carinho pela falta. E aí fica tudo bem, odara! Eu aqui fumando meus cigarros, e você seguindo em frente. Vamos lá, né, porque atrás vem gente...