domingo, 28 de fevereiro de 2010

Farinha.

Poucas eram as horas do dia quando sentava-me à única mesa na varanda da padaria. Dava ainda para sentir a brisa fresca da madrugada, e os rastros da lua nas pequenas lamparinas acesas. Mal era preciso erguer o braço, e logo vinha, em uma caneca de barro, meu sossego sem açúcar. Vinha acompanhado do calor de um forno à lenha, uma farta bolinha de trigo, que feito pecado derretia em minha boca ansiosa. Aquietava-me ler o jornal, com o cheiro novo de atraso. Acostumei-me com o pouco, com a solitude, e era com eles que saía, toda manhã, para tomar o café.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Decisões.

Estou há exatas dez horas sem fumar. Sim, o sol apontando na beirada da janela entrega que algumas dessas horas foram passadas em sono profundo ou amassando os lençóis da cama. O que importa, na realidade, são as horas que estou sem fumar desde que acordei. Duas, talvez três...está bem, duas horas e trinta e sete minutos, para ser mais exato. É como se eu não tivesse dormido, nem acordado. Mais do que fundamental é o escorregar da fumaça pela garganta no nascimento de um dia. A ausência de um cigarro é irremediável. O único momento que talvez tenha a mesma necessidade de um trago, é o momento em que acaba de se conceber um amor - ou um capricho da carne -, e aquelas milhares de substâncias sejam necessárias para suprir um suspiro - ora de encanto, ora de tédio. Mas sem o tóxico "Bom dia!", sem o abrir dos olhos ao riscar o primeiro fósforo, sem que possa desenhar círculos projetando a fumaça na boca, um dia não é dia, é excesso de fôlego.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

20h45

O ruído de um velho motor estranha-me os ouvidos, logo depois a cidade se cala. Passando pela calçada, gargalhadas escapam das persianas, logo somem. Murmúrios, e espirros, e passos, e as folhas secas a serem despedaçadas no gramado. Escuto o acender das chamas e o suspiro de um primeiro-último trago. Caminho só, tão só que quase acompanhada. Pudera meu ouvido ser absoluto, a cidade tem se calado tanto...

Não Tão Bom.

Voltaríamos famintos de uma madrugada boêmia de Sábado, e ele acharia cabível minha mistura agridoce. Aceitaria minha incapacidade de dormir do lado esquerdo, minha rouquidão matutina. Não interferiria em minha preferência por café aguado. Não fugiria das poças no asfalto, que tanto traziam-me uma emoção de criança sapeca. Adoraria meus gaguejos românticos, e meus textos gramaticalmente ofensivos. Ele amaria meus excessos e as sobras escapando pelo cós da calça jeans.

Carta(da) Final.

Livre de todos os vícios, tendo acabado de abandonar o ócio, cá estou eu, sob um teto infiltrado, dedicando-lhe palavras que furtei de um dicionário. Empoeirado, deu-me uma crise alérgica terrível, enfraqueceu-me os pulmões. Sempre fui, por natureza, fraco, e enfraqueci-me ainda mais com o tempo que tanto soneguei. Frente a esta tela, de tantas polegadas que não fui capaz de contar - sim, queria sabê-las, para dar tamanho as letras -, escrevo-te uma carta de ano novo - por tantos dias envelhecido. Quero que saibas que aparei os cabelos, cultivo agora alguns cachos dourados de velhice. Tirei todas as tentações do meu cardápio, alimento-me agora de vento, e oras, como tem faltado nessa cidade desértica. Quero contar-lhe também de meus planos, pretendo escrever um livro de memórias, daqueles tempos que quis passar na Dinamarca, mas acabei por passar trancado em casa. Há duas semanas fui ver um médico, de óculos sutilmente largados no nariz, deu-me uma notícia ótima! É maligno, indestrutível e tarado por novos territórios. E, minha cara, caríssima minha, para sua imensurável felicidade, estou parando de fumar, mas antes, pouco antes, pararei de respirar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sincero.

Estava cabisbaixo, lembro-me bem. Meus pés inquietos ensaiavam tropeços na calçada íngreme. E minhas mãos ensaiavam o toque preciso para acender a chama do isqueiro. Olhastes-me com pena e um pouco enojada. Estava eu ali, às avessas, cigarro dependurado nos lábios ressecados, as calças sujas de lama, cabelos desgrenhados. Pôs-se a reparar primeiro em todos os meus defeitos, as falhas gritantes que entregavam-me meramente humano. Desde que te conheci, comprei calças novas e um pente. Guardei o isqueiro no bolso, livre de qualquer toque. Desde que te conheci, ninguém mais fora o suficiente. Nem mesmo você.

Sem Cravo, Sem Canela.

Cortou seus cabelos com a tesoura de costura que restou da última personalidade. Tingiu-os de um marrom mórbido. Lutou para não reconhecer suas sardas nos espelhos. Seu rosto rosado carregava marcas de sol em demasia, e marcas de quem sempre fora. "Excesso, por favor. Encha até que o líquido derrame do copo.". Tinha para lá de seus poucos anos e muita versatilidade. Há tempos atrás, trajada de princesa, servia aos Domingos um banquete medieval. Há tempos mais para frente, vestida em uma saia que cobria os pés, catava orquídeas nos túmulos do cemitério. Havia nascido ruiva, quase um incêndio, mas nos tempos em que evitava-se, havia sido até parcialmente indígena. Sua casa vivia cheia, muitos homens, todos presos a algum marco histórico. Lordes, viajantes, descobridores, magos, magoados, homens. Os incontáveis álbuns de fotos entregavam sua alma aventureira. Louca, diriam. Insana, exclamariam. Segurando um copo d'água, deixava que o líquido incolor escapasse. Tinha sede de vida, de todas menos a dela. O que pudesse ser, sempre seria. Mas nunca, nunca, nunca, Gabriela.