segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Passaporte.

Escreverei-te uma carta, esperando não ser de definitiva despedida. Falarei sobre os campos cobertos de girassóis pelos quais passei, e de como quis vê-los contigo, de como imaginei seus olhos atados àquela paisagem intimidadora. Reparando naquela mescla de cores, visualizei seu sorriso infantil ao vê-la. Comentarei sobre o tempo frio, que tornou-se de impossível convivência. Direi o quão bobo pareço coberto de inúmeras camadas de lã e algodão, e imaginarei-te imaginando-me desta forma, sei que há de gargalhar ininterruptamente por alguns segundos, e depois encerrará as gargalhadas com um suspiro, voltando seus olhos para minha letra descuidada. Levará um susto quando minhas letras anunciarem a proximidade de meu corpo a outro, e esperarei que saibas que, no fundo, foi apenas uma maneira de fazer-te preocupada. Direi estar, no momento em que escrevo, bebendo uma taça de um belo vinho, cujo aroma frutado lembra-me de seu perfume, mas nas entrelinhas deixarei claro que tal perfume nunca escapou-me da lembrança. Contarei como a foto tua que carrego, traz-me saudade, escondendo outras sensações. Terminarei dizendo-te que em breve estarei de volta, que sinto saudades de casa. Esperarei que lembre-se de que não tenho uma, e ofereça-me a tua. Aí então eu largaria a máscara por detrás do envelope selado, compraria uma passagem, e apareceria na tua porta, ajoelhado.

Pés.

Buraco.
Mais buraco.
Um rasgo.
Outro rasgo.
Perfura.
Perdura.
Os anos.
Usamos
desculpas,
palavras,
esparadrapos.
E para dá-los
doamos,
vendemos,
trocamos.
Buracos,
só mais
buracos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Café da Manhã.

Passaria para visitar-te de manhã cedo. Sentaríamos no balcão da padaria, eu pediria um pingado, e você um suco de laranja natural. Você olharia-me nos olhos, puxaria-me para perto, riria quando minha cadeira cambaleasse, lamberia os lábios, respiraria fundo e diria que amava-me. Eu diria que amava-te mais. Tu olharia-me com aquela cara de quem não entendia como, e então eu diria-te os porquês. Tu acrescentaria os portantos, e por pouco não deixaria escapar os entretantos. Eu queimaria minha língua com o pingado, tu dirias que o acontecido só se dera por eu ser tão boba. Jogaria em ti a culpa de minha bobeira. Tu olharia-me com aquela cara de quem não entendia como, e então eu diria-te quando. Tu pediria pela data, mas minha memória mostraria-se fraca. Teu suco viria com gelo, e então eu exaltaria-me como se deixassem-te morrer na maca do hospital. Tu dirias não ter visto problema, e passaria a mão por minha perna. Eu então acalmaria-me, beijaria teus lábios, que já molhados narrariam teu amor por mim. Eu olharia-te com aquela cara de quem não entendia como, faltariam-te os porquês. Diria-te os portantos, os para quê, e o para sempre.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Estações.

Poderíamos ter seguido, mas preferimos sentar-nos para o tempo. Fizemos sala para a vida. Fizemos quarto para o amor. Montamos uma casa, um jardim, um quebra-cabeça. Montamos um ao outro. Esperamos a Primavera, ela veio. Passeamos com o verão. Permanecemos calados junto ao Outono. Escondemo-nos do Inverno que nos encontrou. Foi quando te levantastes e fiquei perplexa. Despediu-se da vida. Deu às costas para o amor. Demolimos a casa, fizemos do jardim um cemitério, perdemos as peças. Demolimos um ao outro. Esperamos as estações, não vieram. Ficamos na mesma estação indefinida. O trem chegou. Você partiu. E partiu-nos em cada pedaço que reescrevo aqui.

http://apaixonar-seasos.blogspot.com/

Despedi-me sim. Apertei-lhe a mão e o peito. Incomodou-se sim. Acomodou o incômodo até tornar-se imperceptível. Parti pela janela, pulei. Fui notada, louvada, levada para nunca mais e nunca menos. Não sentes pois nunca sentiu. Por meio desta, tento lembrar-te, tendo fazer-te acordar. No entanto, não consigo. Fui apenas uma miragem, cujo frescor e o vento, esqueceram-te de avisar, nunca existiu, nem nunca existirá.

Do blog: http://apaixonar-seasos.blogspot.com/

Defunto.

Assustei-me. Assustei-me quando enxerguei-te de pé. Parecia uma linha perpendincular ao horizonte. Quando foi que tornou-se tão magro? Assustei-me ainda mais quando enxerguei-te de perto. Nem uma máscara esconderia os buracos abaixo de teus olhos. Quando foi que tornou-se tão mórbido? Desde que lembro-me - e minha memória, sabes bem, nunca foi pouca -, seu corpo escandalizava em carne e vida. Diga-me, o que aconteceu? Caístes de um prédio ou caístes em si? O que mostras agora por fora, parece-me exatamente o que vi quando entrei um pouco em ti. Esquelético, ossos, só ossos, nada que batesse, nada que pulsasse, nada que valesse, ou que vivesse, ou que tentasse. Morto, é isso que sempre fora, é isso que sempre será. Levou bastante tempo para que percebesse. Tirou algum tempo para tentar levar-me contigo. O que levou foi um pouco de vida, de minha vida, em forma de tempo, em forma de coração.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Quereres.

Queria, sem confessar, que a vida fosse feito um conto de fadas. Porém até os vagalumes perdiam suas asas. Queria, no meio da tarde, passar para fazer-lhe uma visita, roubar-lhe um beijo, dar-lhe, em troca, mais um pedaço de seu coração. Queria que saíssem para caminhar na areia, mas o mais próximo que tinham eram calçadas e cascalho. Queria segurar sua mão com força, mas a força que tinha era para manter-se de pé.