quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Toda Noite Tem Seu Fim.
Todo dia acordava e ia alcançar, no fundo de seu pulmão, seu quase nulo fôlego. Aproveitava-o como se fosse o último. Não ficava contente até que a última molécula de gás carbônico saísse de seu corpo. E então descia até a cozinha, pesado e cabisbaixo, e saía a ignorar todos que estavam sentados à mesa. João tinha sua pouca paciência e seu muito mau-humor. Todo dia exibia-o pelas avenidas. Quando o mundo dava azar, João inspirava cortado, e saía a reclamar. Fazia luto, fazia céu encoberto. O arrastar de João era sinal de maus agouros. E João era ressaca. Desnecessárias eram as ofensas e palavras rudes, quando ele aparecia, apareciam compromissos no dia de cada um. João, diziam por aí, tinha sido o mais próximo do desagradável já visto. Olhando por detrás, assim, bem de longe, pode ser que dissessem que João valia ser notado. Parecia simpático, agradável. Mas a proximidade dava ênfase a seu humor insuportável. João era mesmo ressaca, Domingo monótono extendido em cima da cama. João era a soma de todos os amassados de um cobertor, inclusive - e principalmente - os sujos, e das marcas da noite anterior que deveriam ter. João era motivo para deprimir-se, ignorar, omitir-se. João era a mais pura forma de tristeza. E a mais limpa forma de alegrar-se era assistí-lo reclamar sem perder um palavrão da Língua Portuguesa. Ah! João era mesmo ressaca! Quando era achado pela vista, ficavam a revezar-se entregando copos d'água.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Todo Carnaval Tem Seu Fim.
Todo dia acordava e logo ia alcançar, no fundo do armário, seu melhor sorriso. Vestia-o com uma delicadeza cinematográfica. Não ficava contente até que encaixasse-o perfeitamente entre as maçãs do rosto. E então aparecia na sala, leve e saltitante, e saía a cumprimentar os retratos emoldurados na prateleira. Maria tinha seus poucos anos e seu muito corpo. Todo dia exibia-o pelas avenidas. Quando o mundo dava sorte, Maria encaixava o sorriso de primeira, e saía a cantarolar. Fazia festa, fazia sol. O caminhar de Maria era sinal de bons agouros. E Maria era carnaval. Desnecessários eram os confetes e as serpentinas, quando ela aparecia, estouravam fogos de artifício no céu de cada um. Maria, diziam por aí, tinha sido o mais próximo da perfeição já visto. Olhando por detrás, assim, bem de longe, pode ser que dissessem que Maria não valia um vintém sequer. Parecia miúda, compacta. Mas a proximidade dava ênfase a sua silhueta escandalosa. Maria era mesmo carnaval, feriado extendido na beira da praia. Maria era a soma das ondas de todos os mares, inclusive - e principalmente - os de morros, e das ondas que um lago deveria ter. Maria era motivo para embriagar-se, festejar, fantasiar-se. Maria era a mais pura forma de alegria. E a mais imunda forma de alegrar-se era assistí-la movimentar-se sem perder um milímetro de seu corpo. Ah! Maria era mesmo carnaval. Quando era perdida de vista, ficavam a arrastar-se implorando por um copo d'água.
domingo, 25 de outubro de 2009
Sábados.
Os dias parecem erros. As horas parecem erradas. Estávamos tão acostumadas com as tempestades, que moldamos nossos corpos aos esconderijos. Sonhávamos com a quietude, a brisa fresca e deitarmo-nos à sombra de um ipê. Sem aviso prévio, esse sonho tornou-se concreto. E como concreto mostrou-se frio e sujeito a infiltrações. A calmaria é monótona, repetitiva. Agora estamos aqui, sentadas debaixo da sombra, assistindo o vento bagunçar-nos os cabelos, entreolhando-nos. O quê é que queríamos, não era ver a vida passar? Então agora diga-me, por que estamos passando por ela?
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Quinta.
As mãos calejadas lembravam-no da juventude. Tomaram forma tão bruta pelas tantas vezes que tocou seu violino, pelos tantos corpos que acariciou. Seus dedos permaneceram fortes, mas seus movimentos tornaram-se trêmulos e lesados. O toque de veludo tornou-se incômodo e áspero. Não agradava aos próprios ouvidos ao dedilhar a 9ª Sinfonia. Perdia a companhia toda vez que tentava acariciar seu gato. Vivia só, mas esta condição só incomodava-o ao entardecer, quando seus olhos estavam cansados demais para folhear um livro, e seus ouvidos estavam doloridos demais para escutar o velho toca-discos. Gostava tanto dos agudos, dos graves, dos arranhões que separavam-nos. Gostava tanto de sentar-se frente à Cecília, rememorar alguma frase de Joyce. Tinha todo o tempo para degustar um café, devorar seus cigarros. Tinha tanto tempo para lembrar-se de sua vida. Mas o maior tempo que tinha era para arrepender-se. Viveu na velocidade da luz, desintegrando-se pelo espaço. Sua coleção de momentos era única, mas falhava ao ser revista. Acompanhado de seu gato, toda noite sentava-se à janela, reparava nas estrelas, outras vezes na ausência delas. Escolhia uma nuvem, e acompanhava-a com os olhos. Via-a desaparecer, como via a si mesmo. Tão branco e passageiro. Fazendo sombra, mas não fazendo falta a ninguém, a não ser a si.
Poesia.
A poesia verdadeira é aquela que:
leva-se uma prosa, leva-se para casa, leva-se para a cama
e lembra-se no dia seguinte.
leva-se uma prosa, leva-se para casa, leva-se para a cama
e lembra-se no dia seguinte.
Carne.
Sobre as flores.
Sobre o vento.
Sobrenaturais,
sobre amores.
Sob a mesa, o papel.
Sob a cabeça, uma forma de ignorar o céu.
Submerso e subentendido.
Na mão, o cigarro.
Na boca, a caneta.
Com a mão escreve sua sina.
Com a boca descreve uma cena.
Os lábios fantasiados de beijos,
redigidos em papel de seda.
Carne ferida
é carne fraca.
Carne trêmula é filme.
Carne por carne não vai ao cinema.
Ar-condicionado,
ar com condição.
A condição de ser sugado,
transformado e abandonado.
Feito a carne que em carne vira espírito.
Que vira alma.
Que vira mundo.
Que vira cabeça.
Que vira pó.
Carne com carne vira relação.
Relação vira fórmula.
E as fórmulas viram forma de calcular.
As formas e as fórmulas,
de carne com carne algo mais tornar.
Entorna o copo.
Entorna o corpo.
E em tornar-se tanto,
carne com carne torna-se desejo.
Anseio.
Ânsia.
De vômito?
De conceber.
Realiza-se um carne com carne quântico.
Cujo resultado concedido,
outorgado,
é nulo e sempre perdido.
Sobre o vento.
Sobrenaturais,
sobre amores.
Sob a mesa, o papel.
Sob a cabeça, uma forma de ignorar o céu.
Submerso e subentendido.
Na mão, o cigarro.
Na boca, a caneta.
Com a mão escreve sua sina.
Com a boca descreve uma cena.
Os lábios fantasiados de beijos,
redigidos em papel de seda.
Carne ferida
é carne fraca.
Carne trêmula é filme.
Carne por carne não vai ao cinema.
Ar-condicionado,
ar com condição.
A condição de ser sugado,
transformado e abandonado.
Feito a carne que em carne vira espírito.
Que vira alma.
Que vira mundo.
Que vira cabeça.
Que vira pó.
Carne com carne vira relação.
Relação vira fórmula.
E as fórmulas viram forma de calcular.
As formas e as fórmulas,
de carne com carne algo mais tornar.
Entorna o copo.
Entorna o corpo.
E em tornar-se tanto,
carne com carne torna-se desejo.
Anseio.
Ânsia.
De vômito?
De conceber.
Realiza-se um carne com carne quântico.
Cujo resultado concedido,
outorgado,
é nulo e sempre perdido.
Planeste?
O fogo acabou.
O fluído também.
O isqueiro da vida, cadê?
Acende com um fósforo.
Não, não.
Estão todos sem cabeça.
Sem cérebro.
Aquece com as mãos.
Não, não.
Estão todas guardadas nos bolsos.
Com frio, com fome, com sede.
Inflamáveis, cadê?
Inflamados, eu sei.
Inchados, apagados.
Acende esse cigarro aqui.
Com fogo, com força.
Chama, cadê?
Passaram na frente,
não chamaram você.
Vá para o começo
do fim da fila.
Que fala,
escuta.
Vai e volta.
Sem fim.
Sem fundo.
Sem fogo.
Apaga esse cigarro.
Com um escarro.
Não, não.
Apaga no meu braço.
Passa o fogo.
Passatempo.
Espaçonaverdade.
Mentira!
O fluído também.
O isqueiro da vida, cadê?
Acende com um fósforo.
Não, não.
Estão todos sem cabeça.
Sem cérebro.
Aquece com as mãos.
Não, não.
Estão todas guardadas nos bolsos.
Com frio, com fome, com sede.
Inflamáveis, cadê?
Inflamados, eu sei.
Inchados, apagados.
Acende esse cigarro aqui.
Com fogo, com força.
Chama, cadê?
Passaram na frente,
não chamaram você.
Vá para o começo
do fim da fila.
Que fala,
escuta.
Vai e volta.
Sem fim.
Sem fundo.
Sem fogo.
Apaga esse cigarro.
Com um escarro.
Não, não.
Apaga no meu braço.
Passa o fogo.
Passatempo.
Espaçonaverdade.
Mentira!
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