Dirijo-te estas palavras para que saibas que perdi a direção. Não culpo o asfalto molhado, nem as garrafas de vinho barato que esvaziei pela madrugada. Causei um acidente, e ironicamente, alegrei-me ao saber que somente eu saí machucada. Perdi a direção sem fazer questão de recuperá-la. Deslizei, freiei, e enfim, capotei. Senti não precisar do mundo para dar voltas. E o vi, claramente, pedindo para que eu voltasse atrás, para que eu refizesse meu caminho, dessa vez, com mais cautela. Fiz o mundo esperar. Tanto já tinha esperado por socorro, tanto já tinha negado-me respostas. Agora, presa aos destroços de minha vida, deixo que o eco leve a ti estas notícias. Acidentei o já acidentado, e agora, o mundo está pronto para prestar-me socorro, mas não eras tu que deveria ter salvado-me?
DO BLOG: http://apaixonar-seasos.blogspot.com/
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Calor.
Brasília, acredito eu, antes mesmo de nascer foi prometida ao céu. Casou-se nova, enquanto ainda rasuravam seu rascunho. Plantaram arroz e jogaram névoa seca. A cerimônia foi para poucos, que assistiram de camarote a vista do planalto central beijando as nuvens. A lua-de-mel perdurou os anos, estendendo-se a cada dia. Como toda relação, vive de altos e baixos, tendo como referência a posição do sol. Brasília abriga em seus peitos murchos uma manada de filhotes, pequenas Brasílias e brasilienses. Fragmentos do céu e do concreto, nublados, limpos, brancos ou não.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Ao Infinito e Além.
Incontáveis foram as auroras e crepúsculos que vi serem formados no horizonte, aquela linha que separa o fim do meio e do começo de alguma coisa. Vi, naquela linha, a sombra de árvores vistosas, cujo melhor uso seria proteger um romance do sol. Vi, debaixo destes meus pés, um dente-de-leão já assoprado. Estava ali desde a aurora, preparando-me para apreciar o mais belo de todos os crepúsculos. O azul do dia tomando para si o azul da noite. E eu tendo acabado de tomar-te para mim. Tomar-te para sempre e como verdade. Nenhum crepúsculo, ou aurora, marcou-me tanto quanto a soma de nossos céus. Seus sorrisos, iluminados como um dia de verão na praia, agora poderiam se misturar com os meus, cuja luz tinha se apagado.
domingo, 30 de agosto de 2009
Brasília.
Os carros, todos parados no acostamento. As pessoas sentadas à mesa, discursando sobre o fluxo de idéias e sentimentos. Os artistas pintando novas canções. Os eixos x, y, w, L e 2. Os gráficos e os grafites. As nuvens abrindo caminho para a chuva, a chuva resistindo ao sol. As cidades satélites, os satélites caindo lá de cima. Os acidentes de percurso. É tiro, é chuva, é um novo caminho. As belas damas exibindo seus vestidos e cigarros. Os charlatões ensaiando seus escarros. Os pobres e miseráveis cobrindo-se com flanela e esperança. A menina que vem feliz a cantar. O que faz-lhe cantar, menina? Vive no mundo da lua ou cria a felicidade na surdina? Assisto, do fundo - do poço -, a cidade sufocar-se. É homem, é mulher, é os dois, ou não é. A chuva desistiu de cair. A menina desistiu de cantar. Olha o céu! Olha o sol! A cidade pôde - enfim - respirar.
Pôs.
A falta de apetite de Camões.
O desespero de Vinicius.
A complacência de Drummond.
As batidas de Chico,
tais como as do coração.
Deixe que bata, que digam, que calem.
Mas amor é melhor assim, murmurado.
Guardado como segredo,
ainda que dentro do peito,
vague sem vergonha.
Podendo ser, ou sendo sem querer.
Amor avoado, que viaja em meio ao céu estrelado.
Que parte do céu da boca,
e repousa nos braços amados.
O desespero de Vinicius.
A complacência de Drummond.
As batidas de Chico,
tais como as do coração.
Deixe que bata, que digam, que calem.
Mas amor é melhor assim, murmurado.
Guardado como segredo,
ainda que dentro do peito,
vague sem vergonha.
Podendo ser, ou sendo sem querer.
Amor avoado, que viaja em meio ao céu estrelado.
Que parte do céu da boca,
e repousa nos braços amados.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Gira.
Estamos pisando no céu, comprando cigarros na farmácia da esquina. Diga-me, em que parte erramos? Ou erraram conosco? Nós tentamos correr, mas os pés correm de nós. O mundo virou de cabeça para baixo, as rotações foram canceladas por tempo indefinido. Inventaram as horas, agora reinventamos motivos. Queremos seguir, mas o próximo passo é um abismo. Vejamos as pedras lá embaixo, quase atravessando para o outro lado, tão firmes e fortes. Preciosas ou dotadas de algum uso. Atiramos nos santos, lapidamos jóias raras. Agora parecem facas, forçando uma escolha, atirar-se nelas, ou deixar que atirem em você. Eu não sou santo, também não sou raro. Não atiro, nem aguardo. Cedo demais para uma escolha. Por enquanto deixo as pedras enfeitarem a esperança de que o mundo gire de novo.
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