sábado, 18 de outubro de 2008
Emplasto Multiuso
Cura gripe, câncer e qualquer infecção.
Falta de juízo, de dinheiro e depressão.
Anestésico, antitérmico e alienante.
Emplasto multiuso,
Deixa até as dores do amor
(menos) emocionantes.
A felicidade empacotada.
Fé solúvel sabor limonada.
Emplasto multiuso:
Emagreça agora!
Esvazie por dentro,
Atraia por fora.
Emplasto multiuso é solução,
Acaba com dores, diarréia,
Joga búzios, faz amarração.
Encontre a felicidade em alguns instantes,
Leve de brinde um anel de diamantes.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Tá tocando no rádio. Aquela música, tá tocando no rádio. É de dar arrepios – foram-se os tempos de frio na barriga. A vez já passou. Olha prá trás, um, dois, e se foi. Não te culpo – me culpo. Para cada passo, uma martelada. Proporção. Não se culpa – me culpa. Um, dois, e se foi. Já faz tempo. Parece ontem. A música ecoa. Fazia tempo que não a escutava. Parece ontem. Ontem eu passei bem perto da sua casa, e te vi ali, em pé, de costas para mim. Fazia tempo que não te via. Parece ontem. Senti tanto a sua falta. Parece ontem. Foi ontem, hoje já não mais.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Eu pego um papel e uma caneta, risco, rabisco, insisto. Ouço passos, pesados, secos, cansados. Há uma dor dentro do peito. Que dor? É coisa de doido, imaginária, sem começo e sem fim. Pausada. Bate um coração aqui dentro. Por que? Tem de bater? É realmente necessário? Repito, por que? Não é por fins musicais, carnais, espirituais. Ou é? Vai, me diz agora. Ou eu posso ter um órgão do tamanho de um punho fechado no formato de uma pêra com a ponta virada pra baixo e que de dor bate, mas não posso ter respostas?
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Ou é impressão minha?
E eu desvio um instante.
Eu sigo em tua direção até surgir um muro.
E eu hesito por um instante.
Eu sigo em tua direção até começar uma tempestade.
E eu aguardo um instante.
Eu sigo em tua direção até chegar ao oceano.
E eu penso por um instante.
Como o céu e o inferno, tem sempre algo entre nós. Ou é impressão minha?
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Cidade grande.
A solidão invade cada um de seus milhares de poros e um vazio preenche o peito. Multidões vão e vem, desviando olhares, buscando conforto no tique-taque dos relógios de pulso, nas mensagens antigas de celular. A indiferença lhe corta a garganta, até que a dor do corte, já tão profundo, faz tudo se estourar em um grito, um grito que cala lá dentro e assusta lá fora. As pessoas ousam olhar. Olhares curiosos, desaprovadores, assustados. Olham com pena. Ela não buscava pena.
Um homem de terno e gravata joga-lhe uma moeda. Ela dá o troco, abre sua níqueleira e atira uma moeda canadense em suas costas. O homem, assustado, acelera o passo e se perde em meio a multidão. A última coisa que ela queria é que sentissem pena. Ela sabia que pena é como olham quando não compreendem, e ela buscava compreensão, que lhe faltou a vida inteira.
Perturbada, irritada, vulnerável, se deita no banco e deixa o braço cair. Os sentidos começam a se acalmar. Fecha os olhos e tenta se distrair com alguma música. Não há música. Ela sente alguém se aproximar, uma sombra fica entre seus pés e o sol. Se prepara então para ser expulsa do local, ou mais educadamente, para se retirar, com um discurso que visa dizer apenas que banco de praça no meio da nata da sociedade não é lugar para ficar vagabundeando.
Ela abre os olhos, um rapaz de cabelos grisalhos se senta na ponta do banco, e lhe oferece um copo de água. Ela balança a cabeça, recusando. Ele segura sua mão e tenta fazer com que ela se sente. Depois de muito insistir, ela cede, e os dois ficam sentados, lado a lado. O coração dela ainda bate agitado. Ela o observa minuciosamente. Até que seus olhos vão de encontro ao ombro dele, que a atraí ensandecidamente. Ele segue uma viatura da polícia com a cabeça, e nesse mesmo momento, a atração é tanta, que ela se deixa encostar a cabeça em seu ombro. Os olhos dele, sorridentes, se encontram com os dela, satisfeitos. Seu coração, agora se acalma, e o tempo passa na medida exata. É como se, finalmente, ela se encontrasse.