Ipê-rmaneça -
ipê
ipê
ipê
a quantos olho
como olho
você?
ipê
ipê
ipê
meu coração-vermelho
salta do peito
quando
amarelo-você
ipê
ipê
ipê
quando eu crescer
quero ter
ao menos metade das cores
e metade das vidas
que você me faz ver
Das coisas mais belas, nada sobrou daquelas -
das coisas que são
quando já não devem ser -
nas coisas mais lindas do mundo
ainda vejo você
O poema que escrevi sem amor -
tentei escrever um poema
que não falasse de amor:
não-amor
desamar
desarmar
o amor
o não-amor
é uma forma
assimétrica
de amar
o não-amor
é um amor
ausente
poemas
são feitos de amor
e gramática
poema
é uma forma
geométrica
de amar
Meio Gal, meio Tom -
meu amor,
mansidão
de madrugada
vindo para a cama
se arrastando
por debaixo do lençol
pingando
na pia
torneira frouxa
ao longo dos dias
meu amor,
primavera
céu azul
domingo no parque
dormindo no parque
meio sonho
meio acordado
debaixo das árvores
das sombras
umidade
seu amor,
sertão
carente
faltoso
por destino,
raso
duro
e a isso,
condicionado
seu amor,
metrópole
canto dos pássaros-carros
e dos pássaros-vozes
seu amor foi aflito
amor-relógio
amor-pressa
esquecido
amor é um constante deixar-ir
e quem sabe volte...
Amor a qual me rendi -
seus olhos
e a forma como segurava o garfo
o sorriso
como corria inclinada para frente
os dedos do pé
quando caía exausta na cama
quando caiu de bunda na neve
como beijava minha nuca
como passava o guardanapo na boca, num movimento circular
quando apareceu na minha vida
verão de mil novecentos e nunca nos importaria o tempo
das vezes em que quase te perdi
a geografia
- a distância que, às vezes, nos atropela sem ver -
a geometria
- as quinas que a vida nos talha -
o tempo
- teimando em passar contra nossa vontade -
a vida
- que passa e fica -
era te ver
era só sentir
sua presença
seu cheiro
era só pensar
era nem pensar
um flutuar
em cores tranquilas
a céu aberto
na beira do mar
amor
que brota da terra
mas que parece suspenso no ar
Poema que completa e que não se entende -
a gente vem sendo
a gente vai sendo
a gente vencendo
- e toda a felicidade
na gente e no movimento
e no momento
áspera austera
aspiração de
eternidade
Integral ou desnaturado -
você me disse assim:
- meu amor, não esquece o leite
pouco antes, sentados em silêncio, não sabíamos o que fazer estando um ao lado do outro
não sabíamos o que fazer sendo nós dois e mais aquela quietude
eu não entendia o que aquele silêncio nos dizia
e você não entendia o entender
desde muito tempo
desde muito antes
mais ou menos ali, naquele fragmento de tempo onde nos conhecemos e nos estranhamos
eu lembro de te dizer meio mal dito:
- parece cruel, mas sonho num dia, que nem filme, sair pra comprar algo e nunca mais voltar. Mas cigarro não, cigarro nunca...de repente um litro de leite. Sair para comprar leite e nunca mais voltar.
você me disse assim:
- meu amor, não esquece o leite
nunca mais ouvi nosso silêncio
nunca mais nem ouvi falar do nosso silêncio
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Os discos e os disses
Pelo leite derramado -
quando esquecia teus olhos em cima dos meus, como se morássemos por entre as páginas de Chico
como se morássemos um no outro
como se morar fosse um estado eterno quando, na verdade, havendo eternidade, seria um jamais estado, mas sim uma condição imutável
como se estivéssemos condicionados a isso
a procurar sempre morada
a procurar sempre abrigo
sempre ombro um no outro mas nunca amigo
sempre choro e ocasionalmente riso
muitos beijos
e mordidas
e arranhões
e poesias
ao pé do ouvido ao pé da cama
- me devora ou me ama
quando esquecia sua vida em cima da minha
quando esquecia
quando vida
quando minha
quando
ando
quando
caminha
Pelo corpo esparramado -
carta descartável ou
das maneiras inventadas para avisar um ente querido que a morte foi encomendada mais cedo ou
das rimas que inventamos para dar graça as desgraças da vida ou
de como é engraçado costurar desgraças só para dar à rima: graça
um dia, talvez, eu volte para casa,
mas hoje não
pus minhas tripas para fora,
e agora sou só coração
Caetano, não encha o que já esvaziou -
não vou cair no seu papo
vou cair no seu colo
despencar na sua cama
quem sabe nessa hora
nessa exata hora
eu perdoe seus pés
e seus dedos tortos
e o cheiro de naftalina que vem do seu armário cheiro que não se esconde e nem se tranca já que a porta empenou
eu vou arrebentar a sua porta e entrar pela sala e entrar pelo banheiro onde te descobrirei pelo vapor quente e o som da sua voz cantando "nada mais de nós"
vou girar a maçaneta sem você se assustar sem você nem notar você vai demorar pra perceber e só perceberá quando eu estiver encharcada ensaboada esticada em você
e vou te beijar as costas antes que você termine a música
"vou me livrar de você"
vou te impedir que cante antes de te beijar a nuca
tem coração pontiagudo coração ponte viaduto tem coração que amansa que amassa e que perfura
é como no ditado
carne mole
em alma dura
tanto bate
até que cura
Poemanda -
delícia é viver nessa corda bamba
que separa o precipício da poesia
e a poesia do samba
pois a vida
pois é vida
pois é ia
pois ficou
a poesia
essa que me balançou
Me disseram ter sido o que tinha de ser -
você fala tanto dela você ri tanto pra ela
você a chama quando é escuro e madrugada e você rola pela cama e acorda suado de um pesadelo
você olha para o lado e se dá conta de que eu aqui não sou ela
você olha para o lado e se dá conta da ausência dela
olha para o lado e diz para si mesmo não dar conta de viver sem ela
você tenta olhar pra ela mas só vê a mim
e eu te leio
você olha pra mim mas só vê a ela
você abre a porta a geladeira uma garrafa de cerveja um livro a janela
você olha para baixo e os carros e os pedestres o som dos outros apartamentos e um silêncio o silêncio todo seu
você procura por ela
e se volta vez ou outra para dentro e me olha e eu pareço morta
e você nada
e você voa
e você some
e você nem nota
e não diz mais nada e acha que eu não percebo que enquanto passo um café você espera o gosto do açúcar dela
o doce dela
a cana
a canela dela
o corpo dela inteiro ou o pedaço que fosse
você não diz nada
mas eu ouço mas eu leio mas eu vejo tudo
tudo que você me dá é nada
e eu não choro
e eu não rio
e eu não nado
nesse rio nesse lago nesse apartamento nesse contentamento flutuo enquanto posso e depois me afogo
vez ou outra você me abraça
me esfrega feito fosse lâmpada e eu me acendo
feito fizesse mágica você faz um pedido
mas ela não aparece
e você perdido me encontra
me esfrega me acende me encolhe e me monta
me abraça e é quando abraço seu abraço sendo só nós dois e me desmonto
você finalmente dorme ali corpo quente apertado espremido
amo quando você esquece seu coração no meu
quando esquecia teus olhos em cima dos meus, como se morássemos por entre as páginas de Chico
como se morássemos um no outro
como se morar fosse um estado eterno quando, na verdade, havendo eternidade, seria um jamais estado, mas sim uma condição imutável
como se estivéssemos condicionados a isso
a procurar sempre morada
a procurar sempre abrigo
sempre ombro um no outro mas nunca amigo
sempre choro e ocasionalmente riso
muitos beijos
e mordidas
e arranhões
e poesias
ao pé do ouvido ao pé da cama
- me devora ou me ama
quando esquecia sua vida em cima da minha
quando esquecia
quando vida
quando minha
quando
ando
quando
caminha
Pelo corpo esparramado -
carta descartável ou
das maneiras inventadas para avisar um ente querido que a morte foi encomendada mais cedo ou
das rimas que inventamos para dar graça as desgraças da vida ou
de como é engraçado costurar desgraças só para dar à rima: graça
um dia, talvez, eu volte para casa,
mas hoje não
pus minhas tripas para fora,
e agora sou só coração
Caetano, não encha o que já esvaziou -
não vou cair no seu papo
vou cair no seu colo
despencar na sua cama
quem sabe nessa hora
nessa exata hora
eu perdoe seus pés
e seus dedos tortos
e o cheiro de naftalina que vem do seu armário cheiro que não se esconde e nem se tranca já que a porta empenou
eu vou arrebentar a sua porta e entrar pela sala e entrar pelo banheiro onde te descobrirei pelo vapor quente e o som da sua voz cantando "nada mais de nós"
vou girar a maçaneta sem você se assustar sem você nem notar você vai demorar pra perceber e só perceberá quando eu estiver encharcada ensaboada esticada em você
e vou te beijar as costas antes que você termine a música
"vou me livrar de você"
vou te impedir que cante antes de te beijar a nuca
tem coração pontiagudo coração ponte viaduto tem coração que amansa que amassa e que perfura
é como no ditado
carne mole
em alma dura
tanto bate
até que cura
Poemanda -
delícia é viver nessa corda bamba
que separa o precipício da poesia
e a poesia do samba
pois a vida
pois é vida
pois é ia
pois ficou
a poesia
essa que me balançou
Me disseram ter sido o que tinha de ser -
você fala tanto dela você ri tanto pra ela
você a chama quando é escuro e madrugada e você rola pela cama e acorda suado de um pesadelo
você olha para o lado e se dá conta de que eu aqui não sou ela
você olha para o lado e se dá conta da ausência dela
olha para o lado e diz para si mesmo não dar conta de viver sem ela
você tenta olhar pra ela mas só vê a mim
e eu te leio
você olha pra mim mas só vê a ela
você abre a porta a geladeira uma garrafa de cerveja um livro a janela
você olha para baixo e os carros e os pedestres o som dos outros apartamentos e um silêncio o silêncio todo seu
você procura por ela
e se volta vez ou outra para dentro e me olha e eu pareço morta
e você nada
e você voa
e você some
e você nem nota
e não diz mais nada e acha que eu não percebo que enquanto passo um café você espera o gosto do açúcar dela
o doce dela
a cana
a canela dela
o corpo dela inteiro ou o pedaço que fosse
você não diz nada
mas eu ouço mas eu leio mas eu vejo tudo
tudo que você me dá é nada
e eu não choro
e eu não rio
e eu não nado
nesse rio nesse lago nesse apartamento nesse contentamento flutuo enquanto posso e depois me afogo
vez ou outra você me abraça
me esfrega feito fosse lâmpada e eu me acendo
feito fizesse mágica você faz um pedido
mas ela não aparece
e você perdido me encontra
me esfrega me acende me encolhe e me monta
me abraça e é quando abraço seu abraço sendo só nós dois e me desmonto
você finalmente dorme ali corpo quente apertado espremido
amo quando você esquece seu coração no meu
O céu o seu e o meu
a ideia é escrever sobre o céu
sobre o fim de tarde
porque é pôr-do-sol demarcação da hora em que o dia propriamente dito e nunca devidamente escutado morre
e a gente renasce
e a gente respira
e a gente se recorda de quando acordou de manhã e pensou que o dia poderia passar rápido hoje porque ainda é terça e no final de semana eu não tomei aquela cerveja que tanto esperei na semana passada
quer dizer até tomei umas cinco ou seis e mais uma garrafa de whisky que dividi com dois amigos na beira do rio
que rio?
é lago
queria que o dia passasse rápido
mas nessa hora em que o dia morre a gente renasce e a gente respira e a gente reage
eu penso eu lembro que me disseram que a vida passa rápido mas tão rápido que a gente pisca e quando viu
nem vê
eu assisto o céu misturar azul com rosa vermelho lilás amarelo laranja e nada disso me assusta porque mesmo não sendo muito natural mesmo não sendo muito da natureza é debaixo desse céu que me sinto infinito
e caso um dia eu vá embora e eu sei que eu vou
do que mais sentirei falta se me perguntarem é desse céu de brasília
desse céu brasilindo
brasilouco
desse céu quatro mares
que deságua rebenta ressaca
nessa bras-ilha
nesse céu tinta guache
aquarela
lápis de cor
tinta óleo
eu que nada entendo de pintura quero que essa tinta seja feita para pintar o rosto e tinta para pintar com o dedo porque quero pintar minha cara meu corpo meu qualquer jeito da cor desse céu
que é pra ver se renasço
que é pra ver se morro
morrendo cresce
pra virar logo montanha
pra encostar minha ponta logo lá em cima
pra nos confundirmos eu e ele
céu é ele
céu e eu
sobre o fim de tarde
porque é pôr-do-sol demarcação da hora em que o dia propriamente dito e nunca devidamente escutado morre
e a gente renasce
e a gente respira
e a gente se recorda de quando acordou de manhã e pensou que o dia poderia passar rápido hoje porque ainda é terça e no final de semana eu não tomei aquela cerveja que tanto esperei na semana passada
quer dizer até tomei umas cinco ou seis e mais uma garrafa de whisky que dividi com dois amigos na beira do rio
que rio?
é lago
queria que o dia passasse rápido
mas nessa hora em que o dia morre a gente renasce e a gente respira e a gente reage
eu penso eu lembro que me disseram que a vida passa rápido mas tão rápido que a gente pisca e quando viu
nem vê
eu assisto o céu misturar azul com rosa vermelho lilás amarelo laranja e nada disso me assusta porque mesmo não sendo muito natural mesmo não sendo muito da natureza é debaixo desse céu que me sinto infinito
e caso um dia eu vá embora e eu sei que eu vou
do que mais sentirei falta se me perguntarem é desse céu de brasília
desse céu brasilindo
brasilouco
desse céu quatro mares
que deságua rebenta ressaca
nessa bras-ilha
nesse céu tinta guache
aquarela
lápis de cor
tinta óleo
eu que nada entendo de pintura quero que essa tinta seja feita para pintar o rosto e tinta para pintar com o dedo porque quero pintar minha cara meu corpo meu qualquer jeito da cor desse céu
que é pra ver se renasço
que é pra ver se morro
morrendo cresce
pra virar logo montanha
pra encostar minha ponta logo lá em cima
pra nos confundirmos eu e ele
céu é ele
céu e eu
Algo de você feito em mim
é estranho pensar que talvez você tenha alguém e que talvez eu tenha também
é estranho pensar que fomos o alguém um do outro há um tempo atrás e que agora
e que agora mais nada
agora eu acho que você talvez pense, às vezes, quando não te sobra mais nada quando as paredes são totalmente brancas as tardes demasiadamente quentes e o ventilador repete um mesmo movimento e você se cansa do que está lendo ou escrevendo ou do projeto em que está trabalhando e pensa em mim
acho que sim, às vezes, você pensa em mim
quando não há nada melhor para fazer ou quando você sente um cheiro e com ele a saudade
saudade que talvez não seja a saudade em si, mas é esse o nome que damos as coisas que nos faltam
mesmo as que nos faltam sem fazer falta
às vezes, acho que também penso em você
e nem sempre percebo talvez isso aconteça quando algo aperta forte no peito e eu não saiba porque
talvez quando aconteça quando peço um café e imediatamente peço uma garrafa d'água mas só então lembro que esta eu pedia para você
eu tomo e sempre tomei café puro
às vezes, acho que penso como estou pensando agora, sem ter imaginado, sem ter previsto e tendo negado que às vezes penso como estou pensando e escrevendo agora para que as coisas fiquem mais claras
que tenham letras nessa saudade que não sinto
que tenham vírgulas e pontos nessa saudade que existe, mas não como tal
que tenham letras maiúsculas e parágrafos nessa falta que se acentua nas lacunas dos dias
que tenha cidade data e minha assinatura nesses alguéns
que fomos
que somos
um para o outro
para outros
esses alguéns
que se tornam ninguém
que preenchem esse ciclo das coisas
que são naturais nesse início meio e fim
essas coisas que não foram feitas para doer
mas que doem
e apertam
mesmo assim
é estranho pensar que fomos o alguém um do outro há um tempo atrás e que agora
e que agora mais nada
agora eu acho que você talvez pense, às vezes, quando não te sobra mais nada quando as paredes são totalmente brancas as tardes demasiadamente quentes e o ventilador repete um mesmo movimento e você se cansa do que está lendo ou escrevendo ou do projeto em que está trabalhando e pensa em mim
acho que sim, às vezes, você pensa em mim
quando não há nada melhor para fazer ou quando você sente um cheiro e com ele a saudade
saudade que talvez não seja a saudade em si, mas é esse o nome que damos as coisas que nos faltam
mesmo as que nos faltam sem fazer falta
às vezes, acho que também penso em você
e nem sempre percebo talvez isso aconteça quando algo aperta forte no peito e eu não saiba porque
talvez quando aconteça quando peço um café e imediatamente peço uma garrafa d'água mas só então lembro que esta eu pedia para você
eu tomo e sempre tomei café puro
às vezes, acho que penso como estou pensando agora, sem ter imaginado, sem ter previsto e tendo negado que às vezes penso como estou pensando e escrevendo agora para que as coisas fiquem mais claras
que tenham letras nessa saudade que não sinto
que tenham vírgulas e pontos nessa saudade que existe, mas não como tal
que tenham letras maiúsculas e parágrafos nessa falta que se acentua nas lacunas dos dias
que tenha cidade data e minha assinatura nesses alguéns
que fomos
que somos
um para o outro
para outros
esses alguéns
que se tornam ninguém
que preenchem esse ciclo das coisas
que são naturais nesse início meio e fim
essas coisas que não foram feitas para doer
mas que doem
e apertam
mesmo assim
E agora que sou Zé?
zé era zé, mas não era josé e também não era de sobrenome ninguém
zé era zé e ponto, porque assim são as coisas: são e ponto
zé era sem explicações, para ser e para dar
era de poucas palavras ou quase nenhuma
o corpo de zé era mais de setenta por cento de água e o que sobrava, preencheu de silêncio
ele existia a partir de uma mesma existência dos sacos plásticos que rolam, tranquilamente, por vias de 100km/h
indiferente a pressa do mundo indiferente ao mundo, como um todo, muito disso por viver em outro
- esse menino é de outro planeta
primeira lembrança que tem de seu pai
- por que, zé? por que você é assim, menino?
primeira lembrança que tem de sua mãe
mas quando zé ensaiava abrir a boca e esboçava as primeiras palavras para explicar as tons de azul e branco e as ocasionais variações de vermelhos laranjas e amarelos que via lá bem atrás de seus olhos azuis da cor do céu, sua mãe já preparava um chá forte de camomila e alcançava a caixa de lexotan que nem sugeriu a irmã dela
- sua tia é médica da cabeça, zé, só engole esse trem menino
engole esse mundo, zé
e tome aqui um copo d'água
antes que ele te engula
zé era zé e ponto, porque assim são as coisas: são e ponto
zé era sem explicações, para ser e para dar
era de poucas palavras ou quase nenhuma
o corpo de zé era mais de setenta por cento de água e o que sobrava, preencheu de silêncio
ele existia a partir de uma mesma existência dos sacos plásticos que rolam, tranquilamente, por vias de 100km/h
indiferente a pressa do mundo indiferente ao mundo, como um todo, muito disso por viver em outro
- esse menino é de outro planeta
primeira lembrança que tem de seu pai
- por que, zé? por que você é assim, menino?
primeira lembrança que tem de sua mãe
mas quando zé ensaiava abrir a boca e esboçava as primeiras palavras para explicar as tons de azul e branco e as ocasionais variações de vermelhos laranjas e amarelos que via lá bem atrás de seus olhos azuis da cor do céu, sua mãe já preparava um chá forte de camomila e alcançava a caixa de lexotan que nem sugeriu a irmã dela
- sua tia é médica da cabeça, zé, só engole esse trem menino
engole esse mundo, zé
e tome aqui um copo d'água
antes que ele te engula
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Se eu quiser falar com Deus
te escrevo já depois de meio-dia, quando o sol bate tão forte que não sei se o que vejo é realmente o que há para ser visto ou alucinação
te escrevo do meio da rua, num bloco de anotações que recebi via correio, de um laboratório farmacêutico
o bloco não é pautado e as folhas foram muito mal cortadas e porcamente presas juntas em espiral
a palavra "espiral" me lembra o tempo que passei na catequese, já que o livro que usávamos se chamava "a espiral da vida" e eu ficava sem entender toda vez que acompanhava minha mãe na copiadora da faculdade, na época eu deveria ter uns oito anos, e eu não entendia porque toda vez que eu acompanhava ela na copiadora da faculdade o cara perguntava
- quer que coloque espiral?
e eu ficava sem entender porque aquele cara queria colocar a espiral da vida nos livros e me perguntava se os livros eram registros de fato da vida e que só retomavam o viver depois da espiral
como umas vidas na sala de espera só esperando um cara perguntar pra alguém se
- quer que coloque espiral?
para voltar a viver do jeito que eu e minha mãe vivíamos por exemplo
eu também não entendia porque o cara perguntava pra minha mãe quase sempre e só às vezes para as outras pessoas e eu ficava sem saber porque aquele cara podia perguntar isso e porque cabia a ele cuidar daquilo tudo
eu não sabia se aquele cara era Deus ou se Deus era minha mãe ou as pessoas que de vez em quando também podiam escolher colocar a espiral
e um dia eu perguntei pra minha mãe porque o céu ficava num canto tão sujo daquele bloco da faculdade e bem na frente de uma lanchonete que vendia o melhor enroladinho frito de salsicha e que cheirava mal
e minha mãe fez que riu só para não demonstrar para mim que não estava rindo, como ela sempre fazia, do jeito que escutei um dia meu pai dizer a ela
- não passe suas emoções para o garoto
e naquele dia, eu fiquei sem resposta e nunca mais perguntei
continuei achando aquele céu muito estranho e o fato de meu pai pedir a mamãe para não passar as emoções para mim deu ainda mais sentido a tudo
Deus era ela, claro, por isso ia na copiadora todo dia e por isso não podia me passar as emoções, porque Deus, eu descobri bem cedo, que cuidava e guardava a vida de todo mundo, e mamãe, que era Deus, não podia contar segredo dos outros
porque era feio, isso meu avô quem disse, quando, ainda mais novo, contei para a vovó que o vi passando a mão na bunda da Dona Maria
Dona Maria foi uma moça que trabalhou lá em casa e que a gente dizia que cuidava de mim, da casa e do almoço e que, por anos, fiquei sem entender porque deveria cuidar de mim, mas vivia rezando ajoelhada com o vovô sentado dando benção segurando nos ombros dela
depois da espiral as coisas ficaram mais claras na minha cabeça de menino, eu dizia nas aulas de catequese que o céu de verdade era lá em casa e por isso tanta gente vinha, de tempos em tempos, para eu dizer que cuidava de mim, da casa e fazia almoço
na verdade, para estarem logo sempre ajoelhadas com as mãos de vovô nos ombros quando a vovó saía para ir a loja de departamentos ou ao mercado
depois de mais idade e algumas Marias e Madalenas eu desisti de acreditar no céu
e agora não sei o que me leva a te escrever depois de meio-dia, no meio da rua, quando o sol bate tão forte que meus olhos ardem e a pele queima e a saudade bate e eu não me satisfaço e peço para bater de novo e não parar e eu te sinto próxima, mesmo sabendo que depois de terminar essa frase eu vou jogar essa folha no lixo
aliás, dane-se
o bloco de anotações inteiro
te escrevo do meio da rua, num bloco de anotações que recebi via correio, de um laboratório farmacêutico
o bloco não é pautado e as folhas foram muito mal cortadas e porcamente presas juntas em espiral
a palavra "espiral" me lembra o tempo que passei na catequese, já que o livro que usávamos se chamava "a espiral da vida" e eu ficava sem entender toda vez que acompanhava minha mãe na copiadora da faculdade, na época eu deveria ter uns oito anos, e eu não entendia porque toda vez que eu acompanhava ela na copiadora da faculdade o cara perguntava
- quer que coloque espiral?
e eu ficava sem entender porque aquele cara queria colocar a espiral da vida nos livros e me perguntava se os livros eram registros de fato da vida e que só retomavam o viver depois da espiral
como umas vidas na sala de espera só esperando um cara perguntar pra alguém se
- quer que coloque espiral?
para voltar a viver do jeito que eu e minha mãe vivíamos por exemplo
eu também não entendia porque o cara perguntava pra minha mãe quase sempre e só às vezes para as outras pessoas e eu ficava sem saber porque aquele cara podia perguntar isso e porque cabia a ele cuidar daquilo tudo
eu não sabia se aquele cara era Deus ou se Deus era minha mãe ou as pessoas que de vez em quando também podiam escolher colocar a espiral
e um dia eu perguntei pra minha mãe porque o céu ficava num canto tão sujo daquele bloco da faculdade e bem na frente de uma lanchonete que vendia o melhor enroladinho frito de salsicha e que cheirava mal
e minha mãe fez que riu só para não demonstrar para mim que não estava rindo, como ela sempre fazia, do jeito que escutei um dia meu pai dizer a ela
- não passe suas emoções para o garoto
e naquele dia, eu fiquei sem resposta e nunca mais perguntei
continuei achando aquele céu muito estranho e o fato de meu pai pedir a mamãe para não passar as emoções para mim deu ainda mais sentido a tudo
Deus era ela, claro, por isso ia na copiadora todo dia e por isso não podia me passar as emoções, porque Deus, eu descobri bem cedo, que cuidava e guardava a vida de todo mundo, e mamãe, que era Deus, não podia contar segredo dos outros
porque era feio, isso meu avô quem disse, quando, ainda mais novo, contei para a vovó que o vi passando a mão na bunda da Dona Maria
Dona Maria foi uma moça que trabalhou lá em casa e que a gente dizia que cuidava de mim, da casa e do almoço e que, por anos, fiquei sem entender porque deveria cuidar de mim, mas vivia rezando ajoelhada com o vovô sentado dando benção segurando nos ombros dela
depois da espiral as coisas ficaram mais claras na minha cabeça de menino, eu dizia nas aulas de catequese que o céu de verdade era lá em casa e por isso tanta gente vinha, de tempos em tempos, para eu dizer que cuidava de mim, da casa e fazia almoço
na verdade, para estarem logo sempre ajoelhadas com as mãos de vovô nos ombros quando a vovó saía para ir a loja de departamentos ou ao mercado
depois de mais idade e algumas Marias e Madalenas eu desisti de acreditar no céu
e agora não sei o que me leva a te escrever depois de meio-dia, no meio da rua, quando o sol bate tão forte que meus olhos ardem e a pele queima e a saudade bate e eu não me satisfaço e peço para bater de novo e não parar e eu te sinto próxima, mesmo sabendo que depois de terminar essa frase eu vou jogar essa folha no lixo
aliás, dane-se
o bloco de anotações inteiro
A sensação dela
que uma vez, depois de umas garrafas a mais de vinho, ela soltou o verbo e o sujeito e disse assim, que quando ela encostava nele, no sujeito ele, que ela soltou só para falar, verbalizar, que quando ela encostava nele, os dedos dos pés se contraíam e alguma coisa ia rastejando deles até a última ponta do mais longo fio de cabelo
cabelo meio vermelho meio dourado meio cor de sol, meio cor de nada, até porque ele, ele mesmo, se negava a dizer ou a deixar que alguém dissesse que alguma coisa, que alguma qualquer outra coisa no mundo, se assemelhava a ela
ele dizia assim
- nunca vi coisa tão bonita no mundo
e se prendia nela e se espremia nela e nela se enlaçava feito fosse bicho feito rastejasse feito fosse elástico e não tivesse ossos feito fosse só coração
e nisso, ele um metro e noventa e dois puxados da família do pai emaranhados em um metro e cinquenta e seis estranhos dela que era a mais baixa entre os irmãos, faziam ele parecer tão menor tão frágil tão carente e tão necessariamente dela que dava dó
dava dó porque parecia que quando ele precisava se soltar dela ou quando ela precisava se soltar dele - sim, o enlaçamento era recíproco - parecia que ele ia quebrar se partir ao meio ou em milhares de pedacinhos dele que já eram dela e pedacinhos-coração de quem pensa não precisar de nenhum outro órgão para se sentir vivo
era tão bonito aquele quadro, aquela fotografia colagem pintura, aqueles dois juntos largados na cama no meio da tarde, com o sol batendo nas pontas dos dedos dos pés contraídos dele e dela e os lençóis manchados de água oxigenada cor-terra e as costelas dele sobressalentes e as costelas dela quase arrebentando a pele e aquela cena que parecia calar o barulho das ondas a rebentar na beira do mar e que parecia, também, um quadro do Portinari, porque os dois eram tão terra e avermelhados sujos e cinzentos de sol e de poluição e por causa do sol que refratava na janela e pelo jeito que se deve olhar
um retrato esquálido de um sofrimento a se conjecturar
retrato de uma miséria porque amor é muito muito muito muito muito de um tanto que ainda poder ser mais e mais e mais, mas não é soberba e portanto não pode sobrar e nem desperdiçar, amor tem que ser todo gasto e amor deles vinha contadinho moeda e moeda para se alimentarem os dois até o fim
os dedos dos pés se contraíam, chegava a doer nas canelas de tanta força de tanto músculo que vinha sei lá de onde e ela que se segurava apertando os lábios com os dentes e apertando o que estivesse ao alcance com as mãos suadas e vezes ou outras sujas de areia ou cheirando a alecrim o corpo todo reagindo e a sensação e a certeza de que alguma coisa ia rastejando da ponta dos dedos dos pés até a última ponta do mais longo fio de cabelo
iam se arrastando, depois, os dias e a vontade de ficar junto e a vontade de ficar colado e a vontade de ficar por cima e por baixo e rolar pela orla da praia não se importando com a temperatura ou com a sujeira do asfalto e do calçadão não se importariam se bateriam de cara em alguém ou num coco abandonado, mas vontade de ir rolando dos prédios a beira-mar até a beira do mar onde se assustariam com a água gelada e o gosto de sal
e se salgariam e se enrolariam e se sujariam e se adocicariam e seriam doces todos os dias ah! como eram doces os dias desde que haviam se encontrado e se cruzado e cruzado quando, enfim, foi o momento dela de conhecer esse lado da vida que falavam tão bem ao tempo que falavam tão mal e falavam algo sobre ir ou não ao céu, mas que ela por si só gostou e viu estrelas e era dia de céu encoberto e havia também o teto mas mesmo assim ela viu estrelas e permaneceu as vendo por muito tempo tanto tempo que depois já nem se surpreendia mais e passou a notar que o céu era sempre o mesmo e que ela nem o notava mais
e continuavam se arrastando e a vontade de ficar grudado e a vontade de ficar separado um pouco e a vontade de ficar só um pouco e sair um para um lado e um para o outro e iam se arrastando e arrastando também a vontade de ficar e os anos
e ele disse
- não conheço muito bem o mundo
e descobriu que certas coisas perdem a beleza e que certas coisas só tem a beleza que queremos dar a elas e que certas coisas acabam e que outras não
cabelo meio vermelho meio dourado meio cor de sol, meio cor de nada, até porque ele, ele mesmo, se negava a dizer ou a deixar que alguém dissesse que alguma coisa, que alguma qualquer outra coisa no mundo, se assemelhava a ela
ele dizia assim
- nunca vi coisa tão bonita no mundo
e se prendia nela e se espremia nela e nela se enlaçava feito fosse bicho feito rastejasse feito fosse elástico e não tivesse ossos feito fosse só coração
e nisso, ele um metro e noventa e dois puxados da família do pai emaranhados em um metro e cinquenta e seis estranhos dela que era a mais baixa entre os irmãos, faziam ele parecer tão menor tão frágil tão carente e tão necessariamente dela que dava dó
dava dó porque parecia que quando ele precisava se soltar dela ou quando ela precisava se soltar dele - sim, o enlaçamento era recíproco - parecia que ele ia quebrar se partir ao meio ou em milhares de pedacinhos dele que já eram dela e pedacinhos-coração de quem pensa não precisar de nenhum outro órgão para se sentir vivo
era tão bonito aquele quadro, aquela fotografia colagem pintura, aqueles dois juntos largados na cama no meio da tarde, com o sol batendo nas pontas dos dedos dos pés contraídos dele e dela e os lençóis manchados de água oxigenada cor-terra e as costelas dele sobressalentes e as costelas dela quase arrebentando a pele e aquela cena que parecia calar o barulho das ondas a rebentar na beira do mar e que parecia, também, um quadro do Portinari, porque os dois eram tão terra e avermelhados sujos e cinzentos de sol e de poluição e por causa do sol que refratava na janela e pelo jeito que se deve olhar
um retrato esquálido de um sofrimento a se conjecturar
retrato de uma miséria porque amor é muito muito muito muito muito de um tanto que ainda poder ser mais e mais e mais, mas não é soberba e portanto não pode sobrar e nem desperdiçar, amor tem que ser todo gasto e amor deles vinha contadinho moeda e moeda para se alimentarem os dois até o fim
os dedos dos pés se contraíam, chegava a doer nas canelas de tanta força de tanto músculo que vinha sei lá de onde e ela que se segurava apertando os lábios com os dentes e apertando o que estivesse ao alcance com as mãos suadas e vezes ou outras sujas de areia ou cheirando a alecrim o corpo todo reagindo e a sensação e a certeza de que alguma coisa ia rastejando da ponta dos dedos dos pés até a última ponta do mais longo fio de cabelo
iam se arrastando, depois, os dias e a vontade de ficar junto e a vontade de ficar colado e a vontade de ficar por cima e por baixo e rolar pela orla da praia não se importando com a temperatura ou com a sujeira do asfalto e do calçadão não se importariam se bateriam de cara em alguém ou num coco abandonado, mas vontade de ir rolando dos prédios a beira-mar até a beira do mar onde se assustariam com a água gelada e o gosto de sal
e se salgariam e se enrolariam e se sujariam e se adocicariam e seriam doces todos os dias ah! como eram doces os dias desde que haviam se encontrado e se cruzado e cruzado quando, enfim, foi o momento dela de conhecer esse lado da vida que falavam tão bem ao tempo que falavam tão mal e falavam algo sobre ir ou não ao céu, mas que ela por si só gostou e viu estrelas e era dia de céu encoberto e havia também o teto mas mesmo assim ela viu estrelas e permaneceu as vendo por muito tempo tanto tempo que depois já nem se surpreendia mais e passou a notar que o céu era sempre o mesmo e que ela nem o notava mais
e continuavam se arrastando e a vontade de ficar grudado e a vontade de ficar separado um pouco e a vontade de ficar só um pouco e sair um para um lado e um para o outro e iam se arrastando e arrastando também a vontade de ficar e os anos
e ele disse
- não conheço muito bem o mundo
e descobriu que certas coisas perdem a beleza e que certas coisas só tem a beleza que queremos dar a elas e que certas coisas acabam e que outras não
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