segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O que coletei dos dias

a cura dura durará - 

ser presença
onde a ausência
te emudeceu

abraço apertado na noite fria
abraço calado na cama vazia

silêncio
e pó

silêncio
e só

juntos justos
tão apertados
que é preciso
prender o ar
para caber
que é preciso
ficar sem ar
para soltar

ser colo
ser céu
e ser seu

ser chão
onde os pés
lhe faltarão

a cura
dura
durará

a carne
fraca
nos sustentará


do que é o amor - 

amor é
essa incontornável
vontade
que te beija a boca
emaranha no cabelo
pendura no pescoço
morde o coração
abraça a alma
e arranha-céu


sendo sem querer -

foi sem
querer
querendo
que te encontrei
na rua
meio-dia e meio
queimando de sol
não sei se dezembro
ou se janeiro
não sei se tempo
ou se alguma coisa
no vento
não sei se deveria
mas sei que deixei
que fosse sendo
sem nem saber
que assim
foi ser
querer
e querendo
que me encontrei
em você


cometas e sentimentos cometidos -

das coisas lidas, jamais vencidas, jamais esquecidas e que nos escapam pela boca até o borrão de letras, sentimentos e cometas no papel:

quando a gente
está tão junto
que não sabe
se-r-parado

borrão:
o não saber
se continuo
ou não
a não-escolha:
atire-se
ou encolha-se


o ser querer querendo da vida - 

ser humano
ser espaço
ser amor
ser-ti-mento
ser poesia
ser som
ser silêncio
certeza
nenhuma
ser feliz
e nada
mais


o quereres querendo -

assisto ao sol:
o alcanço
com um anzol
olho para a lua e
decido que será sua
o azul do céu
me cai
como um véu
a rima da dor
perde pra alegria
não quero ser poeta
quero ser poesia


brancazulado poente - 

o pôr-do-sol hoje
tá pra pôr-no-céu
e deixar por-lá


côncavo e convexo -

como cavo
com versos?


o desconhecido -

quem és tu?
tu que não conheço
tu que não vejo
tu que sequer imagino
tu que é tão sujeito quanto eu
tu que deveria ser você
mas que se esconde
por debaixo
de saias cultas
e regionalistas


da disforia eufórica -

a gente vem sendo felicidade
a gente vencendo tristeza


poesia urbana -

te reconheço na rua
te recomeço na cama


Metade crônica metade conto do incontável amor passado -

De antemão, alerto que não prevejo os amores futuros. Não sonho e nem me angustio com eles. Sobre o amor presente, é plural: os sopros da vida. Que invadem pelos mais diversos orifícios e me abandonam como suspiros. Eu li, em Freud, que para o mínimo entendimento, o presente tem que se fazer passado. Eu escrevo sobre o que me parece inteligível.. Escrevo sobre a menor partícula que apreendi do amor. Uma partícula que me é íntima, mas também estranha. Não a enxergo nitidamente, não me tem formato, mas a sinto e a imagino. Algo que, em mim, borbulha e outras vezes levita, quase sempre imperceptível. Esse é o meu amor passado, o que alcanço dele e que posso repassar por palavras.

Escrevo, logo não sei quão distante estou do que sinto.

Sabe...sabe o que é mais engraçado? É que, de alguma forma, a vida que eu escrevo é a minha vida. Mas fora do papel ela não é tão bonita. Nem tão parecida com a vida dos outros. E se eu não a escrevo, ninguém me assiste vivendo, chega e diz: ei, eu também sinto isso. E nem chora comigo. Ou sorri. Está todo mundo muito ocupado achando que é único no mundo. Mas no fundo somos todos a mesma pessoa. Só os sonhos que são diferentes...


Menos censura, mais sinceridade - 

Lembrar que cada homem, todo homem, é feito de porpurina e coágulos. De labirintos e flores. Que não há porque se perder, há sempre um caminho. Amar. E não desistir nunca. Se não for um mesmo amor para sempre, que sejam novos e outros. Mas amores. Nunca menores, nunca mais algo, ou menos outra coisa. Mas completamente amores. E se seu amor parecer errado, então é amor de verdade. Todo mundo tem medo de perder. Mas é todo mundo orgulhoso demais para fazer o que é preciso para manter qualquer coisa viva:

amar,
ainda que,
vez em quando,
doa.
Doar-se
para não
doer-se
tanto


dos rabiscos no caderno -

amor é a frase que continua pela beirada mesmo quando a linha do caderno já acabou
que se recomeça
que se reinventa
mesmo quando
(parece que)

já terminou

conselho que te dou de graça -

se ausente
de tudo que,
quando presente,
não te arrebente
o peito


e que depois cobro -

nada mais justo:
se é olho por olho
quero ainda mais apertado:
coração com coração

dos abraços que são sem ser -

Boa noite, desejei
desejando
a ela e a noite
Bom dia, disse ela,
pois já era dia.
Poesia, disse eu,

pois já era ela.

a conclusão -

Encontrou
despertou
abraçou
escorregou
beijou
entregou
recebeu
e dividiu:
amou
mas um se cansou.
Logo mais, 
o outro repetiu.
Se poesia tem,

que mal, bem?

o que fica é o que vai -

o vento leve traz
o que o
              t
                e
                   m
                       p
                          o
                                leva
tudo muda
o tempo
odot

e o que é tudo isso -

poesia:
é querer que os outros enxerguem
o que a gente sente
sem nem ver

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A lição morta da vida

Pedro enrabou Marília mais de uma dúzia de vezes depois que ela deixou João, seu irmão. A imagem e o desejo por ela ficaram impregnados nele desde o domingo de Páscoa de 1972, quando viu, no quarto de empregada, a bunda nua, pálida, precoce, de Marília repetindo um movimento de ir e voltar - para nada longe - do colo de João. Que não imagina e nem nunca poderia imaginar.

Pedro disse a Marília que poderia ajudá-la com a mudança. Ele já tinha consultado João, que disse não se importar, já que ela não conhecia mais muita gente na cidade, seria muito gentil da parte dele ajudar. Ele poderia entrar e sair na casa do irmão o número de vezes necessárias para retirar tudo o que era dela. Pedro contava com um número três vezes maior de visitas até conseguir carregar consigo o que realmente desejava. Mas não conseguiu se conter, e quando foi entregar a primeira remessa de roupas e tralhas, fez manobras circenses para, enfim, segurar entre as mãos a bunda de Marília. A carregou pelos dois quartos do apartamento alugado, conheceu o banheiro social, o de serviço, a sala e a cozinha. Faltou a varanda e a área de serviço, mas entre tralhas e roupas - e entre o capricho de tirá-las e permanecer sem elas -, não tiveram tempo para um tour completo. João ligou sedento por uma cerveja, "no Bar do Sujinho, só porque Marília odiava que eu fosse lá. Odiava que eu frequentasse lugar de puta, odiava que eu não fosse odiado, mas o contrário, por outras mulheres. Eu quero beber e trepar até gozar o necessário pra cuspí-la de mim". João gritava para além do telefone. Nessa hora, Pedro ficou do tamanho de uma bola de gude, miúdo de tanta culpa, e Marília engasgou tentando conter suas risadas.

Pedro se vestiu mais que rápido, enquanto Marília permaneceu pelo chão, sem parecer estar sentindo desespero, nem medo, nem nada. Rindo, mas não tanto. Sem saber, exatamente, o que sentia, Marília continuou arreganhada no chão, enquanto Pedro desceu os sete andares pela escada e saiu acelerando o carro.

Ao encontrar João, sozinho, de olhos arregalados, numa das mesas, teve a certeza de que não conseguiria manter segredo. Estava arrependido. Queria morrer. Aliás, queria matar Marília, matar a memória da bunda dela, indo e voltando para seu irmão. Mais ainda, queria matar a lembrança de Marília inteira roçando em seu corpo, há dez minutos atrás. Em seu corpo ainda quente da presença, feita ausência, dela.

A tarde se fez noite, antes, fez da presença ausência, fez da companhia um castigo insuportável, dos minutos e dos chopps intermináveis. Pedro não disfarçava a agonia, mas João estava tão longe que não percebia. João estava tão em Marília que ele e Pedro dividiam a mesma sensação de corpo quente que se ausenta e se assusta com a brisa fria que invade pela janela.

Em algum momento da madrugada, quando os garçons já recolhiam os vidros de pimenta e os porta-guardanapos, João se cansou, quis deixar o carro pela rua e pediu a Pedro que o deixasse em casa. Ao descer do carro, os olhos de João se encheram de lágrimas.

Vou dormir e acordar sozinho. Não sei nem por quanto tempo. Sozinho e solitário e sem previsão. É...e será se não é esse o bem mais precioso do homem, meu irmão, a solidão?

E suas lágrimas se encheram de Marílias. Que do outro lado, estavam cheias do João e vazias de Pedros. Cheias destes mesmos frágeis amores e sedentas por novos aquecidos desamores. Trocaram um abraço de irmãos. E depois, João puxou Pedro para um outro, mais longo, mais forte. Um abraço tão forte que as palavras tão ebriamente sinceras e admiradas de João mal encontravam espaço para sair da boca e encontrar sons. Ele agradecia, de todo o coração, e pedia desculpas pelo estado em que se encontrava. Dizia, ainda, assim:

Nós só temos um ao outro. Vai ser sempre assim.

A culpa de Pedro fez com que ele olhasse muito mais as árvores e os postes naquela madrugada, enquanto percorria o caminho para seu apartamento. A culpa fez com que ele engolisse um choro que não valeria de nada. Engolir lágrimas que borram, ao invés de apagar. A culpa fez ele não pregar os olhos e pedir cinco vezes um expresso duplo no dia seguinte de trabalho. A culpa o fez pegar o restante das coisas de Marília de uma vez só. No entanto, dessa vez, o objeto de desejo não foi a bunda. Bastaram os olhos dela para que se revelasse, ali, uma paixão há anos velada.

Marília sofria, cronicamente, pelo desejo de algo maior. Os olhos bem mais além do que podem alcançar. João ela realmente quis. Pedro não, então foi mais fácil olhar por detrás e além dele. Ela fez isso, na verdade, desde o primeiro embaralhamento dos dois. As outras vezes, mais que dúzia, foram só porque sempre lhe agradaram as faíscas entre peles que diferem de temperatura.

Pedro, não sei como e nem porque, imaginou que dali viria algo a mais. E quando se deu conta de que isso não aconteceria, dormiu embriagado e sozinho por noites e mais noites. E ainda repetia, como se orasse pedindo por algum tipo de perdão:

E não é esse o bem mais precioso do homem, meu irmão, a solidão?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Amores, passados passarão...

Sweetheart, what have you done to us?
I turned my back and you turned to dust.
What have you done?

A maneira como aconteceu não estava em meus planos. Ainda não está. Você esperava que eu fizesse o que? Me abaixasse e saísse rolando pelas ruas da cidade só para tentar desviar? Preste atenção no "tentar", porque essas coisas acontecem mais rápido do que a maneira que nossa imaginação tende a visualizar. A gente só tem ideia da rapidez bem depois, quando consegue até, mais ou menos, identificar o momento exato. Além disso, eu não pude prever. E nem teria como. Eu estava vagando como sempre vaguei.

Conheci
outra
pessoa
e ela me
reconheceu
quando nem eu
me reconhecia...

Pare de repetir. Não se torture me torturando. Eu não quis tornar as palavras mais duras do que devem ser. Nem quis dar a entender que foi uma escolha. Certas coisas a gente, simplesmente, não escolhe! Elas acontecem, como aconteceu entre eu e você e, antes, com outros. Eu não encontrei, e nem precisava de nenhuma outra maneira para te contar uma coisa dessas. Você esperava mesmo que eu te explicasse como esses encontros se dão? Não preciso me justificar, mas se os tempos fossem outros e eu ainda lesse Shakespeare para as aulas de teatro, eu saciaria essa sua necessidade de dramatizar as coisas e diria:

Apunhalou-me pelas costas
e disse:
é o amor, cheguei.


Pelas costas! Satisfeita? Na calada de uma noite ou de um dia, ou mesmo acuado pelo barulho dos trens lá no Baixo. Veio por entre sombras que eu não vi! Ah, se eu te contasse assim, desta maneira encenada, no momento seguinte, ou você estaria engolindo o choro e me chamando de todos os nomes ou se afogando em prantos e me pedindo para ficar. Agora você só fica aí parada me olhando, meio morta e meio desesperada. Não é uma corrida, mas se sua agonia é de não ter nos deixado antes - como seus olhos insistem em me dizer -, eu poderia ter te dado imaginários dez minutos de vantagem. Você também já vagava por aí, então não há culpa! Entenda, eu posso ficar. É minha livre escolha. Estamos falando do meu próprio direito de ir e vir e sobre o lugar onde isso te toca. Esse pequeno espaço, se duvidar, menor que um dedo, onde minha vida coincidiu e ainda coincide, com a sua. O que você quer? O que você espera de mim, do mundo?


Não estou esperando alguém chegar montado em um cavalo me dizendo palavras de amor. De um amor que eu ainda não sinto. Eu não preciso dramatizar. Pareço morta porque só percebi, agora, que tinha te matado antes. Não quero, nunca quis, que alguém me convença de que realmente existe eternidade. Não vou precisar, daqui para frente, de chuva de pétalas, nem de ser mimada com presentes caros. Eu só queria sentir como é ser prioridade na vida de alguém. E agora eu só quero ir embora. Agora, depois que senti isso até o fim - que não assisti chegar. Eu tapei meus olhos e agora desejei ter te impedido de abrir os seus. Eu só quero ir embora de você...digo, eu quero ir embora esperando que você se vá de mim também. Seu corpo parece enterrado no meu. Desacordado debaixo da minha pele. E agora?

E agora eu te desejo. Uns mesmos desejos comuns a nós dois. Mas nenhum desejo pequeno. Nada do que é esperado. Que saibamos amar. Apenas isso. Neste e nos próximos anos, nos próximos pedidos, promessas. Porque amar é como aprender a andar de bicicleta: às vezes precisamos deixar de lado por um tempo, mas ninguém desaprende e ninguém nunca esquece.

domingo, 11 de agosto de 2013

Se (eu) vim e se (alguém) virá

Quando fomos confusão:

Já era madrugada
quando dois corpos
gelados
fizeram 
calor,
do atrito da 
manta
com a pele
com as peles.
Do atrito
que dois corpos
causam
quando anseiam
por se tornar
um.
Um corpo só.
Em corpo
e alma.
Sem que haja calma:
o calor que
vem do atrito
é fruto
é folha
é em carne-viva.
Carne que revive
sem esperar
renasce
do pó
rebenta
que nem mar
regenera
em pele
em osso
em alma.
O calor
vem do atrito
afoito
fugaz
agressivo
que transborda
e remenda
o corpo
a alma
com coração
ou não.
O frio
some
quando
e qual
qualquer alma
descobrir
cobrir
redescobrir
recobrir
um corpo
além
do seu.


Quando fomos ausência:

Do passado, um apartamento quase completamente esvaziado, o último mês de aluguel a pagar, um velho álbum de fotos, um rolo de barbante esquecido em uma das gavetas da cozinha, a maçaneta enferrujada da porta da sala, a falta sua que fiz minha e um poema que subiu no muro:

Se provavelmente,
e se prováveis fossem,
todas
as coisas
que não são
e todas as outras
coisas
que se são
não se sabe,
não se sonharia tanto,
não se seria tanto.
E eu não enrolaria
tanto mais
para dizer
o que eu te digo
sem nem saber
(se quem diz sou eu
ou você)


Quando fizemos confusão:

Quando sinto
sua falta:
quando sentir 
a sua falta
te transforma
em presença,
eu me ausento.
Eu me desfaço.
Diluo.
Eu me despeço
do que,
ao meu redor,
gira.
Eu rodopio
enquanto tento
te encontrar
enquanto tento
te fugir.
Me encontrar
e fugir de ti.
Te encontrar
sem que esteja
mais aqui.
Necessidades
inúteis.
Eu me rendo:
mesmo quando se foi,
você nunca
saiu
de mim.


Quando fizemos ausência:

A vaga vazia na garagem.
A caixa amassada com farelos de cereal.
Cafeteira sem filtro.
Marcas de pneu circulando a esquina.
Duzentos e setenta e três dias riscados no calendário.
Porta incenso sem portá-lo.
Cama de lençóis brancos
frios
amarrrotados
e sozinhos.
Por que
lhe escrevo
sobre a ausência?
Porque ela quem lhe impede
de estar presente
aqui para ler.


Quando fomos interrogação:

Duas horas da madrugada
e o teu cheiro
e a tua respiração
e o teu calor
e o teu suor
e a tua
minha
falta
e a nossa
minha
saudade
vontade
de te tornar
realidade.
É quando olho
para o lado
para o espelho
para o retrato
para o fato
de que nunca te conheci
e de que
ainda assim
te abraço.
Não choro
te aceito,
imaginário,
e nem assim
te desfaço.
É quando olho
para o mundo
É quando tomo
conhecimento
de nossa
absoluta
solidão.
A partir daí
decido
se te crio
se te amo
ou se não.


Quando fomos ponto:

Saudade do seu cheiro.
Saudade do jeito
como dança.
Saudade até
de como você
me empurra
me deixa cair
e nunca me alcança.
Aliás,
esquece.
Te esqueço.
Amor:
embora sintamos
como,
não é coisa de criança


Quando fui esperança:

Eu quero um amor
bem assim:
que faça os outros
quererem
o amor
também
(tão bem).


Quando fui lembrança:

Sobre o amor,
aprendi duas coisas:
a amar muito
e a amar muito mais
quando muito já
parecer
pouco


Quando deixei ir:

Foi bom
e foi lindo
desejei eterno
e foi suave
então pesou
e revelou-se findo.
Finalmente,
te esqueci.
Antes tarde
do que nunca.
O precisar esquecer
é um relembrar
imediato.
Mas se antes arde,
depois nunca.

Vá para a coletânea que te colete

Da ameaça:

E se eu for embora?

E se for de vez?
E se for agora?
E se a ausência,
for o necessário
para que a presença,
se (des)faça.
Sombra
contraste
sermos luz
seres de luz
que depois apagam.
E se para nunca,
o mais?
Somos pele
osso
e alguma coisa
que nos apunhale.
Por dentro
ou por fora.
Somos
o espaço em branco
entre o para sempre
e o para sempre
ir embora.


Da paixão:

Acordava com os cabelos desalinhados.
Olhos sujos de sono.
Bafo de preguiça.
Movimentos de lagarta.
Desejos de borboletas.
Sempre distante do chão.
Corria até o banheiro.
Saltitava de volta para a cama.
Abraçava por trás.
Mordiscava a nuca
beijava as costas
alisava o peito.
E ia descendo
ao mesmo tempo
que provocava
uma subida
aos céus.
Não importava
a cama
o corpo.
Pela manhã,
se não era eu,
sempre haveria um outro.
Se não minha,
sempre de alguém.
Se não aqui,
sempre em outro lugar.
Eu girava
em torno dela,
mas ela só vinha
quando lhe convinha.
Eu me despedia
esperando
que ela resolvesse,
um dia,
voltar.
É como nos filmes,
onde a gente se dilacera
fingindo
saber
amar.

Do amor:


Amor:
é preciso morrer de
para viver com.
Não me esqueço
de sua imagem
de sua passagem.
Somos pele
osso
e alguma coisa
que pulse.
Amor:
é uma das coisas
que te mata
pra te ensinar a viver.
Distantes
ou não
do poço.
Somos amor
e osso.
Eu quero morrer de amor
e matar.


Da origem:

A inspiração tem a ver com o fim.
Com a ruptura.
O vinco.
O não mais vínculo.
O rompimento.
A inspiração vem da quebra
da dobra
da queda.
De um buraco
ou de um precipício.
De onde se salta
mas não se morre.
O fim de onde se renasce
se reencontra
se recupera
se redescobre.
O amor não dói.
A gente é que dói.
Nós fazemos
a dor
que somos.
Somos
a dor
- ou o estanque –
que queremos ser.
Minha inspiração
vem da falta
do fim.
Ela veio
de onde eu vim.


Da constatação:

No final, 
quando já havíamos
nos tornado
gritos
farrapos
cacos
e só
e nada mais
e não mais
e para nunca mais.
Você bateu forte
na porta
o punho
no coração
os verbos.
Você disse:
o amor dói.
Não!
A gente dói
- retruquei.
O problema é
o sujeito.
Termos nos
sujeitado
a isso
tudo
por
quase
nada.


Do esquecimento que não esqueci:

Eu te esqueci.
Eu te deixei para trás.
Eu te vi bem de longe,
fazendo sombra 
com o horizonte.
Mas você sempre me vem.
Nas noites de lua cheia.
Nas canecas cheias de café.
Na presença de um homem.
Na barriga de uma outra mulher.
Você sempre me vem
porque permiti
que morasse em mim.
E em todas as coisas.
Que me rodeiam.
Que me incendeiam.
E se apagam.
Até hoje,
nunca soube onde morava meu amor.
Porque tinha o medo infantil
de te (re)
descobrir.
E assim me perder.
Me perdi
de uma forma
ou de outra.
Já bem antes,
num tempo em que não quis enxergar.
Aconteceu desde o momento
em que te conheci
e os arrepios na parte baixa da coluna
- que se estendem até agora.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A lição vida que a morte ajuda a trazer

Marília me lembra Irene. Alguém a quem se espera ver sorrir. Alguém cujo sorriso é esperado, ansiosamente, leve o tempo que for. Marília também me lembra que há quem nasça para morrer e quem nasça para matar. Ela é a voz que nega a existência de um dia da caça e um outro do caçador.

Ela levanta em um horário diferente todo dia. Em geral, depois das dez. É assim desde criança. Acostumada a dormir já quando a madrugada se arrasta, e a acordar somente quando seu corpo lhe pede. Por isso, estudou no período da tarde durante toda a sua formação escolar.

Quando acorda, fica grunhindo que nem um animalzinho indefeso. Rola de um lado para o outro da cama de casal vazia. Estica as pernas, os braços e sorri.  Marília é o sorriso único que nunca se encerra sendo só um, desencadeia em outros, nos outros. A cama box de casal vazia, com colchão de molas e seis travesseiros - as almofadas são decorativas, ela tira e guarda no armário toda noite, para dormir -, é retrato de sua condição atual, "viúva". Ela odeia esse termo, porque nunca gostou da cor preta. Marília sempre gostou de tons terra e dos tons mais claros das cores. Não deixa que a chamem de viúva pois, imediatamente, já se imagina num vestido preto, de scarpin também preto, juntamente com um chapéu ainda mais escuro, de bordas rendadas.

"Ele nem imagina", ela exclama de vez em quando. Pois ainda lhe perguntam, mesmo com todas as negativas, se entrou, alguma vez, em contato com ele. Parece que associam a morte de seu último marido com um renascimento de João em sua vida. Ela, em sua intimidade, tem a certeza de que João gasta horas, mesmo depois de tantos anos, imaginando que rumo ela tomou. Ela percebeu isso em todos os livros que ele publicou - não deixou de comprar, ler e rabiscar nenhum. Até mesmo nos últimos, já mais emancipados da figura dela.

Marília não se preocupa em pensar em João. Mas por não se preocupar, se assusta toda manhã, depois de grunhir e se esticar, quando lembra dos barulhos emitidos pelos primeiros movimentos matinais do corpo dele. "Desculpa, meu amor, mas foi assim a vida toda", ela lembrava dele se desculpando quando os estalos a acordavam. "João parecia ter nascido já todo quebrado. Parecia ter vindo ao mundo em partes e, por isso, precisava se reencaixar todo dia. Eu nunca sabia com que tipo de João encontraria ao me levantar e caminhar até a sala". Foi tudo o que falou dele para Antônio, seu falecido. Antônio se deu por satisfeito e nunca mais perguntou nada. "João" se tornou um termo de cor preta para Marília, portanto nunca mais fora, por ela, mencionado.

Ela não toma café desde aquela manhã de Natal em que deixou a casa de João - digo assim, pois nunca sentiu a casa como sua. Mas todo dia, faça sol, faça chuva, ou faça coisa alguma, Marília ainda lembra do cheiro que vinha da cozinha americana e dominava os três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e a sombra das mangueiras daquela casa. Toda manhã acorda com o cheiro do café de Onôzinha impregnado nos seus poucos pêlos do nariz. Quase viaja no tempo, mas antes de sentir saudades, senta na beirada da cama e coloca os dois pés no chão, como João disse que seu avô lhe dizia.

Caminha até o banheiro, onde gasta metade da manhã passando todos os cremes anti-idade que pôde encontrar em suas viagens pelo mundo. Ela relembra que com João as viagens nunca passaram do litoral nordestino ou do interior paulista. Relembra também que o conheceu recém-chegado de um mochilão pela América do Sul. Os ombros largos e a barba avermelhada secundários por detrás de seus olhos azulados e cheios de sonhos e sono. A voz rouca de tanto fumar, contando como precisou enrolar no portunhol para conseguir começar a trocar poemas por comida.

Marília se apaixonou por aquele João. Que depois do dia em que se conheceram, não aquietava até, no meio da noite, pular a janela de seu quarto na residência de estudantes. Que não aquietava até se enfiar em sua cama, molhando os lençóis de um suor febril. Que toda noite rasgava sua calcinha enquanto lhe mordiscava dos pés a cabeça. João que lhe lambia do corpo a alma.

Namoraram e se enrolaram e se enroscaram assim por quase cinco anos. Depois que se formaram, em 1975, foram morar juntos numa quitinete no Centro. As coisas a serem feitas dentro e fora de casa foram substituindo as horas de amor pelas horas de sono. Foi pela procura de um equilíbrio que, em 1978, levaram Onô para trabalhar com eles. De início, Marília foi mais onça que mulher. Logo constatou, mais uma vez, que João era completamente dela. João foi sendo assim até o o fim dos dois - depois continuou sendo sem que ela soubesse com certeza -, mas era o João completamente de Marília sendo um outro João do mundo. Menos preocupado com os sonhos e mais angustiado com o acúmulo de contas ao fim de cada mês. Um João que chegava cada vez mais com menos flores e poemas. João que sempre trazia, consigo, seu próprio peso e algum outro e, vez ou outra, alguns kilogramas de alegria.

Quando entrou na casa, no dia primeiro de janeiro de 1981, Marília constatou, imediatamente, que não pertencia ao João a quem dava as mãos naquele momento. Suas mãos permaneciam na busca por aquele João que pulava janelas para fazê-la gozar - fosse de amor ou alegria, ou da fusão que ela, naquele momento, já quase se esquecia. 

Marília queria morrer de amor e matar. Queria viver de amor do nascer ao pôr - do sol ou dos amores. Esgotar o amor e se esgotar nele.

Em Antônio não encontrou o que buscava. E nem matou a sede que lhe matava. Mas soube amar aquele homem que não mudaria tanto mais com os anos. Que nunca se tornaria monótono ou tedioso, isso porque nunca iria se mostrar para ela como sendo o contrário. Não deixaria de pular as janelas atrás dela. Não a carregaria no colo, nem nas costas. Não lhe tiraria a concentração da ordem dos cremes anti-idade anos e anos depois.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A lição morte que a vida ajuda a trazer

Acorda no mesmo horário todos os dias. Faça sol, faça chuva. Ou ainda que não tenha que fazer coisa alguma, ainda que tenha programadas somente as horas ociosas de recesso ou feriado, nunca levanta depois das cinco e meia. Senta-se na beira da cama, virado para o espelho, e bebe o copo d'água que, toda noite, coloca para dormir ao seu lado, sobre um exemplar do Almanaque Abril de 1981.

Em 1980, trabalhou na revisão de texto do Almanaque de 1981, dedicou uma porção desumana de horas do seu ano nisso. Em ler, reler, ler, reler, revisar para, por fim, ter seu nome composto e seu único sobrenome impressos em Arial Black número oito. A importância de ler-se ali é, para ele, inefável, indizível. Através dos olhos alheios, passa invisível, imperceptível, quase como uma brisa fria em quarenta graus de Rio de Janeiro, no mês de fevereiro, em plena orla de Ipanema. Digamos, cruamente, que sua existência só passou a fazer sentido para si mesmo, quando se viu impresso ali. Uma dessas realizações pessoais que não podem ser transmitidas verbalmente.

Depois que esvazia o copo, calça as duas chinelas de uma mesma vez. Seu avô, quando era pequeno, lhe disse que nada nunca superaria o levantar com os dois pés nos chão. Terminou acrescentando que "isso de sorte não existe, é coisa de quem tem dinheiro pra pagar para ver e inventar quando o que é visto pelos olhos já não basta mais".

Levanta os braços e se espreguiça, por puro prazer. Logo se alonga com mais disciplina. Nesses minutos, seus ossos e suas cartilagens e seus pinos nos joelhos: todos se manifestam presentes e ressoam pela casa de acústica muito boa.

"A acústica daqui é muito boa", foi a resposta que Marília deu quando ele comprou a casa para os dois em segredo e a levou para conhecer. "Quero construir uma vida aqui contigo", disse ele roxo de tanta timidez, de tanto amor, de tanto desejo - de corpo e futuro. E ela disse assim:

"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".

João repete, até hoje, essa frase dessa forma que retratei aqui. Como se as palavras derretessem. Como se cada uma das palavras necessitasse de uma pausa própria. Como se falassem. Como se batessem na velocidade de um coração na véspera de morrer.

"Até hoje" porque a casa foi adquirida em 1981, Marília entrou nela, pela primeira vez, no dia primeiro de janeiro. A casa foi adquirida juntando o salário mensal que João recebia na redação, mais as horas extras da revisão do Almanaque, mais um financiamento na Caixa, mais as economias que a mãe dele havia deixado ao falecer. A casa, com três quartos, dois banheiros, sala de estar, sala de jantar, cozinha americana, área de serviço, jardim, quintal, duas vagas na garagem e mangueiras fazendo sombra, custou a bagatela da vida e todos os prazeres da carne de João. Marília pisou pela última vez naquele piso de madeira laminada no dia vinte e cinco de dezembro daquele mesmo ano. Aproximadamente às dez horas, na manhã de Natal em que completariam dez anos juntos. João, por toda sua inocência e romantismo, levou um ano para deixar de esperá-la na poltrona em frente a porta.

Quando se conheceram, Pedro, irmão de João, disse bem assim:

"Cuidadoquefogodemaisqueima!!!"

E João nunca se esqueceu dessa frase, mesmo depois de quarenta anos. A frase corre, acelera, pula e escorrega lhe dando uma azia que nem reza forte cura. Fica presente por dois ou três dias. E ele ainda a atiça com garrafas de café. Reclama das restrições com que vivem os "solitários". Ou se faz muita comida, bebida, e se joga fora. Ou se faz muito pouco, sem poder repetir ou desejar um pouco mais. Domínio da preguiça sobre o homem. João sempre pensa demais sobre tudo. Se diz assim "solitário", mas não se incomoda ao atribuir a si mesmo essa característica. Acha até bom e, nos encontros de família, ri quando menciona isso em voz alta. Diz que dá sorte com as mulheres. Mas nunca mais amou ninguém. Nenhuma outra depois de Marília. Aquela ali partiu seu coração. Desfez o homem robusto, charmoso, sarcástico, risonho que João era. Ficou um resquício dele, um João mais barbudo, magricelo, grisalho, introspectivo, descrente e, até, sombrio.

Mas ele, ao menos, tirou dos farrapos de seu coração, palavras para bons livros. Publicou mais de vinte. Os de auto-ajuda venderam menos, foram seus primeiros. Publicações alternativas, que nas noites de lançamento, faziam com que ele trocasse autógrafos e exemplares por uns bons tecos de cocaína e umas ou outras trepadas. Nem todas boas, mas sempre viscerais. João só sabia ser se fosse por inteiro. Doava-se em tudo. Família, amigos, trabalho, Marília e aquelas que o faziam lembrar dela.

Depois que repete, quase como oração:

"É,
João,
a acústica
daqui é
muito
boa".

Ele percebe já ter se alongado o suficiente e caminha até o banheiro do corredor, onde se sente mais confortável, e urina em jatos pequenos, levando cerca de dez minutos para esvaziar completamente. João, como todos que envelhecem sãos, consegue diferenciar os prazeres dos desgostos que a idade traz consigo. Urinar por tanto tempo, para ele, é um prazer. Pois morre de medo de, logo, não ter mais controle sobre seu direito de ir e vir urinário. Desde criança, falava a quem fosse assim:

"No dia que não tiver mais controle sobre meu próprio mijo, podem me matar!".

João aprecia as coisas simples da vida. Aprecia até demais. Lava as mãos com sabonete líquido de lavanda, recomendação de Pedro, seu irmão como já mencionado e que, provavelmente, cheira esse cheiro de lavanda molhada desde que nasceu.

Nada mais de muito relevante sobre a ida diária de João ao banheiro. Ele repete os mesmos passos de uma dança lenta e febril. Dia sim, dia não, lava os poucos cinzentos fios de cabelo. Depois escolhe uma roupa que, a cada dia, parece a mesma, e senta-se para o café. Pão francês que Dona Onô deixa todo dia na porta da casa, manteiga com redução de sal e canecas de café puro com canela que dão taquicardia só de contar.

Dona Onô limpou a casa de "Seu João" por muitos anos. Até que ele decidiu que a entediava demais e a mandou embora. Chegou para trabalhar com ele ainda quando menina, beirando seus treze anos. Ficou de 1978, quando João e Marília ainda moravam em uma quitinete no Centro, até 1998. Assistiu João sendo santo, sendo crucificado e João sendo menino sem beira de saia para se esconder. Como arrumou um outro trabalho na mesma rua da casa, continua deixando três pães frescos todos os dias. E acredito, mesmo se trabalhasse do outro lado da cidade, daria o jeito que fosse para que os pães estivessem sempre ali abraçados ao jornal quando João abrisse a porta para ver o nascer do sol. Dona Onô aprendeu com João como acontecia a transição de menina para mulher. Não, não sexualmente, pois Dona Onô, antes de ser Dona, quando era só Onô, já era para ele como uma filha. João a ensinou a falar melhor, pagou seus anos no supletivo e lhe dava roupas sempre que era aniversário e Natal. Hoje Dona Onô nem trabalha mais limpando casa, passando e cozinhando, é gerente da Lanchonete do Bairro, casada e mãe de três filhos. A família vem visitar João uma vez por mês. Nesses dias, ele se sente como se seu nome estivesse impresso em um número tal de Almanaques que desse a soma dos anos de cada um dos membros daquela família.

Depois do café-da-manhã, ele tira um cochilo na mesma poltrona em que esperava Marília, mas agora não sabe o que espera. Não sabe se há mais o que esperar. Tem muito medo da morte, que é sua única certeza. Depois de quase uma hora, acorda e folheia o jornal. Até cochilar outra vez, mais ou menos no caderno de Esportes, que nunca foi seu forte. Recebe uma ligação de Pedro e depois sai para almoçar. Quando não tem nenhuma consulta, volta para casa e se senta a escrivaninha. Está trabalhando em mais um livro, de ficção, campo onde conseguiu seu reconhecimento. Narra histórias de Marílias, essas mulheres que em suas obras, vez em quando, são também homens. Que são esses amores que dilaceram desde o momento em que se concretizam. E essa "concretização", ele argumenta, não acontece perceptível aos olhos, é uma combinação entre os astros e alguns sádicos das dimensões espirituais, ele diz "sei lá, amor é coisa que nos apunhala pelas costas". Quando conta para alguém que é escritor, nunca escapa da:

"Escreve sobre o que?"

João com sua voz serena repete sempre a mesma resposta:

"Sobre o amor, ou qualquer uma dessas coisas que te mata para te ensinar a viver".