A intenção era passar despercebido. Foi como se me agachasse de madrugada para atravessar o corredor. Quase deslizando da cama, assim que nasce o sol, e saindo, indo embora, na ponta dos pés. Eu não quis que sim. Mas você soube, logo depois. É, eu estive lá. Ficou no ar, um peso: minha presença se fazendo ausente. Eu te assisti enxaguar o rosto logo pela manhã. Chutar a lixeira. Reorganizar uns papéis. Eu vi uma garrafa vazia encostada, prestes a cair, na parede. Eu senti saudade e, ao mesmo tempo, percebi que a mesa vinha sendo colocada para dois - a prova eram rastros de pão que não coincidiam. Eu percebi que eu mesmo não estava ali. Que o casaco pendurado atrás da porta não era meu. Que os cabelos claros fazendo volume sobre o ralo eram mais claros e, portanto, também não me pertenciam. Vi que trocou os quadros. Pintou as paredes, os armários, as unhas. Entendi, pelo menos, que o sentido das coisas está nos movimentos circulares que algumas outras coisas, da vida, fazem por nós. Os planetas, os relógios, as bailarinas, os discos de vinil, o liquidificador. Saudade das suas mãos arrepiando minhas costas. Os ruídos que emitia mastigando cenoura. Para onde é que as coisas que se perdem vão? Se não há tanto espaço no peito. Se já não há porque carregar na memória. Onde podem ser achados os perdidos da vida? Como podemos perder o que, um dia, nos fez encontrar? Eu não quero te ver abrindo a porta para outro. Nem vê-lo se deitar em seu colo. Não quero imaginar que os botões de seus vestidos ainda podem ser abertos. Não consigo aceitar qualquer coisa que chegue ao fim. Eu quis sair e ver o céu - que dizem, é infinito. Eu quis pular no mar - mas dizem que pode, uma hora, secar. Eu quis descer da forma que fosse mais rápida: eu quis pular destes exatos doze andares que te impedem de ter os pés no chão. Mas a morte é safada: pode ser um fim em si mesma. Se não tem continuidade, não quero nem saber. Subi toda aquela estrutura de metal. Fui me carregando por cada um dos degraus. Em um dia em que o frio era tão grande que sequer sentia meus pés. Aquele cenário bucólico. Que nós dois, anos atrás, fantasiaríamos depois de sair de uma sala de cinema. Ainda muito impressionados com o restante do mundo. Estávamos pisando mesmo ali, em uma outra cidade, em um país estrangeiro. Uma língua que, só com muita dificuldade, conseguia encostar nas nossas. Eu, finalmente, podendo subir uma escada de emergência "tipo Hollywood" - como você disse e seus olhos brilharam, quase saltaram, tendo dificuldade em acreditar. Todo o caminho que construímos para, depois, nos orgulharmos de nossas mãos calejadas. Mãos cheias de espinhos, de farpas. Mas agora, mãos cheias de pó. De muitas coisas muito próximas de quase nada. Saudade de poder dizer que senti. Fez-se ausência. Uma vez, e outra, logo em seguida. Repetindo-se ao longo dos dias. O ar pesado: não me esqueci do caminho de volta.
*Concreto no Facebook:
https://www.facebook.com/pages/Concreto/203457209732221
quinta-feira, 7 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Nunca Fui Poeta.
Foi-se?
Ela se foi...
Então ela se foi?
E então ela se foi...
É isso. E mais nada. Foi-se, simplesmente. Com as roupas do corpo. Sem direito a despachar bagagens. Nem a carregar uma bolsinha entre as mãos.
O que restou...
O que ficou...
O que sobrou...
O que permaneceu!
É isso. O que permaneceu dela foi pouco mais que uma brisa. A memória de seu perfume encravada nas almofadas de algodão. Os fios avermelhados de seu cabelo que, no verão, caía e caía sem se importar. Fios no ralo. E apoiados na cabeceira - onde deixava repousar sua escova. Um fio de saudade, isso ficou. Não, muito mais. Uma corda grossa, dessas com as quais se prendem navios. Ali, meu barco ancorou. Fizemos amor, poesia. Fez de mim um porto. E um porto fui, até o fim.
O problema é que as coisas, raramente, acabam.
Não existe fim.
Tudo se movimenta em desarmonia.
Saudade de te ver chegar.
De te ver sentar à mesa.
Brincando com a comida, sem jamais comer de verdade.
Te escutar reclamar.
Dizendo estar sempre acima do peso.
Ver seus ossos quase saltando pela pele.
Você se maltratando.
Com esse desejo desumano de deixar a própria existência firmada no mundo.
De deixar, no testamento, frases para nunca serem esquecidas.
Alguns nascem mais inquietos que os outros. E são a esses que nada satisfaz.
Saudade de te ver mergulhando no mundo.
Com tudo.
Mas com muito medo de se afogar.
Suas mãos e seus pés: pequenos.
Sua coragem: muito menor.
Tem moça que mais adiante vira monstro.
Tem eternidade que é melhor deixar acabar...
Ela se foi...
Então ela se foi?
E então ela se foi...
É isso. E mais nada. Foi-se, simplesmente. Com as roupas do corpo. Sem direito a despachar bagagens. Nem a carregar uma bolsinha entre as mãos.
O que restou...
O que ficou...
O que sobrou...
O que permaneceu!
É isso. O que permaneceu dela foi pouco mais que uma brisa. A memória de seu perfume encravada nas almofadas de algodão. Os fios avermelhados de seu cabelo que, no verão, caía e caía sem se importar. Fios no ralo. E apoiados na cabeceira - onde deixava repousar sua escova. Um fio de saudade, isso ficou. Não, muito mais. Uma corda grossa, dessas com as quais se prendem navios. Ali, meu barco ancorou. Fizemos amor, poesia. Fez de mim um porto. E um porto fui, até o fim.
O problema é que as coisas, raramente, acabam.
Não existe fim.
Tudo se movimenta em desarmonia.
Saudade de te ver chegar.
De te ver sentar à mesa.
Brincando com a comida, sem jamais comer de verdade.
Te escutar reclamar.
Dizendo estar sempre acima do peso.
Ver seus ossos quase saltando pela pele.
Você se maltratando.
Com esse desejo desumano de deixar a própria existência firmada no mundo.
De deixar, no testamento, frases para nunca serem esquecidas.
Alguns nascem mais inquietos que os outros. E são a esses que nada satisfaz.
Saudade de te ver mergulhando no mundo.
Com tudo.
Mas com muito medo de se afogar.
Suas mãos e seus pés: pequenos.
Sua coragem: muito menor.
Tem moça que mais adiante vira monstro.
Tem eternidade que é melhor deixar acabar...
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
A Saudade é um Quarto.
A parte mais triste em perder alguém é que no dia seguinte tudo continua se movimentando, mas você não consegue sair do lugar.
A parte mais triste em perder alguém é que já é suficientemente difícil quando você precisa encontrar a si mesmo.
A parte mais triste em perder alguém é que se não existir mesmo eternidade, continuarão existindo períodos longos de tempo.
Tão longos que os olhos não conseguem enxergar a extensão deles.
A parte mais triste em perder é que a gente ainda acredita que está aqui para ganhar.
Estamos todos fadados ao excesso.
Muitas lágrimas, muito mau humor, muitas fitinhas do Bonfim, muito sal, muitos "amigos", muitos desejos, preces, muito medo, e pedidos.
Estamos destinados a overdoses, crises de choro, pânico, depressão, socos, pauladas, pontapés.
Nascemos e já choramos de medo.
Morremos de medo de morrer.
A vida toda é um ciclo de parto e morte.
Um dia eu acordei e parecia noite.
Um dia eu mal acordei e já quis que anoitecesse.
Outro dia eu nem quis acordar.
Em outro, tomei o número de pílulas necessárias para sequer vê-lo nascer.
O mais triste é que existe a tristeza.
Ela, aliás, existiu sem que inventassem.
Permeou mesmo sem ter como.
Sem um terreno propício.
Enraizou-se.
Deu nó.
A parte mais triste é que viver talvez seja a própria tragédia.
Principalmente se existir algo melhor lá em cima.
Se a palavra "melhor" realmente existir.
Eu não sei.
Talvez seja que nem "eternidade", ou uma garrafa de vinho.
Coisas que nos fazem abrir a boca na tentativa de calar a dor.
A parte mais triste em perder alguém é que ninguém vai segurar seu coração enquanto você tranca o carro.
Abre a porta.
Ou vai ao banheiro.
Não há ninguém para dividir contigo.
A tristeza é indivisível.
Em alguns casos, irreparável.
Em outros, ninguém sequer repara...
"A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu..."
A parte mais triste em perder alguém é que já é suficientemente difícil quando você precisa encontrar a si mesmo.
A parte mais triste em perder alguém é que se não existir mesmo eternidade, continuarão existindo períodos longos de tempo.
Tão longos que os olhos não conseguem enxergar a extensão deles.
A parte mais triste em perder é que a gente ainda acredita que está aqui para ganhar.
Estamos todos fadados ao excesso.
Muitas lágrimas, muito mau humor, muitas fitinhas do Bonfim, muito sal, muitos "amigos", muitos desejos, preces, muito medo, e pedidos.
Estamos destinados a overdoses, crises de choro, pânico, depressão, socos, pauladas, pontapés.
Nascemos e já choramos de medo.
Morremos de medo de morrer.
A vida toda é um ciclo de parto e morte.
Um dia eu acordei e parecia noite.
Um dia eu mal acordei e já quis que anoitecesse.
Outro dia eu nem quis acordar.
Em outro, tomei o número de pílulas necessárias para sequer vê-lo nascer.
O mais triste é que existe a tristeza.
Ela, aliás, existiu sem que inventassem.
Permeou mesmo sem ter como.
Sem um terreno propício.
Enraizou-se.
Deu nó.
A parte mais triste é que viver talvez seja a própria tragédia.
Principalmente se existir algo melhor lá em cima.
Se a palavra "melhor" realmente existir.
Eu não sei.
Talvez seja que nem "eternidade", ou uma garrafa de vinho.
Coisas que nos fazem abrir a boca na tentativa de calar a dor.
A parte mais triste em perder alguém é que ninguém vai segurar seu coração enquanto você tranca o carro.
Abre a porta.
Ou vai ao banheiro.
Não há ninguém para dividir contigo.
A tristeza é indivisível.
Em alguns casos, irreparável.
Em outros, ninguém sequer repara...
"A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu..."
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Um Quarto Para Estela.
Aqui acabaram os guardanapos. Usei todos, um por um. Na intenção de conter o que escorria de mim. Na verdade, usei todas as folhas que possuía. Sem me prender a suas finalidades. Tentei amenizar o estrago. Sujei toalhas, lençóis, panos de prato. Não me restou uma peça de roupa limpa. Nem espaço no varal. Continuei a ensopar os dois quartos do apartamento por uma semana, dois meses, três, quase cinco. Minha agonia continuou a se derramar sem culpa. Recebi seus elogios. Agradeço. Mas não consigo mais escrever. Isto já não pertence mais a mim. Não encontro um lugar comum entre o que penso, o que sinto, e o que me valerá de algo no futuro. Todo espaço em branco que encontro, preencho com alguma frase que o deixa vazio. Sigo sendo um fantasma sem que ninguém perceba. Uma alma penada vagando entre as pessoas, talentosamente fingindo ser uma delas. O que quero te dizer? Um bom tempo se passou desde que ouvi de você pela última vez. Um bom tempo passou. E só ele. As outras coisas permaneceram as mesmas. A mesma máquina de café que, toda vez quando ligada, ameaça explodir. Os mesmos travesseiros murchos na cama. O mesmo sofá. As mesmas amígdalas inflamadas. Nada passou, além do tempo. Passou por mim e através de si mesmo. Pelo menos, tenho tido mais oportunidades para pensar. Especialmente durante o banho. Nunca cheirei tão bem. Eu me permito pensar, e repassar, em tudo. Não me imponho limites. O que não quer, necessariamente, dizer que eu faça bom uso da minha liberdade. Eu não sei onde guardar coisas que são maiores que eu. Liberdade na sala. No banheiro. Entre a tela e o vidro da janela. Em uma estante. Onde cabe a liberdade? Não quero iniciar uma discussão. Não tenho quereres, afinal. Escrevo agora por ter encontrado um espaço em branco. Escrevo e o transformo em vazio. Não sei que dor me deu nas costas, mas precisei ficar de cama por longos dias. E é diretamente dela que te comunico: haviam guardanapos esquecidos debaixo do colchão. E eu aqui a procura de espaços. Encontrei quase quinze desses. E a descoberta me animou tanto que precisei te agradecer. Obrigada. Muito obrigada. Achava não que nada mais me cabia, mas que eu mesmo já não cabia ao mundo. Dizem que este é um dos quadros da depressão. Eu só posso dizer que adoraria ver a totalidade de suas obras. A depressão realmente pinta muito bem. Sabe trabalhar muito bem com a sombra. E se dedica de corpo e alma a seus quadros. Hoje, raramente, vejo artistas de verdade: tão entregues. Em compensação, vejo muita gente se querendo para a melancolia. As pessoas entendem o que realmente é sofrer? E que isso demanda muito? Sofrimento tem de ser visceral, atravessar as dermes, as tripas, a alma. Quanto do seu próprio peso cabe a alma? Quanto do meu peso responde por mim? Não sinto saudades. Não sei bem o que sinto. Talvez mais nada. Existe um período em que flutuamos, acho que o que chamam de "estado de choque". Não entendo o que querem dizer com isso. Mas também não me importo. Eu só sei que a cafeína tem me caído muito bem, e eu tenho ficado de pé.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Então Você Quer Ser Um Escritor?
Boa noite,
como foi de viagem?
Ontem eu assisti uma cena muito curiosa. Que teria feito você chorar. Digo, assim, desse jeito que você esteve. Desse jeito que, talvez, ainda esteja. Estava passeando com os cães, pelo mesmo caminho de sempre. Aquele que você não acha o melhor. Mas enfim, estávamos os três lá quando um gavião capturou um bem-te-vi. Mas não foi só isso. O grupo que estava com ele começou a perseguir o gavião. Acho que eram todos da mesma família. Ou amigos. De qualquer forma, tinham algum tipo mais forte de afeição. E eles se esforçaram tanto! Não adiantou nada...mas você entende a força dessa decisão? O gavião era bem maior, bem mais ágil, um predador perigosíssimo para eles. Mas estava sozinho. Enquanto o bem-te-vi, miúdo, inofensivo, estava munido de companheiros prontos para defendê-lo custe o que custasse. Isso tudo aconteceu perto do presépio na praça XI. Perto de um presépio! A cena ainda me conseguiu impressionar mais por ter sido na véspera do Natal...
Sei, como sempre você tenta se colocar à frente e já vai achar que estou falando bobagem. Já deve estar desviando o olhar e procurando algo mais para fazer. Eu sou seu bem-te-vi. Você é meu bem-te-vi. E por mais que as coisas sejam feias, agressivas, fortes, eu não posso não lutar contra elas. Eu não posso deixar que a tristeza te engula. Eu sou seu bem-te-vi! Eu tenho medo de te perder para as dores do mundo...
Entende, agora, minha vontade de tentar? Ou incapacidade de desistir?
Não é fácil. Tem quem viva vinte, trinta, quarenta, também tem quem já encontre aos oito. Ou direto na maternidade! Eu levei muito tempo, pareceu que não chegaria nunca. Mas eu te encontrei. Entende? Eu me forcei a enfrentar esses anos todos, esse tempo todo, às vezes quase a ponto de desistir, sem perspectivas ou garantias. Eu não parei!
Dezoito e trinta de uma terça-feira chuvosa. Em um pós-feriado. A cidade toda às moscas. Quem diabos sai se enfiando debaixo do guarda-chuva de um desconhecido? Só podia ser você. Havia de ser.
Não, não jogue isso contra mim. Não estou dizendo que demorou demais e que daí precisei me contentar contigo, por não aguentar mais esperar. Eu não aceitaria que fosse nenhuma outra, ainda mais sabendo da sua existência. Eu sei quantas vezes me disse que isso de destino é balela, construção midiática para nos controlar. Respeito, não vou insistir mais. Embora não possa acreditar nesse seu ceticismo todo. Para mim, é só pose. É só você, outra vez, lutando para não se entregar. Como uma criança morrendo de sono que não quer perder o que está passando na televisão.
A esperança é o que dá sensação de movimento às coisas.
Eu acredito. Acredito não que tudo passe. Muitas coisas, na vida, ficam travadas entre a garganta e o coração. Acredito que tudo se modifica, se desmaterializa e, então, se reconstitui. A sua dor parece te deixar surda. Não consigo imaginar. E sei, você não é capaz de qualificar, quem dirá quantificar, o que estoura do lado de dentro. Mas eu sei que as coisas não precisam escurecer. Há sombra, há sim, e muita. Mas para isso, antes de tudo, o sol. O céu. As árvores. A relva. O som dos pássaros. Cheiro da chuva. Arranjo de flores sobre a mesa. Bolo saído do forno.
Você sabe, mais que ninguém, que nada na vida é banal. Nada deve passar despercebido. Devem ficar rastros de tudo. Com exagero, até saudade.
O barulho das persianas em dia de chuva. A buzina dos carros. As crianças saindo da escola ao meio-dia. A dor. Tudo o que dói. Tudo o que se sente. Absolutamente tudo que existe, ou é imaginado, no mundo.
Não posso te salvar. Não tenho essa pretensão.
Sentado em uma cadeira amarela de plástico, assistindo os carros passarem, pararem, buzinarem, percorrerem a avenida em direção ao centro. É véspera de Ano Novo, e o comércio fechará quando der oito horas. Preciso tomar coragem para voltar ao meu apartamento, um conjugado, a um quarteirão de distância de onde, agora, deixo esquentar um copo de cerveja. Não tenho, sabe, mais tanta certeza de quem aqui precisa de salvação.
Minha lembrança te traz saudade? Quando você pensa no rumo que toda a coisa tomou...em algum momento você já pensou que poderia ter sido de outra forma? Você poderia ter ficado. Eu te oferecia compressas de água quente antes de dormir...
Sentei aqui na intenção de te enviar um beijo. Ou um poema. Foi quase isso. E quase nada, também.
Sou uma pessoa de quases.
De muito pouco, ou coisa nenhuma.
Preciso ir andando. Logo, logo, ficarei preso aqui. Morro de medo dos fogos.
O céu que você vê é o mesmo daqui. Ele explode de saudades.
Neste ano que vem, que já está aí: realize-se.
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Gratidão Não É Amor.
Eu sonhei, nessa noite, que tudo era diferente. Eu acordava, e você estava logo ao lado. Nenhum de nós se sentia sozinho. Ninguém se lembrava que, na realidade, era impossível escapar disso. Aquele papo sobre estar só acompanhado...você acordava, e também levava um susto. Não esperava me encontrar ali. A gente se estranhava um pouco. Mas não demorou muito e as mãos já reconheciam o espaço dos dedos. A gente reafirmava aquele espaço no mundo. Os lábios estiveram tímidos, mas logo arriscavam uns movimentos. Eu levantava e ia para a cozinha passar um café. Você vinha logo atrás, parecia sentir medo de que eu me perdesse pelos cômodos e nunca mais aparecesse. Você andava na ponta dos pés, como se sempre tivesse sido bailarina, e eu, sempre uma razão para te fazer levitar. Você me dizia para maneirar na quantidade de café. Precisávamos evitar desperdícios. "Você sabe que o mundo está engolindo a si mesmo, não sabe?" e o brilho dos seus olhos parecia se distrair um pouco, quase ir embora. Café para duas canecas cheias e um repeteco, se você quiser, depois. Café requentado tem gosto de amor, amor quando está naquele momento de não se importar com mais nada. Quando uma pessoa está tão, decididamente, focada na outra, que não se interessa se as propriedades das coisas não estão mais lá. Nem tanta cafeína, nem tanto calor, nem gosto, nem tanto cheiro. É só para enganar a boca quando ela só está interessada na boca do outro - e não pode engolí-la. Quando um quer engolir ao outro e a si mesmo. É preciso se distrair para evitar desperdício.Você escutava tudo que eu pensava. No sonho, não haviam pensamentos escondidos. Uma terceira voz anunciava tudo. A gente se comunicava, e nem sempre através das nossas vozes. Você se debruçava sobre a varanda. Dizia não se lembrar daquilo tudo, de como era tão lindo. Eu temia que um vento forte, ou uma cãibra, te fizessem desequilibrar e você caísse. "Não é tão alto aqui do décimo andar", você disse. E ria, gargalhava, depois respirava fundo, e me olhava tão lá dentro, que eu ficava mudo. Faz tanto tempo desde que a gente se deu bem. Tanto tempo desde que a gente se deu, também. A gente se entregou. Acordei assustado, com a cama toda molhada de suor, não teve nenhuma força externa, você simplesmente abriu os braços e pulou. Quanto tempo até parar de doer?
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Origem/Destino.
A garganta arde, queima, e eu sinto o muco querendo escorrer. Eu olho nos seus olhos e não estão mais ali. São só ausência. Partes suas que foram tudo, foram tanto, mas se cansaram. Existe um potencial, um quase-limite, uma forma de ser, e ser mais ainda, e espichar-se mais um pouco, e não desistir, até que se esgotem as forças. Mil e umas maneiras de tentar. Uma insistência que se prolonga. Afinal, a força pode brotar de diversos cantos. E nem sempre seus pontos de foco deixam que se atrapalhem, ou se anulem.
Sua vida colidiu com a minha. Caímos, e o desconforto em estarmos ambos espalhados pelo chão, trouxe conforto, afinal. Afinal, muitas coisas começam erradas, mas acabam encontrando formas de parecerem certas. Muitas coisas parecem erradas, e não são. Muitas coisas são incontáveis coisas, melhor não tentar definí-las aqui. O que precisa ser levado em consideração é que algo conspirou para que estivéssemos os dois no mesmo lugar. Em um mesmo instante. E como dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar no espaço, uma força extraterrena sugeriu que nos tornássemos um.
Não acredito em Deus. Não sei se ele acredita em mim. Não acredito em coincidência. Na verdade, não consigo me lembrar no que acreditava. Mas posso fingir que sim, se você quiser...
Se precisar que eu acredite.
Ainda bem que seus joelhos eram treinados a suportar pancada. Ainda bem que eu caí de bruços logo depois de você. E que eu era mais leve. Não te machuquei. Foi como um abraço que não quer se soltar. Ficamos desacordados, mas logo risadas. Logo risadas, choro, agonia, incompreensão. Ainda bem que humanos, então nada de raso.
Seu cabelo, sua pele, suas pálpebras, seu mau gosto musical.
A memória, a lembrança, a inconstância, as botas sujas de barro. Os dias de chuva. Os dias de sol. Os dias que entravam e saíam sem serem convidados. As páginas sendo rasgadas do calendário.
A vida, às vezes, dá tantas voltas que parece que vai se enforcar.
Acho que acredito nisso de encontro. Que é algo definitivo. Que ninguém sai da vida de ninguém, pelo menos não permanentemente. Existe, ao menos, um lugar onde todos se encontram.
Que não demore tanto. Existem diversos lugares aí pelo mundo.
Castles are built from silence.
A garganta arde.
Escrever não é trapacear...
Sua vida colidiu com a minha. Caímos, e o desconforto em estarmos ambos espalhados pelo chão, trouxe conforto, afinal. Afinal, muitas coisas começam erradas, mas acabam encontrando formas de parecerem certas. Muitas coisas parecem erradas, e não são. Muitas coisas são incontáveis coisas, melhor não tentar definí-las aqui. O que precisa ser levado em consideração é que algo conspirou para que estivéssemos os dois no mesmo lugar. Em um mesmo instante. E como dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar no espaço, uma força extraterrena sugeriu que nos tornássemos um.
Não acredito em Deus. Não sei se ele acredita em mim. Não acredito em coincidência. Na verdade, não consigo me lembrar no que acreditava. Mas posso fingir que sim, se você quiser...
Se precisar que eu acredite.
Ainda bem que seus joelhos eram treinados a suportar pancada. Ainda bem que eu caí de bruços logo depois de você. E que eu era mais leve. Não te machuquei. Foi como um abraço que não quer se soltar. Ficamos desacordados, mas logo risadas. Logo risadas, choro, agonia, incompreensão. Ainda bem que humanos, então nada de raso.
Seu cabelo, sua pele, suas pálpebras, seu mau gosto musical.
A memória, a lembrança, a inconstância, as botas sujas de barro. Os dias de chuva. Os dias de sol. Os dias que entravam e saíam sem serem convidados. As páginas sendo rasgadas do calendário.
A vida, às vezes, dá tantas voltas que parece que vai se enforcar.
Acho que acredito nisso de encontro. Que é algo definitivo. Que ninguém sai da vida de ninguém, pelo menos não permanentemente. Existe, ao menos, um lugar onde todos se encontram.
Que não demore tanto. Existem diversos lugares aí pelo mundo.
Castles are built from silence.
A garganta arde.
Escrever não é trapacear...
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