segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ensaio.

Tenho medo de que não me reste mais nada.
Tenho medo de que não reste mais nada.
Tenho medo de que não reste nada.
Tenho medo de que não reste.
Tenho medo de que não.
Tenho medo de que nada.
Tenho medo de que nada me prenda aqui.
Tenho medo de que nada me prenda.
Tenho medo de que me prenda.
Tenho medo de nada.
Eu cutuco, cutuco, eu aperto, e não sinto dor.
Eu aperto e não sinto nada.
Eu sinto nada e não aperto.
Eu flutuo!
Eu hoje sou, mas o amanhã quem sabe?
Quem sabe amanhã eu seja.
Um aperto ou um nada.
Hoje, um aperto.
E amanhã mais nada.

Eu te aguardo, menos calada. Você viu que hoje choveu? Você ligou a televisão? Lembrou de tomar, pelo menos, três litros de água? Conseguiu marcar aquela consulta da qual precisava? Será se está muito ocupado? Você deveria me ligar, qualquer hora dessas. Tenho uns filmes a recomendar. Uns trechos de música na cabeça, para ver se você me ajuda a descobrir se realmente existem. Tenho umas coisas para falar que são melhores sentidas. Venho me sentindo muito só. E faz parte do processo de, digamos, cura, querer admitir. A solidão é tranquila. Como atravessar a cidade em um ônibus vazio. Está bem, talvez não seja isso. Talvez ela nem ande de ônibus. Aliás, pode ser que ela nem seja capaz de andar. Mas certamente existe este lado nela: de ver tudo acontecendo e não poder parar quando quiser. Será se alguém já olhou nos olhos da solidão? Eu acho que ela desviaria o olhar...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Ventilador.


Eu gosto muito de você. Eu gosto tanto, que você está se levantando, catando as roupas pelo quarto, jogando numa sacola velha, e indo embora. E eu estou sentado. Estou te assistindo ir. Com o olhar questionável de quem vê o filho - único - ter idade e coragem para sair de casa. De coração apertado. Nunca fui o que te impedia de ir. Não deliberadamente. Pelo contrário, fazia até questão de demonstrar apoio. Mesmo que por dentro me doesse todo. Já quis, várias vezes, que tivesse ido em frente com estas tuas idéias de dar no pé. Eu me arrependia ao te ver tão arrependida. Neste momento, você escolhe o que vai e o que fica com tanta clareza que me parece que desta vez será definitivo. Não terei notícia dos teus olhos arregalados por anos. Talvez só saiba, novamente, deles quando se fecharem. Sinto calafrios ao pensar na possibilidade de sentir tua perda com a mesma intimidade que sentiria ao acompanhá-los no decorrer da vida. Tem tanto brilho que surge, tanta lágrima que chega, tanta pestana que cai. Será se tens mesmo a coragem de meter a cara no mundo? Eu fico olhando o ventilador. Olhando o ventilador e os seus movimentos. Não sei qual dos dois me parece mais automático. Sei lá, decidido. Eu ficarei por mais quantas horas olhando este mesmo ventilador depois que colocar todas as tuas coisas no táxi? É possível que eu tenha me apaixonado. Já que o movimento, que antes era tão óbvio, agora percebo com uma quase magia. É assim que acontece com gente. Quando gente se apaixona. Se lembra do dia seguinte? No trabalho...a gente até tentou disfarçar. Aliás, tentamos bastante. Mas não importava a reunião, a pauta, o café com ou sem açúcar: não conseguíamos tirar os olhos um do outro. E a gente antes pensando que tudo que o outro fazia era tão mecânico, tão óbvio. OK se você mordesse os lábios enquanto lia. OK se meus sapatos parecessem de palhaço. OK se você estivesse ali e eu também, numa mesma copa, tomando o café numa mesma caneca, prolongando os minutos de descanso entre uma peça e outra. Além da imaginação e à merda tudo que era OK quando bebemos demais e acabamos enrolados atrás da pilastra. Será se naquele momento perguntaram por nós? Se nos preocupamos demais com o dia seguinte e, já naquela noite, todos já imaginavam o motivo para termos ido buscar mais oito chopps e voltado uma hora depois, sem chopp algum nas mãos? Não leve meu casaco azul-marinho! Apenas não ouse dobrá-lo e colocá-lo junto ao que vai! Aliás, não o deixe ir amarrotado, principalmente. Quer saber? Leve, leve tudo. O casaco, o isqueiro, os filmes do Almodóvar. Leve até o ventilador! Não...ele não...se um dia ele parar de funcionar, eu sei que com uma quantia razoável, ele rapidamente volta ao normal. Queria que funcionasse assim com todas as falhas no mundo. Que tudo se consertasse com atenção. Digo, com a capacidade de percepção do dano. Percebido, logo reconstituído. Imagine você se eu realmente pudesse viver de sonhos...a realidade é que a magia não está em adorar o ventilador. Estou sentado aqui olhando para o teto por não ter muita escolha. Eu não quero te assistir ir. Mesmo não tirando os olhos, não quero voltar toda a minha atenção e força para isso.Tenho medo que desta vez, você consiga virar a esquina.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um Mundo Só de Cores.

O ruído da madeira deslizando pelo mármore ficará, para sempre, como um velho rádio esquecido ligado ao longo das minhas lembranças. Para todas as lembranças ligadas a ela.
Acho que a falta nos deixa ainda mais egocêntricos, e dá a ilusão de sermos capazes de remontar o passado; de tornar toda impressão positiva; transformar tudo em beleza.
Muitas vezes esqueço que ter beleza nem sempre significa ser belo. A beleza é uma capa que, de antemão, colocamos para não ter que ver o que há por baixo.
Digo, isto se houver algo por baixo...
Se eu tivesse que apontar uma cor, seria azul.
Tudo, agora, é azul.
A morte é azul.
E a sua chegada não envolve escândalos, óculos escuros, nem mãos dadas debaixo de guarda-chuvas. Ninguém se veste de preto. Ninguém passa meses sem conseguir levantar da cama. Ninguém arranha a pele de tanto colher choro.
A morte acontece, e depois some.
Ela não é uma ruptura no tempo. Ela é uma exclamação. Um choque. Mas depois as frases continuam.
O que fica é a ausência. É o armário de roupas a ser desmembrado. As fotos a serem revistas. Algumas coisas a serem encontradas.
Fica uma busca por aquilo que nem se sabia perdido.
A falta!
A dor?
Sobre a dor, não sei nem qual o uso dessa palavra.
Porque não é bem uma dor.
É algo que coça, mas não exatamente machuca. É algo que existe quase que paralelo ao resto. E permanece assim, te assistindo de longe.
Alguma coisa que se esconde. Que faz os olhos lacrimejarem. Que faz bater uma saudade...
Não é por ser saudade que precisa ser triste.
Não é por ter envolvido tristeza que será assim para sempre.
Não quero abaixar a cabeça, nem perguntar o que há de errado com o mundo.
Está tudo certo.
Mas por que comigo?
Por que agora?
Perguntei, repeti, mas nem quero saber a resposta.
Eu nem queria ter perguntado.
Mas é que escutei tantas vezes erguerem a voz com coisas do tipo...
Por que, meu Deus?!
Que egoísta, imagine, se eu quisesse que algo assim acontecesse com um outro.
Eu gosto das coisas assim, azuis. Das coisas tão claras! Das coisas pequenas parecendo ainda mais bobas. De ser capaz de separar a bobeira das coisas...
Eu gosto da saudade que me faz pegar o telefone e lembrar que já não tem mais número...
Antes eu precisaria pegar o carro, enfrentar o trânsito, driblar a recepção, subir quatro lances de escada, adentrar um corredor de salas até descobrir qual a certa, para trocar duas palavras apressadas, e partir.
Agora que tudo é azul, sereno, eu só caminho contigo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O começo do fim das coisas.

Um dia tudo foi pó. Um dia tudo foi nada. Um dia o dia foi mais do que "um". Um dia alguma coisa algo foi. E dias depois, já não era mais. E foi embora.
Eu tenho essa obsessão pela transformação das coisas. Pelos processos radicais e instantâneos, mais do que pelos graduais. Começou quando, pequena, descobri que a borboleta era, antes, uma simples lagarta. Quando meu pai veio me dizer que as coisas haviam mudado e ele já não amava minha mãe. Quando mamãe parou de cozinhar e assobiar pelas manhãs afora, e começou a acordar mais tarde, pedir para que alguém ficasse comigo durante à noite.
"A essência fica: as pessoas nunca mudam". Será? Se não mudam, será que evoluem? Ou regridem? Pensando bem, talvez haja sim uma essência, "o que permanece sempre o mesmo", como uma forma de olhar para trás e dizer que valeu à pena. Ou olhar para trás e ter vontade de voltar no tempo. De qualquer forma, tudo se transforma. Tudo se encaixa e, sem que se espere, se solta.
Somos pontas de iceberg flutuando neste oceano-mundo.
Nenhuma palavra acompanha mais um homem durante a vida do que "mudança". Dá arrepios na coluna, mas também traz esperança. Mudança em nós e no mundo.
Imagine, imagine só se o mundo se adaptasse a tudo que se move do lado de dentro. Se ele se encaixasse para dar um abraço em dias de dor. Ou de confusão.
As coisas que quero contar, não têm ordem cronológica. Ou ordem alguma. As palavras vêm em forma de um desabafo, daqueles que só fazemos debaixo do chuveiro.
A primeira mulher que foi capaz de me amar, foi uma das únicas que eu nunca consegui enxergar como mulher. Tinha mais o aspecto santo. De um ser especial. Capaz de estender as mãos para um afago ou um tapa. De me colocar confortavelmente entre os braços quando mais me precisava longe. De perdoar e compreender o meu choro, mesmo que eu sofresse e não fosse por ela.
Sobre uma outra mulher, da qual necessito falar, relembrar dos fatos, e recordar o cheiro, não há nada de glorioso. Absolutamente nada de transcendental. Houve somente uma força, que surgiu sei lá porque, vinda de sei lá onde, para fazer sempre com que eu me arrastasse à sombra dela.
Ela eu amei como se não houvesse amanhã. Com medo do dia seguinte. De que ela se cansasse e fizesse as malas. Vivia a me dizer que não, se enrolar toda pela cama, e repetir que nunca quereria nada mais do que tínhamos.
"Não preciso de nada além disso".
O que era isso? Ela saía e eu ficava sem fome, sem forças, sem vontade de me mexer, rabugento no escritório escuro contando os segundos até cair sobre à escrivaninha um sono incômodo e derrubar a garrafa térmica de café a cada possibilidade de que o barulho no corredor fosse um passo dela.
As sombras encobrem as particularidades das coisas.
E as coisas, como eu já disse - sem precisar dizer -, se transformam. Enquanto com ela, me esqueci um pouco de como mudanças muito me fascinavam.
Quando ela decidiu que isso não era mais o suficiente, e pegou um avião para bem longe, eu comecei a repudiar a capacidade de transformação das coisas.
Eu passei a repudiar praticamente tudo.
Foi uma daquelas mudanças explosivas. Súbitas. Ao menos, pareceu aos meus olhos atentos.
Não tenho mais nada a falar. Nenhuma lição que possa servir para alguém.
Eu mesmo não sei quando foi que se deu o começo do fim das coisas.
Eu só sei que uma hora, todas elas mudam. E, mais importante, todas terminam.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Rabisco.

Das fitas aos laços. Aos nós. Aos eus. Vocês. Aos ninguém.
Do amor à ausência.
Do sentido que levam as coisas.
Das coisas que são levadas embora.
Eu, que amava Maria. Que me amava também. Mas que me amando de um lado, também amava João, de um outro. Que a amava em resposta, mas que preferia jogar bola. E que numa pelada de Domingo, quebrou o joelho esquerdo e teve que operar. E então ficou de cama por três, quatro, meses, e mais uns dois anos sem jogar. Mas que nisso conheceu a Ana. Que lhe acendia mil vezes mais estrelas que Maria. Que logo depois abortou do Lucas. Que ninguém sabe como surgiu na história. Mas que depois foi preso por tráfico de drogas e o mundo quase todo ficou sabendo que existia.
O que importa, enfim, é que houve muito amor. Amor sendo atirado por todos os lados. Rebatido ou acolhido entre os braços. E algumas mágoas, um monte de brigas. Centenas de promessas que permaneceram sendo só o que se espera: mudanças de planos.
Nisso da vida ser justamente aquilo do qual ninguém nunca sabe, as coisas tão certas logo se revelam em rumos completamente inesperados.
Nos conhecemos agora. Nos amamos logo depois. Amor à primeira vista não foi, mas teve sim algo de estranho. Uma coceirinha na barriga, risadas longas demais. Ficaríamos juntos para sempre. Mas, dez anos depois, estávamos nos deitando para dormir com pessoas que surgiram neste caminho, de repente. Pessoas alheias, que nunca sequer teríamos imaginado. O oposto do que éramos um para o outro. Mas pessoas que nos abraçaram, e nos ninaram, e que tomaram conta das juras e dos lugares.
Eu padeço de saudades quando percebo a gravidade da sua ausência.
Quando lembro das suas mãos, dos seus abraços, verbos, sonhos, olhos.
Minimamente morro quando me ocorrem lembranças de seus versos.
Ao perceber que você se foi, é que se dá a real partida. Dez anos depois, é quando eu, finalmente, a sinto, e me despedaço.
Ainda assim, amei outras. Mesmo assim, amo agora. Como se pela primeira vez. Amor infantil, em alguns momentos, nitidamente doentio. Juras de eternidade. Mas acredito que desta vez dê certo. Eu te imagino a pôr a mesa e vestir as crianças. Pergunto se não faria melhor do que ela faz por aqui. Não, não...
As coisas que devem ser, simplesmente são.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Retornar Tardio.

Estive ausente, mas não faltou vontade. É que surgiram calos, e por vaidade resolvi poupar meus dedos das canetas, lápis, teclas, e todos os outros instrumentos do tipo. Por vaidade, também, prolonguei o "descanso" e deixei que sentisse minha falta. Que sentisse tanta, mas tanta, falta minha, que depois eu pudesse vir até aqui e dizer: segure as águas, voltei. E isto então fosse possível. Segure-as então. Sem choro, sem violência, sem rancor algum. É assim que precisa se realizar nosso reencontro. Muita calma. Pois é da ausência que nascem os sentimentos mais sinceros. É na falta que os sentimentos se tornam menos dependentes uns dos outros e, assim: mais claros.  Ao contrário do que pensam, a reclusão não me causou náuseas, e nem arrepios. Houve sim muita melancolia. Muitas noites de insônia, e algum descontrole. É que eu tenho sim esse espírito de poeta. Essa vontade de ser livre, de ser dispensado das explicações. Eu não trouxe muita coisa comigo. Só a vontade de fazer desta, uma carta única.
Boa tarde - é, normalmente, o horário em que os carteiros passam por aí, correto? Como vai? Melhorou das dores de cabeça? Enjoou de tanto comer doce? De tanto se sentir insatisfeita consigo mesma? Tomou coragem e procurou ajuda? Foi de algum uso? Diminuiu o número de cigarros? Sentiu falta de acabar escondida com meus maços? Melhor que tudo isso, sentiu minha falta?
Tem uma coisa que eu nunca te disse. Uma coisa que eu sempre soube, mas que meu egoísmo camuflou nas noites em que nos debulhávamos entre taças de vinho e fados. O problema não era você, nunca foi. Nem eu. Quem era eu? Além de um corpo certamente disponível para estar, sem dúvidas, completamente nu ao seu lado na cama? Eu era a certeza de que você nunca precisaria cair no sono sozinha, a menos que desejasse isso. Voltando, o que eu nunca te disse, é uma das coisas mais básicas para uma sobrevivência, pelo menos, justa. Você não precisava comprar Merlot, se preferia Pinot Noir, só porque eu não gostava de Merlot. Antes de tudo, você não precisava tomar vinho só porque eu não suportava cerveja. Você deveria ter me dito, de primeira, que tudo o que havia na geladeira era cerveja, e se eu não estivesse satisfeito com isso, que eu fosse buscar um vinho. E caso você mesma trouxesse um vinho, por espontânea vontade, e este não fosse da uva que prefiro, me fizesse bebê-lo assim mesmo, sem frescuras. E ainda me humilhasse o suficiente para que eu achasse este vinho o melhor do mundo. E, eventualmente, eu acharia. Porque o humano é o ser da adaptação. E você nunca deveria ter se deixado anular tanto só para me deixar satisfeito. Que eu aprendesse a me satisfazer só por estar vivo. Só por estar na presença de alguém que me queria satisfeito - mesmo que em meios práticos, não tenha conseguido. Que fique mais do que claro o conselho que te escondi por todos esses anos, só por idealizá-la meu amor e minha "súdita": ser prioridade na sua própria vida. Mas claro, nunca deixe de ajudar os outros. Contanto, obviamente, que ajudá-los não te atrapalhe consideravelmente.
Deve estar pensando que o tempo ocioso me proporcionou a leitura de auto-ajuda. Já antecipo que não toquei em nada disso. Cabeça vazia é oficina do coração. E por isso voa e alcança planos tão altos que, às vezes, perdemos totalmente a lucidez.
A culpa não foi sua. Eu precisei ir, e fui. Mas te acompanhei de longe. Eu te vi perder o rumo, mas correr atrás. Se tem algo que eu quero pedir, é para que não se destrua, ou descabele, por ninguém não. Dê sempre um jeito de encontrar a calma, ou alguma forma de paz.
Quem veio primeiro, o amor ou o medo?
Não custa fingir que tudo tem resposta, para reduzir a ansiedade que dá só em estar vivo.
Sendo amor, ou medo, sendo um primeiro, o outro segundo, ou os dois de uma vez, eles sempre encontram a saudade. Já viu isso? O amor dá saudade até mesmo na presença. O medo dá medo até da saudade - medo de que ela só se sinta na ausência.
Melhor diminuir logo as luzes e aceitar que já é noite. De alguma forma estas palavras chegarão a você, e de alguma forma você as receberá. Com susto ou felicidade. Com qualquer outra coisa que não me ocorra agora.
Só vim para dizer que nunca fui.
Só vim para mostrar que estive aqui.
Será se ainda se lembra?
Será se percebeu?
Que continue sendo belo.
Eterno.
Que tenha sido amor.
Que nunca tenha medo.
Que não perca esta pureza.
A pureza do amor prematuro - que nasce antes do tempo certo.
A pureza do amor prematuro - que nasce antes do tempo certo. E que, às vezes, sobrevive.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Roda Gigante.

Quantos conselhos podem nos dar? Quantas maneiras de seguir em frente? E quantas distrações para não olhar para trás? Nunca, em hipótese alguma, olhar para trás. Vai, segue, tome aqui seus sapatos, suas camisetas que estavam para lavar. O resto? Deixe ele ali. As coisas se reconstroem de dentro para fora. E assim se tornam firmes - até fraquejarem outra vez. Leve somente o necessário, se quiser eu te ajudo, te empresto o carro, carrego a mochila. Mas a dor é toda contigo. Você quem aguente. Posso te ajudar a virar uma garrafa, duas, ou quantas mais forem necessárias, para que passe. Até o dia seguinte. Algumas coisas custam a passar, mas passam. Demoram, mas parecem nem ter existido. O mundo é muito grande, e se precisar, eu corro ele todo contigo. Mas, esquece, não posso neste Domingo. Você vai ter que almoçar sozinho. E jantar também, aconteceu um imprevisto. Você vai ter que dormir e acordar sem mim, mas agora é só por uma semana, depois por três meses. É que recebi uma promoção na empresa. Você ainda pensa nela? Mas você não ligou, né? Aquela mulher não presta. Aquela mulher nunca prestou. Eu sabia! Eu sabia! Só fingia que tínhamos algumas coisas em comum. Eu queria te ver feliz. Mas ei, levanta esse ânimo. Mais tarde tem uma festa! E tem tanta mulher no mundo! De repente hoje você vai dormir com uma atriz de teatro! Dizem que elas são boas de cama! Ah, não me venha com esse papo de que não sabe mais paquerar! É claro que sabe! Você já quer ir embora? Mas eu trouxe a Gabriela para te conhecer, ela é amiga da Teresa, lembra dela? Já tem falei tanto...tem certeza que quer ir embora? Tá bom, então vamos, vou só me despedir. Ou, você pode ir na frente? Depois eu vou de táxi, é que elas insistiram muito. Tá bom, fica bem, amanhã eu te ligo. Eu sei que desapareci por meses a fio, mas é que eu e a Teresa nos demos tão bem que quando eu vi, eu não prestava atenção em mais nada além dela. Que saudades! Como você anda? Calma, depois você fala. Eu preciso te contar uma coisa: nós vamos nos casar! SIM! Vamos nos casar, daqui uma semana, em Lisboa! Eu esperava que você fosse...não, dinheiro não é um problema, estou aí pra isso, mas trate de fazer a barba, você está um trapo, e eu não posso admitir que vá assim à cerimônia. Como foi de viagem? Quero que você conheça a Teresa! Quero que você conheça uns amigos! Desculpe não ter te convidado para padrinho. Mas a Teresa achou que, pelo conflito de interesses, você não entrosaria bem com os amigos dela...um dia você vai encontrar alguém assim, você sabe, né? Eu acredito. Mesmo você tendo se permitido envelhecer tão precocemente. Mesmo tendo optado por uma vida mais calma, mas sem luxos. Mesmo tendo se tornado muito mais calado e misterioso. Um dia a mulher da sua vida vai aparecer. E eu vou estar esperando contigo no altar. Essa é sua esposa? Como assim você casou? Como assim você casou com uma mulher que nem essa? Ela é muito bonita para você! Digo, muito nova. Mas ela sabe dos seus problemas com álcool e de sua mania de depressão? E te ama mesmo assim? Nossa, nem parece que já me casei há oito anos...parecem oitenta. Mas as coisas estão bem. Digo, estão mais ou menos. Ela tem outro. E eu não sei o que fazer.