terça-feira, 24 de julho de 2012

Rabisco.

Das fitas aos laços. Aos nós. Aos eus. Vocês. Aos ninguém.
Do amor à ausência.
Do sentido que levam as coisas.
Das coisas que são levadas embora.
Eu, que amava Maria. Que me amava também. Mas que me amando de um lado, também amava João, de um outro. Que a amava em resposta, mas que preferia jogar bola. E que numa pelada de Domingo, quebrou o joelho esquerdo e teve que operar. E então ficou de cama por três, quatro, meses, e mais uns dois anos sem jogar. Mas que nisso conheceu a Ana. Que lhe acendia mil vezes mais estrelas que Maria. Que logo depois abortou do Lucas. Que ninguém sabe como surgiu na história. Mas que depois foi preso por tráfico de drogas e o mundo quase todo ficou sabendo que existia.
O que importa, enfim, é que houve muito amor. Amor sendo atirado por todos os lados. Rebatido ou acolhido entre os braços. E algumas mágoas, um monte de brigas. Centenas de promessas que permaneceram sendo só o que se espera: mudanças de planos.
Nisso da vida ser justamente aquilo do qual ninguém nunca sabe, as coisas tão certas logo se revelam em rumos completamente inesperados.
Nos conhecemos agora. Nos amamos logo depois. Amor à primeira vista não foi, mas teve sim algo de estranho. Uma coceirinha na barriga, risadas longas demais. Ficaríamos juntos para sempre. Mas, dez anos depois, estávamos nos deitando para dormir com pessoas que surgiram neste caminho, de repente. Pessoas alheias, que nunca sequer teríamos imaginado. O oposto do que éramos um para o outro. Mas pessoas que nos abraçaram, e nos ninaram, e que tomaram conta das juras e dos lugares.
Eu padeço de saudades quando percebo a gravidade da sua ausência.
Quando lembro das suas mãos, dos seus abraços, verbos, sonhos, olhos.
Minimamente morro quando me ocorrem lembranças de seus versos.
Ao perceber que você se foi, é que se dá a real partida. Dez anos depois, é quando eu, finalmente, a sinto, e me despedaço.
Ainda assim, amei outras. Mesmo assim, amo agora. Como se pela primeira vez. Amor infantil, em alguns momentos, nitidamente doentio. Juras de eternidade. Mas acredito que desta vez dê certo. Eu te imagino a pôr a mesa e vestir as crianças. Pergunto se não faria melhor do que ela faz por aqui. Não, não...
As coisas que devem ser, simplesmente são.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Retornar Tardio.

Estive ausente, mas não faltou vontade. É que surgiram calos, e por vaidade resolvi poupar meus dedos das canetas, lápis, teclas, e todos os outros instrumentos do tipo. Por vaidade, também, prolonguei o "descanso" e deixei que sentisse minha falta. Que sentisse tanta, mas tanta, falta minha, que depois eu pudesse vir até aqui e dizer: segure as águas, voltei. E isto então fosse possível. Segure-as então. Sem choro, sem violência, sem rancor algum. É assim que precisa se realizar nosso reencontro. Muita calma. Pois é da ausência que nascem os sentimentos mais sinceros. É na falta que os sentimentos se tornam menos dependentes uns dos outros e, assim: mais claros.  Ao contrário do que pensam, a reclusão não me causou náuseas, e nem arrepios. Houve sim muita melancolia. Muitas noites de insônia, e algum descontrole. É que eu tenho sim esse espírito de poeta. Essa vontade de ser livre, de ser dispensado das explicações. Eu não trouxe muita coisa comigo. Só a vontade de fazer desta, uma carta única.
Boa tarde - é, normalmente, o horário em que os carteiros passam por aí, correto? Como vai? Melhorou das dores de cabeça? Enjoou de tanto comer doce? De tanto se sentir insatisfeita consigo mesma? Tomou coragem e procurou ajuda? Foi de algum uso? Diminuiu o número de cigarros? Sentiu falta de acabar escondida com meus maços? Melhor que tudo isso, sentiu minha falta?
Tem uma coisa que eu nunca te disse. Uma coisa que eu sempre soube, mas que meu egoísmo camuflou nas noites em que nos debulhávamos entre taças de vinho e fados. O problema não era você, nunca foi. Nem eu. Quem era eu? Além de um corpo certamente disponível para estar, sem dúvidas, completamente nu ao seu lado na cama? Eu era a certeza de que você nunca precisaria cair no sono sozinha, a menos que desejasse isso. Voltando, o que eu nunca te disse, é uma das coisas mais básicas para uma sobrevivência, pelo menos, justa. Você não precisava comprar Merlot, se preferia Pinot Noir, só porque eu não gostava de Merlot. Antes de tudo, você não precisava tomar vinho só porque eu não suportava cerveja. Você deveria ter me dito, de primeira, que tudo o que havia na geladeira era cerveja, e se eu não estivesse satisfeito com isso, que eu fosse buscar um vinho. E caso você mesma trouxesse um vinho, por espontânea vontade, e este não fosse da uva que prefiro, me fizesse bebê-lo assim mesmo, sem frescuras. E ainda me humilhasse o suficiente para que eu achasse este vinho o melhor do mundo. E, eventualmente, eu acharia. Porque o humano é o ser da adaptação. E você nunca deveria ter se deixado anular tanto só para me deixar satisfeito. Que eu aprendesse a me satisfazer só por estar vivo. Só por estar na presença de alguém que me queria satisfeito - mesmo que em meios práticos, não tenha conseguido. Que fique mais do que claro o conselho que te escondi por todos esses anos, só por idealizá-la meu amor e minha "súdita": ser prioridade na sua própria vida. Mas claro, nunca deixe de ajudar os outros. Contanto, obviamente, que ajudá-los não te atrapalhe consideravelmente.
Deve estar pensando que o tempo ocioso me proporcionou a leitura de auto-ajuda. Já antecipo que não toquei em nada disso. Cabeça vazia é oficina do coração. E por isso voa e alcança planos tão altos que, às vezes, perdemos totalmente a lucidez.
A culpa não foi sua. Eu precisei ir, e fui. Mas te acompanhei de longe. Eu te vi perder o rumo, mas correr atrás. Se tem algo que eu quero pedir, é para que não se destrua, ou descabele, por ninguém não. Dê sempre um jeito de encontrar a calma, ou alguma forma de paz.
Quem veio primeiro, o amor ou o medo?
Não custa fingir que tudo tem resposta, para reduzir a ansiedade que dá só em estar vivo.
Sendo amor, ou medo, sendo um primeiro, o outro segundo, ou os dois de uma vez, eles sempre encontram a saudade. Já viu isso? O amor dá saudade até mesmo na presença. O medo dá medo até da saudade - medo de que ela só se sinta na ausência.
Melhor diminuir logo as luzes e aceitar que já é noite. De alguma forma estas palavras chegarão a você, e de alguma forma você as receberá. Com susto ou felicidade. Com qualquer outra coisa que não me ocorra agora.
Só vim para dizer que nunca fui.
Só vim para mostrar que estive aqui.
Será se ainda se lembra?
Será se percebeu?
Que continue sendo belo.
Eterno.
Que tenha sido amor.
Que nunca tenha medo.
Que não perca esta pureza.
A pureza do amor prematuro - que nasce antes do tempo certo.
A pureza do amor prematuro - que nasce antes do tempo certo. E que, às vezes, sobrevive.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Roda Gigante.

Quantos conselhos podem nos dar? Quantas maneiras de seguir em frente? E quantas distrações para não olhar para trás? Nunca, em hipótese alguma, olhar para trás. Vai, segue, tome aqui seus sapatos, suas camisetas que estavam para lavar. O resto? Deixe ele ali. As coisas se reconstroem de dentro para fora. E assim se tornam firmes - até fraquejarem outra vez. Leve somente o necessário, se quiser eu te ajudo, te empresto o carro, carrego a mochila. Mas a dor é toda contigo. Você quem aguente. Posso te ajudar a virar uma garrafa, duas, ou quantas mais forem necessárias, para que passe. Até o dia seguinte. Algumas coisas custam a passar, mas passam. Demoram, mas parecem nem ter existido. O mundo é muito grande, e se precisar, eu corro ele todo contigo. Mas, esquece, não posso neste Domingo. Você vai ter que almoçar sozinho. E jantar também, aconteceu um imprevisto. Você vai ter que dormir e acordar sem mim, mas agora é só por uma semana, depois por três meses. É que recebi uma promoção na empresa. Você ainda pensa nela? Mas você não ligou, né? Aquela mulher não presta. Aquela mulher nunca prestou. Eu sabia! Eu sabia! Só fingia que tínhamos algumas coisas em comum. Eu queria te ver feliz. Mas ei, levanta esse ânimo. Mais tarde tem uma festa! E tem tanta mulher no mundo! De repente hoje você vai dormir com uma atriz de teatro! Dizem que elas são boas de cama! Ah, não me venha com esse papo de que não sabe mais paquerar! É claro que sabe! Você já quer ir embora? Mas eu trouxe a Gabriela para te conhecer, ela é amiga da Teresa, lembra dela? Já tem falei tanto...tem certeza que quer ir embora? Tá bom, então vamos, vou só me despedir. Ou, você pode ir na frente? Depois eu vou de táxi, é que elas insistiram muito. Tá bom, fica bem, amanhã eu te ligo. Eu sei que desapareci por meses a fio, mas é que eu e a Teresa nos demos tão bem que quando eu vi, eu não prestava atenção em mais nada além dela. Que saudades! Como você anda? Calma, depois você fala. Eu preciso te contar uma coisa: nós vamos nos casar! SIM! Vamos nos casar, daqui uma semana, em Lisboa! Eu esperava que você fosse...não, dinheiro não é um problema, estou aí pra isso, mas trate de fazer a barba, você está um trapo, e eu não posso admitir que vá assim à cerimônia. Como foi de viagem? Quero que você conheça a Teresa! Quero que você conheça uns amigos! Desculpe não ter te convidado para padrinho. Mas a Teresa achou que, pelo conflito de interesses, você não entrosaria bem com os amigos dela...um dia você vai encontrar alguém assim, você sabe, né? Eu acredito. Mesmo você tendo se permitido envelhecer tão precocemente. Mesmo tendo optado por uma vida mais calma, mas sem luxos. Mesmo tendo se tornado muito mais calado e misterioso. Um dia a mulher da sua vida vai aparecer. E eu vou estar esperando contigo no altar. Essa é sua esposa? Como assim você casou? Como assim você casou com uma mulher que nem essa? Ela é muito bonita para você! Digo, muito nova. Mas ela sabe dos seus problemas com álcool e de sua mania de depressão? E te ama mesmo assim? Nossa, nem parece que já me casei há oito anos...parecem oitenta. Mas as coisas estão bem. Digo, estão mais ou menos. Ela tem outro. E eu não sei o que fazer.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Compostos.

O barulho da furadeira me agoniava em formas e graus que eu não poderia descrever. Ele sempre aparecia com a intenção de consertar algo. Fosse a porta emperrada do armário, um quadro a ser pendurado, os fios soltos na sala, a lâmpada queimada, a lâmpada prestes a queimar. Ele sentia a necessidade de agir e, principalmente, de interferir naquele espaço. Era como se ficasse livre da ausência quando ocupado com uma tarefa qualquer. Como se sua cabeça se esvaziasse, retomando o prazer nos movimentos involuntários do coração. Suas visitas só nunca aconteciam nas manhãs de Domingo, quando pegava dois ônibus e caminhava uma distância de mais ou menos três quilômetros até a Catedral para assistir a missa. Saía de casa às cinco, e de vez em quando eu o encontrava quando estava voltando da rua. A paisagem toda coberta de névoa e as luzes quase todas apagadas, mas ele de pé, com um frágil rosário azul nas mãos, abrindo e fechando o portão com todo o cuidado. O portão servia de entrada para as duas casas. A primeira, agora só dele. A segunda, agora minha - pelo quinto ano de aluguel - e antigo ateliê de sua esposa. Era encostada nessa parede que ela descansava depois de costurar a manhã inteira - ele se orgulhava em recolocá-la ali com suas lembranças. Mas aos Domingos, especialmente pelas manhãs, ele se vestia de preto. Mesmo que não fosse a cor real de suas roupas. Ele simplesmente se enchia, como a madrugada, de névoa, e se recolhia, com sua tristeza, para dentro de casa. De onde raramente saía, esperando pela Segunda-feira. De onde sequer um ruído se ouvia durante o dia inteiro. O barulho da furadeira, e o de seus passos tímidos e cansados, formavam uma sinfonia de incômodos em mim. Sei lá se despertavam uma vontade fazer algo quando, justamente, nada poderia ser feito. Eu podia me sentar com ele para assistir o movimento da rua, e trocar uma ou duas opiniões sobre a vizinhança, poderia chamá-lo para provar da sopa, para escutar um disco, trocar um abraço na véspera do Natal, e eram coisas que eu fazia, mas não com a intenção de aliviar algo nele, ou de tentar distraí-lo. Eu apenas fazia porque estávamos os dois ali, sós. Eu confesso, recebia muitas visitas. Mas continuava estando sozinha ali a maior parte do tempo. E por mais que houvesse um pequeno espaço entre as paredes de nossas casas, estávamos tristes, ou alegres, ou nostálgicos, ou irritados, ou em outro mundo, lado a lado. Nada nunca foi dito à respeito. Nem sobre o pão fresco que ele oferecia em algumas manhãs, nem sobre as vezes em que precisei socorrê-lo ou somente quis abraçá-lo por estar, mesmo que do jeito dele, sempre ali. Existem laços inesperados, quase imediatos, e imprescindíveis. No dia em que foi internado, eu pensei que, enfim, poderia ler um livro sabendo que não me assustaria tão cedo com o barulho da furadeira em ação, ou do martelo, ou do cortador de grama. Nos dias seguintes a agonia foi a maior até então. Todos os dias pareciam Domingos e nenhum ruído se projetava em volta. Somente o barulho dos carros na rua e das vozes que passavam aceleradas. Eu voltava da rua, e ele não estava ali, andando de um lado para o outro como quem não quisesse nada. Tentando disfarçar a sua forma tão particular de se importar com alguém cujas ligações fugiam do óbvio. Não era um sangue em comum, nem idade, nem carreira, nem nada que pudesse ser tão facilmente compreendido. Era por ser aquilo o que estava acostumado a fazer: se importar com os outros. Quando foi embora de vez, os espaços pareciam cada vez maiores, e as flores do jardim foram todas, aos poucos, morrendo. Nunca me senti tão só. Mesmo quando chegaram novas pessoas para habitar a casa, a solidão nunca pareceu tão brutal. Lembro de quando ele quis que eu gravasse informações sobre cada flor. Pouco antes de ir para no hospital. Eu não quis escutar. Estava apressada para qualquer compromisso vazio. Sentada, perto da janela, posso ver o que sobrou das flores, o que restou da horta. Do que é feito um jardim? Do que é feita a solidão?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Quase Dia 15.

De repente um vazio. Não é assim que esperamos encontrar o começo de uma grande história. Não é do vazio que surgem heróis, e nem é para lá que vão quando as forças se esgotam. As forças não devem se esgotar nunca. Nem dos não-heróis, principalmente dos Zés Ninguém. É preciso ter força para encontrar os motivos que nos façam levantar todas as manhãs, enxaguar os rostos e atravessar mais um dia. Por mais dolorosos, e quase insuportáveis, que dias possam ser. É preciso ter força, e disso ele não sabia. Ele nunca havia parado para pensar. Parado para pensar que aquelas pessoas alegres, seguras, de repente até efusivas, só sorriam porque se lembravam de fazer isso. Porque elas perceberam, bem antes, que a força precisa vir de dentro. Ainda que, às vezes, fingida, a vontade de sorrir tem que estar presente. De sorrir, mais do que a vontade de chorar, de fugir. O mundo só é bonito aos olhos de quem o vê assim. Ele vinha, desde seus primeiros anos, sendo uma pessoa declaradamente desesperada. Sentimentos em demasia fragilizam o homem. Fazem-nos questionar, inclusive, a necessidade da presença deste homem no mundo. Ninguém deve sentir-se humilhado. Ou permitir-se humilhar. Ninguém deve sentir-se menor na presença de quem quer que seja. Humanos, antes e acima de tudo. Altruísmos e generosidades à parte. O eu precisa vir primeiro. Ele precisava vir primeiro para si. Até porque doses comedidas de egoísmo fazem bem para os músculos, fortalecem a lombar, seguram mais no alto a cabeça que tende em cair. Livrai-nos de nós mesmos! Ele acusava e apontava a podridão que via no mundo. Que só ele via. Que só ele parecia ver. De vez em quando, a solidão e o sentimento de estranheza para com o mundo, até diminuía na presença de alguém que, curiosamente, viesse a estimular elocubrações e debates a respeito das injustiças tão presentes por aí. Mas se você está bem, faz parecer que o resto todo está também. Não, não seria preciso se enganar. Reparar sim, e profundamente, em todas as dores e sofrimentos que cercam nossas próprias áreas de conforto. Mas perceber que aquele amor descabido e, por consequência, acabado, não representa o fim do mundo. Fim de mundo algum. Era disso que ele sofria. Da maximização de suas dores, dores que não percebia como minúsculas. Desamparado, desestimulado, planejando formas indolores de partir. Indolores pois não tinha uma vontade real de morrer. E sim pequenos espasmos, que seus psiquiatras apontariam como surtos. Pensava no que poderia perder se tomasse a iniciativa e o ato final: sua carreira poderia, de repente, alavancar, seu bilhete poderia ser, desta vez, o premiado, seu índice de massa corporal poderia até diminuir se cortasse de vez a cerveja. Não conseguia se desfazer das noites rasgadas no boteco da esquina. Dos planos e fortunas divididos com outros seres tão sozinhos e fracos. Quero tanto sorrir sem precisar de grandes motivos - foi seu pensamento mais sincero. Foi sua vontade maior de mandar todos à merda. Os pais que julgavam sua capacidade de fazer algo de importante ou original. A mocinha com as unhas pintadas de preto, pela qual esvaziou metade do armário e deixou a barba crescer, e que decidiu ir para cama com um de seus melhores amigos, e com ele ter quatro filhos. A doceira que lhe deixou um par de chifres. A coroa que lhe arrancou a juventude para depois abandoná-lo sem nada, em outro continente. Tinha gente passando fome no mundo, e ele reclamando do aumento no preço do cigarro. Setenta e cinco centavos a mais que ele ainda poderia pagar. Que ele continuaria podendo pagar, sobrando dinheiro na conta, sobrando saúde. Sem grandes desgraças. Ele tinha motivos para sorrir só de estar vivo. E saiu vivendo-sorrindo portanto, e vivendo cada vez mais...


Força para sorrir. E que o resto venha...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Descartar Rascunhos.

Estou tão fraco. Com tanta vontade de sumir daqui. Tão sem motivos para chorar, mas sem conseguir impedir os soluços. Tão vazio de sentimentos, e ainda assim, tão à flor da pele. Preciso tanto te mandar embora. Preciso mais ainda que você me deixe. Que não volte, desapareça. Eu não sei para onde eu fui, nem como me reencontrarei. Mas eu só peço que, por gentileza, você se vá. Não fantasie ou ritualize qualquer tipo de despedida. É desnecessário, e masoquista, dar atenção a algo que não vale mais à pena. Que passou, e só nos tirou do eixo. Sentirei sua falta: ou algo outro que cause uma qualquer-turbulência. Alguma coisa que não nada. Algo que me faça estender os braços e pedir aos céus por uma explicação. Foi-se o tempo. Principalmente o nosso. E, com ele, a vontade de ser mais e melhor. Eu, antes, percebia o desenho das nuvens, o orvalho, o canto dos pássaros. Antes eu escrevia sobre coisas belas, sobre as coisas todas. Nada me escapava. Eu ficava de pé e o mundo levantava para me aplaudir. Ou apostar qual seria o lugar mais adequado para uma cicatriz futura. Eu conseguia me colocar de pé independente do que se apoiasse em minhas costas, me puxasse pelos cabelos, segurasse meus pés. Eu sinto falta de mim! E não é de hoje. Até então não conseguia reagir. Perceber-me em falta comigo mesmo foi o que induziu este coma. Esta reclusão. Perceber-me não mais obstante a minha falta em vidas alheias, mas tão condizente com isto, que ausente, inclusive, comigo. Eu me satisfiz, por anos, em poder seguir atrás das migalhas que você deixava cair pelos seus próprios caminhos. Não quis, não tive - já não sei - maneiras de me conter. Acabei me tornando tão só que não me sentia mais à vontade na minha própria presença. Talhei meu corpo de acordo com suas lacunas. Concordei com suas ausências. Mutilei-me até aceitá-las completamente. Tantas vezes precisei explicar que, mesmo a ciência dos fatos, não bastava para me impulsionar a sair disto. Digo, daquilo. Chega um momento em que, a menos que seja impedido, a pessoa já terá entrado tanto em sua vida, que a vida que era sua, passa a ser totalmente dela. E aí você está fodido, mais do que nunca, acabado. E a culpa é, justamente, de quem jurou te proteger de tudo para sempre. Você volta a ser menino, mas com as dores de gente grande. Que as pessoas se tornem menos egoístas, espero. Que qualquer coisa flua sem precisar prejudicar nenhuma outra. Quanto a mim: "Sou como um daqueles meninos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo", e que desmontam um boneco para saber o que ele sente por dentro. Sei que nunca mais deixarei de ser-me. Que nunca mais me deixarei por preferir um outro. Que nenhum encontro será por acaso. E que nenhum amor verdadeiro será 'por enquanto'.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Exercício do Ser.

Existe alguma fórmula. Um segredo. Algo, alguma coisa que, mesmo mínima, colou meu desejo no seu. Alguma coisa oculta que rege nossos caminhos pelo mundo. Sabe, alguma coisa me mandou ir e eu fui. Aconteceu de precisar ser você, só você, e nada mais bastar. Foi à partir de então que as horas de sono se alongarem até se tornarem insuportáveis. Contava os milésimos de segundo para que, de repente, nos esbarrássemos por aí. Os discursos todos parecem se firmar nas mesmas coisas, reinventar maneiras de falar sobre os mesmos assuntos. Sofremos todos das mesmas dores. Mas você achará estranho se, um dia, isso for parar em suas mãos. Mais ainda partindo das minhas. Você achará tão estranho que, talvez, por isso, não entenda. Vou tentar não te assustar, não mencionarei seu nome, muito menos o meu. Vou tentar universalizar todos os fatos e sentimentos. Na verdade, como eu disse, a única coisa que muda é a minha forma de dizer como caminhei e vim parar aqui, onde, eventualmente, se encontram todos. Tudo o que eu quero que esteja, aqui, escrito, estará. Não posso datar a primeira vez que me senti diminuto em sua presença. Nem quantos dias levei para compreender o que tanto se mexia por dentro. Mas tudo bem, os fatos amorosos são atemporais e circulares. Houve, no primeiro instante, um barulhinho, algo discreto do lado de dentro e, instantaneamente, eu já te quis bem. Aquele quer bem que não precisa ser querido também. Sonhei contigo por noites seguidas. Você se apresentava com uma voz grave, não precisava de apoio, nem de companhia. Descobri, depois, que não era realmente sua, era uma projeção do que eu queria que existisse em você. Eu te desejei, primeiro, em carne. Da maneira tentadora que era. E que me fazia acordar absorto em excessos próprios. Se algumas coisas pudessem ser vistas com um olho próprio e um olho de outro, talvez o peso sobre os ombros de cada um de nós, diminuísse. Olhos arregalados, dedos finos, lábios eternos. Você é bem assim. Com seus passos largos povoando todos os lugares do mundo. Não há maneira de te olhar e não se deixar ser arrastado.


Acontecemos, afinal. Um motivo a mais para acordar com dor de cabeça, mas com um sorriso mais firme no rosto. O gosto indesejável do álcool fazendo qualquer cheiro parecer esgoto. Acontecemos, afinal, mais uma sequência de vezes. Eu te querendo tanto e você querendo entender de onde vinham aqueles zumbidos matinais na cabeça. Eu querendo que me quisesse ao menos um pouco e você preocupada em escolher um sapato novo. Um sabor de picolé. Uma música que combinasse com o fim de tarde. Eu querendo que você me escolhesse, e você querendo nada. Às vezes querendo até um pouco, um pouco de carinho, um abraço, saber-se querida, para depois ir embora.


Se me amou, se perdeu no caminho. Amor daquele tipo torto. Que a gente diz que existe, mas não tem certeza. Se houve amor, o perdeu no caminho.


Se não fossem as fotos, talvez agora já estivéssemos nos esquecido de como se encaixavam os dedos. De como se encontravam os olhares - apesar das mil e outras pupilas quase completamente dilatadas vagando por aí. Se não fossem as fotos, talvez nada mais nos lembrasse de nós. Do que costumávamos ser e que foi preciso que deixássemos ir. Não vai ser fácil, você repetiu, sem a menor vontade de se levantar e ser a primeira a ir embora. Mas em nada mais cabíamos. Apesar de todas as tentativas frustradas de bater na porta, tocar a campainha, socar até incharem os punhos, nunca fomos nada senão a vontade de ser alguma coisa.