domingo, 3 de abril de 2011
Amanhã Não Pode Ser Outro Dia.
Estou sem notícias suas desde que nos despedimos mais cedo. Você entrou no carro, e eu levei alguns minutos para querer sair dali. O que construímos é secreto, portanto delicado. E ninguém nunca saberá - nem entenderá. Melhor assim. Nós dois vivendo paralelamente, por uma hora ou duas, e depois enfrentando o que há na vida. Sei que prometemos não confundir, nem idealizar. Mas me enoja somente a idéia de te imaginar encostando sua boca em uma outra. De imaginar outra língua desvendando suas palavras. Sua saliva é minha. Meu amor é seu. E seriam só encontros desgarrados de tudo. Só encontros. Um café ali e um cigarro aqui. Uma mão subindo e uma calça descendo. Coisas que acontecem entre quatro paredes e ninguém pode saber. Eu não nos contei para ninguém. Existe um pouco de medo, de me convencerem de que realmente é errado, desnecessário, insalubre. Eu não fugiria de você nem mesmo se, outra vez, me mostrasse suas garras. É preciso se machucar, você mesmo já me disse. Da primeira vez que passou por um surto e resolveu me deixar. Mesmo dizendo que não estava me deixando, porque aquilo não era nada, e não o sendo, não tinha como deixar para trás. Quando você fala, com sua voz rouca, porém suave, você não imagina como despedaça tudo. Você não sabe como é afiado. Até mesmo não falando. Somente existindo. Quando você existe no mesmo cômodo que eu, todo o resto se apaga - e nisto, incluo tudo o que mais importa na vida. Quando você existe e ainda se faz presente no mesmo mundo que eu, eu declaro feriado. Tiro férias prolongadas e o resto que se foda porque eu tenho você. Às vezes eu tenho mesmo a sensação de te ter. E me iludo pensando que poderíamos existir assim juntos para sempre. Você se vai. E eu não me espanto. Já me acostumei com a dor. E assisto, calmamente, você me dar as costas. É o momento em que tudo para, e o coração desinfla. Parece que tudo se perde. Pois eu vejo aumentarem as chances de te perder. São milhões de pessoas vagando por aí, vai que em uma delas você se encontra. Temo pelo dia que você me dirá que nada disso vale à pena. Que é melhor irmos. E só você se vá. Porque é difícil abrir mão daquilo que te mantém de pé. Não suporto a hora em que acendem as luzes dos postes. Não consigo entender como o dia virou noite e tudo pode se tornar diferente. Não consigo aceitar como isso pode acontecer com a gente. Se suas luzes se acenderem e você se tornar distante. Se tornar passado. Eu me tornar passado para você. E você tentando me explicar que tudo foi realmente nada. Não vou ser capaz de entender, nem de me livrar. Nem de você, nem das lembranças, e a vontade de querer bem e querer perto. Prevejo seu rosto intacto e o meu escorregadio de tantas lágrimas. E você indo embora. Dizendo que desta vez é pra valer. Se um dia eu te perder na multidão, não saberei onde encontrar abrigo. Você não sabe o quanto isso tudo machuca. Quando você me conta que conheceu alguém, e que por isso não poderá ficar muito tempo. Que encontrou alguém e não sabe no que vai dar. Quando você me diz - ainda sem dizer -, que não se encontrou em mim.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Destruição em Massa.
É difícil estar bem quando quem a gente quer bem não está também.
Díficil tentar entender o que os grandes poetas quiseram dizer. Se natureza ou libertação. Se a natureza deveria ser liberta, ou eles de si mesmos. Se cada verso foi pensado, premetidado, ou se cada dor neles saiu em um espasmo. Eu não sou bom com versos, nem com rimas - mesmo as mais pobres. Mas tudo que escrevo sai sem estar ao alcance de minhas mãos. Talvez meus braços sejam por demais curtos. Talvez eu não tenha tentado tanto quanto eu deveria. Talvez...ah! se talvez bastasse. Estaríamos nós dois deitados sobre a grama recém cortada, ainda molhada de chuva, sentindo nossas bochechas corarem ao sol, e nossos pés se aproximarem uns dos outros - mais, cada vez mais. Eu não estaria sentado ao lado de vinte corpos estranhos, sem visita alguma de vento, com cede e carência de cafeína, escutando que poetas calculam muito mais do que, um dia, calculariam os alquimistas. A adoração responde negativamente aos mais térreos estímulos. Não acredito em Deus. Nem em um, nem em vários. Não sobrou tempo em minha vida para adorá-lo, e ancorá-lo ao peito. Não me abri para nenhuma religiosidade e, quando é preciso, encontro a calma em meu próprio ceticismo. Mas ainda insistem nisso de espírito. Eu acreditaria se pudesse tocá-lo. Ou se eu pudesse ter calculado quantos centímetros ele ocupa no meu corpo. Ou quanto ele pesa a mais toda vez que subo em uma balança. Com minha estatura e a pele mal encobrindo as formas das costelas, eu provavelmente não teria acreditado no papo de sobrepeso dos ossos. O que pesa aqui é meu espírito, é minha alma, eu diria. Empolgado por imaginar-me transcendendo com grandiosidade. E todos dentro da farmácia se assustariam, dariam um passo para o lado, mas depois pensariam que é bom mesmo nos dias de hoje ser capaz de acreditar em alguma coisa. Deve ser realmente bom se apoiar fielmente em algo. Quando digo algo, falo justamente daquilo longe do palpável, que cresce insosso, invisível, ilimitado, incolor, dentro da gente. Que nunca irá embora, nem nos decepcionará - a não ser que estrangulado pelas nossas próprias mãos e vontade. Algo mais do que as pessoas e seus mil casos conflitos surtos sumiços. Que fique sob nosso controle - e assim permaneça até que nos canse ou não nos baste mais. Se não fôssemos tão assumidamente humanos, talvez encontraríamos algo que pudesse ser realmente eterno. Mas ao decorrer dos anos, em uma provável progressão geométrica, cresce em nós a vontade de destruir tudo. Às vezes, chegando até ao extremo, de destruirmos a nós mesmos.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Meu Sonho.
Não é possível que nunca tenhamos nos esbarrado, ela disse. Já tendo notado a mesmice dos traços e pêlos em meu rosto. Nunca - não nesta vida - eu havia visto o rosto dela. Se eu houvesse, falei com certeza, eu me lembraria. Porque os olhos encaixados naquela face fina e delicada, eram afiados. De forma a marcar qualquer um - que tenha, ao menos, um coração. Falo ao menos porque nunca se sabe em quantos um ser-humano pode ser desmembrado. Nem em quanto tempo cada membro pode tomar vida própria. Ela não disse muita coisa, foi como se evitasse olhar para mim. Não sei se por medo, ou qualquer outra sensação que exigisse cautela. Também não sei se aproveitava para olhar enquanto eu me distraía com as luzes. Quantas luzes em um mesmo lugar, eu pensei. E quis partilhar tal observação estúpida. Mas quando me virei, só restava uma fina linha de seu perfume no ar. Outra vez, caminhando sonolento pela rua, uma mão alcançou meu ombro. Acho que já nos esbarramos, ela disse. Relembrando a palidez dos meus lábios e a acidez de meus sorrisos. Sim - além desta vida, aliás. Combinamos um café. No momento em que nós dois sugerimos o mesmo horário, eu soube que ali não haveriam sustos. Nem formas desfiguradas nas sombras. Ela me deu carona. Seu carro cheirava o mesmo cheiro que havia ficado a flutuar em nosso primeiro esbarrão - o primeiro do qual tivemos certeza -, mas desta vez mais forte e presente. No espelho, havia pendurado um pequeno círculo de papelão - suponho -, com o desenho de um pássaro e be free. Eu pude reconhecê-la dos meus mais desconexos sonhos. A vida foi feita de momentos. Mas, até então, nenhum havia sido tão claro como aquele. Que foi seguido por outros. Não houve café. Só cigarros e nove garrafas de cerveja. Ela tinha pressa, e por isto bebia numa rapidez olímpica. Não queria ir embora, acredito, ao rever tudo que passou. Mas queria saber o que viria depois. Ela tinha uma pressa infantil e cautelosa quando se tratava do futuro. Futuro, era uma palavra que eu nunca pude dizer na frente dela. Só a intenção de dizê-la já dava, nela, uma vontade de sair correndo e rolando pela grama. Ela sequer me dava a oportunidade de planejar outros encontros. Deixa acontecer, deixa vir, deixa que se for para ser, vem. Ela dizia. Meio risonha, sem conseguir esconder o que estava por trás. Eu nunca soube dizer exatamente o quê. Mas havia algo ali. Que se acentuava cada vez que, nervosa, ela coçava a nuca, e erguia os braços, e se espreguiçava, e começava a falar sobre o mochilão que havia feito pela América do Sul. Não faltou um lugar sequer, dizia em um tom orgulhoso. Eu só podia me orgulhar junto e fingir que não me importaria em nem saber por onde ela andaria nos dias seguintes. Porque não me era autorizado ligar, nem enviar cartas, nem procurá-la no trabalho - muito menos no coração. Nunca me senti assim, ela dizia, tão livre, tão leve, tão sua, e ao mesmo tempo, de ninguém. Na metade da frase, eu já sentia meus pêlos arrepiarem e meus joelhos tremerem. Acho que alimentava - mesmo ela me pedindo para que não o fizesse -, uma esperança de que só sua bastasse. Só minha. Era o que eu esperava. Coisa que ela não poderia saber. De outra forma nunca mais me ligaria, depois das dez da noite, dizendo que o centro estava muito cheio e eu devia cair para lá, porque nós dois poderíamos beber uma duas até quinze cervejas, e rir da cara de bêbado dos outros. E, quem sabe, depois poderíamos dormir juntos, com os ombros encostados e dividindo o mesmo travesseiro. Ela me ligava quando se lembrava que, do outro lado da cidade, sentado na poltrona, lendo o jornal e fumando o último cigarro do maço, estava alguém que daria tudo para tê-la. Alguém que era eu. Às vezes eu acreditava que ela queria ser de alguém. Da forma doce e carinhosa. Mas logo eu era desarmado. Por muitas vezes tive que vê-la acariciar as coxas de outros sob a mesa, e me jogar vinte reais e dizer que se desse, me ligava. E entrar no táxi, quebrando o salto, e largando os sapatos comigo. Toda vez que ela quisesse fugir, ela pensava em mim. Ela se escondia no meu medo de não tê-la - mesmo não tendo, eu temia. Tê-la sem saber, quem sabe foi assim. Pois era para mim que ela ligava toda vez que a gasolina do carro acabava e ela ficava sozinha no meio da rua. Toda vez que ela queria tomar um porre ou enfiar nos canos e ninguém se dispunha a estar lá para mantê-la sã. Missão que nunca considerei possível. Nem domá-la, nem cuidá-la. Somente estar lá para que ela não acabasse fugindo de si mesma. Para que ela não acabasse no topo de um prédio sozinha. Dizendo para o vento, e não para mim, que Freud não sabia de porra nenhuma, que se id ego superego existissem, ela estava fodida. Que nada daquilo funcionava. Que ela queria acabar com o sistema e chamar a atenção do mundo. Você não vê o que está acontecendo? Ela gritava deixando a saliva escorrer pelo canto da boca. Está tudo errado, e se debruçava no meu colo, e chorava. Eu não sabia de onde vinha aquela dor. Se era passageira ou se havia estado sempre com ela. Admito que, em algumas horas, ela me assustava. Mais que trovões e mais que a morte. Ela me assustava por ser tão perfeita e, ao mesmo tempo, tão arruinada. Era isso que ela era. Um casarão tombado, cheio de segredos, indubtavelmente instigante. Belo, do lado de fora. Com um portal que poucos ousariam entrar. E dentro, cheio de teias e rachaduras - mais aparentes e descuidadas. Abandonada, tal como o casarão. Ao contrário dele, não tinha cheiro de mofo. Mas o hipnótico odor que circunda as travessas de doces. Eu degustei de seu açúcar, mas mais de seu veneno. Com o decorrer do tempo, mais nítida foi ficando a imagem dela na minha cabeça. De óculos escuros, segurando o volante com uma mão, falhando ao tentar sintonizar o rádio com a outra. Reclamando que porra nenhuma naqueles dias - e nos de hoje - era boa de escutar. O be free balançando com as curvas. Eu a reconhecendo de algum dos meus sonhos. Até então não sabia de qual. Hoje, eu já entendi. Sabe um daqueles sonhos em que você sente estar caindo e, de repente, acorda? Ela era assim.
terça-feira, 29 de março de 2011
Na Boca do Estômago.
I wanted an airplane. A first-class ticket to nowhere. An elephant. An everlasting cheesecake. Most of all, I wanted you
Reviramos as gavetas erradas. Não era você quem eu queria ter encontrado. Não era, insisto. Quem sabe assim eu acredite. Vinha andando vazio. Como se os passos fossem mecânicos e o caminho não fosse de meu interesse. Não diria que algo mudou. Porque é cedo. Meu Deus, como é cedo. Eu ainda mordo os lábios e troco suspiros com uma lembrança que não deixei ir embora. Um corpo que conhece meus toques. E espera por eles, ansiosamente. Ainda revivo as dores de feridas que não esperei secar. Vivo amordaçado. Para não largar as palavras por aí. Se me fosse permitido, eu juraria a eternidade. Para qualquer brilho. No céu ou nos olhos. Vinha andando, sem ter conhecimento do perigo que é se largar. Não digo que encontrei, porque já é de praxe estar perdido. Não digo que me apaixonei, porque só a idéia disso já me dá náuseas. Uma crise de ansiedade. Perigoso é querer sempre perto. Melhor não se entregar. Dar meia volta e seguir em frente. Mas aquele par de olhos me persegue. Nas nuances do quarto escuro. Nas silhuetas debruçadas sobre a cama. A verdade é que eu mal te conheço. Já ela me conhece tão bem. Eu poderia dizer tudo de olhos e boca fechados. E ela saberia. Eu não tenho sobre o que escrever. Voltou o vazio. Um minuto de silêncio. Nunca conheci ninguém que soubesse seguir em frente. Não assim. Quando uma mínima possibilidade se mostra capaz de repôr tudo aquilo que escapou de dentro. Não era você. Novamente, eu insisto. Talvez assim eu me conforme. Ao saber que tudo conspira para não ser, nunca poderia ser você. Mesmo que meus lábios te chamem, e os seus respondam. Mesmo que seu abraço me puxe, e eu queira me prender nele. Nunca poderia ser você, e nós nunca poderíamos ser nós dois. Então eu ainda sobrevivo dela. Quando o desespero invade, e o silêncio faz da noite mais escura. Eu sobrevivo dela. Meu corpo dói. Desde os músculos até a alma. E dizem por aí que corpo e mente são uma coisa e alma é outra. Não que eu entenda disso. Mas meus dedos doem, e o que está por detrás deles também. É difícil me concentrar e não pensar em você. Mesmo quando dentro dela. Mesmo ao lado dela. É difícil pensar em outra coisa que não em você. Seus lábios e seus cílios, seu rosto e um sorriso. Eu daria um nome a cada uma de suas sardas. E nunca me esqueceria. Nunca, jamais, eu ousaria me esquecer. Nem de você, nem de cada mílimetro que te compõe. Alguns chamariam de amor, paixão, febre, alucinação. Eu diria que é uma puta dor bem aqui, na boca do estômago. A vontade de te ver a cada hora - para então entender que o tempo realmente existe. A vontade de que você entenda cada cigarro como um sinal de fumaça, um pedido de socorro, um solene apelo. Ainda assim, eu vivo e respiro ela. Porque não me restaram muitas outras saídas. Nem outros amores viajantes. Nem outros colos nos quais eu possa repousar com a certeza de infinita permanência. Eu, mais que tudo, viveria de você. Noite ou dia. Tristeza ou alegria. Como se houvesse feito um juramento, e enfeitado seu dedo. Se você ficasse por mais tempo, eu te escreveria até um poema. Sem métrica, sem rumo. Ou eu-humano é plural. E eu te quero para mim de uma forma singular. Se eu pudesse mudar sua cabeça, só por uma vez. Fazer tudo funcionar, como na tela do cinema. Eu coloquei o café para esquentar. Não demore não. Senão, eu servirei para mim e para ela. Assim não é meu coração. Esse não é meu coração. Não pode ser meu coração. Should be yours...
domingo, 27 de março de 2011
Mesmo Nós.
Não era Inverno. Tampouco Outono, ou Primareva. Nem muito menos Verão. Era uma estação à parte das outras. Imprevisível e desconhecida. Uma estação em que fazia sol e ao mesmo tempo trovejava. Chamam-na de inesperado. Eu sempre preferi não dar nome as coisas. Nem dar nome ao amor, nem dar nome as feridas. Deixar correr. Voar, se for leve. Deixar acontecer, e apreciar a paisagem pelo caminho. Não que eu seja só sorrisos e a vida seja o mais lindo dos mistérios. Não que seja preciso me escutar. Não que seja ou tenha sido. Mas eu queria contar. O número de pessoas que atravessam a rua, e fazem bolhas de saliva na ponta dos lábios, e inserem seus corpos na vida de outros. Eram tão pequenas as suas mãos. Tão pequenas e o mundo, já sabemos, tão grande. E me dava um medo ver você sair pela porta e, distraída com a bolha nos lábios, atravessar a rua, e cruzar seu caminho na vida de outros. Medo de que fosse embora. Que não fosse comigo. Um medo de te perder. Para outro, mais do que para outra dimensão. Muitas vezes eu te assisti pela janela. Nunca sabemos quando veremos nosso maior amor pela última vez. Tanta coisa acontece. Coisas que não saem no jornal, que não são debatidas na calçada. Se os Domingos não fossem quase todos de sol, eu não te confiaria ao mundo. Ele não seria capaz de te cuidar como eu cuido. Como eu quis. Se eu não contasse, ninguém saberia que você tem medo de grilos, morcegos, amor e escuro. Ninguém saberia que você dorme todos os dias com o mesmo par de meias. De vez em quando colocando para lavar, mas somente se com a certeza de que estarão secas ao anoitecer. Talvez só eu saiba como você adora o pôr-do-sol, as tulipas e o cheiro da noite. Como você se treme toda com o barulho dos trovões, e tem medo de morrer em um acidente de avião. Esse seu medo de ir embora e ser esquecida. De que seu corpo farto se divida em milhões de partículas. E que elas sumam. Você contou feito fosse o segredo do mundo. Mas não é tão especial querer deixar marcas, e ter suas fotos penduradas nas paredes, e seu nome pintado em um muro. A idéia de que alguém, um dia, possa te fazer mal, qualquer mal, já me embrulha o estômago. Você parece tão forte. Se me perguntassem, antes de tudo, eu diria que sim. Mas te assistindo chorar, delicadamente, depois de uma garrafa de vinho, depois de me dizer que não queria isso, depois de me contar que dormiu em outros braços, eu já não tive mais tanta certeza. Você acha que fez mal, mas isso é só o começo. O que virá depois poderá ser pesado ou transparente. E, um dia, eu poderei acordar, assistir você dormindo, esperar que você acorde e boceje uma ou duas vezes, para depois te dizer que não valeu à pena. Nem que tivéssemos tentado mais cedo ou acreditado mais cegamente. Um dia eu poderia te pedir para ir embora. Sem duvidar ou esquecer. Uma expulsão educada, sensata, certa. Porque não podemos prever. E nem perder a graça. Há dois anos atrás, quando eu te vi pela primeira vez e o tempo congelou, eu ainda cultivava uma fome maior de loucuras. Fosse o ócio ou o ópio. Fosse o que tivesse de ser. Sem pensar. Sem jamais pensar. Com você as coisas pedem por mais cautela. Como andar com um guarda-chuva e protetor solar. E te dar a mão, e te assistir entrar no ônibus. E prometer que te amarei para sempre, ainda que tudo passe. Mesmo nós, mesmo o tempo.
terça-feira, 22 de março de 2011
Espinhos.
Quando começou, não era algo tão cruel ou sombrio. Não ditava minhas formas de girar com o mundo. Nem me fazia mais só do que o natural. Quando eu comecei a escrever, meus olhos tinham o brilho dos olhos de um garoto, a vivacidade e a vontade de querer bem. Eu ainda tinha esperança. E algo no qual me apoiar. Princesas e cavalaria, e dias de sol e, quem sabe, um homem ruim escondido no sótão. Não falava de sangue, ou mágoas, ou vertigens. Ou o pior, eu renegava a dor. Foi crescendo, calada, em mim, a vontade de ser maior. Tão maior que um dia me chamariam de grande. E se lembrariam com certa tristeza. Eu quis ser triste, para deixar algo para trás. E não ser esquecido, ou desmembrado com o tempo. Eu quis ser triste, e foi por isso que, por tantas vezes, me entreguei. Eu precisei me apaixonar, perder, sofrer, encontrar, morrer, e renascer. Eu precisei partir. Deixar de ser aquele rapaz com olhos de garotos, e partir. Partir para longe, partir a mim, partir aos outros. Ver o oco, o coração, o ardor, o frio. Ter pressa. Eu amadureci e não deixei restar nenhuma ingenuidade, apenas dei vida a um monstro. Eu quis viver de tudo. Experimentar de todos os sabores. Tirar, deles, o sumo. E, até, a pureza. Fui mutilando a felicidade de uns, para, no papel, dar vida a outros. Pois é preciso emoção. E é preciso sentir. E por isso rasguei, não só as folhas, mas os corpos. Com arranhões e palavras tão duras. Tão desumanamente duras. Eu dizia eu te amo só para saber que olhar receberia de volta. Porque era aquela realidade que eu queria expôr. Aquele entusiasmo beirando a mutualidade. Beirando o espasmo de um beijo e o desgostoso vamos viver juntos para sempre. Eu juntava minhas coisas e fechava a porta. Nenhuma ligação, ou rodeio. Nada. Nada. Foi através de você que eu reconheci todos os meus pecados. Ultrapassando o limite dos sete. Repetidas vezes. E novas abordagens. Foi através do seu gosto que eu me encantei e depois me perdi. Você era doce, e sempre há de ser. Mesmo que o mundo pare e tudo se vá. Mesmo tomada por dores irreparáveis e hemorragias que nunca cessarão. Mesmo sendo você uma boneca faltando alguns pedaços. Mesmo sendo você um amor que eu abandonei. Alguém, um dia, ainda te encontrará. E vai te querer assim, pequeno desastre. Tenha fé, é o que repito, para continuar vivo. Mesmo você descrente de tudo e de todos. Eu te escreveria as mais belas palavras, mas o que ficou, é horrendo e mal cabe nesta folha. Não se apaixone por mim. Não me ligue de madrugada tomada pelo temor de morrer só. Não olhe para atrás. Não pule de um prédio no meio da cidade. Não me torne o homem que eu não sou. Que eu nunca poderia ser, embora tenha tentado. Não encontrei outra, nem um princípio de paixão, nem um calafrio inesperado. Não encontrei, nem em você. E foi assim que me perdi. Um dia, posso apostar, você dançava com a luz. Não foi assim que te conheci. E a culpa não é sua, nem minha. Não sei quem te atropelou, mas caberia muito bem com o pescoço entre as minhas mãos. Eu te quero bem, por mais cruel que isso, agora, pareça. Não deixei nada que te forçasse pensar em mim - por mais inevitável que isso seja. Nada de cartas, ou pares imcompletos de meias. Nos conhecemos há muito tempo, há tanto tempo que não sei como isso tudo se deu. Como você foi me confundir com seus sonhos, e eu fui te tornar esperança. Como depois disso nos deparamos com o pico, e dele, o precipício. E disso tudo, e de nós dois, ficou o impalpável - mais para você, do que para mim - recomeço. Eu lembro que te fiz feliz. Eu te dei uma certa vontade de estar feliz. De engolir as lágrimas e encarar de frente. Eu te dei amor, ao menos foi o que você entendeu. Mas agora, eu posso confessar, foi tudo um engano. Um abuso inconsequente e juvenil, de minha parte. Eu pediria perdão. Mas atingi meu ápice de insensibilidade. Não posso achar que repararia os meus espinhos assim. Eu encontrei quem me fizesse brilhar de novo. O sorriso e os olhos. Podia ter sido você. Quem mais quis isso de mim. Você. Mas não foi. E agora eu deixo escorrer o sangue causado pelos espinhos dela. Deixa escorrer, deixa. Uma hora para...
domingo, 20 de março de 2011
Uma Mulher.
"Se está de mau humor - digamos, se a irmã telefonou de Lübeck ou se ela achar gorda, embora eu jure inutilmente que vivo e morro pelas carnes dela -, ela declara que eu sou a árvore que a impede de ver a floresta. Não me afasto dela. Quando ela abre bem a boca, ááá, eu também abro a minha. Quando ela se senta, eu me aninho junto dela".
Eu quero um amor sentado no sofá. Um amor de Domingo de sol, com gosto de ressaca e vontade de viver feliz. Eu quero um amor em plena hora do rush, debaixo do viaduto, escondido da chuva. Eu quero um amor sem previsão de desgaste. Um amor sem previsão. Eu pude prever apenas o minuto em que você atravessaria a porta, e minha cabeça giraria trezentos e sessenta graus, e daria a volta na lua, e voltaria na velocidade da luz, só para eu não perder nenhum dos seus passos. Só para não te perder. Porque a vida, e tudo, passa tão rápido. Eu não te esperava com as mesmas bochechas e os mesmos olhos com os quais você veio. Eu te esperava sem a certeza dos traços em seu rosto, com meu coração embrulhado. Porque um dia me disseram que alguma coisa haveria de vir. E um dia me disseram que não era preciso procurar. Eu procurei alguém assim, nas dobras de coxas anônimas, na ponta de um nariz. Procurei até me cansar e desistir de tudo. Mas eu descobri uma felicidade vinda de você. E me apaixonei pelos seus joelhos tortos, pelo seu sorriso sem graça, pela sua vontade de me fazer feliz - por saber sê-lo tão bem. Você está presa na minha cabeça e eu sei de cor quantos centímetros medem seus pés, e o ângulo exato das suas maçãs do rosto. Eu nunca me entreguei a nada, mas você me receberia tão bem. De braços abertos e me querendo mais perto do que perto. Você poderia viver em meus sonhos, e desenhar na areia, e me salvar do que quer que seja que tenha me tornado tão duro. Eu acreditaria em todas as palavras que você nunca ousaria dizer. Porque as coisas não são assim tão fáceis e você sequer sabe do amor de graça que nutri sem nem saber se preferia vermelho ou amarelo. As coisas tem sido brutas, na maior parte do tempo. A temperatura do ar, a queda das folhas, o céu nublado. Você não sabe dos meus segredos. Dos cadáveres que escondo no armário, do que há debaixo da minha cama. Se eu sei amar ou se é tudo um engano. Ontem eu dormi com outra pessoa, coisa que eu não queria te dizer. Você não é minha, mas eu já me considero seu. Foi veloz e sem sentido. Você não estava por perto. São tantos os compromissos e os horários e os atrasos. Eu já sinto a sua falta. Porque a lucidez que mantenho desperta me faz saber que tudo, um dia, vai. Ir embora é tão doloroso e tão triste. Não quero antecipar nada. Mas é sacrificante me manter cínico. Penso que é mais sábio ficar só na vontade, para não manchar sua imagem com o mofo da convivência. E não deixar sua magia se confundir com a dificuldade de manter a louça limpa. Você me invade como, outrora, me invadia a tristeza. Pelos poros, como um meio-segredo, uma bactéria, uma vontade de não saber de nada, e deixar fluir. Eu desconheço as dores que te tornaram humana. Não sei se chorou mesmo antes de receber a palmada. Se foi prematura ou esperou o tempo exato. Você tem pressa? Porque eu poderia ficar aqui para sempre. Enumerando todos os meus pecados. E Deus, como foram tantos. E pesados. Minha carga é tão negativa que não sei como flutuo nesse tempo-espaço. Não sei como ainda tenho forças para dizer tudo que te digo agora. Para sentir tudo que aqui dentro explode e me faz querer gritar para o mundo que meu Deus, eu achei tudo que queria e ela não sabe. Ainda bem que me afoguei senão você nunca teria me salvo. Ainda bem que me perdi senão nunca teria te encontrado. Através destas falsas linhas retas eu prevejo uma vontade incorrigível de te querer perto. Tudo que eu nunca diria agora eu te entrego sem mesmo ter a coragem. Leva-se menos de um segundo para ter a vida virada de cabeça para baixo. Fica comigo.
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