domingo, 20 de março de 2011

Promessa.

Eu te amo, ele disse, assim, sem ao menos ter visto os pés da garota. Eu preciso que você me ame, ela disse, sem sequer lhe contar sobre as cicatrizes nos joelhos. Meu bem, você sabe que eu não me importo em saber ou deixar de saber sobre suas quedas. Eu só não posso com elas. É como um coice no peito e já estou velho pra coices. Me dá um cigarro? Eu te daria o mundo. Mas, por agora, só um trago. Temo pelos seus pulmões, mais do que por nossos corações. Eu menti pra você e abri seus cadernos. E eu vi aquelas frases e os textos e você bem sabe que só as palavras é que me ferem tanto. Faça silêncio com eles que meu coração aguenta firme. tô sem isqueiro também. Eu escrevi tudo aquilo para que você lesse. Gosto das feridas, muito mais do que de cicatrizes. Mas eu te prometo que só vai doer mais um pouco. Eu só tenho fósforo. Será que eu posso ficar sozinho, 10 minutos, será que é te pedir muito? Na verdade, eu preferia que você fosse embora. Não consigo fechar a janela, não consigo te levar comigo, não consigo me fechar para você. Vou te contar um segredo, talvez dois, talvez todos eles. Talvez eu te conte o que veio no meu biscoito da sorte, ou te chame para sair. Só nós dois, um maço e luz de velas. Você sabe que talvez eu não aceite. É o que dizem de mim. Se fosse difícil, talvez eu aparecesse. Se houvesse luta, e coagulos no corpo. Eu posso me esconder e te mandar telegramas. Assim você vai achar que eu sou seu tesouro, e me chamar de amor. Não, eu nem te conheço. Pois já passou do tempo, faça as malas e venha viver comigo. Pois esqueça isso tudo, estou falando sozinha. Com uma parte obscura de mim. Eu te inventei nos meus mais absurdos sonhos. E te dei corpo de homem distraído, a barriga e as olheiras, depois de tanta cerveja, a barba por fazer, e o sorriso torto. Meu amor imaginário. Nas sombras do meu eu infantil. E solitário. Eu me apaixonei ontem e não foi por você. Se fosse, nos seria proibido. Era alguém de carne e osso? Ou foi um suspiro? Foi alguém de carne, osso e meus suspiros. Alguém distante, que já havia visto. Talvez nos sonhos. Foi atrás? Fui na frente, antecipei o tempo, nos imaginei casados catando conchas. Na lua-de-mel? Todo dia, morávamos na praia. Era para ser comigo. Ainda não foi. Pede outro café, minha garganta está seca. Você vai me abandonar? Eu nunca estive contigo, senão em palavras. Nós dois caberíamos em um livro. Você coube em meu coração. Vamos escrever um romance deitados na banheira. O romance do século. Você já me fez este convite. Nossas palavras e meu coração. Nossos corações e minhas palavras. Eu mal te conheço. Mas eu me lembro dos tempos que não vivemos juntos. E eu sinto sua falta, quando distante. Nunca estive por perto. Mas eu imagino seu perfume. Ele era bonito? Que nem o vento. Não vá embora. Eu preciso de você aqui. Dividindo a janela e a vida em um trago. Eu não consegui saber seu nome. Meu amor imenso durou uma noite só. E se eu nunca mais vê-lo na vida? Aí eu terei dado sorte, e você ficará para sempre comigo. Eu não quero ficar para sempre com ninguém. Então não se apaixone. Eu preciso de algo que me mova. Não faz bem para o seu fígado. A verdade é que não faz bem para o seu coração. Você não quer ir embora. Você quer que eu fique. Eu quero o mundo, com você nele. Eu quero outro cigarro. Daqui a pouco vamos dormir. Você não tem medo de acordar? Eu tenho medo de perder muita coisa, fica mais aqui. Se você sonhar com ele, está tudo perdido. Mesmo tudo que já perdi? Eu tenho medo dos sonhos e da verdade neles. Eu tenho medo de você e o que acontecerá comigo. Eu me sentia vazia. Não faz bem para a literatura. A gente ainda vai se encontrar. E vai ser mais do que um encontro casual? Destino. Promete?


P.s.: Diego, você também está aqui.

terça-feira, 15 de março de 2011

Minha, Só Minha.

Minha, só minha,
há tempos não te direciono nada. Nem cartas, nem beijos, nem fotos, ou suspiros. Nunca mais esbocei seu rosto nas linhas tortas do céu. Mal me lembro de seus joelhos - eram tortos mesmo ou estes eram de outra? Tenho sofrido pela falta. Falta de algo que, ainda, não soube definir. Mesmo concentrando todas as minhas forças na busca. Ainda me procuram para saber o quê é que se deu de você. Qual foi seu rumo, se casou, se teve filhos, se virou modelo ou viciada em pó. Eu digo que nunca procurei saber, que deixei você ir, sem tentar impedir ou morrer de arrependimento. Só não minto por se tratar de uma meia-verdade. Que completei com uma dose de soro, de mesma composição que as lágrimas. Que completei meio sofrido, estando ciente de que sua partida já havia sido previsão com cara de certeza. E profetizei, naquele dia, que choveria, e logo mais sua visão seria apenas uma imagem turva perdendo cada vez mais o contraste ao longo do horizonte. Se chorei, se chorei não foi como choram as crianças. Não tive a certeza de estar logo sobre o seu peito, recebendo carinho e me sentindo amado. Não houve tempo para o amor. E se houvesse uma culpa, ela não seria nossa. O mundo é formado de mundos, às vezes, tão distantes. E eu vivo escondido de um lado, sabendo claramente de você em um outro. Escutei uma canção um dia desses, não me lembro dos versos, ou do refrão, mas sei que dela surgiu uma saudade. Daquele tempo que inventamos, um amor que criamos. Pela pura e singela vontade de estar. Estou sozinho. Coisa que, imagino, você não esteja. Embora cercado de tantos, ombros e amigos, vive em mim a vontade de viver só, para ser só, e não depender de mais nada. As coisas doem mais quando escapam. E para escaparem, precisam existir com a gente. Eu existo sem elas. Às vezes, coexisto na existência que elas já tem em si. E sumo. Sem deixar nem rastros, nem resquícios. Assim não há sofrimento. Só uma lembrança aquecida de algo que ficou. Feito um lençol que guarda o calor de um corpo mesmo após sua partida. O que, para mim, fica, não volta mais. É uma maneira sensata de encarar a vida. Ou de fugir. De qualquer forma, está tudo bem. Espero que também esteja contigo. Da última vez em que nos falamos, foi para reclamar do tanto que fazia sol - aí e aqui -, e do tanto que nada valia. Tínhamos em comum as decepções, mesmo que distintas. Você já morreu de amores, e eu também. Nas curvas de seu corpo eu podia sentir a frieza que foi deixada. Os olhos miúdos e a boca descascada. Eu queria ter anotado todos os pensamentos que criaram raízes em mim. Para poder partilhar contigo tudo aquilo que não partilhei com ninguém. Pior do que sentir falta, é querer sentí-la. Coisas que os anos e as rugas trazem à tona. Um dia, no parque, eu dividi minha língua com uma outra. Não digo por livre e espontânea vontade, mas sim pela necessidade de fazer barulho. E fez. Nada de sinos ou estralos. Foram intensos os dias em que vivi morando em diferentes bocas. Se não podíamos dividir o teto, dividíamos o céu. E era mais do que suficiente. Algumas vezes limpo, todas as vezes sem estrela. Algumas vezes úmido, outras seco e ríspido. Coisas que eu teria te contado com a certeza de que gargalharíamos e esqueceríamos de terminar nossos cigarros. Contigo eu poderia dividir de tudo. Desde as noites resgatando a boêmia até a solidão de voltar - quase - sempre para um apartamento de apenas um quarto há três quarteirões da avenida beira-mar. Seria mesmo melancólico se eu realmente morasse em Ipanema. Seria bonito se tudo fosse verdade. Mas essa vida é foda e não tem cheiro de mar. No máximo, de esgoto, quando venta forte e se esquecem do real significado de saneamento público. Quando eu mando todos à merda pensam que é piada e abrem seus sorrisos amarelados. Eu queria saber qual é o gosto de um céu de verdade. Deve ser parecido com o seu. Se ao menos eu tivesse te tocado, se ao menos meu toque tivesse te despertado, talvez o amor vingasse. E não se vingasse de mim. Foi por amar tanto que, hoje, eu sou odiado. E que quando a chuva é para mim, só caem garrafas - abertas ou não -, pedaços de torta, restos de comida, tapas e alguns chutes. Ninguém nunca foi capaz de entender o tipo de amor que me dispus a dar. Talvez eu pudesse ter te explicado. Falam de amor livre, mas só se preocupam com o sexo. Se transamos, se transei, se transaram ou não. Tudo sempre acaba em foda. E depois o fodido aqui sou eu. Quando me oferecem amor, eu não quero dar. Quando eu quero amar, só querem dar para mim. Eu deveria te dizer que a vida é mais complicada do que parece. Não sei para você. Talvez você viva escondida para que ninguém, nem eu, te ache. Ou viva expondo suas partes íntimas no ápice de suas madrugadas. Ou viva quieta, tomando um chá todo dia às cinco, e chorando baixinho porque nada deu certo. Acho que me preocupo com seu rumo. Mais do que teria me preocupado com o meu caso, um dia, eu sumisse de vista. Sua vida deve ser feliz. Sendo promíscua, ilegal, destrutiva, morna, sossegada, ou não. Eu queria te dizer e, ainda pior, eu queria que me escutasse. Não uso exclamações para não parecer animado com o que está para vir. O pior é que estou. Se nada me toca é porque nada eu sinto. E estar leve pode ser o maior segredo para estar bem. Pareço um autor de um livro de auto-ajuda, mas a verdade é que eu mandei tudo para você. Que cuide dos meus problemas, já que tudo meu é seu. Na verdade, aquilo não foi nosso. E o que foi nosso nunca aconteceu.
Seu, só seu.
Como eu quis um dia.

Lirismo Egoísta.

Impossível saber a medida exata. E alguns dizem que sabem. Como no Domingo passado, foi molho demais para pouco macarrão. Como ontem, quando eu planejava terminar, ao menos, a primeira garrafa. Mas pouco depois da metade, eu já estava trepando - não da maneira prazerosa ou delicada. Estava trepando as árvores que plantei na minha própria cabeça. Vieram me dizer se cuida, mas para quê mesmo o cuidado? São tantos os amigos e tantos os nomes, e são tantos os pecados e são poucos os perdões. E são tão duras as verdades, e são tão saciantes as mentiras. Não digo estar frustrado, mas admito estar ocioso. Vivo em tempos onde não há nada. Nem um pingo de respeito ou felicidade. Até mesmo o estômago reclama. Tudo que, um dia, foi cheio, agora nos escapa. É tão mais fácil falar, tão mais fácil que sentir, e viver. E viver se tornou uma obrigação. Os anos de estudo, os filhos voltando antes das cinco do parquinho. O mundo girando, o tamanho da lua aumentando. Os tsunamis de água e receios. E de forma egoísta meus problemas pareceram maiores do que todos os outros. Não perdi nenhum ente querido, nem vi o teto de minha casa desabar, nem fui levado. Sofro por não ter motivos. O ópio, o ócio, a vontade de ter algo mais para falar. E reclamar. Reclamo do que não vivo. Porque um dia eu decidi que iria ser assim e foi. Eu escrevo como forma de inventar as dores. Uma transfusão de sangue, de mim para você. Ou vice-versa. Provavelmente seu sangue seja mais puro que o meu, mais vermelho, mais pulsante, mais saudável. Provavelmente você chorou ao se cortar. Se me cortei foi para me provocar. Nenhuma reação, nada além de apatia. Estou morrendo de sede. Morrendo, enfim. Não me sinto, ao menos, culpado pelo que assisto acontecer no mundo. Não me sinto em mim. Nada se desperta além da vontade de ser notado. E poder dizer que estamos perdendo tanto tempo sentados em frente a televisão. Que estamos perdendo tanto tempo que daqui a pouco teremos perdido tudo. Eu sei do tamanho da minha barriga e da minha vontade de engolir o mundo. Sei de você também. Sei que nada se resolveria em um abraço, mas certas feridas saram. E está tudo desabando, dentro ou fora. Sem que ninguém esteja pronto para se despedir. Tenho pensado muito nas coisas que deixei para pensar depois. Eu poderia estar aqui te jurando amores, mas se nada mais restar, não é esse meu amor por você que vai perdurar. Talvez voando pelas estrelas, ou entre os graus de valência. Talvez na memória, se eu contar para o mundo e alguém ficar para explicar. Embalado pelos agudos e graves do meu próprio egoísmo, eu não quero que nada se acabe. Porque ainda não acabei com você. Pensando de forma mais humanista, meus sinceros desejos de que tudo fique bem. Porque tudo que causamos é apenas reflexo de tudo e muito mais que criamos. Eu nunca pude salvar nada. Nem as mudas de plantas que morreram. Nem os gatinhos que atravessaram a rua em plena hora do rush. Nem eu mesmo. Eu nunca pude salvar nada e, de certa forma, eu desejava. Eu ainda desejo. Pois mesmo perdendo tempo, ainda não é tarde demais. Ao menos não para mim. Eu poderia te jurar amores, mas juro que estou com medo. Se você estivesse naquele avião, naquela beira-mar, naquelas torres, em qualquer lugar. Se algo para você representasse qualquer perigo, o mínimo perigo, eu arcaria com as forças e os riscos de quem segura o mundo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Velocidade dos Sentimentos.

Conversar contigo é como conversar com todos os meus segredos de uma vez só. Você não sabe quem eu sou, nem o formato que meu rosto toma quando abro um sorriso, nem como meus pêlos se eriçam ao mínimo contato. Eu te escreveria todos os dias, se não fosse enjoativa minha mania de falar sobre a falta de flores na minha pele. Hoje choveu o dia inteiro, mas eu me enganei ao colocar um casaco. Não estava frio, a não ser visceralmente e mentalmente falando. Saí com alguém para tomar um café - me recuso a contar os detalhes, como o momento em que minha perna tremeu e a boca dela se confundiu com a cor do arranjo de rosas sobre a mesa. Ligeiramente sem emoções. Tudo se tratou de um leve - e confuso - espasmo, no qual eu pude ver nela tudo aquilo que - em segredo - eu desejo ver em alguém. Existe uma dualidade na memória, nos sentidos. Às vezes sinto algo que queria sentir, e me lembro da saliência causada na pele. Sem ser profundamente tocado, nem por corações, nem pelas pontas de dedos. Às vezes eu me lembro de um amor que nunca cheguei a ter. Uma esperança pobre, sujeita a mutilações da alma. Quando eu me despedi, segui pelo caminho dos desnorteados. Nada havia, senão a falsa lembrança de uma paixão desconexa. Mais tarde, a aparição de outro provável amor - como é possível notar, venho depositado esperança e falsas emoções em todo e qualquer sorriso que recebo. Ela se vestia de forma a mostrar-se nua. Pela ponta de seu nariz, eu já poderia saber tudo que se passava ali por dentro dela. Era uma explosão de sons e cores, e tudo mais que poderia haver de belo ou gritante no mundo. Era uma explosão que eu queria ter sentido explodir dentro de mim. Mas algo me fez perceber que eu estava lacrado. Eu reclamava da falta de circulação - no sangue, entre os poros, de gente, coisas a mais -, mas eu não permitia a entrada. Eu pude, em um momento entre o que ela passou pela porta e o que ela se levantou pegando a bolsa para sair, notar que ali havia algo. Algo que poderia sim crescer e, de fato, existir. Sem ser na imaginação de um homem desfeito. Mas na realidade de um rapaz apaixonado. Ela me fez acordar e, então, lembrei-me da última possibilidade que deixei esvair. Um dia ela veio - assim começa o impacto e durará até o encerramento da história -, e eu não esperava. Quando veio, já estava aqui uma outra. Entre as duas, eu escolhi a opção mais sossegada. Neste momento da escolha - pelo que percebo agora -, renunciei toda a minha habilidade para paixões inflamáveis e inconsequentes. Ela era o brilho de um sol até então desconhecido. O luar sem lua, e o começo do fim para o enfim começo de tudo que eu deveria ter esperado - não em sã consciência. Ela faria com que eu perdesse todos os sentidos - e ainda mais, a razão que já havia se desencontrado há tanto. Ela faria o que eu espero agora, e renunciei antes. Se eu não houvesse renunciado - penso -, estaria mais suscetível a perdas como essa. Eu evitei, pelo mundano medo de nunca mais me reencontrar. Em seus olhos, estaria, talvez, seguro. Mas com o abandono de suas íris, nem sentido, nem razão, nem eu, nem amor, nem nada, nada me pertenceria. Dispensei a loucura que dela provinha. Dispensei a insanidade. Foi quando eu enlouqueci e declarei o estado. Estive com a outra, tomando chá morno, com pouco açúcar, comendo sem sal e amando sem motivos. Eu nunca a perdi, pois grudou em em mim feito um tumor. Benigno. Trouxe-me coisas gostosas, como o saber estar sempre junto e o corpo aquecido em plena madrugada de inverno. Mas nunca esqueci aquela cor de mel, aquela malemolência de quem não devia nada a ninguém - por dar sempre tudo. A que me fez acordar...você ainda se lembra de quando falei dela? Tudo que, aqui, falo - mais do que escrevo -, parece se perder com a facilidade de uma brisa. A que me fez acordar me parece um sonho distante, tomado pela vontade de que ela me queira tanto como, um dia, eu tive medo de querer. Que ela me queira tanto como eu quis ser querido. Como eu quis, um dia. Eu cansei de amar, eu cansei de amar, eu cansei de amar. Eu cansei. Eu queria viver um sonho. Mas vivê-la, por enquanto, não me parece tão fácil.

domingo, 13 de março de 2011

Our Blueberry Nights.

Se destruir deveria ser prazeroso? Eu venho tentado descobrir. Parece coisa dos grandes, os semi-deuses sem poder algum - além das palavras, mas que poderes elas exercem além das catarses e epifanias e juras e promessas e desgostos? Li, um dia desses, que Tolstói morreu assumindo a barba e a loucura pegajosa de um profeta e, pouco antes de sua morte, questionou a profundidade dos sentimentos expostos por Shakespeare. Ele foi assassinado pela própria loucura ou foi tentando matá-la que acabou sendo apunhalado pelas costas em um golpe certeiro? Impossível questionar a profundidade sentimental de um homem que acreditou no amor infinito. Pura loucura, questionar a profundidade do poço de insanidade que o levou a acreditar nisto. E escapou pelas beiradas e se derramou no tinteiro e na caneta de pena. Foi com pena que os maiores amores foram escritos. Compreende? Ontem eu saí. Todos saem. Vão e voltam. Eu saí com a certeza de que iria me embriagar o suficiente para não me lembrar de nada, de absolutamente nada, e acordar com um zumbido no ouvido e o peso do mundo sobre a testa. Não há nada mais denso do que abraçar a loucura genética ou natural ou demolidora com uma loucura sintética ou com alto teor alcólico ou esfumaçada. Se bem me lembro, eu caía pelos cantos, e aos pedaços. Nada está batendo aqui dentro, isso eu queria te contar. Queria contar a você, que eu nem conheço. Nada eu conheço em você além de umas linhas tortas, e as jogadas favoritas no poker. Você ganhou as últimas partidas? Enriqueceu? Lembrou-se de mim e pensou que, um dia, eu poderia ser o amor da sua vida? E se eu já sou e você não percebeu? E se percebesse, será que iria me dizer? E vir aqui me buscar, de um outro lado, de um outro mundo, em uma outra dimensão. Quanta lucidez. Tamanha lucidez um dia eu tive. Agora só a vontade de te ligar, e perturbar seu sono infantil. E procurar saber quando foi que eu deixei você me invadir de forma tão violenta. E a vontade de querer saber onde foi parar o amor. Aonde foi parar o amor? Aquele que apareceu de relance, e nós dois pensamos que pudesse vingar. Agora você vem me dizer que eu não sei de nada. Eu não sei de você. Começo a te confundir com um amor antigo, meio querendo dividir o choro, mas sem soltar nenhuma lágrima. Não percebi quando curou, se foi cura ou esquecimento. Eu queria te contar como dói mais do que queria te contar sobre meu dia. Você me disse não vá pela dor, vá pelo amor. Eu queria tanto acreditar em você. Tanto que, às vezes, me convenço de que acredito. Você parece saber mais do que eu. E esses caminhos são diferentes? Há uma bifurcação? Das vezes que tentei, doeu tanto. É por isso que vivo engatinhando e fingindo estar de pé, usando um perfume caro e escondendo sob a maquiagem a imensidão das olheiras que amar me deixou. Um amor me deixou. Vários amores me deixaram. Eu os deixei em vingança. Sem cru, sem crueldade, nem frieza. Deixei por viver nessa incontrolável busca por algo que precise dos meus cuidados. Você me disse não bata a cabeça e não morra, e preserve seus lábios intactos - eu preciso encontrar alguma coisa que valha a pena, e pode ser você. E eu senti algo me segurar pelo mesmo braço que estava sendo puxado por um lado obscuro de loucura. Eu me senti cuidada. Foi quando eu percebi que eu preciso de alguém, e poderia ser você. Ou qualquer um. Ou qualquer rosto, ou corpo quente. Eu te escrevo como quem conseguiria dizer amor, mas eu não te amo. Eu te escrevo como se escrevesse para alguém capaz de me entregar amor - amor de um outro. É como se você soubesse todos os caminhos, inclusive o meu. Ontem eu saí desesperada, tropecei no tapete, mas mantive todos os meus fios de cabelo no lugar. Como você teria me pedido se, naquela hora, eu te contasse que estava prestes a vomitar, mas fui tomada pela precisão de um olhar trocado no meio de uma multidão de outros olhares ao avesso. Tenho aversão a tudo que me sugue. Mas em meio aquela confusão latente de tudo que pulsava do coração às artérias e movia rapidamente as minhas pernas, eu achei que tivesse encontrado alguém. Talvez eu tenha. Mas o temor falou mais alto, e eu me escondi. Depois fiquei me remoendo pensando na vontade de dizer coisas que ninguém nunca diria. Que ninguém nunca responderia de forma precisa. Imaginei que, se aquela corrida, tivesse dado certo, e não houvesse tropeço, eu teria alcançado o clímax de toda a minha história, o êxtase, o ápice de minha entrega. Por isso falei da minha aversão, repulsa, fobia, tudo. Ali eu fui sugada. Por carência ou desejo? Por desejo de não ser mais carente ou por carecer daquele olhar mais próximo ao meu? Eu imaginei eu e ele. Já havia imaginado antes, pois houveram tantos outros olhares trocados. Ele com sua camiseta vermelha, e seu cavanhaque emoldurando um sorriso tímido. Nós dois sentados na calçada imunda. E a vida sendo leve feito música. Me diz como era sua vida antes de me conhecer? Sã. E agora? Salva. Tenho mais medo de morrer amado, do que morrer louco. Tenho mais medo de morrer por amor, do que por loucura. Quando você vem me visitar?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tesouras.

It hurts to say "i miss you". But I do, and hope you're okay. Hope you are, 'cause I'm not. And I'm not that strong to see both you and me damaged.
I wish we were us still. I wish we were still together. I wish you were here. But mostly, I wish you were with me, no matter where.


Quando me dei conta, senti sua falta. E saber disso me doeu como um soco na boca do estômago. Quando percebi, já não era mais eu. Porque sem você, as coisas foram feitas para não fazerem sentido. Mas estou são. E só isso basta. Porque eu poderia ter te perdido e me perdido junto. Mas só você se foi, se disfarçou no meio da multidão. Ficou comigo uma saudade razoável, a memória do seu olhar sorridente, os souvenirs de sua passagem na minha vida. Não guardo nenhum rancor, nenhuma memória desmembrada por raiva. Você ficou intacta em mim. E eu te amo sem fim. Sem previsão de mudar. Sei, como todos, que os anos passam, as pessoas também. Você não passará, mas isso não me fará sofrer. Somente irei te guardar. Numa caixinha, escondida sob a cama, tomada por poeira. Eu nunca te esqueceria, nem que me pedissem. O que você me deu foi mais do que eu poderia, um dia, receber. E ficou esse amor-carinho, que se transformou pela falta de sintonia no querer. Um dia você foi meu amor e minha amante. Hoje você é amor e lembrança. Queria que você soubesse tudo que eu não deixei você saber. Fiz uma lista, com todos os momentos, os principais, em que o coração bateu mais forte e você fez brisa no meu estômago. Aquele dia, que fazia mais ou menos sol, e me sentei na sombra de uma árvore para te esperar. E você se atrasou. Era a segunda ou terceira vez que nos encontrávamos e, ali, eu já sabia quase tudo que viria nos dias seguintes. Elogiar a sua saia florida e rodada, era só uma forma de te fazer entender que até a loucura te caía bem. Para os outros, você podia não ter nada de deslumbrante, ou excepcional, mas você me puxava de uma forma que me era estranha. Era leve, ao mesmo tempo pesado. Era doce, ao mesmo tempo amargo. E era bom, sem se tornar viciante, nem lascivo. Havia sim um certo perigo em te querer, em me querer seu. Mas comum a todos os amores. Eu tive, eu tive alguns amores, meio-amores, paixões, antes de você. Terei outros depois. Terei o mundo, se for de meu agrado. Mas nem por isso as coisas se tornam fáceis. Ficam as meias, os presentes, as gírias. Ficará sempre um pedaço seu comigo. E vice-versa. E pensando, e escrevendo, vou percebendo como nós dois não tivemos nada de anormal. Um romance como qualquer outro, e meu amor nunca será maior do que de ninguém. Foi sim o maior de todos que já tive.

terça-feira, 1 de março de 2011

Dor de Cabeça.

Eu queria ter o romantismo dos suicidas. O êxtase do último pulo. O controle sobre o último pulsar. E o poder de decidir o fim. Eu queria ter o romantismo de um ser mundano. O buquê desajeitado de flores. O toque desconcertado de mãos. Eu queria ter um romantismo qualquer. Não quis que envelhecesse. Mas eu, antes, também não quis que acontecesse. Agora, sendo ácaro e pó. Impossível de resgatar. Sua lembrança permanece firme, no fundo falso das gavetas da memória. Guardada como um segredo. Que ninguém sabe como aconteceu. Em uma noite você me olhou, e depois dela eu só pude te olhar de volta. Uma duas três vezes. Sem que ninguém notasse. Minha insincera procura por algo verdadeiro. Outros dedos se entrelaçavam aos meus quando houve a troca. A troca de olhares, que dias depois se transformou em troca de suspiros e confissões. Você me pediu para que eu largasse tudo, eu me lembro. Um dia, quando apareceu sem avisar. Um livro por debaixo dos braços e havia encontrado as respostas no eu-lírico de alguém. Nada nos era proibido, me disse. E quis me salvar da monotonia da rotina amorosa. Eu amo, ele me ama, e estamos bem assim. Sem paixão ou disritmia cardíaca. Versos simples, nenhum mistério. Mas você não escutava. Atordoado ao saber que o meu amor era para ele, não por você. Em um passo arriscado, inesperado, você conheceu uma das minhas poucas amigas. Havia acabado de sofrer um acidente de carro, e eu teria estado com ela, se não estivesse na cama com você. Você não desgrudava. Com medo de que o destino ainda tivesse preparado um acidente para mim. Às duas da manhã, nós dois sendo desconhecidos no hospital. Ela já te conhecia, se bem lembro, e te chamou de anjo. Ao ver seu par de olhos cor-de-mel. E te disse que você era dela. Certa de que você nunca seria meu. Mas já era. Meu anjo caído, seguro apenas se em meus braços. Eu não abriria mão de tudo para poder me chamar de meu. Eu não abriria mão de nada. Mas, ainda assim, te dava esperanças. E repousava minha cabeça no seu peito, e te pedia carinho. Como se já não recebesse carinho demais. Eu fui feliz te tendo por perto. E, em um momento em que eu não quis nada, eu decidi por te deixar ir. E você se foi. Não me lembro o que passou por minha cabeça no momento em que decidi por ele, e não por você. Mas ocorreu depois uma série de momentos mais tristes do que a sua ida. Infinitamente mais tristes. Porque você sumiu do cuidado dos meus olhos, e eu fiquei caminhando a esmo. Se não for amor, melhor deixar para depois. Mas eu vivia na incerteza de seu retorno. Eu não quis que acontecesse e que, um dia, você me deixasse assim. Sentindo sua falta de um lado, e impossibilitada de sentir qualquer coisa do outro. Eu enganava um amor, antes tão sadio. Ele sabia de nós, me disse. Pelo brilho que eu deixava escapar dos olhos. Ao te ver passar, ou ao ouvir seu nome. Ele invejou esse brilho, eu não disse. Pois por sua revolta, não era de se assustar que um dia eu acabasse com a garganta aberta. Você não voltou, nem nunca mais me procurou. Desacreditei em todas as suas formas de amor. Desacreditei em você e em tudo mais. E por novos e calmos anos permaneci ao lado dele. Até que entendemos o real significado do amor, e ele me deixou ir. E não estando presa, te reencontrei. Em um espasmo, um beijo. E por tanta embriaguez, a sensação de completude. Você não sai da minha cabeça e, surpreso, quer saber dos meus sonhos. Tenho te tido neles todo dia. E em todos os instantes. Pois sonhar é algo que se faz desde que se esteja vivo. E descobri que estou. Eu queria não saber que eu gosto-mais-ou-menos de você.