domingo, 13 de março de 2011

Our Blueberry Nights.

Se destruir deveria ser prazeroso? Eu venho tentado descobrir. Parece coisa dos grandes, os semi-deuses sem poder algum - além das palavras, mas que poderes elas exercem além das catarses e epifanias e juras e promessas e desgostos? Li, um dia desses, que Tolstói morreu assumindo a barba e a loucura pegajosa de um profeta e, pouco antes de sua morte, questionou a profundidade dos sentimentos expostos por Shakespeare. Ele foi assassinado pela própria loucura ou foi tentando matá-la que acabou sendo apunhalado pelas costas em um golpe certeiro? Impossível questionar a profundidade sentimental de um homem que acreditou no amor infinito. Pura loucura, questionar a profundidade do poço de insanidade que o levou a acreditar nisto. E escapou pelas beiradas e se derramou no tinteiro e na caneta de pena. Foi com pena que os maiores amores foram escritos. Compreende? Ontem eu saí. Todos saem. Vão e voltam. Eu saí com a certeza de que iria me embriagar o suficiente para não me lembrar de nada, de absolutamente nada, e acordar com um zumbido no ouvido e o peso do mundo sobre a testa. Não há nada mais denso do que abraçar a loucura genética ou natural ou demolidora com uma loucura sintética ou com alto teor alcólico ou esfumaçada. Se bem me lembro, eu caía pelos cantos, e aos pedaços. Nada está batendo aqui dentro, isso eu queria te contar. Queria contar a você, que eu nem conheço. Nada eu conheço em você além de umas linhas tortas, e as jogadas favoritas no poker. Você ganhou as últimas partidas? Enriqueceu? Lembrou-se de mim e pensou que, um dia, eu poderia ser o amor da sua vida? E se eu já sou e você não percebeu? E se percebesse, será que iria me dizer? E vir aqui me buscar, de um outro lado, de um outro mundo, em uma outra dimensão. Quanta lucidez. Tamanha lucidez um dia eu tive. Agora só a vontade de te ligar, e perturbar seu sono infantil. E procurar saber quando foi que eu deixei você me invadir de forma tão violenta. E a vontade de querer saber onde foi parar o amor. Aonde foi parar o amor? Aquele que apareceu de relance, e nós dois pensamos que pudesse vingar. Agora você vem me dizer que eu não sei de nada. Eu não sei de você. Começo a te confundir com um amor antigo, meio querendo dividir o choro, mas sem soltar nenhuma lágrima. Não percebi quando curou, se foi cura ou esquecimento. Eu queria te contar como dói mais do que queria te contar sobre meu dia. Você me disse não vá pela dor, vá pelo amor. Eu queria tanto acreditar em você. Tanto que, às vezes, me convenço de que acredito. Você parece saber mais do que eu. E esses caminhos são diferentes? Há uma bifurcação? Das vezes que tentei, doeu tanto. É por isso que vivo engatinhando e fingindo estar de pé, usando um perfume caro e escondendo sob a maquiagem a imensidão das olheiras que amar me deixou. Um amor me deixou. Vários amores me deixaram. Eu os deixei em vingança. Sem cru, sem crueldade, nem frieza. Deixei por viver nessa incontrolável busca por algo que precise dos meus cuidados. Você me disse não bata a cabeça e não morra, e preserve seus lábios intactos - eu preciso encontrar alguma coisa que valha a pena, e pode ser você. E eu senti algo me segurar pelo mesmo braço que estava sendo puxado por um lado obscuro de loucura. Eu me senti cuidada. Foi quando eu percebi que eu preciso de alguém, e poderia ser você. Ou qualquer um. Ou qualquer rosto, ou corpo quente. Eu te escrevo como quem conseguiria dizer amor, mas eu não te amo. Eu te escrevo como se escrevesse para alguém capaz de me entregar amor - amor de um outro. É como se você soubesse todos os caminhos, inclusive o meu. Ontem eu saí desesperada, tropecei no tapete, mas mantive todos os meus fios de cabelo no lugar. Como você teria me pedido se, naquela hora, eu te contasse que estava prestes a vomitar, mas fui tomada pela precisão de um olhar trocado no meio de uma multidão de outros olhares ao avesso. Tenho aversão a tudo que me sugue. Mas em meio aquela confusão latente de tudo que pulsava do coração às artérias e movia rapidamente as minhas pernas, eu achei que tivesse encontrado alguém. Talvez eu tenha. Mas o temor falou mais alto, e eu me escondi. Depois fiquei me remoendo pensando na vontade de dizer coisas que ninguém nunca diria. Que ninguém nunca responderia de forma precisa. Imaginei que, se aquela corrida, tivesse dado certo, e não houvesse tropeço, eu teria alcançado o clímax de toda a minha história, o êxtase, o ápice de minha entrega. Por isso falei da minha aversão, repulsa, fobia, tudo. Ali eu fui sugada. Por carência ou desejo? Por desejo de não ser mais carente ou por carecer daquele olhar mais próximo ao meu? Eu imaginei eu e ele. Já havia imaginado antes, pois houveram tantos outros olhares trocados. Ele com sua camiseta vermelha, e seu cavanhaque emoldurando um sorriso tímido. Nós dois sentados na calçada imunda. E a vida sendo leve feito música. Me diz como era sua vida antes de me conhecer? Sã. E agora? Salva. Tenho mais medo de morrer amado, do que morrer louco. Tenho mais medo de morrer por amor, do que por loucura. Quando você vem me visitar?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tesouras.

It hurts to say "i miss you". But I do, and hope you're okay. Hope you are, 'cause I'm not. And I'm not that strong to see both you and me damaged.
I wish we were us still. I wish we were still together. I wish you were here. But mostly, I wish you were with me, no matter where.


Quando me dei conta, senti sua falta. E saber disso me doeu como um soco na boca do estômago. Quando percebi, já não era mais eu. Porque sem você, as coisas foram feitas para não fazerem sentido. Mas estou são. E só isso basta. Porque eu poderia ter te perdido e me perdido junto. Mas só você se foi, se disfarçou no meio da multidão. Ficou comigo uma saudade razoável, a memória do seu olhar sorridente, os souvenirs de sua passagem na minha vida. Não guardo nenhum rancor, nenhuma memória desmembrada por raiva. Você ficou intacta em mim. E eu te amo sem fim. Sem previsão de mudar. Sei, como todos, que os anos passam, as pessoas também. Você não passará, mas isso não me fará sofrer. Somente irei te guardar. Numa caixinha, escondida sob a cama, tomada por poeira. Eu nunca te esqueceria, nem que me pedissem. O que você me deu foi mais do que eu poderia, um dia, receber. E ficou esse amor-carinho, que se transformou pela falta de sintonia no querer. Um dia você foi meu amor e minha amante. Hoje você é amor e lembrança. Queria que você soubesse tudo que eu não deixei você saber. Fiz uma lista, com todos os momentos, os principais, em que o coração bateu mais forte e você fez brisa no meu estômago. Aquele dia, que fazia mais ou menos sol, e me sentei na sombra de uma árvore para te esperar. E você se atrasou. Era a segunda ou terceira vez que nos encontrávamos e, ali, eu já sabia quase tudo que viria nos dias seguintes. Elogiar a sua saia florida e rodada, era só uma forma de te fazer entender que até a loucura te caía bem. Para os outros, você podia não ter nada de deslumbrante, ou excepcional, mas você me puxava de uma forma que me era estranha. Era leve, ao mesmo tempo pesado. Era doce, ao mesmo tempo amargo. E era bom, sem se tornar viciante, nem lascivo. Havia sim um certo perigo em te querer, em me querer seu. Mas comum a todos os amores. Eu tive, eu tive alguns amores, meio-amores, paixões, antes de você. Terei outros depois. Terei o mundo, se for de meu agrado. Mas nem por isso as coisas se tornam fáceis. Ficam as meias, os presentes, as gírias. Ficará sempre um pedaço seu comigo. E vice-versa. E pensando, e escrevendo, vou percebendo como nós dois não tivemos nada de anormal. Um romance como qualquer outro, e meu amor nunca será maior do que de ninguém. Foi sim o maior de todos que já tive.

terça-feira, 1 de março de 2011

Dor de Cabeça.

Eu queria ter o romantismo dos suicidas. O êxtase do último pulo. O controle sobre o último pulsar. E o poder de decidir o fim. Eu queria ter o romantismo de um ser mundano. O buquê desajeitado de flores. O toque desconcertado de mãos. Eu queria ter um romantismo qualquer. Não quis que envelhecesse. Mas eu, antes, também não quis que acontecesse. Agora, sendo ácaro e pó. Impossível de resgatar. Sua lembrança permanece firme, no fundo falso das gavetas da memória. Guardada como um segredo. Que ninguém sabe como aconteceu. Em uma noite você me olhou, e depois dela eu só pude te olhar de volta. Uma duas três vezes. Sem que ninguém notasse. Minha insincera procura por algo verdadeiro. Outros dedos se entrelaçavam aos meus quando houve a troca. A troca de olhares, que dias depois se transformou em troca de suspiros e confissões. Você me pediu para que eu largasse tudo, eu me lembro. Um dia, quando apareceu sem avisar. Um livro por debaixo dos braços e havia encontrado as respostas no eu-lírico de alguém. Nada nos era proibido, me disse. E quis me salvar da monotonia da rotina amorosa. Eu amo, ele me ama, e estamos bem assim. Sem paixão ou disritmia cardíaca. Versos simples, nenhum mistério. Mas você não escutava. Atordoado ao saber que o meu amor era para ele, não por você. Em um passo arriscado, inesperado, você conheceu uma das minhas poucas amigas. Havia acabado de sofrer um acidente de carro, e eu teria estado com ela, se não estivesse na cama com você. Você não desgrudava. Com medo de que o destino ainda tivesse preparado um acidente para mim. Às duas da manhã, nós dois sendo desconhecidos no hospital. Ela já te conhecia, se bem lembro, e te chamou de anjo. Ao ver seu par de olhos cor-de-mel. E te disse que você era dela. Certa de que você nunca seria meu. Mas já era. Meu anjo caído, seguro apenas se em meus braços. Eu não abriria mão de tudo para poder me chamar de meu. Eu não abriria mão de nada. Mas, ainda assim, te dava esperanças. E repousava minha cabeça no seu peito, e te pedia carinho. Como se já não recebesse carinho demais. Eu fui feliz te tendo por perto. E, em um momento em que eu não quis nada, eu decidi por te deixar ir. E você se foi. Não me lembro o que passou por minha cabeça no momento em que decidi por ele, e não por você. Mas ocorreu depois uma série de momentos mais tristes do que a sua ida. Infinitamente mais tristes. Porque você sumiu do cuidado dos meus olhos, e eu fiquei caminhando a esmo. Se não for amor, melhor deixar para depois. Mas eu vivia na incerteza de seu retorno. Eu não quis que acontecesse e que, um dia, você me deixasse assim. Sentindo sua falta de um lado, e impossibilitada de sentir qualquer coisa do outro. Eu enganava um amor, antes tão sadio. Ele sabia de nós, me disse. Pelo brilho que eu deixava escapar dos olhos. Ao te ver passar, ou ao ouvir seu nome. Ele invejou esse brilho, eu não disse. Pois por sua revolta, não era de se assustar que um dia eu acabasse com a garganta aberta. Você não voltou, nem nunca mais me procurou. Desacreditei em todas as suas formas de amor. Desacreditei em você e em tudo mais. E por novos e calmos anos permaneci ao lado dele. Até que entendemos o real significado do amor, e ele me deixou ir. E não estando presa, te reencontrei. Em um espasmo, um beijo. E por tanta embriaguez, a sensação de completude. Você não sai da minha cabeça e, surpreso, quer saber dos meus sonhos. Tenho te tido neles todo dia. E em todos os instantes. Pois sonhar é algo que se faz desde que se esteja vivo. E descobri que estou. Eu queria não saber que eu gosto-mais-ou-menos de você.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor Feliz.

Estava te devendo um amor feliz. Para você emoldurar e pendurar em alguma das paredes da sala. Não sei como começar um amor feliz. Era uma vez...não, era uma vez não serve. Um dia...não, a progressão de todos os dias depois daquele. Em uma vida...não, amor feliz é post mortem também. Haviam duas pessoas. Uma mais triste, outra mais ligeira. Aconteceu de um dia elas se encontrarem. E aconteceu de, depois daquele dia, elas se acontecerem. Uma aconteceu para a outra, como um câncer que tomou conta, e passou a circular no sangue, partindo do peito. Ao se acontecerem, se perceberam intimamente ligadas. Mais do que gêmeas, almas siamesas. Que, inconscientemente, estavam escritas nas estrelas. E mesmo o mundo se partindo ao meio, se encontrariam. Quando fosse conveniente para o destino. O destino delas era o mesmo, se encontrarem em um nó na espiral da vida. Aconteceu. E não houveram surpresas. Além dos buquês e caixas de chocolate, e pernas acariciadas sob a mesa. Quando se encontraram, passaram a viver juntas. Na dimensão física. Pois mal sabiam que já viviam uma com a outra antes mesmo de sussurrarem, envergonhadas, seus nomes. Viveram por anos, muitos deles, todos eles. O máximo de anos que seus pulmões puderam aguentar. Mesmo com a poluição, a nicotina, e a imprecisão com a qual o tórax se movimenta em tempos de paixão, duraram. Indo contra todas as leis dos homens, e dos deuses. Indo contra tudo, porque precisavam de um desafio para que se segurrassem um ao outro de forma assim, tão forte. Mesmo amor tão grande, a vida se mostrou presente roubando seus últimos suspiros. No leito de um hospital, paredes pintadas de branco, visão turva, e o sossegar dos batimentos cardíacos. Enfim em paz. Como quiseram dizer quando se perceberam juntos. De mãos dadas, forçando os últimos músculos para um pequeno espasmo de força, partiram em um mesmo trem. Um dia se foram. Com a chance de se despedirem com uma quase-lágrima escapando pelo canto dos olhos. Ficaram devendo um amor feliz para você. E uma coleção de contas no banco. Quando acordaram, seus corpos dispostos lado a lado. Uma lembrança pouco nítida da noite anterior. Quando se conheceram, em meio ao som e o neon da noite, mãos ocupadas dificultando o primeiro contato. Dentes amarelados, impossibilitando a compreensão de seus nomes. O extrato marcando um drink seguido do outro, e umas cervejas no meio, para dar a impressão de leveza. Dois estranhos seguindo para o quarto. Nada de feliz ou duradouro ou predestinado. Sem encontro de almas, um aliciamento de corpos. O desejo carnal tomando conta no anonimato dos beijos. Sem troca de telefones ou informações sinceras. Um gari que virou médico no primeiro sorriso. Uma vadia que virou santa no primeiro toque de lábios. Mas ninguém precisaria saber. As mãos entrando pelas calças e saindo do controle. A necessidade de um lugar mais calmo e discreto. Dois estranhos, um montado em cima do outro. Os dois montados na necessidade de não viver só. Mas nada além. Sem beijos ternos ou carícias em volta do umbigo. Ou um abraço para selar o pacto de silêncio. E de sangue, pois tinham pressa. E a pressa é inimiga da razão. E os lábios inchados uma hora estouram, uma falha na calçada. Um pequeno e contornável tropeço. Cada um virado para o seu lado. A única ligação entre eles sendo o lençol. Um sonho esperançoso de um amor feliz, também compartilhado. Um invadindo o sonho do outro, e os dois estranhando aquela situação. Em que aquele nada era só nada, mas no sonho as coisas tomando formas diferentes. No sonho os dois pagando o amor feliz que se deviam. Acontecendo um para o outro, como um câncer terminal. E tudo terminando com o despertar de um novo dia. Continuo te devendo um amor feliz. Mesmo nós todos sabendo que esse tipo de amor não existe. E não resiste fora dos sonhos. Os dois acordam e partem. Mas isso não quer dizer que foi triste. Pelo menos foi amor. E se não foi, melhor ainda.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Boneca.

Eu tenho dito meu Deus, como se acreditasse nisso - nisso de ter algo meu, e de existir algo bem maior do que tudo isso que eu possa tocar. Eu tenho dito meu Deus e é como se eu tivesse pedindo para que alguma coisa viesse até aqui me salvar. Eu sei que estou procurando uma fuga, mas não sei do que tanto corro. E ao mesmo tempo procuro motivos para ficar, mas não vejo correntes, nem laços, nem porta-retratos com sorrisos que eu não poderia largar. De repente é como se eu não tivessa nada. Como se eu nunca tivesse tido. Mas não há vazio. Algo em mim insiste em não querer dormir. Foi quando me descobri desperto. De um sono inesperado, um coma induzido. Pela falta do que fazer. Não sei se ócio, ou ópio, não sei o que estou pensando. Não estou achando minhas palavras, devo ter esquecido no bolso da calça que coloquei para lavar. Quando eu me sirvo uma xícara de café, e acendo um cigarro, e puxo como se sugasse a alma do fundo do corpo de alguém, sinto estar vivo. Mas antes não me sentia morto. Ou não sei como seria me sentir assim. Eu vim para falar de amor. Mas estão todos cansados, de falar, falar, falar e não sentir. Nós estamos todos ligados. Nós somos tão ligados que estamos todos perdidos. Eu querendo uma coisa. Ele querendo qualquer coisa. Você querendo querer. Ela querendo nada. A outra querendo ela. E todo mundo sem saber no que vai dar, se vai dar. No final, todos perdidos. Como se fosse da nossa natureza. Mais ainda, como se fosse da natureza humana. Querer escapar de todos os rumos, fingindo estar satisfeito com o encontro deles. E procurando desculpas, mais e mais, e mais uma, e mais outra, para escapar. Não há nada a se dizer quando se repara mais nas sardas das bochechas de alguém do que na intensidade do sol. Ninguém foi feito para ninguém, e a verdade é que não há verdade. Você me aparece, e eu te perco. Distraído com os pontinhos dando cor às linhas do seu rosto. Nada se firmou para que ficássemos juntos. Nenhum encontro de galáxias, divisão de oceanos, intervenção divina. O que eu achei foi puro acaso. Querendo acreditar em alguma coisa. Depositei tudo em você. Essa vontade desesperada de possuir alguma coisa. De ser possuído por algo que me sequestre os sentidos. De me enlouquecer por um bom motivo. De sentir. De acreditar que o peito não serve apenas para ecoar o barulho. Foi ensurdecedor ter te conhecido. Ao ponto de desnivelar meu equilíbrio. De me desequilibrar de forma, aparentemente, sadia. Doses lascivas são aquelas que levam a morte. Nenhum corpo para ser tateado à procura de rastros, nem respingos de sangue. Doses lascivas de algo terno e abstrato. Amar você é como tentar voltar a superfície por ar. Descobri com o tempo. Desnecessário o uso de relógios, o barulho perturbador dos ponteiros. Só a sensação de, a cada vez que entrasse no seu corpo, estar me afogando em um oceano de nada. Um singelo vazio caminhando com dois pés tamanho trinta e cinco, apoiado em um par de joelhos convidando para um passeio montanhoso pelo resto do corpo, uma caverna como porta de entrada, umidade e silêncio. Nada de paz, só vazio. E as feridas em seus braços, o sangue coagulado, a descrença viral na vida. A vontade de atar fogo em tudo à sua volta. O descaso contagioso, a desesperança. Pessoas assim nos sugam para as próprias bolhas, e nos espetam, para verem até que ponto chegamos. Eu não durei muito. Nem você, até ser tomada pelos próprios demônios, aquelas vozes das quais você tanto falava. Que passaram despercebidas pelos meus olhos, até você se afundar, em poços ainda mais fundos do que aqueles que já havia visitado. E começar a se bater contra as paredes, e puxar os seus - e os meus - cabelos, e a falar sobre um amor que nunca foi seu - eu fui, mas amor, nunca houve amor vindo de você. Eu quis te machucar no final, por todo aquele inferno que você havia construído com as próprias mãos. Aparentemente tão delicadas. Mãos e rosto de boneca. Uma bela boneca russsa, daquelas feitas de gesso, com cabelos avermelhados, olhos sem expressão, hipnóticos. Uma boneca que se desfez com o impacto ao chão. Mil e um pedaços. Sem cola, nenhuma gota de cola restante para te trazer de volta à vida. Aquela cola com a qual fomos todos minuciosamente construídos, para sermos belos enganos, e nos aceitar como somos, ou para sermos belos enganos, e nos entregar falsamente reparados para os outros. Não haviam formas de te reparar, não mais, depois de tantas tentativas, só te sobravam buracos, e furos, e mais buracos. Sem ninguém para caber neles.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ligação.

Fiquei esperando você me ligar. Por dez minutos. Duas horas. Cinco anos. Uma década. Nunca tive a coragem de mudar meu número, nem de aparelho - com o medo de que o cosmos conspirasse contra nós. Fiquei esperando você aparecer, com uma absurda compreensão sobre a demora - pois os grandes astros, eu li, demoram anos, até centenas deles, para reaparecerem. Você demorou bem metade da minha vida para aparecer - calculei que, ao dobrar os trinta, eu já estaria preparado para me desfazer em pó. Não me lembro da feição daquele dia em que rompemos nosso contrato de amor eterno. Não sei dizer se fazia sol, ou se chovia uma chuva incessável e afiada. Nem se já estava a anoitecer, nem se eu havia tido sorte e ganhado alguns trocados com a raspadinha. Sei da sua feição apreensiva, ao colocar a bolsa perto da porta, ao notar uma fina fita de suor escorrer por seu pescoço, ao notar que eu estava notando tudo que acontecia em seu ondular corpo. Tinha uma escavação em progresso contornando os olhos, dois belos buracos que pareciam aumentar a cada titubear do relógio. Com o potencial de sugar tudo em volta. Dois olhos negros. Dois buracos negros. Você não pôde me poupar da dor enquanto, para você, tudo parecia estar sendo tão fácil. Tudo, suas mãos úmidas no meu trapézio, seu esmalte rubi desviando minha atenção, o barulho do seu salto na madeira, seus passos desesperados, sua exatidão em acender um cigarro logo seguido de outro. Meu desespero em me esconder na fumaça. Ou em me afastar dela. A imprecisão de meus pensamentos, e movimentos. A queda das cinzas fora do cinzeiro, diretamente no chão, que havíamos limpado - juntos - no dia anterior. A ciência - mútua - de que presenciávamos uma crise. A indecência - minha - de achar ser só mais uma. E seu olhar me fuzilando no desencontro de palavras. E, se bem me recordo, uma Piaf cantando sobre l'effet que tu me fais. Recordação que não sei se concreta ou criada, se existente ou se desejada. Mas a canção bem saberia falar de tudo - aquilo tudo que se prendeu na traquéia, que se afogou no pulmão, que se escondeu na ponta da língua, aquilo tudo que me sufocaria por anos, e mais anos, depois. Naquele dia, você saciou um dos meus desejos, o de poder falar tudo sem usar nenhuma palavra, de nenhuma língua. Bastou me olhar, e segurar nas mãos um maço de Marlboro Light - você que sempre fumou o vermelho, dizendo que só mudaria quando fosse mudar a si mesma -, para que eu soubesse. Você queria mudar e, parte daquela mudança, consistia em se mudar de mim. Naquele momento eu poderia jurar que o chão estava se abrindo, ainda que meus pés continuassem firmes, eu poderia jurar que estava no meio de uma queda, vendo, no fundo, nada. Não vendo. De repente, perdi todos os sentidos. E perdi a razão, no momento em que você se tornou ausente - ausente na forma de corpo, não posso negar que ainda te sinto. Comecei dizendo que esperei você me ligar. Preciso delinear os momentos, não só a forma perfeita e amendoada de seus olhos. Houveram momentos em que você exitou. Atendia minhas ligações de madrugada, respeitando meu bafo de whisky, escutando, risonha - aquele seu riso sem jeito, difícil de esquecer -, meus desabafos, meus discursos, meus meio-poemas com dois cubos de gelo, seguidos de náuseas. No dia seguinte você me ligava, querendo saber quantos remédios eu já havia tomado para dor de cabeça, a quantas andava minha úlcera e, depois de passar minutos reclamando sobre os dois reais que havia investido em uma xícara de café aguado, sutilmente me perguntava se eu havia dormido com alguém e, na sua voz eu sabia. Na sua voz eu sabia que não era só interesse, que era medo, e desejo, e ciúme, e dúvida. E eu sabia, e você mesma sabia que eu saberia, que você já não estava mais tão certa, que já devia ter até voltado para o filtro vermelho, e ter pensado várias vezes em aparecer na minha porta pedindo por açúcar - pois foi assim que nos conhecemos, e sempre nos gabávamos da graça clichê de nosso encontro. E, ao me perguntar, você temia a resposta e inventava uma outra ligação na espera, um cheiro estranho vindo do forno, uma visita inesperada de seus amigos metidos a artistas. E desligava, e eu ficava anos-luz escutando aquele barulho repetitivo das ligações cortadas. E ainda assim me sentia infinitamente ligado a você. Um dia, repetindo as doses masoquistas de saudade imediata, eu te liguei no mesmo estado em que ligava - trocando os pés, os sentimentos, e as palavras - e você me falou. Você me falou e eu não pude acreditar. Que havia me trocado por outro, até aí tudo bem. Mas que me amava, ainda e eternamente, de forma densa e insensata. Como gotas de petróleo despejadas no mar. Em seguida, eu caí para trás. E nossa ligação também, caiu, se rompeu. E eu esperei aquele barulho parar, não sei nem por quanto tempo, acompanhando, com ele, as batidas no meu peito. Na hora que o barulho parou, sei que eu parei de respirar. E fiquei esperando você me ligar. Por dez minutos. Duas horas. Cinco anos. Uma década. E, por enquanto, nada. Você nunca me atendeu de novo. Mesmo quando sóbrio e humilde, às duas da tarde de uma Quarta-feira. Mesmo com recados ansiosos, e pedidos desesperados. O tempo vem passando, desde então. Estou esperando você me ligar.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Semântica.

Acordou, olhou para os lados. Meio atordoado por não saber, assim tão cedo, diferenciar a realidade dos pesadelos. Os olhos pregados, as bochechas amassadas, a linha de saliva puxando seu rosto de volta para o travesseiro. Levantou, indiferente ao pé que pôs primeiro no chão. Sentiu a frieza da cerâmica subindo pelos calcanhares, frieza a qual também foi indiferente. Descobriu-se nú. Como havia estado no dia em que chegou ao mundo. Dia, aquele, em que foi abandonado. Contava, com certo heroísmo, que havia sido encontrado boiando no raso do mar. Para que não descobrissem, não logo, que havia nascido numa cidade quase interiorona, no meio, bem no meio, do país. Sem praia e sem heroísmo, levado pelo serviço social, para um lar - que mais parecia um inferno -, onde ficaria por mais três ou quatro anos. Até que seus olhos esverdeados chamassem atenção suficiente para que fosse, finalmente, levado por braços calorosos e amáveis. Muitos anos haviam passado, mas lá estava do mesmo jeito que veio. Nú e abandonado. Largado no mundo recém-descoberto. Feito um recém-nascido, levou uma palmada - desta vez da quina da mesa -, para ver se vivia. E vivia, meio que pelas beiras. Vida percebida pelo choro. Desta vez, sem escândalos e quase sufocamento. Choro sentido todo da pequena dimensão de uma lágrima, que escorreu discretamente pelo canto do olho esquerdo. Revivia, ali, a sensação que havia sentido antes. Mas que não se lembrava, a não ser pelas memórias construídas, as falsas memórias que criamos para dar razão e sentido as coisas. Memória que não lembrada, porém sentida, no vazio que batia em seu peito. Faziam anos desde aquele dia. Anos, também, desde o dia em que aqueles braços amáveis e calorosos, abraçaram uma outra vida, e se foram. Rumo à morte que, como de praxe, não assassina somente quem se vai. Vivia só, desde então. Como era de seu gosto e de sua natureza. Vivia aquela solidão, inerente aos homens. Disfarçável, mas nunca contornável. Fumava, desde os doze anos, como demonstração de revolta. Primeiro, fingindo querer esconder. Depois, no meio da sala de jantar, durante a ceia, assoprando a fumaça no rosto de todos, e rindo, sarcasticamente, daquilo tudo. Que não aceitava, por não ter o mesmo sangue, nem o mesmo nariz, nem a mesma força. Ao se levantar, cambalear, e bater a perna na quina da mesa, parou para acender um cigarro, teria sido cômico se não tivesse queimado parte dos lábios acendendo pelo filtro. Mal conseguia abrir os olhos, mal conseguia tentar reparar nas duas dores - a da perna ferida e a dos lábios ardendo. Já havia aberto mão da terceira - aquela eterna visitante no peito. Não havia como negar, era Domingo e seu estômago doía como se tivesse arrebentado. Sua cabeça doía como se tivesse arrebentado. Estar acordado doía como se nada nunca pudesse ser segurado. Era isso que pensava, desde que presenciou os últimos suspiros em um leito de hospital, o último afago na cabeça, o último calor e o eterno amor daqueles braços de repente tão frios e esvaziados. Pois um dia desejou ser, no outro já não queria mais. Pois um dia jurava pertencer, e no outro já não aguentava mais. E vivia oscilando entre a rebeldia e a gratidão. Entre o amor materno e a insatisfação de não saber de quem havia saído. Ali, pertencia, descobriu. Pouco depois de descobrir que tudo se vai. Como já sabia, mas ignorava. Doeu, como finas lâminas rasgando as costas e arrebentando a coluna. Antes, sabendo ser tão só. E subitamente percebendo sua solitude. Seu impulso depressivo de se querer assim. Pela pobre escolha de não se entregar. Eram muitos os cortes, que nunca viu crescer. Mas que deixou que o tomassem, e o tornassem repulsivo. Difícil se aceitar tão medíocre. Acendeu mais outro três cigarros para disfarçar o erro do filtro. Olhou para os lados, ainda com os olhos pregados. E, pelo canto, viu um corpo repousando, também nú, na mesma cama da qual havia saído. Soube-se acompanhado sem perceber. Não tinha olhos para nada mais. Vivia naquilo de achar que ordenava as rotações dos planetas. A vida nos revela para nós mesmos das maneiras mais humilhantes. Caçou uma roupa, uma entre todas dispostas ao chão. Beijou aquele corpo do qual não se lembrava, e nunca mais se lembraria. Percebeu que aquele apartamento, com dois quartos e paredes coloridas, com fotos e longas estantes, não era o mesmo em que morava. E se era, havia perdido a memória. Dormido e acordado sendo outro. Sem saber se era realidade ou pesadelo. Talvez sonho, com um olhar menos violentador, reparando no sono angelical refletido no rosto, nos lábios, nos cílios, daquele corpo. Sem saber se havia acordado, sem saber se havia se encontrado ou, mais outra vez, se perdido. Sem saber quem era, e se tudo aquilo que contou era verdade. Se contou aquilo tudo em um sonho, e nasceu de calorosos e amáveis braços que nunca o abandonaram. Sem saber se realmente conhecia a dor de uma morte, a palidez de um corpo cuja alma foi levada. Sem saber se era o que era. Quem era, sem saber. Na dúvida de que aquele corpo pudesse ser parte do corpo dele. Confuso, por não saber cuidar de nada, nem ninguém. E pensando que, aquele vazio, era, inesperadamente, uma alucinação. E aquilo tudo era dele: o corpo, a paz angelical, o sono, a confusão. Talvez se voltasse a dormir, talvez acordasse sabendo de tudo. Ou novamente sem saber de nada. Passavam das seis da tarde, e nunca havia dormido tanto. Se havia, não sabia, não se lembrava. E nada entendia. Vestiu a roupa e caminhou até a porta. Ouviu um barulho vindo do quarto. E, por impulso, rodou a chave, girou a maçaneta e saiu. Cambaleando, descendo as escadas. Dando de cara com a rua, que não era tão familiar. Caminhou, caminhou, caminhou. E viu umas mesas sob a sombra de umas árvores. E lá mesmo se firmou. Era calmo, um lugar neutro, longe daquilo tudo que já não sabia mais. Bebeu, bebeu, bebeu, e numa tentativa - falha -, nada de amor. Chegou a achar que amor não existia. Que o inventou quando embriagado. Só pegou a palavra emprestada. Mesma palavra que era usada para definir a soma de um desconforto estomacal à uma indisposição física. E naquela confusão semântica e sentimental, achou que fosse algo a mais. Amor é só indigestão. Pensou, sem saber porque pensava naquilo tudo.