segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Cor-de-Sol.
O filme da nossa vida. Ele começa assim, com um narrador ao fundo, algum ator fingindo ser eu, e dizendo: o filme da nossa vida. E eu começo andando sozinho, pelas avenidas e ruelas de uma cidade qualquer - que não aquela. Porque para aquela cidade, eu não volto nunca mais. Cada traço no asfalto, cada pedra no chão, cada árvore - sobretudo as árvores -, me lembra você. E sua lembrança me fere - porque da sua ausência eu não me esqueço. Então estou eu, embriagado, na presença dos meus melhores amigos. Onipresente, para ser sincero. Pois estava em um daqueles momentos em que um homem foge de tudo - inclusive de si, incluindo o próprio corpo. Então está meu corpo embriagado caminhando com os amigos. Todos falando sobre as delícias da vida. E eu degustando o silêncio - que sabor amargo ele tem. Então estamos todos levando a vida - principalmente sobre os ombros. E eu caminho sentindo um peso enorme querendo me empurrar para o chão. Piso cada passo sem rumo. E vamos caminhando, por essa noite e por outras próximas. E em um dia eu te vejo passar pela porta do escritório. Seus cabelos dourados, mais do que dourados, reluzentes. Seus passos leves, tão leves que eu só consigo te imaginar vestida de branco. E eu acordo naquele momento, de um sono que eu não tinha conhecimento. Achava que aquilo ali era a vida mesmo. Mas não era. Então você passa e eu vejo as folhas despencarem da mesa, eu tremo na cadeira, e o mundo vira outro. O narrador diz não acreditar em amor à primeira vista. E eu diria o mesmo. Os dias passam, e a gente se reencontra. Seus olhos encontram os meus e aí sim temos o começo de tudo. Não me recordo dos detalhes. Não me recordo de muitas coisas. Mas eu lembro do seu sorriso presente pelos corredores - junto à sua risada doce. E eu te encaro, eu te encaro sem parar, por jurar que você era o que havia de mais belo em todas as faces de todas as terras de todos os mundos e universos: nada existia como você existiu. E ainda existe, mas isso fica para depois. Você me olha, e eu te olho. E ficamos entreolhares olhando cada detalhe sem nos aproximarmos. Porque eu era um grande babaca. E você era a realeza. E eu andando com umas pessoas insignificantes. E você parada, porque tudo ia até você. Você tinha um poder de sugar tudo. De uma forma prazerosa, não destruidora. Eu não consigo me lembrar do que veio depois dos nossos primeiros olhares. Então passemos por essa parte - até porque passar muito tempo tentanto lembrar me dá uma angústia desumana. Um dia meu celular toca, e eu te escuto do outro lado da linha. E eu reconheço sua voz. A voz que eu nunca ouvi, mas que anseei por duros invernos, por todos os infernos que vivi. E você me chama para sair, mas eu não posso. Não posso porque muitos dependem de mim. E você não acredita, porque eu sou um ser tão magro e tão desfeito. E por umas horas ficamos nisso. Mas eu tento resgatar seu convite e eu tento resgatar aquela mínima chance que você me apresentou: a chance de me fazer feliz. Mas as horas passam, e um ou dois dias também. E então nos reencontramos. Desta vez eu sei o seu nome e sei a sua voz. Mas não me aproximo. Por me sentir tão pequeno, eu não consigo ainda te ter por perto. Mas você insiste, e eu sem saber o que você viu em mim. E acho mesmo que não viu nada. E foi esse nada que te deu vontade de fazer alguma coisa. Seguem os epsiódios de desconcerto e uma oportunidade de viagem. Nós dois conversando em segredo, e eu te conto. E milhares de falas fofas e pedidos. E eu arrumo minha mala, apenas uma semana, talvez duas, estou indo atrás do meu futuro. E você aparece minutos antes do avião partir. E nos escondemos em um corredor escuro. E nossos olhos se encaram. E nossos lábios se beijam. E meu corpo todo treme em cima do seu. E ali eu me apaixono perdidamente, e conto para todo mundo. E todo mundo fica tão feliz, porque você era tão impossível para mim, que não tinha nada de especial. E eu vou. E o tempo se arrasta - tudo em segredo. E eu retorno. E mais outro reencontro. Em segredo, perto das latas de lixo, onde você me beija e eu te desejo. Mas sinto medo. Porque você é tudo que seria demais para mim. Nos olhares curiosos vemos os outros pensando que nada em nós fazia sentido. E eu me sinto mal, quase acuado. Mas você me diz que tudo bem, e então fica tudo bem mesmo. E nós frequentamos lugares diferentes. Sempre desejando a presença do outro. E você vai começando a me amar, e eu já perdido de amores. Um dia, em lados opostos da cidade, bêbada, você me liga, e jura amores, e fala "amor", e fala que ama. E eu caio, meu Deus! naquele momento eu me despedaço! E não consigo acreditar, porque ninguém acreditaria se eu contasse. E tudo acontece tão rápido. E nós dois namorando, enamorados. E eu incrédulo. Depois, impiedoso. Porque não entendo sua embriaguez e sua necessidade de contato - ingênuo - com partes dos outros, e me jogo numa aventura passada. Retomo minha origem cretina e, até, maléfica. E, de repente, nas noites em que nos afastamos, começo a dormir em outros braços. E pensar que são outros amores. E pensar que você me engana. E pensar que eu não te mereço. E escutar tudo que me diziam, sobre suas viroses, sobre seus amantes, sobres seus amores e, especialmente, sobre sua falta de amores por mim. E eu acredito naquilo tudo. E me afasto, vou para tão longe que chega ser difícil que você conquiste um alcance. Mas você consegue, de vez em quando. E me puxa, e eu acredito em tudo que você me diz. E é inacreditável, porque nada no mundo poderia ser tão perfeito como era você, como era te ter. E você era minha, e eu era completamente seu. Mas um dia eu me escondi tão bem, que você desistiu de me procurar. E me ligou, às duas horas da madrugada, e me disse que não dava mais, que já estava cansada, que sabia de tudo. E você não sabia de nada. E eu quis pular, mas não tinha altura. E eu quis morrer, mas também não tinha mais vida. E ali tudo acabou. Tudo acabou e nosso filme termina em tragédia. Porque eu pulo do precipício que existe em mim e começo a ingerir, inalar, de tudo. Absolutamente tudo. Eu passo a viver de vento e tristeza. E vejo que a vida sem você não tem sentido. E chega o fim de ano, e você não chega mais perto. E eu nem te vejo mais. E a gente se afasta, e tudo volta ao normal, menos eu. E a gente se reencontra - desta vez sem sermos efusivos ou apaixonados. E a gente se evita. Você me evita, e eu demoro a perceber que preciso de você. E quando percebo resolvo correr atrás, e escrevo poemas, e mando flores, e te puxo pelo braço, e te ligo, e marco encontros, e escrevo um livro. Um livro que vira filme, este mesmo do qual te falo. Eu te perco para sempre. E estou para sempre perdido. E quando menos espero, você está com o outro. Um outro tão mais são e bonito. E eu tenho a certeza de que ele pode te cuidar direito. Mas eu não consigo engolir nem um gole da sua felicidade. E não é inveja, é porque eu só te aceito se for comigo. E eu encontro novas paixões, e novas mulheres. E são todas tão desequilibradas. E você sabe de tudo. E você me olha como se eu tivesse te abandonado, e eu tento te resgatar, mas você não quer, você não deixa. E eu te deixo ir embora, finalmente. Minto, não deixo. Não consigo. Passam os anos, e os novos amores. Vai tudo passando, acho que até eu mesmo passei com isso. Eu vejo suas fotos, e seu sorriso nunca foi tão grande. Não digo que nunca mais fui feliz, pois eu fui. Eu sou. Tenho tudo que queria, menos você. Que deve ter sido a parte mais importante da minha vida, acima de qualquer outra. Tanto que todos os meus outros amores competiam para ver quem chegava mais próximo de você. Mas nenhum deles, nenhuma delas. Ninguém, ninguém foi capaz. O filme da nossa vida se passa assim. Eu passando a vida inteira me arrependendo por, um dia, ter perdido você.
Encolha.
Dá para fugir. Ainda dá. A porta está destrancada, e ainda não estamos sentados tempo suficiente para nos sentirmos indispostos. Eu olho em seus olhos e, de repente, você me escapa. E eu diria que isso é medo, se não fosse falta de vontade. E eu diria que aceito, se não estivesse disposto a te arrastar comigo. Junto comigo pelos tempos que estão a vir. Mas você tem outro, com o qual divide a vida, há tanto, tanto tempo. E eu tenho outras, com as quais divido os corpos, por pouco, pouco tempo. E eu te vejo falar. E eu te vejo cantar. E eu te vejo dedilhar as cordas de um violão antigo. Eu acendo a luz, mesmo entrando sol. E acendo um cigarro, mesmo não estando só. E seu vento voa contra seus cabelos. E seus cabelos voam contra o vento. E você rege as rotas do universo. Com sua voz de algodão doce. E eu quero me esconder no seu sorriso. Mas eu não posso. Nós não podemos. Não nessa vida que estamos vivendo. E você me beija com vontade. E eu quero te falar da minha vontade de largarmos tudo. Para irmos para algum outro lugar. No qual não hajam outros, nem tempo. Porque em duas horas você tem que voltar para sua cama, e beijar seus outros lábios, e até dizer que os ama. E eu vou ficar sozinho. Porque Deus me quis assim. Porque se não for você, não será ninguém. Ou até será. Mas agora é você. E mais uma vez, a gente não pode. Porque nosso amor é feito de pequenos momentos. Que não vingam, nem crescem. Amor que só mostrou as caras agora, quando um beijo foi roubado. E nós não sabemos quem foi a vítima e quem foi o ladrão. Porque aconteceu de ser mútua a vontade - como deveria ser a minha de largar tudo. Nosso amor mostrou as caras em um mundo inexistente. Um mundo que nós criamos. Para um amor que seguramos. Eu te esperei por tanto tempo, mas agora você vive algo que não me pertence. Pertencendo a alguém. Que eu mal conheço, mas que juro ser tão melhor. E juro poder te dar muito mais, porque eu sonho esses meus sonhos de poeta. E vivo essa minha vida de artista. E tento escapar pelos buracos. Mas não estão neles a minha verdadeira saída. Eu só quero ser segurado de noite. Eu escrevo minhas palavras no ar, e elas ficam. Não me deixe ir embora. Porque eu não quero, e você também não. Eu não posso viver sofrendo por um amor que nunca foi meu. E espero que um dia você seja. Porque eu te coroei rainha do meu castelo de palavras, e a gente flutua nesse pequeno espaço de destino que nos colocou para longe. Levamos tanto tempo para nos encontrar, e Deus sabe o tanto que te procurei. Nos fundos dos copos, e no horizonte. Eu não posso olhar para você porque isso aumenta o meu querer tanto. Eu quero tanto te querer bem. Eu quero tanto que você se queira comigo.
- Escolha uma música, e eu toco.
- Escolha outro corpo, e eu morro.
- Escolha uma música, e eu toco.
- Escolha outro corpo, e eu morro.
sábado, 15 de janeiro de 2011
(Os parênteses).
(A confissão). Talvez eu escreva para você. Talvez você desperte alguma coisa lírica em mim. Talvez eu te torne objeto dos meus delírios. Talvez não. Talvez nada mude. Talvez continuemos os mesmos. Talvez eu continue vivendo de amores antigos. (Mas tudo pode mudar). E um dia eu posso acordar completamente seu. E você dormir completamente minha. E nós dois sendo um do outro. E nos sentindo completos. (Mas nada muda e permanece). E um dia acordaremos sendo de ninguém. E dormiremos sendo de outro alguém. E nós dois esquecendo um do outro. E nos sentido despertos. (O despertar). De rosto inchado, maquiagem borrada, bafo de uísque. De barba mal-feita, olhos cheios de remela, cheiro de cigarro. Nos despertaremos sim. (O motivo) Porque um dia você será de alguém. E no outro escapará de mim. Porque vivemos o que eu chamaria de disfarce. E eu disfarço minha culpa em você. Nós que já amamos tantos outros. Nós que não sabemos ser sós. E queremos ser nós para não sermos mais sozinhos. Mas solidão é questão de alma. E alma nenhuma se afaga. Nem se põe para dormir. (O sono). Os sonhos são todos tão belos, mesmo quando imcompreendidos. Sonhei contigo. Por toda a minha vida. Você é toda bela, fugindo da minha compreensão. (A mentira). Eu sempre escrevi para você. Porque sempre te esperei. E da forma mais corriqueira, e inesperada, você apareceu. E de repente era objeto direto dos meus delírios. (A alucinação). Suas pernas me fazem acreditar que você não existe. E seus lábios abrindo caminho para mim me fazem acreditar que nada mais existe. Nunca vi nada igual. Mas já havia te visto antes. Nunca te vi dessa forma. Nunca te vi mesmo te vendo. Nunca te enxerguei, mas agora te tenho. (A aceitação). Divido contigo meus cigarros, mas nunca meus desejos. Porque não somos os mesmos - não somos iguais e não somos os de antes. Se antes fomos, agora isso tudo eu perdi. Porque não te reconheço nas fotos antigas. Nunca fomos fotografados juntos. (O flagra). Você está com outro. Com outro e comigo. Estão juntos na cama. Diferente de nós, que estamos juntos no coração. Isso me machuca. Qualquer mínimo toque em ti me fere. Eu poderia te tocar de novo. (O passado) Seremos para sempre assim. (O presente). Fomos para nunca mais.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Inexistir.
Você não pôde me odiar o suficiente para me amar. Você não pôde me amar. Porque não houve tempo. E se houvesse, teria arrumado qualquer outra desculpa. Porque estava com pressa e amor leva tempo, dá trabalho. Nessa parte eu discordo, o amor tem seu tempo sozinho. Podemos esperar com as mãos para o alto, dançando pelos campos, bebendo um vinho, dormindo abraçados. O amor percorre suas próprias linhas através de nossas curvas e nossas mãos. Mas você tinha pressa e não podia ficar. Nem por mais um instante. E nem deixar para depois. Você sabia que iria me amar. E isso te dava medo. Porque não foi amada antes, quando um dia quis. E você sabia que eu te amaria. Mas não sabia até quando. E isso te dava mais medo. Porque não poderia acabar antes que você saciasse todos os seus sonhos e desejos comigo. Antes que você já estivesse curada. Mas amor não é doença. Aliás, às vezes é, até, cura. Porque, quando amor dupla-face, que cola - mesmo que um dia, talvez, desgrude -, nos salva do maior mal do mundo: a solidão. Na cidade grande, e suas avenidas com nome de mulher, e suas estações de metrô, e sua garoa épica, o que mais mata é a solidão. Infecciosa, dividida nos goles de copos sujos nos lugares mais sujos com os seres mais sujos - e estranhos. Um dia desses dividi uma cerveja com uma prostituta. Uma das pessoas mais limpas que já conheci. Embriagada de sensatez, à procura do amor. Em busca. Desprendida das morais - até mesmo o amor foge das regras de bom convívio e costume. Naquele dia, eu ganhei o que havia perdido há anos: a esperança. Pois por detrás da íris dela, estava um mundo que só ela via. Só ela via porque só ela se permetia. O acreditar. Como é difícil acreditar, não é fácil se permitir voltar anos atrás e regredir aos sonhos infantis e inocentes. É preciso acreditar na inocência, para que ela retorne. Sem ela estamos sempre aflitos, estamos sempre apressados. Você amadureceu tanto, e endureceu tanto. E se proibiu à entrega. Ainda que eu não apresentasse perigo, até por ser tão mais sozinho, e por carecer tão mais de tanto mais amor e carinho. Eu te amaria, e você sabia. E eu sabia. Portanto, te amei. E ainda amo, achando que, assim, talvez você confie. Confie, pois não é todo dia que alguém insiste em cavar um buraco com as próprias mãos. Um buraco, pois estão dizendo que o mundo acabará em questão de centenas de dias. E eu quero te proteger disso. E se eu não puder fazer isso, quero, pelo menos, que você não assista. Porque é tão triste assistir o fim. Você não confia em ninguém. Mas eu sou alguém, alguém que te quer bem, e que te quer muito. Se o mundo acabará, suponho que tudo também se esvai. Mas o processo é tão longo e lento, que nós dois poderíamos ter valido à pena. Se não fosse esse seu medo. Se não fosse essa sua desconfiança. Se não fosse o fato de mal nos conhecermos - mas isso, perante a tudo, é tão pouco, e pequeno. Eu queria saber o seu nome, ter estado mais próximo do seu rosto, ter te conhecido antes de tudo que te aconteceu. Deus, estou sofrendo de amores que não existem.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Entre Tesourinhas na mídia!
"Palavras desenhadas
“Que seja eterno até que cure.” A frase foi escolhida entre as muitas que a estudante de letras Julianna Motter, 18, escreve no blog www.comascartasnamesa.blogspot.com. Ela pediu aos seus leitores que elegessem as frases de que mais gostavam, para que pudesse transformá-las em arte. Na exposição, as palavras vão repousar em um painel com fotos.
“É uma fotocolagem de várias pessoas que conheço. Resolvi usar até uma foto antiga dos meus avós”, conta Julianna. “A outra frase que o pessoal escolheu foi ‘Segura aqui, amor, que um dia o amor acaba’. Nessa, não vai ter nenhuma foto. As letras é que vão formar o desenho”, emenda.
“O sebinho disponibilizou vários painéis de vidro, que nós vamos espalhar pelo lado de fora e dentro do café. Também tem uma sala, onde vamos pendurar alguns trabalhos”, explica Marina Lara, sobre o formato da mostra.
Além de fotografias, colagens e instalações, a exposição — que também conta com trabalhos de Adriane Oliveira, Carol Stieler, Francis Espíndola e Heron Prado, entre outros — vai ganhar um toque de música e poesia. “Na inauguração teremos alguns shows, como o da cantora Paola Lappicy, e leitura de poemas com Julianna Motter”, adianta Marina."
Resto da matéria: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2011/01/12/interna_diversao_arte,231946/mostra-traz-fotografias-instalacoes-e-quadros-de-11-artistas-iniciantes.shtml
“Que seja eterno até que cure.” A frase foi escolhida entre as muitas que a estudante de letras Julianna Motter, 18, escreve no blog www.comascartasnamesa.blogspot.com. Ela pediu aos seus leitores que elegessem as frases de que mais gostavam, para que pudesse transformá-las em arte. Na exposição, as palavras vão repousar em um painel com fotos.
“É uma fotocolagem de várias pessoas que conheço. Resolvi usar até uma foto antiga dos meus avós”, conta Julianna. “A outra frase que o pessoal escolheu foi ‘Segura aqui, amor, que um dia o amor acaba’. Nessa, não vai ter nenhuma foto. As letras é que vão formar o desenho”, emenda.
“O sebinho disponibilizou vários painéis de vidro, que nós vamos espalhar pelo lado de fora e dentro do café. Também tem uma sala, onde vamos pendurar alguns trabalhos”, explica Marina Lara, sobre o formato da mostra.
Além de fotografias, colagens e instalações, a exposição — que também conta com trabalhos de Adriane Oliveira, Carol Stieler, Francis Espíndola e Heron Prado, entre outros — vai ganhar um toque de música e poesia. “Na inauguração teremos alguns shows, como o da cantora Paola Lappicy, e leitura de poemas com Julianna Motter”, adianta Marina."
Resto da matéria: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2011/01/12/interna_diversao_arte,231946/mostra-traz-fotografias-instalacoes-e-quadros-de-11-artistas-iniciantes.shtml
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
(Des)esperando.
Dezoito primaveras de idade. Com seus jardins floridos e sol macio. Eu vivendo meus trinta invernos. Poucos flocos de neve a caírem do céu, um chão branco de solidão, não de paz. Em um quarto escuro, com somente um abajour aceso, e a fumaça saindo de uma pequena brasa circular. Eu não consigo parar de pensar nela. E eu tento. Porque tenho coisas para fazer. Como reler livros ou me enganar com bons goles. Viver um engano, como se fosse uma escolha. Só uma redenção ou belo porra para me salvar de mim mesmo. Porque ela é só uma projeção da minha cabeça. Da minha cabeça direto no coração. Que dói, lentamente. Como se eu tivesse algo há tanto tempo e, subitamente, tivesse perdido. Eu nunca a tive. Como é possível sentir tê-la perdido? Nunca tive seu toque por mais de dois dias - somando todos os minutos. Nunca nem provei todos os gostos de sua pele. Ou tive aqueles olhos amendoados olhando só para mim. Ela sempre olhava para os lados. Não a culpo, o mundo é tão interessante. De repente, podia mesmo aparecer coisa melhor que eu. Claro que apareceria. Quem seria eu para impedir? Quem se não uma coleção de cacos? Ninguém quer para si algo que fere tanto. É arriscado. Pois que ela soubesse que um dia fui um vaso de flores. Muitas flores procuraram abrigo em mim. Algumas das mais belas e vistosas. Um dia, uma delas pesou demais e eu quebrei. Mas ainda existem os remendos. Existem, claro que sim. Eu não consigo me desvencilhar dela. E ela aparece, e eu sumo. Estou vivendo nisso de procurar a cura, e só encontrar mais veneno. De todas, talvez ela fosse a mais bela. Talvez não, talvez fosse alucinação. Ou meus olhos a enxergaram mais alto. Tão alto, ela parece uma estrela no céu. E tem nome de estrela - e estrela lá tem nome? Pose de estrela também, inalcançável com seus anos-luz de distância. Algo nela me puxa, me suga, me consome. Porque parece, agora, tão inacabado. Um encontro de duas línguas distintas, para formar palavras tão simples. Por debaixo de um céu, de um nada. E também não havia chão. Senão não teríamos caído. Eu caí. Porque ela alçou vôo e voltou para onde veio. Eu caí no velho truque de vamos nos apaixonar, mas um acaba se apaixonando sozinho. Não chamo de paixão. Talvez mais encantamento. Ou fissura, ou nada disso. Foi tão breve, mas queimou. E borbulhou. Não acreditava nisso. Ainda não acredito - o que torna tudo tão mais difícil. A gente se prende a umas coisas tão bobas - e um toque de mãos de repente pode parecer amor eterno. Nunca foi preciso amar ninguém. Porque é tão difícil ser realmente devoto de algo. E se prender. O sonho mais velho do qual me lembro é o de ter asas. Nunca tive. Mas vivo com essa sensação de estar solto no mundo. Não pertencer, não pertencer é o segredo. E voar, e flutuar, e fluir. Deixar fluir é uma saída. Não esperar nada, não esperar por ninguém. Há um tempo atrás, ouvi uma história de uma mulher que morreu esperando no saguão de um aeroporto. Sei lá se esperava por alguém, ou por um vôo. Mas esperava, eu sei que esperava porque morreu sozinha. Quem morre sozinho viveu na espera. Que nem ela. Ninguém quer morrer assim, mas ninguém pensa nessas coisas. É preciso ter cuidado. É tão perigoso se entregar a si mesmo. Porque nós somos feitos de tantos labirintos. E eles dependem tanto de outros. Bom é fugir. De tudo, absolutamente tudo. Para não acabar acabado. Para não acabar, não deixar nem chegar no meio. Só o começo já é satisfatório. Mas com ela foi diferente, e eu esperei - como ainda espero, mas não quero confessar assim tão rápido. Algo nela. Algo nela ou em mim, porque eu causei essa perda. Essa perda de sentido e interesse. E a elevei. Ela está acima de qualquer coisa que eu possa controlar. Entreguei tudo, pus as cartas na mesa. Com as cartas na mesa, concreto, com tudo em jogo, eu estou sentado com o tabuleiro sozinho. Ela é justamente a pessoa pela qual eu tanto não-esperei. E por isso somos aquilo desesperado. Desesperançoso. Porque eu não posso tê-la. Nem sabê-la. Porque mal a conheço. Só me lembro de seus lábios fazendo mais belos os meus. E de querê-la bem, e querê-la perto. Eu fantasio algumas coisas absurdas, mas isso não é esperar. Eu sei que vou morrer sozinho. Mas, às vezes, espero encontrar alguém...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Declaro.
"When there's nothing left to burn, you have to set yourself on fire".
Imerso em pensamentos que não me levariam à lugar algum - não que eu quisesse ser levado também. Na tênue linha em que a introspecção se torna entrada para os questionamentos mais banais. Na parte do cérebro em que os neurônios estouram fazendo festa na mente. O coração só tem um caminho, escalando a coluna até chegar no lugar em que mais pode ferir: o pensamento. São muitos os anos que me separam de você. Muitas, também, as milhas. São muitas as coisas que nos separam um do outro. Porque, afinal, somos dois seres exatamente opostos. O que nos escreveu nas linhas mais tortas possíveis. Nas linhas mais desviadas e inconsistentes. Comprei um maço de cigarros novo, e um galão de vinho. Procuro uma válvula de escape, uma distração. Não sei se você tem assistido aos telejornais, mas o mundo está todo tão triste. Tanta coisa acontece, e eu achando que a minha dor é a maior de todas elas. Só porque alguém me rasgou por dentro. Com minha autorização. Porque é preciso um piscar exato de olhos para se ter o direito de entrar. Ou um não-piscar. Um simples olho-no-olho e de repente estamos atados. E por mais que tentemos impedir, ou evitar, o destino é quem manda. Veja eu, quarenta e três mil anos de idade, acreditando, finalmente, no destino. Cegamente também. Precisei me entregar para encontrar as razões. As razões que nos levam a isso. Essa desesperança por ter apenas, apenas, apenas, um coração partido. Coração partido, que coisa de poeta de mesa de bar. Pois não sou poeta. Nunca aspirei ser um. Mas o amor nos torna mais sensíveis que todas as partes do corpo humano - incluindo aquelas que secretam os mais úmidos desejos. Falando em umidade, por aqui tem chovido tanto. Dá até uma tristeza, porque parece que o céu nunca mais se abrirá. E sou tão egocentrado que penso, às vezes, até que a culpa seja minha. Porque eu tenho chorado tanto, mas de um tanto, que é bem possível que eu mesmo tenha instigado isso. Tudo bem, não sou capaz de uma coisa dessas. Mas bem que eu queria. Atualmente, eu quero de tudo. Pode me dar que eu recebo, no maior gosto. Tenho tentado entender - e aceitar - isso de viver sozinho. Porque é difícil, e nenhuma outra palavra define. É difícil ir dormir e acordar com a mesma sensação: a amarga incompletude. Falo de alma, não de corpo. É muito fácil encontrar corpos por aí. Na forma em que quiser, insinuantes e inteiros. É muito simples ser um corpo inteiro. Ainda que seja desejoso o encaixe de um outro para tampar os buracos. Somos todos muito esburacados. Um asfalto maciço, falho, ensopado de chuva, lama, secreções, segredos, inseguros. Somos completamente inseguros, um chão desnivelado, escorregadio. No qual é preciso coragem para pisar, e se firmar. Você está, agora, tão longe. Doloroso aceitar qualquer tipo de separação. Mas ainda, repartir. Repartir, partir, separar. Não dá para se desligar de certas coisas. Hoje, por exemplo, ao me olhar no espelho te vi chegar por trás e coçar minha nuca. E não está quente, nem desértico. Mas presencio um tempo de alucinações e muito suor. Suo frio, me contraio com arrepios. A falta é bem o imaginar. E com a imaginação se machucar. Sobe do coração tudo isso que pode enlouquecer um homem. Um homem como eu, tão esclarecido. Sempre muito claro sobre tudo. Sobretudo, sou escuro numa claridade quase transparente. Na qual sempre pôde ver todos os meus defeitos e falhas de caráter. De você, nunca escondi nada. Nem os meus lados mais monstruosos. Não te espantei por isso, eu acho. Não te espantei, para bem da verdade. Te expurguei, feito fosse um demônio, um espírito, que me possuísse o tempo todo. Você me possuía. Por escolha minha, talvez. Ou novamente o destino. Você possuía tudo de mim, desde os confrontos até os sentimentos mais belos e ternos, e toda a insensatez - você possuía meu amor e suas diversas faces e formas. Mesmo deformado, você aceitava. Mas aquilo me fazia um mal, porque era preciso sempre te amar - de outra forma eu não me julgaria digno de estar vivo - que, quando vi o tempo passar, nenhum tempo além do nosso existia. Declarar-se apaixonado é um martírio, uma sofreguidão infinita. Uma vertigem, uma cólica, um desconforto estomacal e sentimental. Um desconforto existencial. É pesado isso de depender sua existência na existência do outro. Pesado, tempos de dureza de carne. E malemolência de outras partes. Quando está tudo lindo, ninguém aceita. Porque belo mesmo é tudo aquilo que é feio e assustador. A beleza vem da depressão, do suicídio, dos homicídios, das facas que afiamos toda noite para matar nossos sonhos. O mundo é tão cruel. Exige um sangue tão frio se manter nele. Vou acender um cigarro e tragar sobriamente para enfim poder te dizer. Dizer tudo aquilo que guardamos achando que valerá mais ao ser enterrado junto a nós. Aquelas palavras que nos cruxificam e nos entregam como realmente somos: delicados. Você sabe de tudo que eu nunca pude te dizer. Porque sou muito orgulhoso. Ou isso não é questão de orgulho, mas sim de entrega. Entrega completa. Você pôde me levar comigo, seja na lembrança ou na chatice de te ligar todas as vezes em que estive fora de mim - ou seja, todos os dias, e noites, e madrugadas, e momentos em que eu não sabia que momento do dia eu estava vivendo. Eu preciso engolir o mundo para me sentir satisfeito. Mas você me satisfez das formas mais carinhosas - e até das mais violentas. Você me bastou como bastaria bastar apenas. Sem mais delongas ou explicações filosóficas. Está na polpa de tudo, tudo isso que eu quero te dizer e enrolo, mas não digo. Nunca estive pronto para uma entrega assim, então agora te entrego a verdade. De todas as minhas vidas, você foi a que mais amei. Porque era completo. Mas existia uma dependência doentia. Uma dependência da minha existência na sua. Na qual você era tudo. Você era tudo e se algo mais aparecesse, seria você também. Tudo aquilo que realmente vale, porque de nada valem as transas, os transes, o êxtase do toque e do desejo, os pensamentos calados e os sentimentos surdos. Você foi o que havia de melhor - e ainda há de ser. Porque, ainda que por mim - tão medíocre e desnecessário -, você foi - e continuará sendo - o ser mais amado que já existiu. Em todas as faces da terra. E em todo o corpo do mundo. De todo o mundo. Em todos os corpos, eu ainda te amarei.
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