quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Roupas Passadas.
Às duas horas da madrugada, quando o silêncio invadir a janela entreaberta, você permanecerá comigo. Não me entrego às desculpas, muito menos às explicações. Não existem motivos para tudo nesta vida. Não precisam existir. Esta é uma carta de admissão, na qual eu admito que entre em mim a sua ausência. E que permaneça, permaneça até que seja conveniente dispensá-la. Por enquanto não existem dedos que se entrelacem aos meus, ou bocas que tampem o meu silêncio. Não há o que caber. Sim, é sobre o vazio que te falo. Mas um vazio confortável, no qual afogo minha inconstância. Se você foi, foi porque eu quis. Se eu fiquei, foi por não ter escolha. Não ter motivos. Não tenho motivos para te esquecer. Porque esquecer é deixar para trás. E eu quero você sempre à minha frente. E num simples trago, resgato lembranças pouco nítidas, e cinzentas. Porque a memória vive no preto e branco. Estou vivendo de memórias. Nada triste, bom mesmo é ter o que lembrar. Que a solidão me deixe forte. São poucos os pedidos que tenho a fazer. É pouco tempo perdido. Esse tempo que a gente conta a passagem em batidas - do próprio coração. Que, calmamente, incha e desincha. Porque não há pressa. Não há, não há. Que tudo tome o tempo que tudo há de tomar. O tempo toma tudo. Num golpe preciso de samurai. Corta e recorta, enquanto nada mais sobrevive. O tempo perdura. Eu perdôo sua ausência, como consequência da minha loucura. A qual joguei para você. Jogar tudo para o alto, jogar para o santo, jogar apenas, como consideremos essas soluções. Não dávamos mais conta, dizíamos sempre que não, mas sempre insistíamos em tentar outra vez. Outra e outra e outra e outra, porque estávamos cansados, restando somente um quarto de fôlego, dizíamos outra vez. As falas eram curtas, tais quais as respirações. Ao contrário dos suspiros, que eram muitos e prolongados. Porque desejo a gente nunca perdeu. Aquela coisa de pele, que arde apenas em imaginar. Aquela coisa de carne, de toque, que não some, que não muda - nem nunca mudará. Feito uma sina, na qual passamos noites sonhando - que hoje são mais pesadelos, porque sonhos ficam para os amores de bem -, e acordando na cama molhada de suor e saudade. O cheiro permanecerá pelos travesseiros. Ou não. Talvez preso na entrada das narinas. Um cheiro que não se esquece. Que nunca se esquecerá. Porque é inevitável querer dentro quem a gente quer perto. Seguindo à diante, perdendo a sobriedade com a qual traço essas miúdas letras, penso que é difícil esquecer. É como uma tortura, em que sabemos a resposta procurada, mas não entregamos. E que enfiem nossas cabeças na privada! Que dêem descarga! E choques-elétricos. É difícil perder a quem se ama. Contudo, é tão doce se amargurar com a saudade. Não tenho muito a te dizer. Porque nunca te disse muito. Sou madrugada na qual o silêncio mora. E às duas da manhã eu acordo. Somente para te dizer o quanto esse amor é forte. E o quanto me faz fraco saber de sua ausência.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Meu Bem Querer.
Meu bem, te achei! te achei! te achei! Exclamando, repetitiva. Mal sabia que, por entre todas as partes do mundo que não faziam parte do meu, procurei. Por entre todas as estantes de todas as livrarias - e bibliotecas. Cavando todos os buracos dos jardins e escavando descobertas milenares, andando por aí à esmo, procurei. À espera, estando à espera. Fazendo da vida uma enorme sala em que eu aguardaria, ansiosa, com uma música instrumental ao fundo e um aquário cheio de lodo muito mal projetado e iluminado. Sala na qual as luzes piscam, possibilitando uma visão um pouco turva e uma provável enxaqueca daquelas. Te achei e era todo meu, completamente meu. E se eu não tivesse te encontrado, provavelmente em tempos depois estaria completamente sem rumo. Porque, sem mim, a vida nada mais era do que uma série de episódios tragicômicos, seguindo a simplória sequência do de-mal-à-pior. Você conseguia tirar uma risada daquilo tudo, é claro. Porque quando a vida é uma desgraça, e apenas uma desgraça mesmo, é claro que encontramos uma graça que, no fundo, bem no fundo mesmo, só existe para não nos congelar o rosto naquela feição de puta-que-pariu-fodeu-de-novo. Afinal, é impossível para qualquer um manter, para sempre, a boca entreaberta e os olhos contraídos, e estar, para sempre, preparado para expelir...expelir, que palavra engraçada. Expurgar, expurgar também. Enfim, não existem formas de estar sempre produzindo lágrimas, nem de estar sempre procurando soluções. Você não precisou procurar, esta parte ficou comigo. Você só foi levando na ponta dos pés, cuidadoso sobre os cacos de vidro. À despeito do que acham, é realmente no fim do poço que você encontra sua saída. Você, sendo todo meu, se nunca soubesse disso, provavelmente não aguentaria mais nem dez anos e desistiria da vida na primeira oportunidade, pulando de cabeça da ponte, ou se jogando nos trilhos de um trem de metrô que estivesse a anunciar a aparição em poucos instantes. Meu Deus! meu bem, que bom que te achei. Porque se eu nunca tivesse te achado, seu corpo nunca mais seria resgatado - por sorte, ou ironia, ainda te encontrei com vida. Imagine só, não te velariam, chorariam, enterrariam. Que bom que eu cheguei à tempo. Meu bem, não haveria mais ninguém que aparasse suas pontas, que coçasse suas costas, que te amasse infinitamente, ou que acendesse seu cigarro quando estivesse sem fogo, como eu. Neste mundo, nesta vida, não, não haveria. E não se pergunte o porquê. Porque não saberei te dar motivos. E não peça para mudar agora, porque temos um trato. Um trato com sei lá quem, talvez com o diabo, porque, às vezes, você consegue ser, para mim, insuportável. E tudo bem esse seu jeito imundo de levar a vida pelas mãos junto com uma lata de cerveja e um cigarro sem filtro. E tudo bem se você quiser levar também, comigo e contigo, umas outras que apanhe pelo caminho. Porque não importam os belos cortes das roupas delas, ou os sorrisos poupados do amarelar da nicotina, esmaltados por uma branquidão libidinosa - junto às suas pernas, especialmente coxas. Nenhuma delas teria com você, nem metade do que eu tenho. Elas, ao contrário de mim, não conseguiriam te manter vivo. Porque é preciso muito mais do que orgasmos múltiplos e charme de atriz francesa decadente. É preciso muito mais do que te dar branco e pós mágicos. O que você precisava era de paz. E aqui estou eu. Turbulenta, ainda que serena. Porque sou eu quem te acolhe nos braços a cada vez que você estoura e tenta dar pelos canos - e tudo estoura, afinal, você não sabe lidar com suas veias e artérias. Você precisa de muito cuidado, meu bem. De alguém que abdique da própria vida apenas, e tão somente, para se dedicar à sua. Alguém que te acalme em suas crises de insuficiência - renal e psicológica e, até, às vezes, artística. E que te inspire, e cumpra com os deveres de musa. Sendo sempre intacta e sendo, às vezes, inalcançável - para os outros, estando sempre ao seu alcance quando for de seu interesse. É preciso babar por você, mesmo que você cuspa no prato em que comeu e, muitas vezes, repetiu. Meu bem, te achei! te achei! te achei! e, exclamando tão entusiasmaticamente assim, posso pensar que eu mesma estava sem rumo. E penso um pensamento deveras correto. Porque estávamos, afinal, no mesmo buraco - aquele em que te encontrei. E tudo bem esse meu jeito de levar a vida à procura da sua, porque amor é isso mesmo, adoração. E eu te adoro, e te amo, desse meu jeito infalível e infindável. Porque, em algum momento, que nunca descobriremos qual, me deram essa missão - quase impossível - de te amar. Incluindo, principalmente, todos os seus defeitos. Que, por acaso, são incontáveis. E que posso, inclusive, dizer que são basicamente tudo aquilo que te compõe. Você é o ápice da desgraça, é a própria em êxtase numa trama inconfundível. Porque, duvido, que existam outros por aí como você. E se existem, eles não possuem nem um terço do potencial que você tem. Meu bem! como você consegue acabar com tudo. Então continuemos assim, meio encontrados, meio sem rumo.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Carta Direcionada.
Abri você, para uma perícia meticulosa. Com muita cautela, para que não se desmanchasse, não se desfizesse e escapasse com a brisa mais leve que passasse. Na palma de minhas mãos, você era ainda menor do que de pé, no meio do mundo. Meus dedos ficavam, a cada nova descoberta em seu corpo, mais tensos e rígidos. Não sei pelo que deve ter sido atropelada, mas estava cheia de sangue seco e fraturas. E mesmo eu vendo, e sabendo, de tudo, você ainda me olhava como quem houvesse visto, e como quem soubesse, de muito mais. De tanto mais. Tão juvenil e inocente, se não te conhecesse há anos, juraria, pelos seus olhos e coração, que havia nascido no dia de ontem. Ontem, que foi um dia em que resolveu se libertar das correntes que amarrou a si mesma. E destampar a boca, e abrir para qualquer um que te mostrasse qualquer caminho, qualquer. No dia de ontem, foi você também que quis me machucar por ter te querido tanto. Como quis. Quando você, ainda, admitia ser um ser igual aos outros. Quando você, ainda, não se rasgava madrugadas afora, à procura de alguém que quisesse te querer melhor que eu. Não sei, não sei em que parte você confundiu meu amor com tortura. Não sei em que parte te deixei entender que a culpa era, de todo, minha. Não era, mas é tão humilhante olhar para si mesmo, você sabe bem. É tão melhor atirar nossas taças de cristal e mágoas em cima os outros. Deixe que eu fume este meu cigarro, antes que você o apanhe por seus dedos ásperos e o atire para longe, e se queime um pouco. A verdade, é que você não sabe de nada, querida. E quer tanto engolir o mundo numa bocada só. Mas adivinhe, é o mundo quem engole por aqui. E não adianta quantas vezes se atire numa aventura. Não importa que tipo de aventura seja. Não é assim que você será maior. Não é porque você fodeu com um ou dois, que sua foda será melhor do que a minha. Você não sabe ser como eu. Você não é como eu. Portanto, não tente. Não tente porque isso só te faz ridícula. E isso só te deixará ainda mais fraca. Quando o sol se pôr, e a noite invadir seu quarto branco e frio, e eu não estiver lá, você será ainda mais fraca. E não importa quantas vezes eu te escreva, quantas vezes eu te ampare, não acredito que um dia você entenderá o que está acontecendo agora. De tanto você tentar me roubar, de tanto você tentar roubar meu coração, você está se acabando, tentando roubar partes de mim. Partes de mim que não pertencem à ninguém. Muito menos à você. Eu quem fodo, e parto, e mordo, e não me entrego. Não você. Eu que escrevo e dito as tragédias. Você que fique com seus romances dóceis e adestrados, com seus suores noturnos, que de tanto você não saber, saem das glândulas erradas. As noites e amores à deriva são meus. As paixões devastadores e os pedaços jogados pelo caminho. Tudo meu. Não tente roubar o que nunca foi seu, se nem eu mesmo fui. Eu te quero, não como um dia eu quis. Eu te quero bem. Como quero o bem de tantos outros alheios. E como quero bem às plantas, eu te quero, de vez em quando, para enfeitar meu jardim. De vez em quando, fique atenta. E não, não tente me responder à altura. Não tente me ler, nem reler, você não entende. Você nunca vai entender. Não partilha das mesmas dores, portanto não partilha do mesmo sangue que derramo a cada traço costurado aqui. Vá lá, vá embora, e leve contigo o seu pôr-do-sol, você está atrapalhando minha sombra.
ENTRE TESOURINHAS 12/01

Um pouco de publicidade não faz mal à ninguém, faz? Eu chamaria a exposição de imperdível, se muitos não fossem perder. Mas, quem puder, compareça! É uma exposição coletiva, que reúne muitos aspirantes à artistas, sonhadores, começando agora, com um futuro imenso pela frente! E eu estarei participando expondo algumas das frases deste blog e recitando alguns poemas/textos.
Dia 12/01, das 18h até às 22 (a posição permanecerá por uma semana), no Sebinho da 406 Norte.
"A ideia surgiu de repente, entre duas brasilienses que costumam se surpreender com os trabalhos de quem está perto. Surgiu como um conceito pra ser explorado. E aí foi conversado. Depois de um tempo, aprimorado. Depois de um tempo, já tínhamos escolhido local e a maioria dos expositores. Depois de um tempo foi-se acrescentando palavras e música. Por mais que a ideia tenha ficado muito tempo marinando na tigela, saiu, seis meses depois. Queremos, aqui, apresentar trabalhos de arte, das diversas formas, de pessoas que começaram há pouco tempo. Coisas que estão surgindo. Que estão aparecendo em Brasília; entre tesourinhas e ruas sem esquina.
Quem vai expor:
Adriane Oliveira
Breno Brito
Camila Antunes
Francis Espíndola
Jean Peixoto
Julianna Motter
Liza Mirell
Marina Lara
Rafael Cangussú
Rafael Godoy
Raíssa Melo
Recital:
Julianna Motter
Música:
Paola Lappicy"
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pequenina.
É necessário sentir na pele a ardência febril do verão. Mas, por hora, o que acontece é um dilúvio. E está tudo branco, branco-acinzentado. Você só queria ser amada. É compreensível. Por isso as noites jogadas na sarjeta, as fotografias e roupas rasgadas, os tantos porres, os cacos de vidro. É tão torturante achar que não pertence à ninguém. E a sisudez no semblante em que se esconde só revela a tamanha fraqueza que suporta seus ossos e seu fôlego. Seus olhos famintos, atordoados. As rugas na testa rígida, mais pura tensão pré-parto, pré-partida. Você não esconde a preparação para o abandono, porque um dia te disseram que tudo vai embora, e irá, mas não há tempo para se martirizar por isso - sem que isso antes aconteça. O dia está passando nublado - sem intervalos de cor. O céu daqui costuma ser o mais lindo. Ninguém sabe o que está acontecendo. Chove na mata crescida. As gotas escorrem pelos jardins sem cores. Não há vida. E se há, onde foi parar? Se perdeu cruzando os Eixos, mirando o horizonte que, daqui, é finito. A gente não se entende mais, e dirigindo pela Avenida das Nações, não temos mais rumo. Entre tantos caminhos, não temos um rumo. No asfalto, as cores do inundamento. É terra que vira lama, é lágrima que vira chuva. E você, pequenina, que não sabe nem por onde veio, nem por onde passou. Não foi pelos becos, não há becos. Nem atravessou as esquinas, nunca existiram esquinas. Não nos nossos Planos. Não aqui onde somos pilotos. Pilotos desse avião desregulado, desamparado. Com um peso enorme por volta das asas. Ainda somos jovens e por isso gritamos. Gritamos sem que haja motivo, não devemos nada. Você que carrega essa mágoa inconfundível. Que é dona dessa beleza incompreensível. Você que me olha agora, logo eu que sempre fui desiludido. Não há nada a ser feito, ninguém pode te amparar. Não há nesse nosso jeito nada que nos explique por quê não há mar. Acendemos um cigarro, você diz que estamos nos matando. Eu acendo uma luz na sua vida, você diz que estou te cegando. O quê tanto você quer, pequenina? Que ninguém parece capaz de dar. Não sei se é um coração para chamar de seu ou um colo para quando desabar o céu. Já está tarde demais, a chuva está caindo lá fora. E pelos vidros podemos escutar o barulho do vento. E nada te acalma, nada de aquieta. Ninguém nunca disse que seria fácil, contudo, poderia ser ainda mais difícil. É quase um masoquismo tentar se manter vivo. Mas tentemos, pequenina, tentemos. Porque, querendo ou não, e mesmo sem saber o caminho, estamos juntos. Sou eu aqui contigo. O colarinho da camisa me enforca, e eu faço círculos em volta do meu pescoço. Estou me degolando para continuar vivo. Que tortura essa que não tem nome. Você é tão transparente que é possível enxergar as águas do lago se movimentando por detrás de você. E é possível ver seu sangue escorrer, e cair nos buracos, e escoar pelo esgoto. Todas as suas dores estão indo embora com a água da chuva, todas as suas mágoas e rancores. Quem sabe, assim, você não melhore, e sobreviver até pareça mais fácil. É tão inconsequente caminhar pelas noites sozinho. Ainda mais você, que é tão atraente e frágil. Ainda mais você, que quase se entrega à menor demonstração de carinho. Você só queria, e só quer, ser amada. Mas exige tanta vontade se manter nos Eixos. E há tanta gente do lado de fora, tanta gente que não vale um tostão, quanto mais um sorriso seu. Eu adoraria ganhar seu primeiro sorriso, pequenina. Porque, pela dureza de seus lábios, eu posso ver que você não sorri há muito tempo. Sentir o vento frio bater nos dentes é algo tão renovador. Ver os lábios quase congelarem, e se tornarem cada vez mais arroxeados. E sentir na contração das bochechas, no alongamento dos lábios, aquela pequena linha que divide o lábio inferior em duas partes - uma mais tentadora que a outra -, rasgar e jorrar sangue, é algo tão saboroso. Eu limpo seu sangue na minha boca, que já está roxa demais, que já está sedenta pela sua demais, que já está desejosa demais. Você só queria ser amada, pequenina. Mas será se seu pescoço dói tanto assim à ponto de não conseguir olhar para os lados?
domingo, 2 de janeiro de 2011
Sara Flávia.
Confesso que são tentadoras as explosões de hormônios, peles, sensações, e pensamentos, por detrás do processo pré-paixão-avassaladora. É tão precioso aquele único olhar em que vemos em nós toda uma esperança de mutualidade. E jogamos todas as cartas. Erguemos as mangas e, inconscientemente, estamos leves. E livres. Graciosamente livres. Prontos para arder de febre e quem sabe, quem sabe, passar as noites acompanhado. Cadê você? Aonde está você? O que está fazendo? Com quem tem andado? Cadê você? Eu quero te ver. Preciso te ver. Te saber, como um todo e por partes. Acho que estou sofrendo, de verdade. É algum mal, ao qual ainda não deram um nome alemão, ou sei lá nome de que língua dão pra essas coisas. Mas também não sei se é mal mesmo, mas é alguma coisa. Alguma coisa grande, e pesada, porque eu quero falar com você, e te ver, o tempo todo. É desesperador achar tudo bonito. Tudo, em você, é tão bonito. E eu quero te roubar para mim. Vou planejar um sequestro relâmpago. Estou ficando louco, e criminoso, e perigoso. Mantenha mesmo a distância. Mentira, não mantenha não. Chegue perto, e diga que me quer. Só quer a mim, e mais ninguém. Diz que eu basto, porque eu posso tentar. Estou tentando. Estou tentando tanto. Fico te olhando em fotos, em lembranças. Eu olho para dentro e só vejo você. Como é engraçado, e bonito. Sim, também é bonito. Só ter você, só ver você. Viver de você poderia ser algo tão bonito. Respirar seu nome, me alimentar de sua pele, viver à sua sombra. Eu e você, poderia ser algo tão bonito. E me sobe um calafrio pela espinha. Minhas pernas enfraquecem. Tudo coça, tudo incomoda. Cadê você? Não estou me encontrando. Você também sou eu. Deixa eu ser você. Só por uns instantes - soma de uma vida inteira. Há tanto tempo não encontro tempo para me sentir assim. Que vontade de cantar. Eu poderia cantar para você, você sabe. Aquelas lindas canções de amor. Arriscar ser desafinado com o Tom. Ou só assobiar. Eu posso te cuidar direito. Todo mundo precisa de alguém. É tão difícil se sentir assim. Estou tão disposto. Sua aparição me fez tão bem, estou desejando tanto bem. Estou te desejando tanto, assim, bem perto. Meu corpo parece que vai explodir. E minha boca está no coração. Meu coração está na boca, na ponta da língua. Mesma língua esta que te fala. Que te escreve. Eu te escrevo tão bem. Pele serena, olhos morenos, tão delicada, com uma constelação de estrelas sobre o rosto. Você é todo o céu. Eu posso ser todo seu. Eu quero. Você só precisa deixar. Tão bruto se apaixonar de novo. E pular dos mesmos abismos. E reviver a sensação de voar livre. Pule comigo! Uma hora a gente volta. Eu prometo. Eu prometo tudo. O que você quiser, está prometido. Está muito cedo, mas eu já te amo. Te amo por antecipação. Eu te amo por ter me feito sorrir. Eu te amo por ter me feito sorrir de novo. Como é doce saber que você existe. E tão feliz. Tem momentos na vida em que só existe desespero, e maços de cigarro, e goles amargos, e solidão. Mas já que você existe, e eu sei, é tudo tão calmo. Eu não posso viver assim tão longe. A saudade mata. A gente mata a saudade, ou ela nos mata. Tanto faz. Não, não tanto faz! Tudo estou fazendo. E cadê você? Apareça, dê notícias. Não aceito um telegrama. Mas um telefonema já basta. Como me acalma ouvir sua voz. Fica tudo bem. Levei tanto tempo para poder dar um cheiro ao seu nome. Cheiro de flores, as mais belas e vistosas. Apanhei pelos campos da vida. Campos minados, de repente você me explodiu. É sobre esssa explosão de amores que te falo. Basta um olhar. Um olhar e já estamos desarmados. A gente sempre sabe quando é de alguém. Podem passar décadas, uma hora chega. Existe um pacto de almas que é selado em alguma parte da vida. Ou da morte. Mas existe. O meu foi selado assim: eu e você, e você, POR FAVOR, comigo. Não estou desesperado. Apenas tenho pressa. É tão fácil errar o caminho. A vida tem tantas estradas. Seu caminho sou eu, só pode. Porque meu caminho é seu. E eu sei. É tão fácil ser sozinho. Então vamos enfrentar isso juntos. Porque é tão fácil reclamar da vida, se embriagar, dormir com alguém, e ser sozinho. Já passei tanto por isso. Já fui sozinho em tantos lugares. Já fui sozinho tão bem acompanhado. Vem para mim, ou então, ou então me ensina a ser só. Me ensina a ser só. Porque desde que você apareceu eu não sei mais. Eu não sei. Faz alguma coisa, essa sua indiferença me mata. Por quê você não vê? E olha, eu estou me esforçando.
Me ensina a ser seu. Ou me ensina a ser só.
Me ensina a ser seu. Ou me ensina a ser só.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Ano Novo.
Por mais distante, por mais errante, por mais silencioso, por mais doloroso, por mais equivocado, por mais desiludido, por mais delicado, por mais tudo isso que fomos. Por tudo mais, e mais de nós. Que venham as novas estações. E os novos amores, e tempestades. Que venha a chuva. Que cubra o Congresso, e nos vista de branco, de cinza, de lama. Que abra o sol. E abra nossos peitos. Que sejam novas as dores. Que cicatrizem. Que firam. Que doam. Que cresçamos. Meu amor, que tudo isso passe. E passe rápido. Como passam os anos. Como passarão. Os passarinhos. Tudo canta. O céu se explode em cores. Ainda passo na frente do seu portão. Só para ver se te encontro. Você que nunca quis ser encontrado. Ainda procuro seu abraço na madrugada fria, nos rostos pálidos. A lembrança fica feito tatuagem na pele, e arde. Mas cicatriza. Por mais amor, sejamos sós. Sejamos sós e sejamos sós, por mais distantes. Que a distância cura. Sejamos o novo agora. E deixemos o passado para trás, por hora. Me embebedarei de esperança. Terno novo e barba feita. Passado desfeito em luz. Céu estrelado, mas amanhã chove. Há de chover. Que caia tudo, e se despedace. E se transforme. Já estive aqui. Já sentei neste mesmo chão. E fiz planos. Meia-noite e a gente pula as ondas. Não tenho ondas para pular. Não tenho mar. Nem mar! Ando tão leve, tão manso, tão juvenil e abobalhado. Meu amor, eu não quis, mas estou apaixonado! Pela vida, que é tão intocável. Pelas mulheres, que são tão atraentes. Por tudo que me cerca e que me prende. Estou tentando ver tudo de forma clara. E fumo um cigarro, folheio um ou dos livros, rodopio na cama. Eu poderia voar, você sabe. E ir para longe, tão longe que, você nunca mais saberia do meu paradeiro. E nem eu do seu. E seríamos tão breves em nossos desejos que toda a paz já bastaria para saber que você ficaria bem. Você vai ficar, não se castigue tanto. Escuto as cento e oito badaladas vindas do templo budista. Eu me daria bem vivendo essa vida de artista: um porre atrás do outro, um amor para aparar meu coito, tantas paixões alucinógenas. E carreiras e mais carreiras de pó de pombras brancas da paz. Tanta paz! Tanta paz logo virá! Virará o ano, uma nova década. A década perdida dos amores finitos. Estabeleci essa meta de sentimentos medidos. Não mais me entrego, meu amor, nunca mais. Já precisei curar tanto. Agora é só paz, e pele novinha em folha. E órgãos sacrificados, mas enfim resgastados, longe da gangrena e de qualquer podridão. Vida serena, começaremos tudo agora. Já é hora, já é hora! Meu amor, agora me despeço, vou correr em direção a luz. Você viu o céu nesta noite? Assim eu me perco, assim eu quase me perco. E se perder é tão bom, quando não se tem para quem voltar.
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