quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Branca de Neve.

Eu te seguro, e eu te protejo, e eu te cuido. E te prometo que para sempre, que paro-raio, que para sempre. E você desvia o olhar, e sua pele branca me acalma, e chega o silêncio, e se instala. A gente conhece a agonia de não saber quando o nosso para sempre acaba, de não saber para quem vamos contar quando isso acontecer. Porque temos a certeza de que mesmo dividindo mil segredos e cruzando nossos dedos mindinhos e dando o primeiro bom-dia e o último boa-noite e os melhores beijos: não vamos contar um para o outro que percebemos o fim. Vamos esperar. Existe o impulso, mas todo mundo espera. Todo mundo sabe bem antes, a gente sente. A gente sente quando, de repente, uma hora, a gente se entreolha e se entrega à Deus, e seja-o-que-ele-quiser. O estômago é, subitamente, comprimido e tudo vira um sufoco, e as olheiras ficam mais profundas, as contas ficam mais caras, a casa fica mais bagunçada, os roncos ficam mais altos: a gente se cansa. Eu não quero me cansar de você. Nunca. Eu não quero. Quantos outros antes já não devem ter estado na frente de alguém, e ter tido o mesmo devaneio, e chegado ao mesmo suspiro-conclusão. Eu não vou me cansar de você. E cansar é uma palavra tão feia, tão fria, tão feita de plástico. Você não é uma boneca, embora pareça. Eu não tenho mais doze anos, embora pareça. Eu te quero assim, desse jeito para sempre. Você com as mesmas bochechas rosadas, eu com o mesmo frio na barriga por te olhar de perto. Eu quero pertencer à você para sempre. Eu não quero pertencer à mais ninguém. Você me faz tão feliz. E tudo mais é tão efêmero, e tudo mais sequer me importa. Ninguém segura minha mão como você, é por isso que eu te amo. Porque até pelas coisas mais bobas e, até, mecânicas, seu amor me basta. Constato agora que não há nada mais belo: nem as gérberas, nem o mar. Constato também que, não sei se sou eu quem te mereceu, mas de alguma forma, eu te tenho. Porque seus dedos estão segurando os meus, e suando um pouco frio. E eu estou te pedindo o eterno. E eu estou te prometendo o mesmo. E você está desviando o olhar, e o sol está batendo em seus cabelos e olhos: você me traz tanta paz. E tanta sensação de ano-novo-vida-nova. Seus olhos têm tanto medo. Agora. Seus olhos com medo me dão medo e um calafrio sobe minha coluna. Não sei se você viu ou está vendo alguma coisa. Fiquei com medo. É algo ruim? Eu quero te proteger, me conta. Você está me assustando, me fala. Está tudo bem? Me ama. Por quê você não respira? Volta. Eu te seguro, eu te protejo, e eu te cuido. Eu te preciso, não sangra. Eu não consigo te perder, nem para a idade. Eu não sei como te perder. Só se passaram quarenta anos e já querem te levar embora. Mas eu te prometi a eternidade. Tem alguma coisa errada, me leva contigo. Eu estou com medo, me abraça. Me abraça porque seu abraço sempre me salvou de tudo. Você me segura, você me protege e você me cuida. Branca-de-neve, fica. Eu preciso que você fique até a hora do chá, para me coçar a cabeça e perguntar como foi meu dia. E rir. E rir muito quando eu te dizer sério que senti uma coisa esquisita que achava já conhecer: branquinha, você não sabe o quão mórbida é a sensação de segurar uma outra vida nas próprias mãos. Que sensação delicada a de não deixar que ela caía, ou que ela suba - isso de paraíso e inferno faz tremer os braços. Olha para mim, a gente prometeu nunca passar por isso. Olha para mim, o para sempre não pode acabar comigo. Não me deixa com esse peso e me leva contigo. Eu vou sentir tanto a sua falta, branquinha. Eu vou sentir só a sua falta. Eu te amo para sempre, me espera? Perdoai todos os nossos pecados: meu amor foi avarento, branquinha. Eu te seguro, eu te protejo e eu te cuido daqui. Me espere lá, eu prometo que chego até a hora do chá.

A.M.J.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Bom Dia.

Agora - como é que dizem por aí? -, tudo azul? Ou será vermelho? Talvez amarelo? Arco-íris inteiro? Na verdade, acho que, até hoje, só eu fui capaz de ver essa cor. E como é alegre. Ameaçadamente alegre. Acho que estou feliz. E a cor chega até a brilhar no escuro pra mim, eu que fui sempre tão triste. Tudo cor-minha. Cor-nossa. Cor-sua. Acordei sem remelas, ou gosto de sangue e asfalto. E o sol nasceu hoje. Não como nasceria em todos os outros dias. Hoje o sol nasceu pra mim. Ele entrou não só pela janela, também atravessou pelas retinas, e me abraçou. Nasceu sem chorar, mas eu soube que ele estava vivo. Que dia é hoje? Porque só pode ser feriado, ou meu aniversário - eu que nunca comemorei, hoje comemoraria estourando champagne e estourando ouvidos por cantarolar feliz e tão alto. Sabe quando vem uma felicidade? E você não sabe nem de onde. Mas eu também não preciso saber. Quando uma dessas vem, a gente só quer que ela fique. E hoje, eu digo, eu faço de tudo para que ela permaneça. Porque é bom dormir no canto, e surpreendentemente, acordar abraçado. E se aninhar sonolento, e sorrir inconsciente. Eu me levantei e tomei café, e comi bolachas, e até comprei flores. E quis aparar a grama, e também andar de bicicleta. Acordei disposto. Eu diria até que disposto à tudo. Quero pular de pára-quedas, não mais me dependurar no parapeito. Não sei, mas meu peito anda tão leve. E essa minha leveza é tão saborosa, que eu até lambo os dedos. Hoje não está fazendo calor, também não está fazendo frio: está do jeito que as coisas deveriam estar, felizes. E eu escrevo agora nesse meu diário, porque eu quero me lembrar um dia, se isso um dia for embora - o que eu não desejo, mas pessimista espero. Eu vou reler e sorrir e, quem sabe, recuperar esse gosto. Gosto de encontrar com aquilo que mais gosto, gosto doce, doçura exata. Hoje o dia nasceu-felicidade. Mas já está chegando a hora de dormir.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dedicatória.

Há quarenta e cinco anos te esqueci - nem essa idade eu tenho. Não achei nenhuma forma outra de te dizer: nunca te amei, nem nada. Nem nada, nem um respigo de carinho ou vontade de te roubar um beijo e acariciar as voltas dos seus seios. Eu precisei te dizer isso agora, mas seria o mesmo de te dizer depois. Eu te peço para me esquecer, então não insista. Talvez eu precise de você daqui quarenta e cinco anos, quando eu estiver pesado demais para me apoiar na bengala, e pesado demais para me segurar nessa vida sozinho. Nossa história foi só uma boa foda. Boa porque tentamos sem parar e só você pareceu sair com a cara de quem acaba de ser fodida. E eu não posso dizer que me arrependo, porque tirei algum proveito do seu choro. E você me deixou um pouco mais de loucura. É a loucura que sempre fica, não sei se você sabe. Com os anos os amigos-amores-amantes-sonhos vão indo embora. E ficamos loucos, e também cinzentos. Eu quis a loucura de te ter somente para poder te perder. E me afundar nos cacos de vidro, e nos vidros inteiros, e em poças de lágrimas, lama e etílicos. Eu te tive só para te ver indo embora. E eu soube usar de todas as palavras, e serviu, até mesmo, o silêncio. Eu falava e você me tapava a boca com um beijo. Eu me calava e você me enchia os ouvidos com gemidos. Eu queria ter sentido saudades, para me livrar um pouco dessa crueldade que agora te revelo. Eu sinto alguma falta, se isso te consola: eu sinto falta de te fazer falta. E de receber suas ligações ébrias e descontroladas em plena madrugada, enquanto eu dormia do outro lado da cidade, com alguém do mesmo sexo, ou do mesmo nível. E te dizia que estava lendo Cortázar, tomando um vinho, fumando cigarro, e te dizia para ficar calma, e parar de gritar, e você escutava barulhos, e dizia que eram vozes, e eu dizia que era a televisão, e na verdade eram gemidos, e você me perguntava: mas você não estava lendo um livro? E eu dizia que estava me sentindo só, e o som das vozes me acalmava. Você dizia que pegaria um táxi e estaria comigo em dez minutos, e eu dizia não estar muito bem, e se acalma que estou indo deitar. E você aparecia faltando vinte minutos para as seis, preocupadíssima, e eu não atendia o interfone, e você me ligava treze vezes, e enfim eu acordava e te dizia que estava no hospital, mas se acalma que é só um resfriado e eu já estou voltando para casa, me espera, me espera, ainda não vá embora. Eu não queria que você fosse embora, eu nunca queria que você fosse embora se eu não pudesse estar aqui para assistir. Não sei, mas às vezes achava que você fosse um pouco louca demais para o meu gosto, e eu até gostava de pensar nisso, me dava uma vontade de me apaixonar por sua loucura, pelo menos por ela. Porque eu não conseguia ver nada de belo em seus traços, infantis demais para mim. E eu não conseguia aturar por muito tempo sua voz, doce demais. Eu te achava meio enjoativa, acima de tudo. E eu não conseguia lidar com a idéia de te ter sempre grudada comigo, então eu te dava férias - e à mim - e te soltava um pouco, e falava vá ver o mundo que isso aqui é só um quarto. Mas você não se soltava. E me batia um desespero por não saber o que seria da sua vida sem mim. Por não saber o que seria da sua vida depois de mim. Presunçoso, mas acho que as vidas são demarcadas assim: a.M. e d.M., antes de Mim e depois de Mim. Eu sempre em maiúsculo, porque sou eu quem escrevo as histórias. Sou eu quem faz a mocinha e o vilão. E sou realista portanto, em minhas histórias, não há um final feliz. Em compensação, são vários os clímax, vários, as histórias são todas clímax: a revolta, o tiro, o suicídio, o estupro, a paixão, a perda. Eu te dei alguma felicidade, espero. Porque duvido que alguém soube como lamber tão firmemente suas pernas, ou como recitar tão fielmente Drummond. E eu te coloquei inúmeras vezes para dormir junto aos pêlos de meu peito. E ali não haveria lugar nenhum tão seguro. E eu dividi contigo minhas melhores garrafas de vinho, e minhas melhores piadas, e meus maiores sorrisos. Acho que sou um pouco grato. Por tudo, minha querida, obrigado. Você se tornou o melhor dos meus romances. O romance no qual eu mais acreditei. Eu poderia ter jurado de pés juntos, e subido uma escadaria de joelhos, por isso tudo, e por nós, porque eu realmente acreditei. Seu romance terá nome de mulher, talvez o chamarei de "Helena", por ser assim tão forte. E eu dormirei com ele apoiado na cabeceira, para eu me sentir seguro. Porque isso eu posso dizer que você fez. Acho que foi seu olhar seu calmo e tão, falsamente, maduro. Eu me sentia um homem barrigudo balançando na rede, na varanda de uma chácara distante, com um visual verde e sadio posando à minha frente. Acho que com essa sensação é que veio o bloqueio: eu queria ser o homem vistoso caminhando com um facão pelo meio da mata, e você atrás de mim, se sentindo protegida. E não o inverso. Há quarenta e cinco anos te esqueci, porque soube que não poderia passar o resto da minha vida a me lembrar. É curto o saber de que tudo vai embora. Hora ou outra você iria. E eu não aceitaria ser aquele que foi mandado embora. Eu tinha um pouco de medo. Mas eu zelei mais por mim do que por você. Eu poderia não ter colocado o ponto e ter arcado com as reticências. Eu tive tanto medo de que você enlouquecesse, mas quem enloqueceu fui eu. "Uma vez eu amei", assim que vai começar, minha Helena. Uma vez eu amei muito antes de ser amado. E eu larguei meu amor antes, para não o ver indo embora depois. Eu disse para você sair e ver o mundo, minha Helena. Você não entendeu o teste: o mundo, para você, deveria ser eu. Foi o que eu quis...

Esse livro vai para o meu mundo,
com muito amor.
(Amor que o mundo não viu, mas que eu dei).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Doce.

Encosta sua felicidade na minha: é tudo que eu posso te pedir. Porque eu te vejo aí sorrindo e me dá vontade de sorrir também. De sorrir junto. De sorrir contigo. De sorrir por ti. Tem gente que cava o próprio buraco, dizem por aí. E se deixar apaixonar talvez seja isso. Cavar, cavar e cavar, sem saber se vai sair do outro lado do mundo para ver o sol de novo, ou se vai acabar por ali mesmo, procurando desesperadamente por uma saída. Não quero pensar nisso. Tento não pensar nisso. Até porque você aí, sorrindo do outro lado do mundo, me dá uma puta vontade de largar tudo - sem nem saber que tudo é esse que eu tenho. E cavar sem saber que horas eu chego, aliás, sem nem saber se vou chegar. Encosta seu sorriso no meu: e aí quem sabe, não aconteça de sorriso encostar nos lábios e dos lábios virarem beijo. Porque eu preciso do seu sorriso, mas se você não quiser sorrir, eu também posso te colocar no colo, e amansar seu pranto. Eu sei que alguma coisa aí dentro ainda dói. Encosta sua ferida na minha: mas não que meu amor tenha poder de cura. Eu só quero sentir seu sangue. A impressão que tenho é a de ter passado toda a minha vida à procura, e ao ter desistido: te encontrei. Quantas noites jogadas ao vento, e dias se jogando na sarjeta...é impossível fingir que não vamos - até mesmo sem forças - esperar. E quando a gente encontra a vontade é de diminuir o mundo e guardar no bolso. De sair correndo sem nem saber como a corrida começou, nem quando vai parar. De renascer, só para estar puro, ainda que digam que amor verdadeiro não tem passado. E a vontade de estar pronto, e estar de pé. E de não ter nada de ruim ou pesado que transpareça. Nada de feio ou monstruoso para te mandar embora. Vontade de dizer fica só para ter certeza que você saiba que nada mais basta, que nada mais completa, que nada mais treme, que tudo mais é nada, e que de tudo, só há você. E eu te vejo sorrindo, e fico aqui te escrevendo essas coisas. Algo em mim me diz que um dia eu terei que te dizer tudo isso. Porque eu comecei a cavar, mas ainda não fui longe. São tão belos seus olhos, e seus lábios, e cada um dos fios do seu cabelo. São tão belos todos os seus defeitos. E que vontade de te pegar no colo, só para fingir para mim mesmo que sou eu o único a te tirar do chão. Eu quero ser o único a te tirar do chão. E não me importo se antes houveram outros. Eu quero saber do seu presente e quero ser o seu futuro. Eu vejo você sorrindo e eu preciso que sorria de perto. E não me importam os dentes amarelados de nicotina ou os lábios pesando mais para um lado. Você aí do outro lado do mundo, eu refaço todos os países e continentes, só para te ter por perto. E não precisa nem estar sorrindo...


Não precisa porque eu posso inventar motivos.
E escrever poemas.
Posso segurar seu rosto.
E beijar seus lábios.
Quem sabe abrir sua boca,
e tentar me esconder lá dentro.



E se você estiver triste, acabada, corroída,
eu finjo que me sobram forças.
Ou te deito no meu peito,
e finjo ter palavras.



Eu finjo que não existe a distância,
só para te ter por perto.
De preferência, sorrindo.

(Mas eu encostaria seu amor no meu independente da forma.)

De Temps En Temps.

Pouco antes de me decidir esquecer de tudo, só me resta uma última memória para remoer no doce frio de Dezembro. Afundado debaixo dos cobertores, tomando o café gelado de três dias, arrancando as cascas das feridas espalhadas pelos braços: fios avermelhados, tal qual a cor dos lábios. De nada mais quero me lembrar. No fundo até quero - todo homem tem um pouco de masoquista e de louco. Mas é preciso que eu acenda um cigarro, e deixe que a fumaça me preencha um pouco: fobia do vazio, para que enfim eu consiga falar mais um pouco disso. Um trago, dois tragos, dois e meio: e que se fodam todos os estragos. Os dentes amarelados, a pele envelhecida, a voz rouca, o humor nublado. Finalmente me sinto preparado e respiro fundo e transpiro frio e falo: a hora em que a cabeça dela apontou pela porta: não sei foi minha cabeça ou se foi o tempo que parou. A gente conta os segundos, porque a vida nada mais é do que uma crise de ansiedade seguida de choros e espamos e sorrisos, tudo meio torto e inacabado. Às vezes acho que o coração existe só para nos fazer falta, porque eu sei que sinto falta de tudo. Eu sinto falta do que passou e do que ainda há de passar. Tenho pressa, é o que acho. Tenho pressa porque não sei o que me espera e isso me tira o sono, e o apetite. E no desespero de não escutar os sinos tocarem todo dia às seis horas da tarde, penso até em me atirar da janela. Não obteria sucesso. Talvez perdesse alguns dentes e algum tempo no psiquiatra. Não penso em me matar, que fique claro: tenho tudo à perder, mesmo que às vezes não encontre nada. Não obteria sucesso porque não haveria nada de lírico ou romântico nisso: eu estaria somente abandonado às traças e aos traços de algum pintor de rua que passasse e resolvesse usar meu sangue para desenhar minha silhueta e demarcar o-lugar-do-louco-que-tentou-suicídio. Talvez eu conseguisse alguns segundos de fama e aparecesse nos jornais para todos sentirem pena, ela sentiria pena. Ela sentiria pena e apareceria no leito do hospital para passar as mãos no meu cabelo e dizer que sempre soube que eu era um porra louca que só enlouquecia por não encontrar nada melhor para fazer. Mal sabia ela, mas eu tinha tanto para fazer: eu tinha que organizar meus livros por ordem alfabética, compor um thesaurus de angústias e sentimentos outros, arrumar companhia para passar a noite, para passar o calor, para passar qualquer coisa viral que nos fizesse definhar por completo sem escapar um da memória do outro. Falando assim, eu percebo mais uma coisa sobre mim: eu vivo de memórias, e em nenhum lugar do mundo se encontraria alguém tão assumidamente triste. Eu vivo de memórias e comecei dizendo que estava aqui para remoer minha última. Eu, que vivo de memórias, poderia viver o resto dessa vida com uma só? Penso que sim, se eu tiver a certeza de nunca esquecer aqueles olhos cheios de brilho e aquela voz açucarada. E não esquecer aquele primeiro de muitos beijos, e aquele primeiro amor de poucos outros. Eu poderia passar o resto da vida vivendo da memória dela. E eu posso até dizer que assim seria feliz. Mesmo que, na verdade, assim eu só seria um pouco menos triste. Ou talvez mais triste. Mas a tristeza seria calma e certa: porque eu a tive. E eu me sentiria seguro. Tive ao ponto de poder ainda me lembrar dela. E viver sabendo que tive, e que, aqui, ela esteve. E que daqui ela nunca iria embora, se ela vivesse para sempre nessa minha memória. Que nunca envelheceria, apenas, talvez, perdesse um pouco da nitidez e do contraste. Na minha memória ela seria para sempre minha. E é bem isso que eu quero, e espero, e desejo, eu desejo que ela seja sempre minha, do jeito que foi. Mesmo que tenha sido rápido, eu quero viver daquela memória e de nossos instantes. Eu a tenho guardada na estante, emoldurada: exibo como um prêmio. Exibo para mim mesmo: meu prêmio. Eu ganhei amor. Eu ganhei o amor que juro que foi meu e de mais ninguém. Na minha memória, ela aparece quando era minha, quando começou a se entregar. Se entregou no segundo em que cruzou os olhos e o destino comigo: acho, de verdade, que estávamos predestinados, meant-to-be, felizes-para-sempre naquele momento. Eu vou ser feliz para sempre naquela memória. E que se danem os valores morais e viva-o-instante-e-o-agora, eu revivo meus instantes agora: porque preciso resgatar aquela felicidade se quiser seguir. Não que eu vá seguir em frente, eu sigo, seguirei caminhando. E me levanto, e vou até a sala, e acendo o abajour, e um outro cigarro: não há vazio, não há. E troco o café por três-quase-quatro dedos de whisky, por me sentir meio insano sem qualquer motivo aparente: são negadas todas as loucuras escondidas entre as vísceras. Confuso, nenhuma outra palavra me define. E eu vasculho meu vocabulário pobre e ultrapassado, mas nada de diferente encontro. Eu quero um encontro. É isso. Um encontro que não seja aquele em que parei de funcionar como um homem forte e desvencilhado dessa loucura que é se jogar do precipício da dependência na vida de alguém. Porque hoje eu sei que cresci e não sou mais menino de jogar tudo e mais as mãos para o alto e dizer: leva tudo, pode levar! Sem ter a ciência de que tudo poderia ter ficado e eu poderia ter sido levado junto. Os bens materiais são descartáveis, como são as seringas e certas mulheres - em doses exageradas até alcancei alguns encontros: de duendes à ela em corpos morenos e descuidados. Nada arde mais do que o alcance do inalcançável - aquele momento em que se perde toda a lucidez e, de repente, a televisão vira um bolo de aniversário, e uma mulher de calça justa e que cobra caro parece ter aqueles olhos tão amados e aquele beijo tão querido. Deixa eu sentir essa falta. Deixa eu sentir essa falta porque é ela que resgata minhas memórias. E por elas que eu continuo sentado aqui, sem que a sala esteja vazia e as cortinas abertas, e um corpo estirado na calçada. Eu quero um encontro, e não é porque sem ela eu me perdi. Eu já estava perdido muito antes, e nenhum daqueles cílios longos poderia ter me salvado disso. Ela sempre soube da minha inconstância e do meu mal-quer-à-quem-quer-bem. Só não me perca porque você não me vê: foi uma das coisas que eu disse e tanto a machucou. Mas ela não via que o estrago era bem maior, que o buraco era bem mais fundo, e que não era possível tocar, nem diagnosticar. Eu quero um encontro, resgatando isso tudo, percebo que já não me bastam as memórias.
Quand le souvenir s'arrête
Et l'océan de l'oubli,
Brisant nos coeurs et nos têtes,
A jamais, nous réunit.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Muita Paz.

Aconteceu de eu acordar e sentir um peso na nuca e uma dor na cabeça e uma inquietação no peito. E me levantei faltando quinze minutos para o nascer do sol. E caminhei quase me arrastando até o banheiro. E olhei aquele homem devastado no reflexo do espelho: remela olhos avermelhados manchas arroxeadas marcas marcas marcas. Senti na boca o gosto de amnésia: vodka whisky cerveja cigarro gozo saliva. Em vinte quatro horas eu não conseguiria reconstruir as oito da noite anterior. Não sabia a quem perguntar: quem fui o que fiz o que fazer? Se me arrependo? Tomo um banho gelado que faz com que ardam todas as feridas - lavo, inclusive, minha alma. Ainda aguento o peso na nuca querendo me colocar para baixo. Fico sem saber se abro mão ou resisto. As gotas escorrem pelas minhas costas e é quando resolvo me secar com o vento: abro as janelas. Meu corpo me envergonha. Ouço um barulho vindo do quarto e sem saber quem é me escondo. Me escondo por detrás daquela minha cara de nada-me-esqueço. Me visto rápido e corro daquilo. Dou uma olhada nas fotos da sala para ver se me familiarizo com algum dos rostos. E são todos jovens e estranhos e felizes e loucos. Caminho sem olhar para trás pela rua e pego o primeiro ônibus. Me sinto mais pelado do que quando eu realmente estava pelado. E sinto mais frio do que quando eu estava pelado e molhado de janelas abertas para o vento. E sinto um arrepio e novamente o peso na nuca e a dor de cabeça e a inquietação no peito. O gosto na boca permanece o mesmo: amnésia solidão sujeira. Se meus pais me vissem agora saberiam que todas as pragas que me rogaram foram justamente tudo aquilo que agarrei com pernas e dentes. E se lembrariam de como eu fui revoltado na adolescência: fumando escondido no telhado fodendo escondido no banheiro falando sozinho no quarto. Mandaram benzer exorcizar demolir ou sei lá todos os cômodos da casa: de acordo quanto a minha impossibilidade de renascer renovar reviver reparar. E eu me sento ao lado de uma velha. Que fedia e muito. Fedia à sujeira mas uma mais limpa que a minha: formol frango assado cigarro de palha. Ela me olhou meio que com os olhos querendo identificar meu cheiro. O que me deu vontade de dizer: porra você nunca fodeu não? E começar a contar como e quanto fodi não só com os outros mas também comigo. Mas me segurei para não ser desagradável e desci depois de três paradas. Sei lá aonde eu estava. Essas cidades planejadas me deixam perdido. Meu telefone tocou e o número era de alguém querido pois reconheci os três últimos números. Atendi e o convite era tentador de sair para amanhã acordar do mesmo jeito. Eu nem procurava uma forma de sair daquilo. Eu procurava uma forma de entrar cada vez mais. A gente se encontra às três - eu não sabia nem que horas eram. Quando descobri faltavam quinze minutos e fui andando para guardar os trocados para uns cigarros picados ou uma cerveja. Cheguei lá e a música e a vibes e a cerveja e os rostos conhecidos. Fiquei sem saber se fugia daquilo ou se fugia desse pensamento: fraqueza é sempre muita e fiquei. Aqueles abraços saudosos aquelas caras de pena aquelas cara de choque porque não-era-para-você-estar-aqui. Sem saber se por orgulho ou por vontade: a verdade é que ali mesmo eu estava. E pedi uma cerveja e me sentei à mesa. E dei aquelas voltas com os olhos para ver quais eram os perigos e quais eram as soluções. Encontrei contigo. Pelo olhar eu encontrei contigo. E que merda saber que fiz a escolha errada e saber que você soube que eu encontrei contigo ali e não poder evitar e olhar para baixo ou puxar um papo sobre Nietzsche com o cara ao lado. Os olhos que se pertencem sempre se encontram - foi algo que pensei com essa minha cabecinha de aspirante à pensador filósofo escritor qualquer coisa qualquer. Você seguiu para o outro lado e o pedaço de madeira que estava pressionando meu peito ficou menos pesado. E eu até respirei suspirei transpirei dobrado. Consegui me desligar quando enfim já não podia te alcançar de vista. E comecei um papo sobre encontros desencontros reecontros saudade e ausência. Fingindo não estar falando de você toda vez que soltava a palavra amor ou qualquer coisa tão sentimental assim. Não soube desse seu lado tão cruel - e deveria ter tomado ciência disso antes quem sabe assim não pararia nessa de se-me-fodo-é-porque-não-te-esqueço ou se-me-fodem-é-porque-não-te-esqueço porque aí eu pensaria que você não era tudo aquilo de tão perfeito e absurdo e seria tão mais fácil me desapegar dos seus lábios e do seu cheiro. Não soube desse seu lado tão cruel até a hora em que você se aproximou e colocou a mão gelada sobre minha nuca e me beijou a bochecha e perguntou se eu estava bem e não esperou a resposta e saiu andando como se nada ali tivesse acontecido. Como se a gente não tivesse acontecido e porra! você aconteceu para mim! Você aconteceu como acontece de virem as primaveras os outonos: não sei diferençar um do outro nem qual deles é você porque não sei se fui feliz ou triste porque não sei se caio ou deixo florescer. Não sei que tipo de comparação foi essa porque a essas horas não sei nem o que dizer. Você foi e continua sendo não que isso soe melhor. Você não foi como o outono ou a primavera porque por eles a gente espera. A gente espera que eles venham e eu não esperava que você viesse. Eu esperava por você bem no fundo, naquela parte infantil em que imaginamos príncipes e cavalos e roupas brancas bem engomadas e o melhor beijo e o melhor gosto e o melhor desejo e o maior abraço. Mas eu não esperava por você sendo você. Não você sabendo você com seu nome e CPF e olhos amendoados e ombros largos e sorriso imenso. Eu esperava por você como algo que há de vir quem sabe vai ver a gente encontra ou não e aí morre sozinho sem nunca ter experimentado dessa ardência na coluna e desse ar de repente rarefeito. Deus nem sabe o que fiz para merecer aqueles dedos gelados na nuca e três palavras e você me dando as costas e a dor me dando vontade de chorar. A dor da perda é a pior das dores. Porque o perdido a gente não tem como segurar e tentar estancar o sangue e tentar assoprar e fazer quem sabe um carinho. A dor da perda daquilo que foi perdido é semelhante ao sentimento de lidar com o desaparecimento-possível-morte-de-alguém-querido. A gente sabe que foi sem saber pra onde. Sem saber se doeu sem saber se volta. Eu te amei né. Eu te amei pra caralho e acho que essa é a única e melhor conclusão. E antes de eu te dizer isso você já tinha ouvido tanto eu falar que essa porra de amor não existe que isso é coisa de quem fuma muita maconha e não tem forças para trepar com ninguém e acha que amor substitui porque seria tão forte quanto sem precisar do menor esforço físico. Amor pra mim era preguiça. E quantas vezes eu te disse isso...muitas incontáveis vezes antes de tirar minha armadura de super-herói e aquela minha pose de galã americano. Pensando bem sem querer pensar muito em qual rumo tomamos: eu parei quando percebi que te amar era assim tão fácil. Eu parei de dizer e não de te amar. Amor era preguiça e eu odiava me sentir preguiçoso acordando perto das quatro da tarde passando o dia na cama pedindo carinho ficando abraçado sentindo vontade matando desejo. Você sabia exatamente o que fazer pra que eu me sentisse cada vez mais fraco mais dependente mais impotente mais merda. Foda-se o amor, né, é isso que eu deveria dizer agora que te vejo ali do outro lado da rua sorrindo como se estivesse realmente feliz e talvez você realmente esteja e só eu fiquei enjaulado nessa merda de saudade nessa merda de infelicidade nessa merda que é um dia ter dito que ia embora e nisso você mesmo ter ido e eu não. E eu sentado aqui sentado aqui sentado aqui apenas porque pareço não conseguir fazer mais nada além de fingir que não estou te olhando através dessas lentes escuras e desses olhos mareados de lágrimas que provavelmente vão doer quando caírem e vão doer tanto que mais vai parecer que atiraram areia nos meus olhos e pararam pra esfregar. E eu me lembro de quando você disse que odiava essa minha prepotência psicológica e essa mania de achar que sei tudo sinto tudo passo por tudo. E eu tento evitar mas daqui um pouco estou mordendo meus lábios e pensando nisso tudo e querendo achar alguma explicação lírica ou lúdica ou qualquer. E eu resgato no meu leque cultural mil e umas falas e frases e feitos e sei lá, né, dizem por aí que o amor é vermelho. Ou a paixão. Ou o amor. Tá, o amor. E eu penso nisso e eu acho que chego numa conclusão na qual ninguém nunca há de chegar - porque sou um prepotente crônico, se lembra? O amor não é vermelho por ser como uma fruta madura e suculenta. O amor é vermelho porque ele sangra, e muito! O amor sangra muito, hemorragia sentimental: escorre por dentro e por fora. Hemorragia interna e externa fratura exposta. O amor é vermelho porque precede a morte. E vermelho e preto combinam e lembram a salsa a valsa a dicomotomia os antepostos antagônicos as alegorias o que se completa e se desfaz. Eu continuo sentado aqui e você ali do outro lado sorrindo e aposto que sem nem saber o motivo. E de repente eu me sinto meio obcessivo e parece que viramos o jogo porque há tempos atrás eu diria isso de você mas é que hoje me dói tanto. Me dói tanto e é por isso que eu também olho para os lados e planejo minar e atacar algum lugar novo para passar a noite. E passar pela mesma situação de acordar sujo: não quero tomar rumo. Depois disso tudo eu tenho medo disso de tomar rumo seguir em frente mudar de calçada não olhar para trás. Eu tenho medo de tudo para falar a verdade de repente eu me sinto sozinho e não é só de corpo porque quando eu quiser meu corpo arruma companhia. É sozinho aqui dentro e eu sei que não fui eu que causei isso tudo mas eu também não quero te culpar porque eu te quero bem. Eu te quero comigo mas não posso então eu te quero bem. Então fica bem fica bem porque o mal tá aqui comigo corroendo o estômago abrindo buracos dando ânsia de vômito. Eu lembro de quando eu decidi que era você. Eu decidi quando na verdade já estava predestinado pré-datado. Eu decidi que era você e foi quando tudo em volta ficou em silêncio e todo mundo olhou achando que eu havia enlouquecido e até eu achei que estava louco mesmo e que sei lá talvez você tivesse me hipnotizado ou feito em mim uma lavagem cerebral porque era difícil admitir aquele amor. Que amor era aquele? Eu nunca soube só sei que eu escolhi e de repente eu saía por aí saltitando e sorrindo e amando e querendo e saltitando e sorrindo e achando estranho achar que tudo estava sempre tão bem. Foi bem um daqueles momentos em que a gente escolhe a vida. E aí então começam as lutas, e a gente sabe que eu só preciso de você pra vencer. Tenho medo do que você diria se dali você me escutasse acho que diria que estou mais louco do que um dia eu já fui - e você me disse. Você chegou perto e com sua boca avermelhada me beijou a bochecha corada e não quis sequer trocar mais do que três palavras e eu quis você mais perto bem perto tão perto. Mas acho que você tá melhor ali longe. Então fica longe fica longe fica longe - não sei se digo porque devo ou porque quero. Acho que não é bem isso que eu quero dizer não é isso e você sabe a gente sempre soube. Mas fique longe porque está tudo bem. Eu te prometo que está tudo bem. Tenho certeza de que vai ficar tudo bem. Então fique em paz tudo em dobro muito amor muita felicidade muito de tudo vou sentir para sempre saudades. E que porra é essa que eu estou tentando te dizer sem que você me escute? Sem que você queira me escutar? Você pediu tanto para que eu fosse firme e forte: estou sendo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

La Solitudine.

Eu havia acabado de me mudar para Lisboa na época. Eu não só era jovem e corajoso, eu era valente e liberto. Não existiam correntes ou pregos: nenhum metal, nada que contesse ou machucasse. Cheguei lá vestindo uns trapos nos meus um metro e não-lembro-quanto. Garoto-quase-homem de olhos cor-de-mel, cabelos castanhos, destoando, de nariz e bochechas vermelhas, naquele frio de me-abraça-e-me-bota-para-dormir. Não levei muito dinheiro - naquela idade, quem levaria? Quero dizer, talvez uns ou outros, mas não fui criado para ser Doutor - seja lá o que isso, hoje, signifique. Não levei muitas lembranças, memórias ou nostalgias, não queria sobrecarregar meu peito que, mesmo jovem, já chiava e doía. Juntei economias, quebrei alguns porquinhos e narizes e fui. Fui usando daquela teoria do band-aid: arranca-rápido-que-não-dói. Achei que tivesse funcionado. Por muito tempo, realmente achei. Procurei casa, emprego, um bom livro para me salvar. Fui encontrando a tudo - e a mim - aos poucos. Indo e voltando por entre as Sete Colinas: eu vi de tudo. Cada coisa é feita de uma porção de outras coisas, percebi. Percebi que cada uma das coisas - as que vi e as que viria a ver - era feita de extravagâncias e mistérios. Indo sozinho, voltando acompanhando. E indo acompanhado, e voltando sozinho. Fiz bons amigos, boas mulheres: fiz boas histórias. Cheguei naquele ponto em que olhei para a vida, achei que fosse maré, e disse: pode me levar, leva que eu vou. Foi feito um deslize na neve: fluído e macio. Posso dizer até que, no meio daquilo tudo, me encontrei. Aliás, me descobri. Me descobri perdido. O que fez do encontro, um encontro de gala, com direito a valsa e gravata borboleta. Passei mais da metade daqueles anos sofrendo de tonturas ou náuseas e, havia em mim um espiritualidade desconhecida, que me dizia que eu estava apenas colocando tudo para fora. Eu devia mesmo era ter guardado todas as garrafas, e cinzas, e cápsulas, e seringas. Eu me encontrei no meio de um estado de insanidade aguda. Não conseguia enxergar meus braços por debaixo de todas aquelas marcas, ou meus olhos por debaixo de toda aquela solidão-tristeza-insônia. Eu não pensava. E aquilo me parecia felicidade. Não que eu tivesse atingido o nirvana. Eu só havia notado que me corroendo por dentro o dano seria maior do que me corroendo por fora. Um dia, deitado sobre gramado de frente para a Torre de Belém, olhando meio torto para o braço de mar-rio-água-sei-lá, o sol foi encoberto por uma nuvem. Uma nuvem que não era mesmo nuvem, mas que era branca como tal. Branca que nem nuvem e que nem neve. O que não podia ser, porque só eu estava de cabeça para baixo. E a nuvem sorriu pra mim. A nuvem sorriu pra mim! E em meio àquelas alucinações-sensações-tentações, eu enxerguei vinte dentes. Vinte, e eu tive tempo de olhar a analisar cada um deles antes de me colocar de pé e pensar porra-tô-pensando! E olhei aqueles esvoaçantes cabelos envolvendo o rosto da nuvem: de cor tão inflamável. Qualquer coisa boba ou infantil me veio à cabeça, menos que pudesse estar correndo perigo. Aquela mesma espiritualidade tomou conta de me dizer que estava tudo bem. Esteve tudo bem à partir daquele momento. Pensei em mim como um homem ensandecido falando com seres inanimados: convencionalmente ou não, a minha nuvem me respondia. Chegou perto para elogiar a tristeza escrita em meus melados olhos. Perto este, que não foi o suficiente. A gente diz por aí que não se entrega assim tão fácil, mas a verdade é que só admitimos a entrega como feita quando enxergamos as mãos abertas do destinatário. É bem provável que eu já soubesse disso: não teria sido a primeira, e não seria nunca a última. Ou sei lá, quem sabe. O que mais importa são os momentos que vieram depois: sangue pulsando tóxicos, léxicos, Méxicos: Deus me livre! mas não era alucinação! Sei falar mais sobre os detalhes dela como nuvem do que como mulher: lá do alto, e bem de longe, era sombra, chuva, proteção, consolo, inalcançável, desejável. A gente olha e pensa: algodão-doce, e leva anos que ninguém sabe para descobrir qual realmente é o sabor. E a textura, e a maciez, e a temperatura. Mordendo os lábios, a gente olha para ela lá do outro lado e, fingindo estar em segundo plano, sonha com o dia do contato. Tendo me recuperado do estado alucinógeno-sensacional-tentador, eu pude enxergar e relembrar com maior clareza: seu nome eu não preciso citar, nem seu tamanho, nem a cor de seus olhos - amentolados, por acaso -, mas era mulher. Não exatamente daquelas que quebram pescoços e corações pelas ruas. Mas daquelas que conseguem fazer com que você mergulhe em qualquer probabilidade de futuro que venham a oferecer. Ainda a chamo de nuvem - pois sei que ela não me escuta -, porque não pude pensar em mais nada que pudesse substituir ou valorizar aquela visão. E porque, mesmo liberto de todos os espasmos imaginários, ela tinha tudo para realmente ter sido aquele pedaço de paz flutuante. Sua sombra há dois passos, mas ela ainda distante. Não sei bem o que aconteceu entre nós: às vezes parecia algo que se proíbia de ser definido. Eu sei que eu olhava para ela e, da mesma forma, ela olhava de volta. Existia reciprocidade naquela incompreensão de sentimentos e secreções - tudo muito encolhido e secreto. E existia uma facilidade em ser - ainda que não soubéssemos nem o quê. Eu a conheci da melhor forma que pude: de pernas para o alto, fumando um cigarro, dando petelecos nas formigas. Vai ver foi essa minha infantilidade em estar ali, e naquele momento, que a trouxe para perto. Mais velho ela soube que eu não era: era garoto-quase-homem, de olhos maduros, e boca também. Como frutos, como frutos belos e maduros, só que acabados de cair do pé, com dois riscos enérgicos: apodrecerem no chão, ou serem apanhados e mordidos. Ela apanhou, sem querer. Apanhou e quis morder. Mordeu e, sem querer, arrancou o mais pesado dos pedaços: a polpa, o pulso. Sei lá como ou por quê, mas foi preciso uma distância, uma distância maior que o céu. Eu a conheci na minha melhor forma para ela: abandonado. Ela olhava lá de cima e lá de longe. Mas uma hora a gente tem que seguir. Foi quando embarquei para a Itália: homem-já-não-tão-garoto de olhos cor-de-mel, cabelos castanhos, destoando, de nariz e bochechas vermelhas, naquele frio de me-abraça-que-ainda-não-te-esqueci. Nos correspondíamos por cartas, cartões-postais e guardanapos. Correspondíamos aquele nosso sentimento provisório com poemas. Eu me lembrava de um de seus pedidos, meio risonho, em tom de azul-bebê e brincadeira, e em uma de nossas correspondências o obedeci: e essa bolinha de neve, com a cidade - e comigo - dentro, para ser o que você quiser, uma agenda, um diário, um livro de receitas ou uma história de amor. Uma de nossas correspondências, que não cheguei a enviar. A gente guarda as melhores coisas para não perdermos a melhor das reações: aquele beijo que vem seguinte ao encontro. Ou reencontro de quem se achou, e que achou que nunca iria se encontrar. Distanze enormi sembrano dividerci, ma il cuore batte forte dentro me: os segredos que guardamos esperando - no fundo - serem descobertos. Ti prego aspettami perché, eu mesmo quero entregar estes segredos para você.