segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Psicose.
Somos feito uma fina película, e você vai me apertando contra ela - contra nós -, me apertando, me apertando...e aí? E o que você espera de mim? E se ela - a gente - arrebenta? E se de repente ela - a gente - explode? E se de repente, ela, a gente, tudo, virou um estado agudo de psicose?
Entendesse.
Grampearia tuas asas, se ainda houvesse tempo. Feito bomba-relógio - com minha prepotente esperança de que não exploda - vive meu coração. Pouco sei do que houve. Nada sei do que havia. Mas teus olhos me encararam, e eu os encarei de volta. Agora é exatamente aquele momento em que nada sobra: não sei para onde ir. Nem se tu queres que eu vá. Melhor seria nunca sair daqui. Só não sei melhor para quem. Tua solene partida foi como um pedido de espera. Ou não. Ou um vá-para-sempre. Mas para onde? Para bem da verdade, não sei nem se partiu. E tu também não me respondes. Estás fora da área, do perímetro. E eu, agora, fora de mim.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Intérprete.
- Cala essa sua boca, toda essa sua falácia é só solidão.
- Cala essa boca você, todo esse corpo é seu.
- Não desconte seu vazio no meu.
- Não confunda saudade com buracos.
- Não entenda buracos como fins, nem muito menos de poços.
- Posso dizer uma coisa?
- Não.
- Fora o doce da noite, eu poderia olhar em seus olhos castanhos e dizer: te amo meio-amargo.
- Cala essa boca você, todo esse corpo é seu.
- Não desconte seu vazio no meu.
- Não confunda saudade com buracos.
- Não entenda buracos como fins, nem muito menos de poços.
- Posso dizer uma coisa?
- Não.
- Fora o doce da noite, eu poderia olhar em seus olhos castanhos e dizer: te amo meio-amargo.
Passé.
Ainda hoje, foge do meu entendimento o que haveria acontecido naquelo ano para que tivesse sido tão frio e seco. Nunca esquecerei-me da melancolia dos gramados, tomados pelo vermelho-meio-marrom-de-terra, pela inexistência de cores vivas, ou de alguma vida qualquer. Também não esquecerei dos dias em que vi o sol se pôr solitariamente por detrás dos ipês. Quandos as noites chegavam - outra forte lembrança -, todos os pêlos de meu corpo - branco feito leite -, arrepiavam-se, parecendo terem visto um ser de outro mundo. Mas algo em mim era feliz, de uma felicidade extrema e sossegada. Saía para caminhar e assobiar, coberto por um casaco de lã que guardo até hoje. Ainda tem seu cheiro, e olhando meticulosamente, alguns fios de seu cabelo castanho. Não esquecerei das noites que saímos para jantar, beber algumas taças de vinho, reclamar do doce do café, do amargo das palavras que trocávamos - ou que deixávamos soltar pela íris de nossos olhos. Ainda tenho seus abraços guardados na caixola, em um aperto no peito. Tenho seus sorrisos emoldurados, cada um deles pendurado pelas paredes. Saudade, da mais pura e frágil. Capaz de fazer-me chorar feito um bebê desmamado. Não sei o que houve naquele ano, para que pudéssemos ser felizes da forma tão simplória em que fomos. Mas sei que, hoje, olho-te cobrir meus pés à noite, enquanto finjo estar tendo um pesadelo, e penso: estaríamos bem mesmo sem as lembranças.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Encaracolado.
Estávamos à beira dum precipício: ou voávamos ou caíamos. Você tinha asas, disso eu sempre soube. Você sequer precisou me contar. Estávamos naquela fase de jogos psicológicos: se você pular, pulo junto. Mas se você voasse, tinha a certeza de que ficaria para trás. Engano meu. Estávamos com aquela fobia do futuro, aquela nostalgia do que ficou para trás. Temíamos o dia seguinte, com a sutil sensação de que não mais acordaríamos abraçados. Pois, sabíamos, no fundo sabíamos sim, que o encaixe estava remendado, suturado, junto as nossas feridas. Com as solas de nossos sapatos escorregando, olhei bem em seus olhos, como se dizendo, com eles, que você poderia voar e eu ficaria ali, você fosse entender. Tudo bem, talvez tenha entendido - e aliás, prefiro acreditar que sim -, pois você saltou. Bravamente, como se não fosse a primeira vez. Outro engano meu, porque realmente não era. E eu ali, tão firme, levei um susto ao te ver alçar vôo, quando, na verdade, parecia que não iria conseguir - pois chegou a quase atingir o fundo, fundo este que eu não via. E foi quando então escorreguei. E quando você olhou para trás - suponho sim que tenha olhado - eu já não estava mais lá. Deve ter se questionado quanto a veracidade de minhas palavras, pois eu sei que disse que ficaria ali. Tentei, juro. Mas sem você, já havia te dito: a vida era osso. E era bem aqui, no final da queda, que eu pude redescobrir: sem você a vida era, na verdade, poço, e fundo.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Restante.
Primeiro, todo aquele corpo arrepiado. Seus toques e minhas mil peles, que se descamaram uma a uma. Fomos retirando as máscaras, e segura aqui, por favor. Tu eras tão bela de olhar, tão bela no olhar, tão bela do lado de cá. Prendi tantas vezes pelo pescoço, deixei tantas vezes, pela garganta, escapar. O afeto, primeiro. O amor, tão grande amor. Queria-te sempre por perto, logo aqui, ao meu lado. E ainda que, meio inquieta, ficava. Olhando pra mim, querendo-te pra mim, cada vez mais, outra vez mal. Queria pesado: fica porque sei exatamente o que te dói - e que me dói por osmose. Fica porque estamos atados, porque longe, não vivo, rastejo-me, esquartejo-te. Fica senão mata-me, e mato-te em resposta. Espera, logo me acalmo. De olhos pressionados, sobrancelhas arqueadas, tanto faz, não falo sério. Não se assuste. Tudo bem, foi-se. E agora, o que resta? Pra você, toda a minha a ausência. Pra mim, toda a sua saudade.
Ipsis litteris.
O veneno é a cura em excesso.
Por isso acabei assim:
definhado, mal amado, sozinho.
Sem eira,
nem beira.
Sem mim.
E mais dolorosamente: sem você.
Por isso acabei assim:
definhado, mal amado, sozinho.
Sem eira,
nem beira.
Sem mim.
E mais dolorosamente: sem você.
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