domingo, 13 de junho de 2010

Desejo.

O gosto amargo. O gosto amargo não era café. Não era tristeza, nem insaciedade. Tinha o corpo sadio e pulmões pintados de preto - cigarros eram remédio anti-saudade. Falava fluentemente o espanhol. Te quiero, mas não tanto. E misturava os significados. Amava sim, aquele amor marginalizado, escondido entre as dobras das coxas dela. Mas queria longe, inalcançável. Acreditava na essência de baunilha saltando do forno, e também na essência do amor distante. Poderia tê-la sem tocá-la, guardada na única gaveta com cadeado do coração. Poderia querê-la sem sujá-la, com as mãos nos bolsos da calça cáqui. Coração poderia saltitar calado. E o volume abrigado pelo zíper poderia ser apenas acaso. Desejo nunca foi erro.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Doloso.

Como me doía aquela sua aspereza com as palavras.
Como me doía sua distração com os carros da rua.
Como me doía seu telefone tocando o tempo todo.
Como me doía a falta de sorriso em seu rosto.
Como me doía achar ter encontrado outro gosto no seu.
Como me doía sua postura egoísta.
Como me doía não poder te ter sempre à vista.
Como me doía te querer tanto.
E te amar tanto.
E te perder tanto.
Como me doía você.

Sadomasoquismo.

Enviaram-me uma tal carta, sem destinatário, é claro. Pus-me a pensar sobre a necessidade de saber de que mãos vieram. E de que mãos vieram as tantas outras. Talvez o prazer esteja nisso, nessa perda - de identidade -, nessa impossibilidade de contê-la. Talvez também, eu esteja errado. Como estive quanto aos beija-flores que passavam por aqui de manhã cedo. Para mim, que estavam sempre aqui pela permanência ainda do cheiro dela, mas o cheiro ainda não se foi - acredito. E os tais bichinhos nunca mais apareceram. Talvez eles tenham vencido essa parte dolorosa, na qual, feito um feitiço, seguimos instintivamente - e cegos - qualquer rastro. Enfim, deles não sinto falta. Quer dizer, não tanto como sinto a falta dela. A tristeza mais feliz é que o cheiro permanece. Não mais tão forte, mas aqui preso entre os pêlos das narinas, do bigode, da barba. O cheiro dela ainda está preso na minha língua. E é por isso que nada mais sai e nada mais entra. É, e pensando bem, talvez o prazer não esteja na perda. Pois a perda é dor. Se bem que assim, desmereço todo os sadôs, masôs, sadô-masôs, entre outros insanos. Quer dizer...até que um tapa na cara às vezes dá-me a vontade de pedir por mais, e um beliscão dá-me a vontade de ver rasgar a pele. Mas não...não é dessa dor que falo. A dor de que falo não cabe em ataduras, anti-sépticos, elixires de mil coisas, florais, massagens terapêuticas. A dor de que falo mal cabe na fala. Foi inventada para ser calada, no máximo gemida, dor contida. A dor presa entre as extremidades de um corpo. Excitada a ponto de querer sair pelos poros, em forma de choro e de noites mal dormidas. Essa é a dor conquistada pela falta, pela saudade, pelo prazer de martirizar-se pelo que não se pôde segurar com as mãos. Está bem, estou mais do que convencido. Dor é prazer. Mas como defino a saudade?

sábado, 5 de junho de 2010

Terceto.

Apertou meu pescoço e perguntou: e agora, tá doendo?
Silêncio.
(Nos) deixe pra lá.

Pique-nique.

Não tenho uma lembrança clara de como foi que te conheci. Talvez numa tarde nublada, enquanto, andando pelo parque, deparei-me com seus mil sorrisos aproveitando um pique-nique. Talvez em um Sábado à noite, quando decidi sair para espairecer e acabei por encher a cara. Mas lembro de ter reparado escancaradamente no formato meio gozado de seu rosto. Suas bochechas sinuosas, seus lábios finos, seu queixo pontudo. Pensei que talvez, pensar que seu rosto fora um erro, fosse muito extremo. Mas não pude evitar. A falta de sintonia de suas partes fazia um escândalo em frente aos meus olhos castos. E eis que resolveu soltar a voz, e eu quase pedi a Deus que te levasse embora. Mas você foi ficando, e chegando perto, e deixando que passassem os anos. E de repente, ver-te já não era mais tão estranho assim. Eu até comecei a ver graça em seus lábios fininhos fazendo volume com os meus. Até comecei a achar bonitinhas suas bochechas coradas de sol, e seu queixo cutucando meu braço para receber carinho. E fomos deixando mesmo que passassem os anos. E eis que resolveu guardar sua voz, e agora eu chego a pedir a Deus que a traga de volta (e te traga também).

Quem Sou Eu?

Mas juro, juro por mim mesmo. Ah, não vale? Vale o quê então? Tá bom, juro por mim mundo, assim, eu e o mundo inteiro, então, continuando, que quando eu era assim, só metade de mim, quero dizer, quando eu era miúdinho assim, ainda meio desengonçado e monossilábico, meio assim, como eu não sou hoje, eu sabia exatamente quem eu era. Era assim, meio calado assim, meio silêncio com poucos cabelos e muita inocência.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Queda.

Atravessava a avenida, sinal aberto para os carros. Atravessava a ciclovia, e o rapaz despencava da bicicleta. E eu parado na calçada. E eu parado na calçada. E eu parado na calçada. Feito essas palavras, nossa vivência se repetia. Esquece as balas perdidas e o que sobrou do pó, queria porque queria subir o morro. E ainda me dizia: ei, não fique parado na calçada. E atravessava a avenida, e corria à beira-mar. Queria atravessar o mundo a nado, e eu não queria sequer sair do lugar. Esquece as seringas e essa pequena poça de sangue, queria porque queria aprender a voar. E ainda me dizia: ei, não fique parado na calçada. E eu não tive o tempo de dizer: ei, fique parada no parapeito. Eu só soube dizer: ei, como era difícil te amar.