sexta-feira, 14 de maio de 2010

Mórbida.

Se não houvesse escutado sua voz, sua tão doce voz, talvez cutucasse algum de seus ossos pontiagudos. Se não fossem as sardas, as pequeninas sardas em volta do seu nariz, provavelmente checaria seu pulso. Pálida, esquálida e um pouco firme demais, foi assim que te vi quando vi pela primeira vez. Mal movia os pulmões, talvez querendo respirar escondido. Mal abria os olhos, mal fechou as pernas. Pude sentir suas orelhas geladas, encostar nos seus pés contraídos por detrás dos sapatos. Ah! mas como você era bela, como você era tão bela! Chegava a parecer uma boneca presa em uma cela de plástico, e me dava a curiosa vontade de trocar suas roupas, pentear seus cabelos, e roubar o movimento de seus braços. Ah! mas como você era morta, como você era tão morta?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Infinito.

Estava à espreita quando ela passou por mim. Com aquele seu olhar dialético, aquele seu andar torto, aqueles seus olhos estrábicos, queria sabiamente levantar poeira. Mas sequer houve brisa. Sentado à mesa de um boteco, eu segurava forte meu copo, e fazia gargarejo com o líquido loiro. Meus lábios positivamente arqueados passavam a ligeira impressão de não estar ali desacompanhado. Mas lá eu estava, feito pipoca que caiu do saco, feito goma de mascar que perdeu o sabor. Se fosse burro, culparia a idade. Mas não que isso venha ao caso. Como estava dizendo, ela passou por mim e eu pude então admirá-la como algo concreto, mas nada palpável.

domingo, 9 de maio de 2010

Feliz Aniversário.

Escutava o som desde a virada da esquina, aquele tchururu quase reconhecível. Ia caminhando lentamente por entre os carros mal estacionados, chutando as latinhas de cerveja que encontrava pelo chão. Parecia despreocupado vestindo aquele suéter bordô, passando os dedos por entre os fios de seu cabelo encaracolado. E ia assim mesmo, caminhando lentamente por entre os carros mal estacionados. Quando alcançou a escadaria que dava acesso para a porta, sentiu uma fadiga intrusa, feito um alerta, e encostou suas costas ossudas no corrimão. Alcançou o último de seus cigarros, mentolado, para fazê-lo esquecer-se de seu hálito azedo. Ansioso, esperou que cada uma das milhares de substâncias tóxicas queimassem. Apoiou-se em um pé só, coçou a nuca - era o que fazia na beira de um ataque de nervos -, e tornou a mover-se lentamente, agora subindo os degraus. Com calma, alcançou a maçaneta. Com medo, girou-a. E o tchururu agora era feito um amigo íntimo, e pôs-se a acompanhá-lo com as mãos. Olhou todas aquelas pessoas que, elegantes, sorriam no ritmo daquela intimidade. Olhou aqueles balões bem dispostos pelo ambiente, aqueles copos vazios, aqueles corpos pela metade. E no meio daquilo tudo ali, daquele nada aqui-dentro - pensou -, viu-a batendo palmas, gargalhando abobada e sendo admirada por vistas alheias. Aproximou-se com cautela, achando que talvez não fosse ser reconhecido por aqueles olhos debutantes, chegou perto de seu ouvido e disse desejar-lhe todo o bem dessa vida - doeu-se, por ser de todo mal.

terça-feira, 4 de maio de 2010

No Caminho.

Chamava-me de visitante, dizendo que eu havia vindo, mas nunca para ficar. Olhava-me esperando que eu abrisse a porta, e num segundo qualquer, sumisse dali. Olhava-me assim achando que eu não soubesse, mas a desconfiança era gritante em seus olhos fitados nos meus. Gostava de assustá-la balançando as chaves e alcançando o casaco detrás da porta. Mas o que conseguia era seu sorriso apreensivo apoiado em seus lábios trêmulos. Nas noites de monotonia plena, queria sentar-me ao lado dela e dizer cheio de um cinismo ébrio: apaixonei-me por outra, mordendo-me para saber se daria-me um tapa com uma de suas mãos finas ou diria-me vá-em-frente com sua voz de violeira mansa. Mas continha esse meu desejo sádico de vê-la doer-se um pouco, e abraçava-a com meu corpo carente de sol.

domingo, 2 de maio de 2010

Aninha.

Quando conheci Aninha, ainda chamavam-na no diminutivo, ainda tinha a pele casta e ainda catava caracóis no jardim. Quando apresentei-me a Aninha, chamava-a de nomes chulos, desentendia a castidade de sua pele e zombava de seus caracóis. Quando apaixonei-me por Aninha, chamava-a no diminutivo, desejava a castidade dela toda e procurava abrigo nos caracóis de seus cabelos. Quando perdi Aninha, chamava-a de amor.

Anti-Heróico.

Estava toda ela lá, imprevisível com seus punhos fechados e seus lábios entreabertos. Estava metade de mim junto, repetitivo com meus pés contraídos e meus pêlos arrepiados. E daquele pequeno espaço, daqueles seus ainda mais pequenos lábios, saía uma estranheza gemida, quase gritada. E meus pêlos, feito antenas, enrijeciam-se para captá-la. E respondiam, salivados. Estavam seus punhos e meus pés lá, incontroláveis com suas cãibras, e meus punhos e seus pés, insaciáveis com suas perdas.

Pensando Alto.

Lembro-me dos grandes acontecimentos de minha vida. Meu nascimento: branco. Minha formatura: branco. Meu casamento: branco. Meu grande amor: translúcido.