segunda-feira, 29 de março de 2010
Tato.
As rimas de seus beijos eram pobres. Seus lábios tinham cor de fruta seca. Na ponta do nariz, um pouco de pasta de dente. Punha-se a pentear-se frente ao espelho, alguns fios desprendiam-se e caíam no chão. Checava a porta fechada, ajeitava a cortina, procurava abrigo na manta azul-bebê. Abraçava meu tronco gelado, esquecia-se da luz acesa. Apertava-me a bochecha, roçava os olhos feito uma criança, e fechava-os. Seu poema tinha um gosto diferente.
domingo, 28 de março de 2010
Roxo.
Passou com a cesta de pães, foi direto para a cozinha. Observou-a, respirou-a, enquanto sentado na simplicidade de suas vidas. Em tempos, que pareciam sequer terem existido, estariam sentados em um gramado, esticando uma toalha, suspirando-se. E ela acenderia uma vela, e ele tragaria um poema. E naqueles tempos, estariam os dois sentados em uma vida que fugia dos dicionários, e das línguas, e de todo o corpo. Ela voltou da cozinha, penteado mal feito, migalhas na gola da blusa, sentou-se ao lado dele. Mornos, eram mornos agora. Ele olhou para Drummond despencando da estante, e a poeira que cobria Bandeira. E então voltou-se a observá-la, e ali, na mesma estante, estava emoldurada a certeza daqueles tempos. Enquanto cutucava as cutículas, pediu que ele ligasse a televisão, obedeceu. Observou as cores refletidas na retina dela e forçou um aconchego. Ela não queria, o calor era demais, mas este, só do lado de fora. Desiludido, cedeu algumas palavras: "Quando foi que perdemos o romance?".
Dias.
Alegra-me os dias de uma forma tola, feito fosse um banho de chuva ao fim de um Domingo, feito fosse o sabor adocicado no último gole de café. Sentar-se sob uma árvore em um Domingo ensolarado, degustar do café amargo, ter além das canetas e papéis, as palavras. És silêncio em forma humana, e falas demais. Não vou a chuva temendo um resfriado, prefiro a borra de café aos cristais de açúcar. Afastei-me do papel, caneta apoiada em cima da orelha, os óculos dão a mim o direito de um retrato em preto e branco. Ironicamente tristonho. Alegra-me os dias e dias apenas.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Meia-noite.
Falavam-me dela, enchiam o peito de ar e a boca de admiração. Ela teria de ser o que há tanto nada havia sendo. Comentaram sobre sua postura, a cor de seus cabelos - tingidos pelo litoral -, a tonalidade de sua pele - esquecida pelo sol -, o oceano de seus olhos - ressaca acumulada de vinte anos destacada por profundas olheiras. A mesa estava posta, a cristaleira parecia ter sido saqueada, da cozinha vinha o cheiro nostálgico de infância e na mesa de centro estavam dispostas as garrafas. Primeiro veio o interfone, e então os olhares ansiosos. Depois veio a campainha e o tapa nas costas. Trancas e mais trancas, eis que a maçaneta girou. Empurraram meu coração até a boca, segurei-o. Eis que ela entrou, com saltos altos e mascando chiclete. Ali então estava ela. Olhei-a uma vez. Arrisquei uma segunda, depois uma terceira, logo depois a quarta e a quinta. Foi quando olhei-a - de novo - e tive a certeza: era amor à nenhuma vista.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Sabiá Nada.
Não havia nada mais belo do que a barra de tuas calças molhadas de chuva, ou teu cabelo respingando de suor. Havia te conhecido num passado remoto, no qual passastes rapidamente por mim. Havia toda aquela coisa e aquilo tudo mais toda vez que te via. Sempre esbarrava contigo em sonhos, fazia questão de vê-la irritada, preocupada se havia amassado a camisa de seda. Adorava sentí-la enfraquecida e pequena quando gaguejava em público. Ria de sua incontrolável vontade de estar sempre intacta e engomada. Sentia frio ao escutar sua voz mansa, e teu suspiro ansioso. Amava teus fios de cabelo desgrenhados ao fim de mais um dia, e como disfarçava-os com um coque. De todas as vezes que tentei falar contigo, fingi-me mudo, ou tê-la confundido. E o desconcerto era só medo de virar e propor: Ei, vamos tomar um café?
E talvez, mais umas horas depois: Ei, vamos passar a vida juntos?
E talvez, mais umas horas depois: Ei, vamos passar a vida juntos?
terça-feira, 23 de março de 2010
Balde.
Silenciosamente, ele sentava a seu lado para observar a presença da outra que estava logo atrás. Repousava cuidadosamente a cabeça em seu ombro, e através de seus cabelos negros, que permitiam-no ser discreto, entreolhava a vemelhidão pulsante dos lábios dela. Seria fraco se não fosse homem. E teria pudores se não fosse cretino. De forma alguma marginalizava o ombro no qual repousava, tinha calor e espaço, mas sabia que poderia encontrar o mesmo em tantos outros, inclusive naquele que, por detrás deste, salientava-se na blusa ligeiramente caída. Aquele ombro, em que aquecia-se e cabia-se, era uma chaleira com água morna. O que estava logo ali atrás, era um balde de água fria, que acordava-lhe e enfraquecia-lhe as pernas.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Desata-se.
Por muitas vezes, quis que quisestes-me mais. Por tantas outras, não quis e foi quando quisestes. E olhava-me com aquela cara debochada, como se meu querer fosse guiado pelo teu, como se já não bastasse ter-me na palma da mão e na ponta dos pés. E então olhava-me com aqueles olhos estúpidos de sono. E beijava-me com o frescor de hortelã. E era quando amassava os lençóis e disfarçava a lentidão de nosso sono. Quis eu não ter querido tanto, pois queria mais do que era-me cabível. Desentendia a volúpia que faltava em sermos nós. E de nós em nós, finalmente desatados. E foi quando nada mais queríamos. E não olhava-me mais.
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