domingo, 21 de março de 2010

Poeira.

Quinas, haviam muitas quinas. Haviam quinas em tuas palavras, e esquinas em teu modo de falar. Afiava e logo desviava. Diria beco sem saída, se não soubesse como voltar. Ou não diria nada, já que não sabia exatamente o que dizer. Meu coração agora sofria de escoliose, pesava para um lado, talvez de todos o mais escuro. Minha coluna agora sofria de problemas cardíacos, e quando não era de meu agrado, parava de funcionar. Sobrava-me a velha relação com a poesia, nunca amena. Dela usei para escrever-te uma carta, na qual nunca mais encostei. Minha parte intocável era a parte na qual a tinta escorria pelo papel, e era também minha parte louca. Sanidade nunca estivera nos planos. Tu nunca estivera nos planos! Rasgo-os, como no passado rasguei a tantos. Uma vez tocastes-me o intocável, na ousadia de abrir minhas gavetas. Assustei-lhe, querida? Se não ousastes tanto, nunca saberias que eu era poeira.

sábado, 20 de março de 2010

Spring.

- Já esteve apaixonada?
- Não sei.
- E o frio na barriga?
- Cubro com um casaco de lã.
- E o para sempre?
- Acaba.
- E as borboletas do estômago?
- Nunca.
- Nunca sentirá?
- Nunca.
- Acreditas que um dia há de sentir?
- Nunca.
- Por quê?
- Não quero.
- E o que há de ser sem elas?
- Eu.
- Você?
- Tão somente.
- Nunca quis sentí-las?
- Nunca.
Calaram-se. Olhou-a, apático, estava perplexo. Ela não sentiu incômodo. Sofria de insetofobia portanto, morreria sozinha.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sutileza.

Estava de olhos tampados, tampados pelas mãos de outra, mas quis olhar. Pedi licença, e que alcançassem meus óculos. Agora eu era míope, míope apenas. Equilibrando um garrafa na mão, ou uma mão na garrafa, observei-te de perto. Foram teus olhos cor-de-ventania, e tua cicatriz apontando singelamente por debaixo do queixo. Tuas mãos eram frias e ossudas, e tua voz encantadora. Escondemo-nos por detrás de uma ligação telefônica, por detrás de um passeio noturno. Enlaçamo-nos depois de algumas garrafas de vinho, que então caíram e ecoaram. Pedimos por sigilo, agora só peço por silêncio.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Não Há.

Brasília, de tantos poucos anos, dá-me tontura e náusea. Neglicencia-me a alma, que há tanto perdi. Doei-me, de forma sincera. Doeu-me, embora pareça falso. Andei por aí descalçado, na falha tentativa de manter os pés no chão. Balbuciei vontades, feito um episódio de selvageria densa. Boiei, no lago incolor da saudade. As lágrimas tendem a um gosto salino, mas meu paladar pede pelo amargo. Amargura essa que levou-me daí. E agora sinto que sentir é vago, mas sinto. Sinto-me meio perdido, quase perdido e meio, mas de uma forma que, de alguma forma, eu vá me encontrar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Abandonar-te.

Na porta, fostes retrato.
No consumo, fostes ilícito.
Na parada, fostes queda.
Em escalas de cinza, fostes trancada.
Em alta dosagem, fostes convulsiva.
Em liberdade, fostes aprisionada.
Em mim,
Em tudo,
Em silêncio,
fostes abandono.
Nada mais.
Nunca mais.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ora Essa...

Estava presa na garganta a vontade de dividir contigo algumas palavras. Soltei-a portanto, lentamente. Primeiro prendi-a no pulso, e então deixei que escorregasse da caneta até esta folha em branco. O percurso foi árduo, algumas palavras desencontraram-se. Havia tanto a ser divido, mas sobrou-me o "Como estás?". Mas vai ver, bastasse-me apenas dividir isso, essa vontade estranha de saber, de saber-te. Por onde andas? Por onde andas que não te encontro mais? Não que eu tenha procurado, mas não que, se tivesse, teria encontrado. E não que...esqueça. Nesta tentativa frustrante de dividir palavras, individualizei sentimentos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ausência em Algodão e Poliéster.

Segurava uma sacola nas mãos. Nela, havia muito mais espaço vazio do que conteúdo. O céu ameaçava um temporal, a ventania irritava os oceanos. Caminhava pelo mesmo caminho no qual havia caminhado por tantas madrugadas. Sabia-o de cor, quase salteado. E de tanto sabê-lo, parecia tê-lo esquecido. Estava firme, punho fechado, evitando que a sacola escapolisse e caísse no chão enlamaçado. Nela, havia um casaco, branco que nem nuvens em verão. Ainda tinha o mesmo cheiro, aquele de primaveras passadas. O casaco deveria ser entregue, mas sem muitas delongas, apenas deixado debaixo de um banco, feito em um filme de suspense. Parecia mais tragédia, mas a sacola guardava uma pista. Uma vaga lembrança. A cena final. Caminhava reparando nos que passavam, todos estranhavam sua mão avermelhada, e suas veias saltando do pulso, segurava com a força do abandono. Segurava uma ausência em algodão e poliéster.