segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Calle.

Quando desembarquei em Buenos Aires pela primeira vez - nesta vida -, deparei-me com um céu cinzento. Achei, primeiro, que minha visão estivesse corrompida pela fumaça de meus pulmões. Achei, segundo, que deveria parar de fumar. E entre achismos e nuvens tristonhas, acendi meu primeiro cigarro em território estranho. O céu dizia-me que já havia passado das seis da tarde, mas o relógio entregava o erro, duas horas e alguns quebrados. Carregava uma mochila nas costas, e nela, uma muda de roupas para entregar-me a vida. Resolvi sair a desvendar o cinzento preso ao chão. Centenas de edifícios, jovialmente envelhecidos, que sussurravam passados em meus ouvidos. Ao entardecer, sentei-me na pequena escada do Cementerio de La Recoleta para familiarizar-me com as palavras que escapavam das línguas que desconhecia. Uma língua despertou-me a atenção, e sequer palavras deixou escapar. Mas familiarizei-me com ela ainda assim. Assisti-a suavizar a secura dos lábios que guardavam-na, e esticar-se um pouco para alcançar o canudo disperso em seu copo plástico. Quando desembarquei em Buenos Aires pela primeira vez - nesta vida -, fui com a coragem de abandonar a poesia que cabia a mim enxergar nos outros. Mas chegando lá, percebi que talvez, a poesia tivesse sim aqui ficado. Mas na muda de roupas que levei comigo, ainda restava uma mancha insistente de solidão.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Falso Poeta.

Encondi-me dentro de tuas olheiras, e evitei-me no teu cansaço. Olhava-me torto, quase que desconfiado. Tossia escassas palavras, e evitava-me no silêncio de um beijo mal dado. Sorria com a mesma frequência em que chegavam os invernos. E pausava-me as batidas a cada gota de chuva que caía. Despreza-me? Pois bem. Desmereça o que nunca pôde ser, e que foi a ti liberto. Então vá, vá e pise em teus próprios calos. Porque se tu não fostes capaz de fazer-me feliz, nunca terás como fazer-me triste.

Poética Dialética.

Não há tempo para reconstruir-se. Apenas para interditar-se.
Então pare e lacre-se.
Largue-se.
Nas mãos de quem perdeu os dedos.
E jogou os dados.
Entre palmas,
entre almas.
Entretanto,
entre( um )pouco,
e fique por alguns instantes.

Leminskando.

Quando boca sabe-se boca,
vai à Roma.
E quando boca vai à boca,
prolonga-se o
t
r
a
j
e
t
o.
E quando boca, de alguma outra,
procura Romas a serem vistas,
é porque boca,
de secura pouca,
precisa de um boca à boca
para enfim
r
e
s
p
i
r
a
r.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Texto de Bem Te Quero.

De maquiagem borrada, tenta esconder-se do bom dia solar que atravessa a janela. Sonolenta, amansa-me as costas e o peso. Por tantas vezes, segurou meu corpo mole, sem endurecer-lhe o coração. Pela madrugada, aperta-me a vida contra a parede. Divide a cama como quem divide as dores, e amansa-me. Deixa que eu desperte para então despertar-se com um sorriso. Sábias palavras que tantas vezes disse-me, sábias vezes em que escutei. A vida é a mesma rua, sem bifurcações. Sonolenta, desperta-me o carinho. E com os olhos borrados de preto, colore-me os dias.

P.s.: Capuccino é o mínimo que posso lhe dar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SQS.

Amei seu amor errado. E cheio de certezas, amei seu amor incerto. Com fios crescendo debaixo do queixo, apoiava meus olhos em tuas pernas que, libinosamente tortas, faziam-me perder o equilíbrio. Já com o rosto coberto de um manto grisalho, de olhos cansados, e libido exausta, encontrei-me farto de amar seus amores e suas diversas faces. Não pude acompanhar a disritmia de tuas batidas cardíacas. Porém assisti o retardamento das minhas. Descompasso. E passado o tempo que passou por nós, desconcerto. Era irreparável o falecimento de amor em nós.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Msn na Madrugada.

- Sabe qual é a forma ideal de amor?
- Fale.
- Amar as estações da pessoa.
- Prossiga...
- Eu amei aquele menininho boboca que me puxava os cabelos. Apaixonei-me pela forma como ele fazia-me doer e depois tirava sarro. Amei a gargalhada e a forma como ele engolia a saliva depois. O amor mais...amor, é acompanhar as estações. É amar quando esse menino escreve a primeira carta de desculpas. Quando ele entende que meninos e meninas podem ser amigos. Quando ele começa a carregar os livros. Quando ele começa a escutar as mesmas músicas que eu. Quando ele começa a ter minha mania de usar "mas não é?" no fim das frases. Entende? É amar desde as flores brotando até as folhas secas caindo...