terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Metrô.

As luzes das lâmpadas pareciam movimentar-se mais que o trem. Submerso estava eu. No meu silêncio, na minha quietude revogada. Meu destino era qualquer um, e eu ia e vinha como se não saísse do lugar. De fato, não era eu quem saía. Nem muito menos era o trem. Nem muito menos eram as luzes. As pessoas que saíam, dos lugares que sequer eram delas. Saíam, como se soubessem seus destinos. Como luzes com a certeza de serem refratadas. Imóvel era eu, não os trilhos. Eu precisava daqueles ires e vires para virar-me para mim. Independente da velocidade do trem, dos passos, veloz era o tempo. E fazia tempo que não dava-me o tempo. Ele havia atropelado-me. Via em meu rosto as cicatrizes, eram rugas, eram linhas, eram desorganizadas. O tempo tratou-me com repúdio, mas fui eu quem tornou-o inexistente. Sentado e sozinho, sozinho e acompanhado. Sempre estive sentado junto ao tempo. E o tempo sempre esteve comigo e desacompanhado. Na falta de Deus, fiz uma prece ao tempo. Fiz com pressa o meu tempo. Tempo todo meu. Nas minhas idas e vindas, ele ia e ficava. Ia e continuava. O tempo prolongava-se nas linhas do meu rosto, e descia até meus pés. O tempo deixou-me torto, assimétrico, enfraquecido. O tempo deixou-me qualquer coisa, mas nunca deixou-me só. O tempo chegou e vai comigo. Nas minhas idas e vindas, até que numa dessas idas, eu deixe-o só, para contar aos outros, o tempo que foi meu e ficará para eles.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Investimentos.

Não hesitei em quebrar meu cofrinho para comprar uma boneca. Hesitei muito menos na hora de comprar uma casa à beira-mar. Acrescentei cores e varandas. Comprei quadros e objetos de utilidade nula. Presenteei-me com três carros antigos. Nunca sequer aprendi a dirigir. Cansei da brisa e do cheiro de mar. Comprei uma casa no campo. Acrescentei três andares e um labirinto no jardim. Quando o gramado tornou-se cinzento e mórbido, mudei-me para as montanhas. Acrescentei mais dois metros de altura, para um gostinho de céu. Como era frio e amargo! Banhei meus cães a ouro, comprei 700m² no céu. Mas nada nunca custou-me tão caro quanto seu amor.

Jô.

Maria era feito um buquê de flores brotando em meio a neve. Tinha tanta força, tanto movimento. Maria era um mar cor de fogo, cujas ondas quebravam em meus olhos. A felicidade de sua visita - sempre tão inesperada e desprentenciosa -, deixava-me bobo. Maria pegava fogo e era eu quem queimava. Queimava-me os olhos que, miúdos, tentavam vê-la além do horizonte. Ela fazia-me ver além, e então eu via. Via sol nascendo quando chegava a noite, e via Maria abrindo os desfiles de carnaval fora de época. Maria era roda-viva. E então sentávamos para vê-la rodar.

Quintas.

Deixei Lisboa ontem à noite. A cidade, sua arquitetura, as pessoas, tudo, exatamente tudo me prendia lá. Queria minha liberdade, e precisava dela. Vendei-me e parti. Sem sequer olhar para os lados. Sem sequer me despedir. São 18:18 segundo o horário de minha cidade. Como quero ver Brasília! Como quero ver doer meus olhos com aquele céu. Espero encontrar-te logo. Um abraço apertado.

Cá.

Tinha nome de ator de filme americano, tirava-me o fôlego só de vê-lo passando de mão em mão. Queimava repousado nas bocas, e seu gosto escorregava tranquilo até os pulmões. Era branco feito a paz pós-vida que eu imaginava, e filtrava mais que a metade das impurezas que continha. Era seco por dentro, feito mata queimada. Acalmava tanto que fazia-me inveja. Tirava-me o sono e o apetite. Tinha uma presença esnobe, quase sempre mal-vista ou proibida. Muitos abandonavam-no depois de algum tempo, como se nada de bom houvesse dado. Desmereciam sua - tão cobiçada - companhia para um café. Carlton era um rapaz de poucos amigos.

Faltando Um Pedaço.

Passei toda a minha vida a idealizá-la. Passei toda minha vida, a esperá-la. Vida veio, vida vem, vida vai-e-vem. O mundo, feito um bambolê, escapava-me pela cintura. Passei todos os amores, a esperar pelo próximo. Passei todos os amores, esperando amar. Amores vinham, amores vêm, amores de Zé-Ninguém. Chegava a idade, e a hora de dormir. Passava todos os dias, esperando pelas noites. Passava todas as noites, sonhando com os dias. Dias vinham, noites também. E o mundo, diferente de um peão, girava sem que eu desse corda. Cheguei à infância aos meus quase cem anos. Brincava com o mundo seguindo minhas próprias regras. Passei todo o tempo a esperá-lo, mas o mundo já estava aqui antes de mim. Cheguei a ele passando por um canal escuro. Era o caminho direto do céu ou de alguma perdição.

Gabriela.

Em uma dose extravagante e estupidamente gelada, Gabriela levava-me à loucura. Levava-me para passear pela praia durante a madrugada, e a acreditar que os eixos eram mar. Na dosagem exata, Gabriela levava-me para ver as estrelas. Quando abusava de seu sabor adocicado, Gabriela fazia-me adormecer por lá. Abandoná-la dava-me fome. E a fome dava-me nojo. Gabriela era prefácio do enjôo. Mas sua companhia havia sido a melhor até então. Gabriela tinha o cheiro da noite, e era durante as noites que por ela saía a procurar. Ah! Gabriela...de todas as mulheres, nenhuma fora como ela. Pura poesia era aquela, minha Gabriela Cravo e Canela.