domingo, 8 de novembro de 2009

Dias de Chuva.

Talvez se fossem fluentes em francês, aquele momento tornasse-se mais poético do que triste. O céu derramava gotas frias de chuva. Os olhos dela derramavam gotas quentes de choro. Ele não sabia colocar em palavras, não sabia explicar porque seus dedos não entrelaçavam mais com os dela. Não sabia como dizer-lhe que já não preenchia mais seus sonhos, que suas noites haviam tornado-se perturbadoras e agitadas, que antes acordava cheio de amor, e agora acordava suado e exausto. Ela dispôs-se a escutar seu silêncio, uma explicação covarde. Não mais escutava, ao fundo, as notas de uma valsa, agora só escutava os trovões. O para sempre estava sendo prorrogado para mais tarde. Consolou-se lembrando dos vários sorrisos que já havia dado a ele. Agora dava fúria no formato de raios.
- Amamos menos na chuva.

- Eu faço o céu abrir.

- Deixa chover.

- Já não está chovendo aqui.

- Está chovendo em mim.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Paternidade.

Quando pequena, sentada no colo de seu pai, sentia-se protegida de todos os males, como se nenhum monstro ou bicho-papão pudesse alcançá-la. Crescida, sentada ao lado de seu pai, sentia-se suscetível a todos os males, como se um raio só caísse com a certeza de cair duas vezes em um mesmo lugar. Seu pai tinha ganhado alguns traços de velhice prematura, perdido um pouco do ar protetor. Agora, parecia sabido e experiente, mas incapaz de carregá-la para sua cama quando ela acordava atordoada com um pesadelo. Os pesadelos, com os anos, tornaram-se mais frequentes, especialmente quando acordada. Antes, sentada no colo de seu pai, encostando sua cabeça na dele, imaginava a vida como um belo sonho, calculado e perfeito. Depois de conhecê-la mais de perto, via o quão devastadora poderia ser. Sentada ao lado dele, reparando em suas marcas de expressão, via marcas da vida. Não eram tão fortes os rastros de sorrisos, não tanto quanto os de preocupação. Tivera tanto medo de seus monstros infantis, que esquecera dos monstros alheios. Todas as vezes em que acordara aos prantos no meio da madrugada, estavam marcadas no rosto de seu pai. Que agora, ali sentado, procurava descanso. Sugerindo que ela deveria procurar outro lugar para proteger-se.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Café e Cigarros / Explicação.

Em um dia nublado, dividiríamos o mesmo pedaço de teto para protegermo-nos da chuva. Trocaríamos um ou dois olhares, depois três ou quatro palvras. E então pediria por meu número. Eu agiria como se achasse estranho, fingiria hesitar um pouco, mas depois entregaria o cartão - que um dia virei a ter. Ele diria que ia ligar-me em breve. Eu fingiria que não ia ficar contando os segundos para isso. Despediria-me dizendo que a chuva tinha diminuído - até mesmo se tivesse aumentado -, e sairia, elegante, para cumprir meu trajeto. Grudaria-me ao telefone, fingindo estar esperando uma ligação do trabalho. E toda vez que ele tocasse, meu coração encontraria minha boca. Quando eu não reconhecesse o número, deixaria que tocasse três vezes, enquanto eu ensaiava minha voz mais esnobe e sensual. Eu atenderia e fingiria não saber de quem tratava-se. Pediria que aguardasse um minuto, pois estaria, imaginariamente, ocupada com alguma coisa. Depois retornaria ao telefone, falando com pressa, parecendo desinteressada. Ele iria propor que saíssemos para jantar, eu diria que para mim era melhor um café no fim da tarde. Eu desligaria no meio de sua última frase e partiria para o shopping, tendo acabado de notar que precisava de roupas novas. Estouraria meu cartão de crédito com apenas um vestido e um par de sapatos. Iria ao salão, tendo acabado de notar que meu esmalte estava desbotando. Faria as mãos, os pés, um novo penteado. Sairia de casa mais cedo. Ficaria sentada no carro até ver no relógio meus vinte minutos de atraso. Ele estaria esperando ansiosamente na porta do café. Extremamente tímido e arrumado. Cumprimentaria-o com um beijo rápido na bochecha, fingindo estar em uma ligação importante. Sentaría-mos na varanda, e faríamos, sem olhar no cardápio, o mesmo pedido. Tomaríamos um capuccino com leite desnatado e raspas de chocolate meio-amargo. Descobriríamos que fumávamos o mesmo cigarro, e quando os dele acabassem, eu cederia alguns dos meus. Demostraríamos interesse pelos mesmos livros e filmes. Reconheceríamos a música que tocaria ao fundo, comentaríamos ser uma daquelas impossíveis de viver sem. Nossos goles coincidiriam. Avisaria-o que estava com um pouco de leite no canto esquerdo da boca, ele não entenderia e eu teria que tomar o gigante passo de limpá-lo com a própria mão. Ele agradeceria meio sem graça. Eu comentaria de suas bochechas rosadas e logo meu celular tocaria. Eu atenderia a ligação, riria na altura certa, com toda graça e cuidado para não parecer escandalosa. Ele ficaria a encarar-me, eu fingiria não perceber. Desligaria a ligação e guardaria o celular na bolsa. Retornaria meus olhos aos dele que, com receio, diria-me que minha risada era a coisa mais bela já vista. Eu discordaria por educação e mudaria de assunto. Ele retomaria o assunto depois, quando eu risse de seu desconcerto. As horas passariam na velocidade da luz, a noite logo surgiria e despediríamos contra vontade. Eu iria para um lado, mesmo que meu carro estivesse para o outro. Ele assistiria-me indo embora. Eu não olharia para trás. Reencontraríamos todos os dias depois daquele no mesmo café. Encontraríamos novos assuntos, beberíamos o mesmo capuccino, dividiríamos os cigarros. Um dia ele decidiria parar. Eu decidiria parar junto. No dia seguinte desistiríamos e compraríamos um maço para os dois. Ele levaria-me para sua casa. Desta vez, dividiríamos o mesmo teto e o mesmo cobertor para protegermo-nos da chuva e de nós mesmos. De começo amaríamos com curiosidade e cuidado. Depois tornaría-mos ousados e agressivos. Ele convidaria-me para morar junto. Eu fingiria não saber a resposta para não parecer fácil e carente. Ele fingiria não ter todo o tempo do mundo para esperar-me, mas esperaria duas ou três semanas. Quando, com uma caneca daquele capuccino na mão, eu aparecesse em sua porta, avisando que ficaria ali até que nosso para sempre se esgostasse. Passaria um ano, o café ficaria para os fins de tarde de Domingo. Passariam dois anos, e na correria do cotidiano esqueceríamos como amávamo-nos. Discutiríamos, ameaçaríamos, até que a cafeteira exalasse o aroma de nosso romance. Eu então engalfinharia-me na pelugem de seu peito, ele enrolaria-me em seus braços. Cairíamos na cama, planejaríamos um futuro, desconversaríamos sobre filhos e casamento. Lembraríamos do café pronto, usaríamos a mesma caneca. Eu estaria vestida com sua camisa, ele estaria a observar-me com desejo. E então teríamos a sensação de estarmos sufocados, não pela monotonia de nossa vida, mas pela grandeza tão simplória de nosso amor.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Durma.

Sonhados.
Dormidos.
Sonhadores.
Domados.
Esperam sentados frente à porta.
Na linha de frente.
Peito aberto,
olhos fechados.
São fortes com suas sobrancelhas arqueadas.
Fracos quando intimidados.
Íntimos.
Dados.
Rolam
e desenrolam.
Sentados frente à linha.
Na porta da frente.
Alvos de um canhão,
de uma metralhadora.
Metáfora.
Meio de fora.
Metade.
Mete a dor.
Estão todos ali.
Destilado de lá.

domingo, 1 de novembro de 2009

Quinze Mil.

Nasceu meio sem querer, sem que quisessem. Criou-se meio sem ter como, sem ter quando. Sua vida fora, desde o começo, um arquivo aberto de obituários e acidentes. Vivia sempre acompanhada, e em especial, da solidão. Quando pequena, demorou a fazer de seus grunhidos alguma palavra. Quando um pouco mais crescida, as palavras que tinha feito, guardara para si. Via em cada dia que nascia, a oportunidade de morrer um pouco ao dormir. Gastou alguns de seus anos perguntando-se porque logo ela vivia em condições tão grotescas. Gastou outros imaginando se existia alguma outra pessoa no mundo vivendo da mesma forma. Não queria aceitar, estava só. Calada escondia-se na dispensa e chorava até adormecer. Com os anos, alguns foram embora, ainda alcançáveis no tempo. Com outros mais, os que foram, foram de vez. Sob olhares alheios disfarçava sua indignação com timidez. Não chegavam perto. Queria - sem querer - que chegassem. Já mais crescida, desaprendeu a chorar, não cabia mais na dispensa. Tinha ganhado corpo para aprender a defender-se. Usou-o mais para atacar. Batia portas, gritava. Não era violência, era falta de amor. Amor tinha sim, em segundo plano. Para que fosse amada, era preciso que fosse lembrada. Não era, a menos que fosse para ser exibida. Que cabelo sedoso, tão liso, tão claro. Que olhos meigos, tão míudos, tão expressivos. Um dia a vida mostrou uma possibilidade de mudança. Mudou, mudou, mudou. Para pior, como se fosse possível. Foi viver em outro lugar. Sem companhias, exceto a de sempre. Não havia dispensa, só a volta do choro. Não escondia mais. Chorava com raiva, como se cada lágrima fosse um tiro no coração. Acabou por descobrir, que chorar não adiantava, nem nunca adiantou. Inevitável, era chorar por dentro toda noite, por todas as madrugadas, enquanto fraca e cansada, desviava-se de uma garrafa, um prato, uma faca. Do lado de fora, parecia tão forte e inatingível. De fato era. Tinha tornado-se. Em algum momento de completo descaso, passou a achar justo descontar sua raiva na felicidade dos outros. Atraía. Encantava. Aproximava. Desaparecia. Achava divertido, quase engraçado. A dor que sentiam não era a mesma que ela conhecia, mas era alguma coisa. Quando foi enfrentada, desistiu parar. A dor tão dela, tão única, não era desculpa para dor nos outros. Outra vez a vida veio mostrar-lhe uma chance de mudança. Mudou, mudou, mudou. As palavras que tinha feito, resolveu colocar para fora. Colocou-as todas. Exatamente aqui.

Tudo Tem Começo.

Um dia acordaram. Maria com seu sorriso, João com seu pouco fôlego. Maria desfilou pelas avenidas. João passou arrastando-se logo depois. O perfume dela ainda estava no ar. Pequenino rastro. Perdido pelo cheiro de cerveja e tabaco, exalado pela existência dele. João viu-a de longe, criticou seu modo de andar. Pararam os dois no mesmo cruzamento. Sinal vermelho. Sinal de quem? Maria reparou em João encostado na lixeira. "Reciclável". Riu. João levou a risada como ofensa. "Descartável". Riu. Acordaram. João com o sorriso de Maria. Maria sorridente por João. Seca e escassez de água daí para frente.

Quarto Azul.

Faça um favor, feche essa janela, hoje o vento não entra. Faça um favor, encoste essa porta, hoje eu não saio. Está frio, mas meu corpo queima. Os raios de luz atravessam a cortina, mas ainda é escuro aqui. Faça um favor, feche seus olhos, hoje eu não me mostro. Hoje estou aqui. Ontem também. Mostrei. Ninguém viu.