terça-feira, 6 de outubro de 2009

Moça.

Olha, moço!
Olha o reflexo da moça no céu.
Olha o reflexo do céu e da moça.
Olha o reflexo da moça na poça.
Olha o céu na poça!
Olha o poça que veio do céu.
Olha o céu da moça.
Olha como ela usa ele como um véu!
Protegendo seu cabelo do vento,
e das poças outras que caem do céu.
Olha a moça caindo na poça.
Olha a moça caindo do céu.
Que poça profunda a dessa moça.
Um aglomerado de gotas.
Dê um palpite, moço.
As gotas caíram do céu ou da moça?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Primeira Fileira.

As olheiras escondiam um pouco de seus olhos cor-de-nada. Eram reflexo de noites mal-dormidas e de sonhos nublados. Falava sobre solidão com uma velha amiga. Falava-lhe de como tudo na vida era efêmero, menos sentir-se só. Rememorava outras amizades, algumas mais antigas ainda, mas que não tinham durado os invernos de sua alma. Enrolando-se em palavras, desenrolava sentimentos presos na garganta. Sentimentos e sensações. Tudo estava em sentir. Sentir o quê? A brisa fresca de mais uma partida? Uma ausência latejando em seu peito? Era descrente de tudo. Deixaram-na assim. Desconfiando do destino e de tudo que parecesse simples e leve. Tinha o peso de uma pluma, mas não queria deixar-se levar pelo vento. Quando dormia aconchegada à felicidade, deixava um de seus olhos abertos para ver até onde ela iria. Era calada ao ponto de falar demais. Fechada ao ponto de ser transparente. Transpareciam, em seus olhos tímidos, todas as suas necessidades. Precisava de mais um copo, um trago, um beijo. Precisava de um Deus e algo no qual acreditar. Precisava que parassem de acenar "adeus". Queria as palavras. As palavras que amava. As palavras de amor. Não importava em sentir-se só, contanto que fosse acompanhada. Precisava sentir o calor, sem antecipar sua partida.

domingo, 4 de outubro de 2009

Que Dó.

Ele andava por aí carregado de esperança. Entretia-se planejando futuros. Ao dormir, sonhava com o amanhã, e o amanhã depois do amanhã, e os amanhãs depois desses. Era compromissado com o presente, mas deixava-o para trás quando virava passado. Era uma pessoa de café com leite e duas colheres exatas de açúcar refinado. Não corria riscos, corria deles. Seu paladar era limitado à simplicidade. Sua audição era voltada aos clássicos. Gostava do cheiro das damas-da-noite e sua cor favorita era o bege. Desacreditava na espontaneidade, mas um dia seus batimentos por minutos foram, pelo menos, o triplo dos sessenta e oito de sempre. Ela tinha os olhos dourados e arregalados. Seu longo cabelo era feito um punhado de fios de ouro arrancados de um baú de tesouros encontrado no fundo do mar. Ela era imprevisível em sua existência, como uma chuva em dia de céu aberto. Dava para ver que a felicidade dela vinha de tudo que não pudesse prendê-la. E era justamente isso que ele quis. Guardá-la entre páginas de um romance, marcando alguma parte bonita ou importante. Guardá-la como se ele fosse seu anjo. Deu a ela felicidade quando mostrou o ser tão excêntrico que era. Cheio das manias e vazio de novidades. Ela ria da forma como de tanto lutar pelo certo, ele tornava-se desconcertado. Quando percebeu que a intenção dele não era apenas divertí-la, ela escondeu-se. Ele tentou enxergá-la entre as taças que ela atirava em direção dele, entre os cacos e as cinzas caídas no chão, mas não reconhecia a forma que ela havia tornado. Enviava-lhe bouquets e recados. Recados e beijos. Beijos e sorrisos. Sorrisos esgotados. De tanto apertar, ela-passarinho escapou-lhe pelos dedos. Ele escapou para à tristeza. Um dia viu-a sorrindo em uma foto. Posando abraçada por braços novos. Sorriu de volta para ela. A felicidade que tinha naquele momento, era a de vê-la feliz.

sábado, 3 de outubro de 2009

Aprendizado Pleno.

Acordar às seis para ir dormir às dez. Dos noticiários à doce vida na tela da televisão de primeira geração. Acordando ao som de balas peridas e - sequestros - relâmpago, sendo colocado para dormir com a música-tema de uma romance televisivo. Enfrentando o cotidiano e a maratona de Domingo de algum seriado americano.
Na Sexta-feira de uma semana como as outras, que diferenciava-se apenas pela programação especial de verão, a chuva caiu e a luz faltou. O céu desabou, meus planos também. Quis poder assistir qualquer filme na televisão, com qualquer rosto famoso, qualquer pingo de emoção. O aparelho não ligava por vontade, prece, nem promessa. Assisti, então, ao reflexo de meu rosto desconhecido tornar-se protagonista da tela preta.
A chuva acabou, sem luz e sem dinheiro, desci para tomar uma cerveja na esquina das prostitutas e da solidão. No caminho para o bar, parei para reparar nas crianças que não sabiam o que fazer com a bola que tinham encontrado, não sabiam como funcionava o jogo, só sabiam do que viam na televisão. Quis parar para ensiná-las, mas a pouca memória não conseguiu resgatas o que aprendi na infância.
Cheguei ao bar, pagaria fiado, mas não valia endividar-me por uma cerveja gelada que já havia esquentado. Caminhei pelo centro, sentindo-me meio de lado. As cores das vitrines confundiam-se com o céu nublado. Céu que não cheguei a ver, não sei se pela presença de muitas nuvens, ou pela ausência de uma TV.
(Redação da escola, é.)

Precipício do Precipitado.

Solução de salmoura para os pedaços de pele arrancados de seu corpo. Soluços de lágrimas para os pedaços arrancados de si. Solução e soluços, ambos com o mesmo gosto, água com sal. Precipício do precipitado. Ardor com gosto de mar. Soluços escorriam de sua boca, carne nunca tão viva. Excretava oceanos de seu corpo, pelos poros, pelos olhos. De joelhos e almas ralados, curava-se. Ardia, queimava. Forte por ser tão fraco. Vulnerável e vulgar, escorregou nas curvas da vida. Segura o homem! Só não segura seu choro. O ardor que queima é o mesmo que cura. Só nunca foi visto alguém curar-se de amor. Pois não é doença, é loucura.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bom Começo.

Sua cabeça estava sempre mais alta que seu coração. Comportava-se como um lorde. Mantinha-se distante e intocável. Ria da tristeza alheia, incapaz de chorar pela sua. Tinha o corpo de um rapaz, a alma de um defunto. Não doava-se, mas vendia-se a preços altos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Protagonista da Nostalgia.

Ele amava a forma como as pernas dela enchiam-se de felicidade ao som de seu violão. Seus movimentos eram atrapalhados, mas ele via graça em cada um deles. Sentia-se triste quando seus movimentos desaceleravam por alguma desgraça. Mas não esquecia-se de amar sua alma triste e ferida. Acariciava todas as suas cicatrizes e buracos abertos, eram a forma que ela tinha encontrado para crescer por dentro. Amava suas falhas, seu caráter às vezes disperso. Amansava os demônios que escapavam de sua boca e voavam até seus ouvidos. Era doloroso o tamanho de seu amor. Era doloroso seu amor em si. Era plácido em suas tormentas, tão devastadoras e frequentes. Ele amava a forma como ela sorria, e como ela não conseguia conter o choro.