terça-feira, 5 de abril de 2016

a sensação dela



que uma vez, depois de umas garrafas a mais de vinho, ela soltou o verbo e o sujeito e disse assim, que quando ela encostava nele, no sujeito ele, que ela soltou só para falar, verbalizar, que quando ela encostava nele, os dedos dos pés se contraíam e alguma coisa ia rastejando deles até a última ponta do mais longo fio de cabelo
cabelo meio vermelho meio dourado meio cor de sol, meio cor de nada, até porque ele, ele mesmo, se negava a dizer ou a deixar que alguém dissesse que alguma coisa, que alguma qualquer outra coisa no mundo, se assemelhava a ela
ele dizia assim
- nunca vi coisa tão bonita no mundo
e se prendia nela e se espremia nela e nela se enlaçava feito fosse bicho feito rastejasse feito fosse elástico e não tivesse ossos feito fosse só coração
e nisso, ele um metro e noventa e dois puxados da família do pai emaranhados em um metro e cinquenta e seis estranhos dela que era a mais baixa entre os irmãos, faziam ele parecer tão menor tão frágil tão carente e tão necessariamente dela que dava dó
dava dó porque parecia que quando ele precisava se soltar dela ou quando ela precisava se soltar dele - sim, o enlaçamento era recíproco - parecia que ele ia quebrar se partir ao meio ou em milhares de pedacinhos dele que já eram dela e pedacinhos-coração de quem pensa não precisar de nenhum outro órgão para se sentir vivo
era tão bonito aquele quadro, aquela fotografia colagem pintura, aqueles dois juntos largados na cama no meio da tarde, com o sol batendo nas pontas dos dedos dos pés contraídos dele e dela e os lençóis manchados de água oxigenada cor-terra e as costelas dele sobressalentes e as costelas dela quase arrebentando a pele e aquela cena que parecia calar o barulho das ondas a rebentar na beira do mar e que parecia, também, um quadro do Portinari, porque os dois eram tão terra e avermelhados sujos e cinzentos de sol e de poluição e por causa do sol que refratava na janela e pelo jeito que se deve olhar
um retrato esquálido de um sofrimento a se conjecturar
retrato de uma miséria porque amor é muito muito muito muito muito de um tanto que ainda poder ser mais e mais e mais, mas não é soberba e portanto não pode sobrar e nem desperdiçar, amor tem que ser todo gasto e amor deles vinha contadinho moeda e moeda para se alimentarem os dois até o fim
os dedos dos pés se contraíam, chegava a doer nas canelas de tanta força de tanto músculo que vinha sei lá de onde e ela que se segurava apertando os lábios com os dentes e apertando o que estivesse ao alcance com as mãos suadas e vezes ou outras sujas de areia ou cheirando a alecrim o corpo todo reagindo e a sensanção e a certeza de que alguma coisa ia rastejando da ponta dos dedos dos pés até a última ponta do mais longo fio de cabelo
iam se arrastando, depois, os dias e a vontade de ficar junto e a vontade de ficar colado e a vontade de ficar por cima e por baixo e rolar pela orla da praia não se importando com a temperatura ou com a sujeira do asfalto e do calçadão não se importariam se bateriam de cara em alguém ou num coco abandonado, mas vontade de ir rolando dos prédios a beira-mar até a beira do mar onde se assustariam com a água gelada e o gosto de sal 
e se salgariam e se enrolariam e se sujariam e se adocicariam e seriam doces todos os dias ah! como eram doces os dias desde que haviam se encontrado e se cruzado e cruzado quando, enfim, foi o momento dela de conhecer esse lado da vida que falavam tão bem ao tempo que falavam tão mal e falavam algo sobre ir ou não ao céu, mas que ela por si só gostou e viu estrelas e era dia de céu encoberto e havia também o teto mas mesmo assim ela viu estrelas e permaneceu as vendo por muito tempo tanto tempo que depois já nem se surpreendia mais e passou a notar que o céu era sempre o mesmo e que ela nem o notava mais
e continuavam se arrastando e a vontade de ficar grudado e a vontade de ficar separado um pouco e a vontade de ficar só um pouco e sair um para um lado e um para o outro e iam se arrastando e arrastando também a vontade de ficar e os anos
e ele disse
- não conheço muito bem o mundo

e descobriu que certas coisas perdem a beleza e que certas coisas só tem a beleza que queremos dar a elas e que certas coisas acabam e que outras não

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pior ainda se eu dissesse que era poeta

Me grudei nela. Assim que pus os olhos nos olhos dela. Fingi que ela acabava de nascer - e nascia, de certa forma, pra mim -, fingi que eu nascia grudado nela. Pelo coração. Eu e ela pra sempre. Escrevia nossos nomes nos quadros negros da escola em que eu trabalhava - arrumei até emprego pra sustentar os cochilos dela depois do almoço. Parei de escrever. Digo, de dizer por aí que era escritor. Ela não gostava. Pior ainda se eu dissesse que era poeta. Os amigos dela me perguntavam: onde compro teu livro? E meu livro era apenas um catálogo restrito que eu cultivava na memória. E as pequenas folhas grampeadas que eu conseguia vender entre os bares pela noite. Arrumei um emprego. Até cortei o cabelo. Continuei escrevendo, de madrugada enquanto ela dormia, como se estivesse cometendo um crime. E de manhã, às vezes, a acordava com uns pequenos poemas de amor e umas cartas com juras do eterno. Ela não gostava da minha poética. Mas disso ela gostava. Achava graça. Ria. Deitava com as pernas voltadas pro teto e as balançava enquanto lia em voz alta os meus versos. Ria sempre muito, quando ria. Nunca ria pouco. Mas era quase sempre séria. Quase sempre certa. Dizia que diziam por aí que escritores eram bons de cama. Que eram muito criativos, que fantasiavam. E que era por isso que achava graça dessa minha mania. Ela chamava de mania tudo quanto fosse meu. O café sem leite. Era mania minha. Fritar a cebola antes do alho. Era mania minha. Deixar os óculos pendurados no nariz. Era mania minha. Amá-la como se fosse a única coisa a fazer na vida. Era mania minha. Foi o que ela disse assim. Um dia, numa tarde. Eu tinha que parar com isso. Ela disse. De repente, eu e ela pra sempre virou um quadro escuro. As cores escorreram dele e e eu ela era mania e eu deveria desaprender a amá-la. Ela me disse assim. Como quem cospe o catarro escondido enquanto ninguém está olhando: apressada e de uma vez só. Me grudei nela. Assim que pus os meus olhos nos olhos dela e pedi que carregasse minha vida pra onde a vida dela fosse. Me grudei nela em silêncio. Ela dizia que diziam por aí que quem escreve é sempre muito silencioso. De repente perdi mesmo a voz. Me grudei nela e desconheci a capacidade que meus joelhos tinham em sustentar o restante do corpo. Desequilíbrio. Me grudei nela. E quando ela se foi, e eu a vi. Quando ela se foi. E eu a vi indo. Quando ela se foi, assim, se fondo. E foi assim, um foi indo bem fundo. Doeu. Doeu em mim e no restante do mundo. Tombei. Quando ela se foi, ficaram só os quadros negros, e agora, sem nossos nomes, tão mais escuros.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Lançamento do meu livro de poesia



Amanhã, 17 de maio. A partir das 17h. Senhoritas Café, 408 norte, Brasília.
"De carne e concreto"


Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1487001968181412/?ref_dashboard_filter=upcoming

Espero todos lá, com corações abertos!



domingo, 30 de março de 2014

Fragmentos de Marília

I -

Marília, algo em você me faz muito feliz, fico tentando descobrir o que. Não sei, deve ser esse teu jeito certo de ser sempre tão triste.

Chega uma hora dessas e eu só penso em teu nome, e o repito em voz alta como se isso bastasse para acelerar as horas e amanhecer logo o dia. É que eu sei que amanhã eu te encontro. É que eu sei que em ti eu me perco. É que são muitas as curvas e eu nunca atravessei por essa tua estrada.

Marília, deve ser essa tua calma. Que balança sem querer os dias e que insiste em me perturbar.

Nome de mulher, Marília, é esse o maior delírio dos homens. Sibilar todas as tuas letras, degustar cada uma de suas sílabas. É com isso que a gente soa frio e sente tremer de cabeça em cabeça.

É a maneira como me bastam suas consoantes. Como me apertam suas vogais. Os seus fonemas, Marília. É como me explode e me escorrega pela boca. Como se embaraça no meu peito e sai rouca na menor abertura dos lábios.

Marília, é como tu me acentua. Inquieta, como vai e vem sem que eu nem perceba.

Chega essa hora e eu repito seu nome: uma prece cantada, um mantra, uma canção de ninar, serenata de amor.

Marília no céu e Marília na terra. Razão para os quatro mares. Por quem pulo, todos os anos, as sete ondas. E jogo flores todo dia 31 de dezembro, vestido de branco. Por quem guardo os caroços das uvas, das romãs. Por quem não passo por debaixo escadas e nem me visto de preto em sexta-feira. Por quem não perco a fé no mundo. Marília, minha santa de colo farto, banquete dourado debaixo de sol.

Marília, minha sorte. Qualquer risco de te perder vive encostado onde repousa sonolenta a morte.

É te vivendo que eu vivo: não desvie os teus olhos.

Quando te vi sorrir pela primeira vez eu soube que o mundo, na verdade, tinha o tamanho de uma caixa de fósforos.

II.

As tuas pernas. Me derreto por elas. Teu jeito de ser sempre janeiro, essa tua vontade de recomeçar do zero. Teu sorriso a esperar sempre o carnaval. Teus sábados de sol. Teu mar.

Queria ter te conhecido em outro tempo. Mesmo sabendo que o tempo em que as coisas acontecem é o tempo certo. Nunca joguei tarô, Marília, nem deixei que lessem minhas linhas, nem das mãos, nem dos escritos. Mas eu acredito no destino, sabe. Eu acredito no tempo. E mesmo de vez em quando perdendo o rumo, mesmo já tendo atravessado mais da metade do caminho, eu ainda acredito na vida.

Queria ter te conhecido em outro tempo. Outro ano. Outra época. Que por detrás da flacidez, o corpo é rígido. Que antes a pele era grudada na carne e a carne era grudada no osso e era tudo em cima e era tudo duro, mas se amolecia ao menor toque. O toque, Marília, eu perdi a capacidade de sabê-lo. Quando vem e por onde. E de que maneira. Se é cafuné ou se é um tapa. Marília, olha bem agora pra minha cara. Esse rosto já não é meu. Ele cai, quase se desmancha pelos lados. Mas é duro. Duro como meu peito. É que a vida deixa os movimentos circulares de dentro relógios nos endurecerem de dentro pra fora.

Queria ser mais forte. Tu sabe, Marília, que já não te aguento nos braços. Tu sabe que tomo remédio pras dores fortes nas costas. Que já chorei mais do que deveria.

Tu sabe, Marília, que a pior coisa que pode acontecer na vida, é a vida acontecer pra gente.

III.

Chega essa hora e eu não deixo de repetir seu nome. E se me falta saliva, eu continuo te escrevendo no guardanapo.

Não é só pelo drama, mas o amor é um tipo de morte. Eu me morro por você. Eu me montanha. Eu me topo do mundo. Eu quase me encosto no céu. E é por sua causa. É por sua causa...

Que eu caio, de repente.

E é de asfalto o mundo. É de pedra. É de concreto.

Tuas sílabas, Marília, tuas letras...a maneira como você me escorrega até o estômago e eu sem saber se te acho doce ou azeda.

IV.

Que saudade dela, Marília. E que saudade de mim. Foi amor. Eu sei, porque é essa uma das coisas que o amor faz, faz com que a saudade dela me traga uma saudade de mim. Que saudade da vida, Marília, dos anos. Que saudade de ti. E de quem eu fui. Nos braços dela. De quem eu era. De quem era ela. De quando eu era dela. De quando eu era.

Marília, depois dela só tu. Depois de ti, de tu, de tudo, mais nada.

V.

Eu quero te descrever cada uma das flores, te contar como me lembro delas. Eu quero te falar do quintal dos meus avós maternos, de como eu amava um pedaço de bolo de fubá quentinho depois de rolar na lama a tarde inteira. Eu quero te descrever os dias sentados à beira do Rio São Francisco. Marília, eu quero que você veja tudo que eu vi.

Se isso não for, de alguma maneira, amor, Marília, então deve ser pecado.


VI.

Meu amor por Marília, como um floco de neve, era de esperar que fosse muito mais que água. Muito mais que uma quase solidez insossa. Vindo do céu, meu amor por Marília, como um floco de neve, era de esperar que tivesse ao menos um pouco de carne. Ao menos um pouco de sabor. Ao menos um pouco de pulso. Meu amor por Marília, como um floco de neve, era de esperar que não se tratasse de uma dessas decepções sustentadas pelos sonhos da infância.

Meu amor por Marília, como um floco de neve, me fez tremer de frio só de vê-la.

VII.

Marília, tu não tem ideia de como o amor dói, porque tu não tem ideia da forma como o corpo responde à ausência dele. Marília, a ausência do amor, no corpo amado, é uma coisa que realmente alcança a alma. O desamor, ele desarma qualquer um.

Eu descobri da pior maneira. Achando que o mundo esperaria eu dar minhas voltas pra que depois desse as dele. Eu deixei que o tempo percorresse por vias e artérias, ininterrupto. Eu descobri partindo, e olhando pra ela depois de todos aqueles anos. Eu descobri que era preciso partir pra saber voltar.

E pior do que olhar para ela depois de todos aqueles anos e constatar o tanto que havia mudado, foi olhar para ela, depois de todos aqueles anos, e constatar que ela havia me mudado dali, de onde eu era nela.

Eu descobri que o mundo dá suas próprias voltas. E que nem tudo tem sua própria volta no mundo.


VIII -

Eu peço a Deus todas as noites pra poder te assistir entrando no ônibus. É tarde. Eu sei só pelo barulho dos carros lá fora. Fica, não me deixe, não me abandone. Não precisa voltar, é só não ir. Marília, vá. Não sei se hoje chove, mas vá, antes que chova. Antes que eu chore. Marília, esses comprimidos me deixam louco.

IX -

Quantos amores, Marília, serão os últimos até que algum seja verdadeiro? Quantos amores, Marília, até a gente aprender a amar? Estou ficando velho. E cansado. E ainda mais velho, isso a cada nova palavra. E rarefeito. E fraco.

Marília, será se hoje o céu chora? Eu juro, era feliz até logo agora. Mas de repente, me deu uma vontade de me chover inteiro...

X -

Eu tenho medo de dormir, Marília. E não pelos pesadelos. Eu pouco me lembro, eu pouco me sei, e eu já nem sei se sonho. O negócio é que tenho medo de que qualquer sono seja o último. Medo de me entregar. Marília, eu não estou pronto para morrer de uma vez por todas.

XI -

Marília, tu é mulher pra jantar todo dia. Pra comer com arroz, feijão e muita pimenta, lambendo os beiços, te deixando escapulir pela beira do prato, só pra pegar com os dentes. Marília, tu é mulher pra quem se escreve cartas enquanto expatriado, no meio da guerra. Mulher pra carregar foto na carteira, e beijar cheio de saudade. Marília, tu é mulher pra prender os olhos e o rabo de qualquer um. Pra comer de colher. Com as mãos. Pra se perder sem querer voltar. Pra apresentar aos pais. Entrar de braços dados na igreja. Deixar flores na janela. Pra esquecer do carnaval, do resto do mundo inteiro.

Marília, tu é mulher demais pro pouco de homem que sou.

XII -

Marília, se tu realmente existe como existe na minha imaginação, se tu realmente é a mulher que eu quero que seja. Marília, se tu realmente for - Marília, por favor, fique...

XIII -

Marília, eu tô sozinho. E de repente me deu saudade da tua voz. De repente, no meio da manhã. E hoje, eu sabia, você não viria. E horas depois, quase como piada, alguém disse teu nome. "Marília", feito cuspe. Como o mundo deixa que te pronunciem assim?

Marília, eu te vejo, mas não te enxergo. Será se teus cabelos já passaram dos ombros? É estranha a forma como as coisas se transformam. Uma hora você era tudo, na outra já não sei mais nem se tu ainda se lembra de mim. Tu ainda se lembra de mim?

Marília, eu sou sozinho. Tenho sido assim a vida inteira. Eu sou humano. E só me dei conta agora, perto da hora do jantar.

XIV -

Marília, todo dia deito pra dormir com tua ausência.

Eu quase não durmo, Marília. Eu quase quase quase não passo disso, de quase, uma possibilidade. Eu tô vivo, mas não me sinto. Eu vivo e todo dia morro, e desabo sem nem precisar de vento, sem nem precisar de chuva. Eu morro abaixo por qualquer coisa. Marília, ontem eu fui falar com o Zé. O Zé que tu não conhece. Eu fui falar teu nome. E o Zé que também não te conhecia. De repente, ele me disse, Marília, que queria dar rosto ao teu nome, que já te sentia bem próxima. Marília, eu quero te esconder do mundo. E eu nem te vejo. Marília, o amor consegue ser totalmente egoísta. Mas eu não consigo ser nada sem ele.

Marília, se eu não te amasse, que mais na vida eu faria?

XV -

Essa fome, Marília, essa incompletude, tudo isso uma hora passa. O coração, um dia, desacelera, Marília. E o relógio passa a girar mais rápido que o mundo. E a gente sente vontade de puxar uma cadeira e sentar na varanda pra assistir a vida passar. Um dia o apetite diminui, Marília, um dia ele quase some.

XVI -

Marília, querem te saber, mas eu não quero que te saibam. Toda hora me perguntam de você. Me olham tristes por causa do meu olhar de tristeza e me colocam as mãos nos ombros, nas costas, e me perguntam: como estão as coisas?

De que coisas as pessoas todas tanto falam?

E ainda continuam: como estão as coisas? E a tal moça, a Marília?

Marília, eles ainda te pronunciam como se tu não valesse um minuto a mais de salivação. Marília, eles te pronunciam sem antes te bochechar, sem nem mesmo te gargarejar. Eles te pronunciam como se tu fosse palavra, Marília. E palavra não vale nada!

XVII -

Marília, te esconde do mundo!

Estava olhando pela janela e descobri que ele é feio. E que ele não te merece. Marília, te esconde aqui debaixo do lençol. Hoje eu tenho certeza de tudo, e mais tarde chove. E quando chover, Marília, me abrace forte. Que seu medo de trovão me dá medo que troveje.

XVIII -

Não sei por onde te amar, Marília. Estou todo do avesso. Não sei onde a gente se encosta. Não sei de que maneira te encontro. Tu sabe a maneira como quase sempre me escorrega. Me escapole pelas mãos. Tu sabe como me escapar quando bem quer.

Não sei por onde te amo. Marília. Com as mãos, às vezes, eu não enxergo quase nada. E tu se afasta. E teu caminho é quase sempre o meu contrário. E às vezes, tu nem aparece. Às vezes tu nem me liga. Tu nem se importa quase sempre, né, Marília?


E eu te amando pelas beiras. Pelo que me sobra de ti. Marília, tu sabe que é só abrir a porta e ir embora. Tu tanto sabe que quase sempre vai. Marília, por favor, sempre que for volte. E sempre que voltar finja que fica. A vida não é tão macia quanto parece...


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Não-conto

Eu associei a felicidade a ela de tal maneira que era impossível ser feliz depois que ela se foi. No meu imaginário, eu só podia - e poderia - ser feliz ao lado dela. Sem ela, a felicidade era um ser arredio, traiçoeiro. Que preciso fosse, se punha de pé sobre um par carnudo de pernas, por detrás de um batom cor de sangue, ou dentro de um exagero de copos. Sem ela, eu fugia disso. Se a felicidade me vinha, eu catava todas as minhas coisas e mudava de calçada.

Não aconteceu de ser da maneira como precisamos acreditar que acontecerão os amores. Olhei e na hora que os olhos dela me alcançaram, virou o rosto. Quando entrelaçamos os dedos, soltou minha mão. Não aconteceu de ser assim, uma história que valha recordar. Nos conhecemos do nada, e de repente, eu a reconhecia em tudo.

Se a lua estava cheia a ocupar o sol. Se o dia amanhecia azul. Se fazia frio. Se aparecia um filme novo nos cinemas. Se fazia calor. Se a temperatura pouco se fazia perceber. Se faltava lua no céu. Se amanhecia dia cinzento. Se abria um pote de palmitos. Se derramava sabão em pó no chão. Se olhava para os dois lados antes de atravessar a rua. Se atravessava sem olhar. Se olhava e não a via. Se ela me atravessava. Ela sempre me atravessava.

Eu associei o universo a ela de tal maneira que era impossível até que os astros orbitassem em sua ausência.

Órbita é a trajetória que um corpo percorre ao redor de um outro, influenciado por alguma força. Órbita também é o nome da cavidade, do buraco, do vazio na face do esqueleto humano, onde se assentam os olhos e toda a sua parafernália. Orbitar é estar ligado a algo, de maneira a ter seu movimento submetido apenas àquela existência, por uma força que pode vir do além. Órbita, eu concluo, é o lugar a partir do qual os olhos veem. É onde precisam estar para enxergar. E assim eu a vi, com meus olhos bem assentados, e veio daí uma força sabe Deus lá de onde, e órbita passou a ser, para mim, também a trajetória ininterrupta que passei a fazer em torno dela.

Orbitando, assim me ocorreu o amor. De maneira a, depois, se tornar um vazio. Longe dos olhos, mas apertado no peito. Afetado pela gravidade de tal maneira que era impossível seguir um novo trajeto sem a leveza dela. Impossível segurar os ombros por demais atraídos pelo chão. Os olhos também, desorbitados, a partir do momento em que não mais a viram.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Esboço para construção do outro I

Estou vento e não vôo. Eu até tento, mas não vou. Eu fico. E com isso, trago de volta a memória daquele tempo: sem datas, só imagens e um cheiro. De erva-doce.

E sua sombra na beira do mar. E a moça na varanda do quarto andar do prédio seguinte, sempre com as pernas para o alto, lendo, tomando um café ou chá, com ou sem leite, não sei se adoçado com mel ou açúcar, ou mesmo puro, mas com muito gosto, lambendo os beiços, com as pernas sempre para o alto, agitando os pés como se regesse uma orquestra.

A lembrança das ervas-daninhas, que crescem em torno e por dentro dos jardins mais bonitos, rapidamente, antes mesmo que se pense em pensar, antes mesmo que não se pense e se pisque. Num piscar de olhos. As pernas postas para o alto. As pernas. O azul do céu. O óbvio, clichê.

Se eu não te enxergasse você nem mais me veria. Seus pés cheios de areia. Atados ao chão.

Estou vento e nem assim vôo. Fico. A pensar nos beiços melados dela, com suas pernas para o alto, quase encostando o azul do céu que ela era.

A orquestra que ela regia em mim.

Eu chego a ficar sem ar. Estou vento, mas me sufoco. Os beiços dela se avermelhavam debaixo do sol. E quando pareciam quase sangrar, se envergonhavam, ainda apurando o tom. Me barganhavam e eu ficava roxo, a custa de nada.

Nosso amor morria, já ali, e morreria, já mais na frente, por inanição. Eu não disse em voz alta, mas mesmo negando, você sabia.

Que eu te olhava e você me olhando não me via.

Estava vento e sem nem bandeira você se levantava. E desembaraçava os fios de cabelo, conferia a bolsa, pegava o elevador, e saía para passear. E passavam horas, quase dias, quando voltava, os braços presos, as mãos quase roxas de tanto segurar sacolas. Os lindos vestidos que vestia à noite, para entornar duas garrafas de espumante e então me despir da minha própria virilidade, depois colocar o pijama e dormir.

A nossa vacuidade.

Vá com cuidado  - me disseram ainda, antes mesmo que te amasse. Antes mesmo, digo, que tivesse qualquer noção desse amor possível. Que, na verdade, foi de cara e tanto que eu te amei bem antes, amei assim, mesmo sem nunca nem te amar.

Amor que nasce no primeiro instante. Nasce assim que a presença aponta.

Eu achava que era culpa das suas pernas muito longas. É bem isso, o conselho a ser dado: não ame mulheres com as pernas muito longas, porque se abrem na mesma rapidez com que se levantam para ir embora e nunca mais voltar. Mulheres de pernas longas, quando se vão, dificilmente voltam. Eu li no jornal. Ou escrevi, com a borra de café.

Estou vento e não vôo. Até briso, mas não decolo. E bem fecho os olhos, e te vejo, e não te culpo. E quase que, ainda, te tenho. Me culpe mas, por favor, me desculpe. Quando angustiado, o amor se enrola pelas pernas e se pendura pelos braços e te sacode pelos ombros: era você e não outra. A gente custa a entender. E a vida cobra caro. Era você e não ela, mas nem isso me impediu de me debruçar sobre a janela e assistir o amanhecer: e assistir a ela. E me enrolar pela língua e me pendurar pelas coxas e me sacudir pelas cabeças: era eu e ela. Se pudesse, até mares-ia, mas já estou marejado.

Nosso amor morria, já ali, e morreria, já mais na frente, e mesmo sabendo com certeza disso, eu não podia acreditar. É que eu não estava nunca pronto para me vestir de preto e nos chorar.  Nunca pronto nem para nos morrer e nem para nos matar.

As pernas...são sempre as pernas. E as dela ficavam lá apontando para o alto, bem quando meu rosto, para te encontrar, vivia olhando para baixo.

Me culpe. Me desculpe. Primeiro foram as suas pernas. Muito longas para acompanhar. Nos matei com ela, dos pés fáceis de alcançar. Bastava olhar na direção do céu.

Estou vento e não vou. Sentado, assistindo da varanda, o tempo passa. E ainda a assisto com os beiços melados tentando fingir para mim que a vida pode ser doce.

Estou vento e tudo o que vejo eu arrasto. Que assim eu te mato em mim me morrendo de saudade. 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Algo mais sobre o amor

6h15
Eu me levanto. Mas ainda não me sinto de pé. Corro para o banheiro, onde lavo meu rosto de duas a três vezes, antes que ele me veja, às 6h20, quando se levanta. É que acordo cheia de remela ao redor dos olhos. E a pele toda seca, quase rachada, especialmente em volta do nariz e da boca. Há uns dois anos, acordo com essa dor de cabeça de quem chorou por horas. De quem secou por dentro e paga o preço por fora. Há cerca de seis meses descobri que a dor de cabeça era mesmo de quem havia chorado por horas. E pior, era mesmo minha. Havia um diagnóstico para minha dor, mas não para o meu choro.

Eu me deito todo dia um pouco antes das 23h, às vezes me empolgo com um livro e durmo lá perto já de 00h. E sempre acordei já lá pras 7h. Assim que ele batia a porta de casa e saía para o trabalho. Mas todo dia, há seis meses, acordo antes, às 6h15, corro para o banheiro e me limpo. Ele nunca foi de me amar tanto ao ponto de me assistir dormir. Então tenho quase absoluta certeza de que nos primeiros um ano e seis meses desses dois anos em que acordo com dor de cabeça de quem chorou por horas - e chorei -, ele nunca tinha me olhado dormir e tinha me visto toda coberta de lágrimas e remelas. Mas nesses últimos seis meses, desde que descobri, tenho tomado cuidado para que ele nunca perceba. Vai que, um dia, ele resolvesse me olhar em sono. Acordo, portanto, cinco minutos antes que ele acorde e me recomponho - fica só a dor de cabeça como prova do sono em choro.

Não faço barulho enquanto choro e durmo. Fiz o meu médico passar a gravação sete vezes para termos certeza. As lágrimas caem aos montes, mas o único barulho que elas me causam e o delas mesmas escorregando por minha pele já cheia de relevos.

Eu acordo mais cedo e me lavo e me limpo porque não quero que ele me veja devastada da maneira como acordo. Não quero que ele se assuste. Porque não vou saber localizar geograficamente em mim de onde vêm essas lágrimas. Estamos há quase dez anos juntos, e eu ainda vivo cercada pelo medo de que, um dia, ele me olhe e se assuste.

Esse medo constante do qual quase todos sofremos: de que quem nos ame vá embora.

- Ah, mas quem ama não se assusta e, simplesmente, vai embora. Isso não é amor.

Isso não é amor. Mas o que é amor, se não isso? Os dias tem 24h, e nós nos conhecemos, com sorte, antes dos vinte e cinco, e nos casamos antes que eu engravidasse. Não engravidei, aliás. O que aumentou, consideravelmente, o perigo eminente de um susto seguido de uma partida.

Não parta, senão serei partida.

Não sei, de coração, o que choro toda noite enquanto durmo. Eu já sofri demais, mas nada que não fosse característico da vida: sofri com a efemeridade das coisas, a comprovação de que tudo se desfaz, tudo se acaba, tudo se morre, tudo se termina.

Há seis meses eu sofro com o medo de que ele se assuste e me deixe. Nos um ano e seis anteriores, eu só sofria com a dor de cabeça. As dores físicas são, certamente, mais fáceis de lidar. Claro que para tê-las existiram antes as dores de alma - e quais, afinal?

Não sei o que me faz chorar toda noite, em sono. Deve ser algo que me faz chorar todo dia, mas que não vejo no reflexo das janelas dos ônibus, nem nas poças d'água que se acumulam debaixo dos aparelhos de ar-condicionado dos prédios.

Não sei qual caminho percorro. Não sei por qual caminho me sofro.

Eu não posso deixar ele partir, porque eu mesma serei a partida. E aí eu vou ser só choro em sono ou só sono em choro. Se ele me deixar eu não sei...vai que de repente eu começo a sorrir. E acorde com dores na bochecha de tanto riso.

Há seis meses eu fujo de mim para fugir dele.



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A vida é uma história de amor

Eu olho para essa página e tenho absoluta certeza do que ela é: uma página em branco, e nada mais. É uma folha em branco, mas sem precisar, para isso, sê-la fisicamente. E o propósito é que eu vá, devagar, preenchê-la com minhas palavras. Que não são propriamente minhas - pela universalidade das coisas quando significam e encontram seus próprios signos -, mas é o que tenho.

A verdade é que gostaria de escrever numas palavras só minhas, da maneira como tudo está escrito aqui dentro. Isso porque queria que só eu pudesse lê-la, e assim comprovar materialmente, para mim mesmo, o nosso pertencimento mútuo. Ao mesmo tempo, quero que partilhem dessa leitura, para que eu tenha certeza de que ela existiu. De alguma forma, o que eu quero aspira por eternidade.

Não adianta. É impossível. Não vou conseguir.

Eu nunca fui de escrever dessa maneira, tão presa. Pontuando tão incisivamente meus pensamentos. E usando umas palavras que, normalmente, eu nunca usaria. “Incisivamente” só me lembra os dentes. Eu nunca fui de escrever, é por isso que estou travado. Nunca estivesse nesse lugar antes, e estou transformando tudo num drama. Nessa página, folha, espaço em branco, eu não me reconheço. Mas meu objetivo é a liberdade. É me libertar. E liberdade tem a ver com se perder, não tem? Ou deixar de se encontrar, ir do quadrado para a assimetria. Expansão, não é isso? Meu Deus...estou louco! Mas preciso disso, porque também quero, aliás, quero principalmente deixá-la ir, para que eu cesse de tentar materializá-la de novo.

Não adianta mais.

Estou aqui para deixar de insistir. Acredito sim, aliás, tenho certeza: há um pouco de razão em qualquer estado de loucura. Mesmo que dure pouco, quase nada, até menos que um segundo, mas há sim, em um dado momento: aquele precioso momento de sanidade. É preciso que haja. Eu precisei que houvesse. Só dessa forma pude enxergar as coisas com a clareza que tento exprimir agora: ela se foi. Ela se foi e não vai mais voltar. O teor dramático dessa última frase coloca em questão essa sanidade na qual, supostamente, me encontro agora. Mas não é exagero, é a verdade. É a verdade fazendo da vida o que ela precisa fazer: exagero.

Minto se disser que me lembro exatamente de cada detalhe. Mas não me esqueço de algumas coisas, sei que estávamos em meados de dezembro, pois chovia com frequência, dia 12, pois eu tinha acabado de sair do encontro do grupo de leitura – e todos são no dia 12. Estávamos no café mais antigo da cidade, e isso porque todas as histórias de amor precisam ter um café incluso, seja no começo, no meio ou no final. Minto, eu lembro de tudo. Ela vestia um vestido tão preto quanto seus olhos de jabuticaba. Com uma sapatilha...ah, dane-se! A maneira como nos vestíamos, e a hora em que nos falamos pela primeira vez – 19h32 quando ela se afastou da minha mesa -, a música que tocava na hora – Endless Cycle, Lou Reed. Nada disso importa. Nada disso importa. E nem assim eu me esqueço.

Parece que minha cabeça se esvaziou totalmente só para que ela coubesse. Só para que ela coubesse tanto e tão confortavelmente que nunca mais precisaria sair, que nunca mais procuraria abrigo em outro lugar.

A gente primeiro percebe que ama e só lá bem depois se dá conta de que o amor tem sede de posse, né? Uma dependência, um desejo egoísta de propriedade. E não se contenta com um puxadinho na lateral não. Amor quer fazenda com um número tão grande de hectares que nunca será visitada por completo. Amor quer apartamento em Copa com vista pra praia, cobertura, de preferência. Amor quer viajar de primeira classe e se servir de champagne – champagne mesmo, não espumante – quando chegar em Paris. Amor quer tudo, tudo, tudo. E quase sempre acaba com nada.

Amor quase sempre acaba em nada.

Amor quase sempre acaba como nada. Como se fosse um nada.

Eu digo quase sempre porque vai que. Vai que, né?

Ela tinha um sorriso engraçado, e foi a primeira coisa que notei. Que ela tinha uma maneira engraçada de achar graça. Mas era bonito, uma maneira bonita de me fazer rir, porque toda vez eu me lembrava desse primeiro pensamento e achava graça. Que foi a primeira coisa dela que percebi, e que com o tempo mudou de graça. Antes, engraçado. Depois, gracioso.

Toda vez que penso nela eu sinto vontade de arrombar cada porta de cada casa para ver se em algum lugar ainda a encontro me esperando na sala.

Da primeira vez que fomos para a cama, foi no sofá. Saímos para um bar, um happy hour, ela que me convidou. Não esqueço de sua voz falhando ao telefone, dizendo que não queria se antecipar, nem parecer oferecida, que só queria trocar umas palavras e beber alguma coisa. Foi a primeira vez que saímos depois do dia no café. Toda história de amor precisa de um café e de um bar. E de vinho. Tomamos vinho, portanto.

Tínhamos muita pressa, percebo agora, por não ter analisado isso antes. Estranho que pensei e revi tudo tantas vezes na cabeça. Tínhamos muita pressa em tornar aquilo logo um amor. E bebemos duas garrafas e meia de vinho. Eu fingi que sabia escolher a uva. Ela fingiu que gostou. Mas todo o resto era feito de verdade. Tanto e com tanta força que, de início, eu não reconhecia o toque.

Toda vez que penso nela eu sinto vontade de revirar cada sala de cada casa para ver se em algum lugar ainda a encontro me esperando atrás da porta.

Bebemos todo aquele vinho e de uma coisa, ao menos, eu tinha certeza: o vômito sairia roxo e azedo. E daria trabalho limpar todo o banheiro. E eu teria que avisar no trabalho que não apareceria no dia seguinte. Não vou ser cínico, o sangue que me circulava ficava mais vermelho por conta dela. Desejava que sim, mas não pensava que um desejo desse pudesse se realizar tão cedo.

Acabamos indo para a cama, o sofá. Não vou dizer que nunca tinha feito amor daquela forma. Primeiro que não vou me permitir conjugar de maneira alguma isso, de “fazer amor”. Amor a gente fazia, e fez. E não parecia tão cafona. Segundo que ela me escorregava um pouco, sabe? Quando a gente até quer, mas não encaixa? Não sei se por vontade demais, por pressa. A impressão que eu tinha era de que, desde o início, era tudo tanto que era difícil colocar em corpo – tão difícil quanto colocar em palavras.

Isso não deveria importar, mas para que conste, nos acertamos depois. Nos acertamos de um jeito que escorregávamos juntos. Nos acertamos de um jeito que era difícil desgrudar uma pele da outra.

Toda vez que eu penso nela eu sinto vontade de rasgar minha pele pela cidade e ir em cada casa cada sala cada porta de mim para ver se eu a encontro me esperando para ir com ela.

Depois do sorriso, a primeira coisa que pensei dela foi: ela não é daqui. Isso não mudou com o tempo, como sorriso. Começou como certeza e foi assim sempre. Ela não era daqui. Eu sabia porque ficava sem saber como aquela existência dela conseguia existir em mim daquele jeito. Eu nunca fui muito de sentir. Com ela eu transbordava, para cima, para baixo, pelos lados. Com ela até meu sorriso começou a ter graça, que eu ria até dele rindo.

Toda vez que eu penso nela eu saio de mim e não penso em mais nada. Não me encontro em casa, nem em sala, nem atrás de qualquer porta, nem na cidade, e eu fico esperando até eu voltar.

É trágico, e eu sei e você sabe.

Porque se eu disse que histórias de amor precisam de café e de vinho elas, certamente, precisam de tragédia. Essas palavras são muito fortes. “Forte” é uma palavra forte.

Pareço estar na introdução de um livro de auto-ajuda.

Que se foda! Toda vez que eu penso nela eu espero que se foda. Eu desejo que se foda. Tudo, a casa, a porta, a cidade, a espera dela na sala. Tudo o que eu procuro procuro procuro e que é o nada que vou encontrar.

Eu quero foder com isso tudo. Era o que fazíamos eu e ela. Não falei que fazíamos amor, porque era foda. Era de foder com tudo. O que a pele dela fazia da minha era mais que amor. Ela fazia da minha pele mais humana. E o toque dela tocava onde nada no mundo deveria tocar.


Você deve estar sentindo o cheiro de gozo. Mas o que eu sinto é cheiro de lágrima. E gosto.

Eu me diluía...eu me eternizava...e não podia nem ser amor, mas era. Não podia porque me parecia tão maior. Mas isso deve ser amor mesmo. Eu só nunca tinha experimentado...

As doses homeopáticas de amor que recebemos ao longo da vida nos deixam paralisados quando recebemos um amor por inteiro. E dói.

Amor dói. Mas muito por isso que é tão bom. É que nem puxar aquela pele solta no lábio. Aquela pele solta na unha. Nadar contra a maré. Sentir o sol de meio-dia queimando os ombros.

Toda vez que eu penso nela eu dispenso o resto do mundo.

Ela não era daqui. Ela veio de outro lugar. E trouxe luz, onde era escuro. E foi clichê, onde eu era silencioso e mal-humorado.

Eu a amei tanto que me recuso a aceitar. E é por isso que escrevo agora. Porque preciso que alguém leia e me avise: ela foi embora, e nunca mais vai voltar.

O tempo corre e é mentira se dizem que a gente acompanha. Ninguém diz isso, ninguém diz nada. As pessoas só falam e falam e falam.

Por que ela não falou comigo?

Toda vez que eu penso nela eu falo com ela e ela me fala tudo, da casa, da porta, da cidade, da espera na sala. Mas ela não se encontra mais aqui.

Eu gostava muito de relógios de pulso. Eu gostava tanto que ela me dava um a cada Natal, um a cada Dia dos Namorados, aniversário...ela me deu um até numa Páscoa. Foram mais de quinze – multiplicados por essas datas, mais alguns extras. Foram mais de quinze, os anos. E toda vez que a via sorrir, ainda sentia o mesmo gosto do café que tomava quando a conheci.

Toda vez que eu penso nela eu arrombo a porta da sala e a encontro me esperando e a cidade toda se cala. E nada tem lugar.

Que a vida era muito pesada eu sabia. A gente sempre sabe desse peso-morte que a vida tem. Esse peso-se-morra. Esse peso-se-aguente até uma hora que tudo se arrebenta.

Toda vez que eu penso nela eu penso na sala do outro lado da cidade na casa da gente e nos relógios que ela me deu e que eu esqueci todos em casa naquele dia. Naquele dia eu fiquei sem hora. E coincidiu de ser bem a hora dela.

Ela não era daqui, e não a culpo se teve que partir.

Ela me deixou anotado num papel uma frase que a deixava sempre muito inquieta e que gostava de debater especialmente depois de umas garrafas de vinho ou no meio da tarde tomando um café: na natureza, nada se perde, tudo se transforma.

Eu a perdi.
Foi nesse momento que tive certeza, ela não era daqui...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Coletâna de fragmentos I - As mulheres

Fragmento I - Marília -

Eu preciso rescrever Marília. De todas as mulheres do mundo, é justamente ela a quem preciso rescrever. E não por acaso. Só ela era ela e só ela seria quem só ela poderia saber. Sabe coisa do além? Pois é, ela ia além disso. Marília tinha aquelas bundas-mãe, aquele tipo de bunda-coração. Olhando a bunda despida, virando a cabeça pra baixo, se via um coração grande, ch
eio, polpudo. Sem contar como era incrível, também, a capacidade que tinha de sempre comportar mais um. Bunda-coração-de-mãe. Cabia sempre mais um. Sob ou sobre ela. Tipo de bunda que atravessa, é travessa e travesseiro.

Eu preciso rescrevê-la porque da primeira vez que a escrevi não consegui relatar com precisão a graça que só Marília tinha. Que só Marília tem. Que só Marília terá. Eu a deixei um pouco para trás. É que ela me atrasa o tempo.

(Marília, meu benzinho, se estiver me lendo agora, saiba que quando te vê, meu relógio biológico toca de um em um segundo o despertador).

Eu a deixei um pouco apagada, como se a escolha das palavras valesse mais que Marília em si.

(Marília, minha nega, se estiver me lendo agora, saiba que, para mim, brilha mais que céu de bêbado quando passa das 19h e ligam os postes de luz).


Ela era assim: para mim, coisa que só ela podia, pôde e poderia ser. E como? Ah, parecia aquela canção de amor saudoso com gosto de caramelo de doce de leite que toca, de repente, na rádio do carro, aliviando a insatisfação de estar preso por 3h em um engarrafamento, em um dia de chuva torrencial. Não sei o significado exato que isso tem. Mas Marília era assim para mim, significativamente sem significado. Dessa forma, ela me vinha: temporal que cai sem avisar no meio de uma tarde de segunda-feira e muda toda a sua semana. Ela me deixava sem reação, e sem saber se fugia, se me escondia ou se ficava: me molhava. Eu me encharcava todo dela. Era estranho, que eu olhava Marília e, por isso, olhava mar e ia.

Olhava Marília. Olhava mar e lia, imagine. Imagine que era feito pudesse ler o que as ondas escrevem na praia. Ondas sim contam histórias, e por isso, livros são apenas bobagens. O mar, o mar todo, cada movimento dele é uma frase. E eu olhava Marília e sabia. Sabia dos afogados e que, logo logo, me afogaria. Marília era aceitar nadar por horas para depois morrer na praia.

Ou não era nada disso. Mas uma coisa eu sei, aquela bunda...aquela bunda-coração dela desbundou meu coração.


Fragmento II - das outras mulheres -

Ela me olha. E não sei por qual motivo me olha tanto. Mas me olha. Toda vez que me vê, fica de longe me olhando. Que passem horas, não se importa. Quiçá dias. Se por exemplo, nos encontramos no café que fica logo ali na esquina, ela me acompanha desde o começo, desgrudando o olhar vez ou outra para tomar um gole de seu cappuccino ou tentar se concentrar em umparágrafo do livro que, supostamente, lê. Digo cappuccino assim com tanta certeza porque ela tem cara de quem toma cappuccino, sabe? Eu nunca perguntei, mas ela tem bem cara dessas. Com leite sem lactose, ou de soja. A xícara é sempre muito grande, e não seria um expresso duplo, nem longo, talvez chocolate quente, mas tem cara de quem já superou essa fase, de quem já deixou o chocolate em pó pela canela, e que usa lingeries bordadas, bordô – não consigo visualizar essa cor, mas pelo som, certeza que é essa.

Fica a me olhar com seus cabelos avermelhados caídos nos ombros e não sei nem seu nome. Ela me penetra devagar e é, ao mesmo tempo, um silêncio estranho e uma voz macia cantarolando no pé do ouvido. Só a ouvi falar uma única vez, quando esqueceu seu livro e me levantei correndo para ir atrás e avisá-la: a voz quase não saiu, mas agradeceu timidamente. “Gratidão”, ela disse como quem mastigasse e engolisse cada uma das letras bem rápido para não ter que dividir com ninguém. Era Virginia Woolf, mas eu teria apostado em Jane Austen. “Gratidão”, a única palavra que ouvi dela me desce que nem nuvem quando repito em voz alta. Ela me olha como se fosse leve o suficiente para me atravessar. Não sei o que vê em mim, mas ninguém nunca me olhou assim.

Fragmento III - são muitas as mulheres -

Ela chegou e virou tudo de cabeça para baixo. Quando eu era pequeno, me lembro, uma das coisas que mais gostava era de plantar bananeira. Vivia com calos nas mãos, de vez em quando caía e batia de costas. Mas era uma das minhas coisas favoritas, logo em seguida aos jogos de memória – que disputava com vovô - porque acreditava estar mais próximo do céu. Em dias de céu florido de nuvens, se acertasse o ângulo, meus pés sujos de lama podiam encostar em umas, com muito esforço eu conseguia até segui-las na mesma direção que o vento. Quase sempre escorregava, ou perdia a força nos braços e caía de costas no chão. Às vezes até de cara.

Mas é basicamente isso, ela veio. Em tempos onde nada nunca vinha. Veio e virou tudo de cabeça para baixo e eu tive fôlego para ficar plantado em bananeira, sem nem arriscar cair. Era uma coisa que só ela. Ela era uma coisa que só. Dessas coisas que você pensa que poderiam existir sozinhas, sem mais nada. Não que fosse completa, não era, mas seus vazios, suas ausências, suas rachaduras que lhe davam a leveza tão própria. Ela chegou, sem mais nem menos – como eu disse, ela tinha condições de existir por si só, então quando ela veio a luz do mundo ao redor se apagou por um instante para que somente ela viesse a mim e somente eu a recebesse e somente isso e mais nada, mais nada. Chegou e virou tudo de cabeça para baixo, e a vida daquela forma era muito mais bonita. Muito mais leve, eu pisava nas nuvens com ela e me ardia de sol.

E o mundo assim, com ela, fazia muito mais sentido, porque era muito melhor ter o céu debaixo dos pés. E se sentir infinito. Porque não existia linha do horizonte, horizonte ali era tudo. Fora do alcance dos olhos. Tudo imensidão. Era muito melhor ter o céu debaixo dos pés e nunca mais precisar olhar para cima – só de vez em quando, que de vez em quando eu sentia falta de todo o concreto e da fumaça e dos ônibus lotados e do cheiro de pastel frito com caldo de cana na rodoviária. E de ver as nuvens escorrendo pela cabeça.

Fragmento IV - são muitas, mas tantas, as mulheres -

Eu quero escrever, pai, sobre uma mulher que mudou o mundo, pai. Se não o mundo inteiro, ao menos o meu. Ela inverteu a rotação. Ou parou, indefinidamente. Essa mulher…você sabe, né, pai, espero que você saiba que cada um de nós é um astro um mundo melhor um planeta. Todo um universo! Ela veio assim, sim, todas elas vêm. Mulheres não brotam da terra, nem caem das árvores, eu não sou tolo e ainda as assisto porque não é possível, pai, isso que elas fazem, elas espalham sei lá o que é isso que mulheres têm, mas elas espalham por aí, por esses mundos astros universos, que fazem os dias de sol hipnotizantes e os dias de chuva de sol para serem hipnotizantes da mesma forma. E a melhor parte, pai, é que de vez em quando alguns homens têm a sorte de que uma venha para eles. E ela veio, como veio, veio vindo, assim de fininho, mas arrombando a porta sem nem descascar o esmalte de um dos dedos, sem nem pingar uma gota de suor. Sim, pai, não voltei. Parei, juro, pai, parei com o pó. Não, nunca mais, nem desodorante, pai. Cerveja sim, mas como sem cerveja? Como ser,-veja? Como ser sem ela? Ah, eu já não sei, porque ela se instalou em mim e nem fazia frio, ela se escondeu debaixo da minha pele e de vez em quando levanta meus pelos em calafrio. Ela gosta de silêncio. Eu juro, já faz mais de ano, pai, e nem deus sabe o tanto que suei. Se juro pela minha mãe? Mas ela já tá morta, pai, não acho que vá morrer de novo. Se bem que sei lá, a vida toda é tanta morte que a morte não deve acabar por ser vida não, só cerveja e buzina da alegria, pai, eu juro. Mas nada disso te interessa, eu estava falando dela e você vem e me interrompe e não é alucinação, deus quisesse que fosse e eu não me arderia tanto. Amor arde, pai. Queima o peito. No Carnaval, pai, buzina de alegria só no Carnaval. Sim, e a cerveja. Você pode abrir as gavetas e verificar, não vai encontrar nada, nem pó nem pedra nem nada. Eu sei, pai, você já me disse que quem se mete com essas coisas para de se aproveitar dos melhores prazeres do mundo: nem come e nem fode. E você pode ver, eu tenho comido e me fodido muito. Chega estou mole. Chega estou seco. Mas a vida toda é Carnaval, serpentina som alto cerveja praia sol pele dourada suor gozo gozada essa vida é muito gozada, pai. Você me disse para ser feliz, estou sendo. E tem felicidade maior que pular Carnaval todo dia, pai? Chega estou seco. Chega estou mole. A felicidade, uma hora, cansa. Além disso, perdi uns 10kg. É que lá em casa, desde que ela chegou, não tem mais nem panela. Minha fome só se mata no corpo dela.

Fragmento V - eram muitas as mulheres -

Nós não éramos. Eu era, ela também. Seríamos juntos desde que assim: eu e ela, ou ela e eu. Mas nunca nós. Até tentamos, mas os ossos perto da virilha dela me espetavam a barriga. E ela achava que eu roncava demais. Mas ainda assim, nada me deixava da mesma forma que ela. Que chegava e partia em menos tempo que uma piscada. E nada me deixava como ela – falo da forma como meu corpo ficava. Ele respondia como se tivesse nascido pronto para recebê-la. Como se só ela o pudesse despertar do cansaço da exaustão e do sono da vida quando tudo que ele mais queria era um instantinho de morte. Mas ela me espetava com os ossos a barriga. E achava minha respiração alta demais, mesmo acordado.

A gente tentou. Um pouco mais do que normalmente tentariam. Porque ela gostava muito da minha voz e do meu cheiro. E das palavras que eu escolhia para dizer coisas que ninguém escolheria dizer. Ela me achava meio louco, e eu achava totalmente, mas dessa forma que era bom, que daí a gente nunca se perdia. A gente gostava de sair. A gente gostava muito de assistir a cidade e abordar estranhos para dizer coisas que ninguém diria. A gente gostava de sentar em restaurantes para assistir as pessoas e escrever a história delas em guardanapos.

Ela me achava meio louco e eu era totalmente, mas por ela. Seus ossos me espetavam a barriga, mas era ainda pior, já que seus olhos me espetavam o coração. Eu lembro de uma noite quando saímos, eu e ela, era junho. Festa junina. Nós dois vestidos com o mesmo xadrez, usando umas botas maiores que nossas pernas e uns cintos de fivelas bem chamativas. A gente se divertia com nada e isso era, basicamente, tudo. A gente passou pela barraca de doces, e ela pulou para trás, e abriu bem a boca num grito tão agudo que me abaixei para escapar do tiro. Ela se aproximou do balcão e apontou. Voltou com uma maçã-do-amor, maior que seu rosto, espetada num palito, envernizada de açúcar nas mãos e um sorriso maior que toda a Austrália. E disse assim:

- Eu adoro isso! Como é mesmo o nome? Disso aqui, desse amor duro de maçã?

E eu nunca me esqueci, porque depois que ela falou, sem pensar, se riu que quase se borrou na vida. Quase se desfez em riso. E chega roncou. E seus ossos todos quase explodiram do tanto que ela não se cabia de risada. E foi mesmo engraçado, especialmente a cara que ela fez depois que se escutou. E ela ria que quase se caía e eu a segurei. Seus ossos da virilha me espetando a barriga. E ela maçã avermelhada brilhante se morrendo se vivendo de tanto rir. E de repente vi, que era exatamente aquilo ali que nós éramos, um avesso do que eu e ela éramos. Ela maçã e eu palito.

Era um amor duro de maçã.